quinta-feira, 25 de outubro de 2012

JUBA II E CLEÓPATRA SELENE



JUBA II  E  CLEÓPATRA SELENE

    Se fossem nossos contemporâneos, Juba II  e sua esposa Cleópatra Selene, (deusa da lua na mitologia grega), teriam tudo para agradar aos mais exigentes jornais e revistas  especializados na  jet-set. (A elite da elite).
   Filhos de pais coroados  que na sua época também foram alvo de crónicas da sociedade e políticas; cresceram e foram educados  juntos no palácio do Imperador Augusto.
    Juba II é filho de Juba I rei da Numídia, que foi vencido por Roma em Thapsus(hoje Rass Dimass na Tunísia), no ano 46 a.C.. Ele e Cleópatra Selene (por vezes também apelidada de Cleopatra VIII), filha de Cleopatra VII e do triunvirado Marco António, conviveram juntos  desde crianças, quando então foram adoptados por Octávia, irmã do futuro imperador romano Augusto.
   Os seus destinos reunia-os em tantas coisas que, a sua união(casamento)ainda que não fosse imposto  por Roma, já parecia inevitável.
   Estes dois príncipes: eram orfãos de pais combatidos e vencidos por Roma, num momento em que  o seu poder era contestado por alguns reinos emergentes.
    Juba I, fez aliança com os Pompeios para combater César: vencidos, suicidou-se depois da derrota.
    Ceópatra VII e Marco António, pais de Cleópatra Selene, também se suicidaram quando a sua tentativa de reinar no Egipto dissociando-se de Roma fracassou.
     O Império que não lhes guardou rancor, não só poupou a vida aos seus filhos, como também suportou a sua educação, preparando-os ao mesmo tempo para reis vassalos.
     O casamento de Juba II e Cleópatra no ano 19 a.C., ainda os aproximou mais devido ao fato de terem em comum a mesma atração pelas artes e letras, e ambos preferirem a cultura helénica à latina.
     A cultura grega muito popular no Império Romano, era um sinal de qualidade e elegância.
     Para Cleópatra Selene isso significava sem dúvida muito mais, porque fazia parte do património familiar.
    Como descedente de um general de Alexandre o Grande, ela pertence à Dinastia Lágida que deu ao Egíto os últimos faraós de origem greco-egípcia: os Ptolemeus.
    A sua célebre mãe Cleópatra instalada em Roma antes de assumir o poder na terra dos faraós, já era conhecida por estar sempre rodeada de grandes filósofos, poetas e artistas.
   A futura rainha do Egipto, acariciava então o sonho de criar um grande império, reunindo as melhores tradições da Bacia do Mediterrâneo: a filosofia grega, a tradição do comércio fenício e, a rica cultura egípcia-africana.
   Desse sonho, a sua filha Cleópatra Selene tornou-se uma verdadeira executora testamentária, quando ao lado do seu esposo, reinou desde a idade de  vinte anos na província da Mauritânia, oferecida por Augusto a Juba II, no ano 25 a.C., com a missão de acalmar os seus sujeitos considerados turbulentos, e expandir os costumes latinos.
    Cleópatra mandou cunhar moedas com símbolos religiosos egípcios  e com alguns animais que eram venerados pelos sujeitos do faraó.
    A capitale da província era IOL(actuale Cherchell ou Cherchel – Argélia), que o seu esposo mais tarde chamou Cesareia em honra do seu bem feitor. Rodeou-se de sábios, artistas, atores famosos e teve por médico o grego Euphorbe.
    A cidade tinha muitas estátuas, (uma das mais belas coleções que hoje se encontra no museu de Chercell), e mandou edificar belos edifícios  de arquitectura clássica, alguns deles representados nas suas moedas.
    Juba II, ele mesmo escritor, tornou-se o autor de uma grande coleção de escritos, entre eles, alguns enciclopédicos ou anedóticos.
    De Juba II, citado muitas vezes por autores gregos e latinos, ainda não se encontrou nehuma das  suas obras.
    Foi dos seus documentos que Plínio o Antigo, tirou grande parte dos seus conhecimentos em botânica, zoologia e geografia.
    Também Plutarco teve recurso aos seus documentos para tirar informações sobre antiguidades romanas.
    Juba II escrevia em grego e tinha uma grande paixão pela cultura desse país, pela qual os gregos o recompensaram mandando erigir uma estátua frente à academia de Ptolomeu .
    Cleópatra Selene faleceu por volta do ano 5 ou 6 da nossa era. Juba II, ainda viveu mais dezoito anos e, apesar de ter acompanhado César neto de Augusto,  ter casado com  Glafira, filha do rei de Capadócia e, viúva de um filho de Heródes rei da Judeia; ele optou por não a levar com ele para Iol, Cesareia.
    Talvez o seu amor por Cleópatra não suportasse a presença de uma rival, num território que a sua primeira esposa marcou profundamente com a sua influência.
    Até a última morada que se atribuíu ao real casal, um mausolée que encima uma colina no sul da cidade na estrada de Tipassa, tem a marca de Cleópatra.
     Este monumento de estilo africano com elementos decorativos  do mundo helénico, ainda não revelou todos os seus segredos sobre a família real mauritana ou númida, ali sepultada.
     Mas tudo leva a crer que foi erigida por Juba II em homenagem à sua bem amada Cleópatra Selene.
     O reinado de Juba II durou quase meio século. O casal teve um filho, Ptolemeu, que pouco despertou a atenção dos historiadores. Apenas sabemos  que foi morto pelo seu sobrinho Calígula em Roma no ano 40, tendo então a Mauritânia sido anexada por Roma.

Juba II e Cleópatra Selene
Denário cunhado em Cesareia (data incerta)
Anv. Busto de Juba com diadema à direita, BEX IVBA;
Rev. Busto de Cleópatra com diadema à direita, BACILICCA CLEOPATRA

Juba II e Cleópatra Selene
Denário cunhado em Cesareia 16/17 a.C..
Anv. Busto de Juba com diadema à direita, REX IVBA
Rev. Crescente de lua, símbolo de Isis e duas espigas, BACILICCA CLEOPATRA

Juba II e Cleópatra Selene
Denário cunhado em Cesareia entre  19 e 6 a.C..
Anv. Busto de Juba com diadema à direita, REX IVBA;
Rev. Crocodilo à esquerda, BACILICCA  CLEOPATRA

Juba II e Cleópatra Selene.
Denário cunhado em Cesareia, 20 a.C. - 20 d.C..
Anv. Busto de Juba com diadema à direita. REX IVBA
Rev. Estrela com seis pontas e crescente. BACILICCA . CLEOPATRA

Juba II e Cleópatra Selene
Denário cunhado em Cesareia 20 a.C.- 20d.C..
Anv. Busto de Juba II  com diadema à direita, REX IVBA
Rev. Busto da África drapeado, com a pele de leão na cabeça, à direita e dois dardos.

Juba II e Cleópatra Selene
Denário cunhado em Cesareia 25-23 a.C..
Busto de Juba com diadema à direita , REX IVBA.
Rev. Símbolo de Isis, sistro, BACILICCA  CLEOPATRA

Juba II e Cleópatra Selene
Denário cunhado em Cesareia no ano 36 d.C..
Anv. Cabeça de Juba com a pele de leão, REX IVBA.
Rev. Cornucópia, tridente, XXXVI
(A representação de Juba II em Hércules em moedas é relativamente rara).

Juba II e Cleópatra Selene
Denário cunhado em Cesareia no ano 36 d.C..
Anv. Cabeça de Juba com a pele de leão, REX IVBA.
Rev. Golfinho à esquerda, coroa de flores, XXXVI.


M. Geada  



Bibliografia



Stéphane Gsell ; Cherchel, antique Iol-Caesarea, Argel 1952.

Mounir Bouchenaki ; Le Mausolée Royal de Maurétanie, Argel 1979.

Artigos de Simon Bourhim ; Facebook





quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A MOEDA,  TESTEMUNHO DA HISTÓRIA

    Moulay Sulayman   

    Quando apanhamos o vírus do coleccionismo, as questões que emergem sobre datas, personagens, ou  a decoração das peças, trazem-nos constantemente de regresso à história.
    Para tratar este assunto vou servir-me de uma questão que tem a vantagem de nos fazer viajar no espaço e  no tempo, o que permite fazer a ligação com os nossos campos de interesses.
   Porquê o aparecimento do Sêlo de Salomão  nas moedas de bronze do rei marroquino Moulay Sulayman 1206-1238 H(1792-1822), ?
     Para começar, penso que vale a pena assinalar que na cultura árabe, o valor que é dado ás moedas de ouro, de prata ou bronze, não é comparavel ao que lhes é atribuído no mundo ocidental, que estabelece a base do seu valor quase exclusivamente na nobreza do  metal.
   Nos países árabes, as moedas de ouro ocupam um lugar de destaque nos dotes e grandes transações, enquanto as de bronze são consideradas como um metal pouco nobre.   
   No início do reinado de Moulay Sulayman, a situação económica e financeira do país era tão desastrosa, que era práticamente impossível, ao sultão, produzir moedas de prata para as suas transações devido à indisponibilidade de metais preciosos.
   Ao mesmo tempo que permitia a livre circulação das moedas de prata europeias, Moulay Sulayman, teve a brilhante ideia de substituir o dirham, moeda de prata do país, por uma de bronze marcada com o Sêlo de Salomão no anverso e, por vezes nas duas faces da moeda.
  Chamadas  “Fels Slimane”, (Fels Moulay Sulaymam) essas moedas têm uma figura hexagonal em forma de estrela, formada por dois triângulos equiláteros entrecruzados, com um ponto no centro.

 
4 Fels N.D.(Hégira, 1206-1238), 30mm bronze, sem marca de ateliê, (KM 103)
   
Como é que um simples  símbolo consegue  que a população aceite uma moeda cunhada com um metal  pouco prestigiado?
   Claro que  podemos avançar com a hipótese que foi o Sêlo de Salomão, agora marca do sultão Moulay Sulayman, a causa desta aceitação. É possível, mas os historiadores pensam não ser esta, uma razão suficiente para explicar a reacção positiva da população.
    De notar qua a utilização do Sêlo de Salomão no fels de bronze, foi sempre aprovada pelo povo e durou mais de 100 anos. Só no ano  1310 H, numa tentativa de modernizar a aparência das moedas, é que o Sêlo de Salomão foi substituído, o que deu origem ao descontentamento da população.
   A figura hexagonal era originariamente um escudo feito com duas peles unidas com um rebite de bronze, o que  segundo a  filosofia antiga e medieval, reúne num só símbolo os quatro elementos naturais : fogo, água, ar e terra.
   Como sinal mágico, ele actua como medida preventiva; como um escudo protector. Além disso o seu efeito é reforçado pelo facto de também representar um par de olhos convencionais; uma proteção contra o mau olhado, um poder mágico e um direito.

  
3 Fels N.D. (Hégira, 1206-1238), 25mm bronze sem marca de ateliê, (KM 99.2)

    Temos então nas moedas de bronze do sultão Moulay Sulayman um Sêlo de Salomão que serve de mensageiro ao sultão e, ao mesmo tempo é um sinal de proteção.
    A sua forma particular, com um ponto ao centro que representa um olho, é exclusiva para as moedas de bronze, porque este é considerado um metal pobre extraído das minas e do fogo da fundição, lugares que são frequentados por espíritos malignos e caracterizados por um odor particularmente desagrádavel, que lhe valeu o apelido “del-muntin” (o malcheiroso).
   Com este sinal (o ponto no centro), o metal perde os malefícios da sua origem para passar a ser um objecto benéfico.
   Podemos reconhecer em tudo isto a tenacidade que subsiste das crenças pagãs,  que não são únicamente exclusivas ao Ocidente Muçulmano.
   Moulay Sulayman teve uma excelente  ideia ao introduzir nas moedas de bronze o Sêlo de Salomão. A população,  há mais de vinte anos privada de moedas de prata cunhadas em Marrocos, aceitou-as sem contestar.
   As transações eram feitas com moedas europeias de prata, e com os famosos fels marcados com o Sêlo de Salomão. Esta estratégia salvou Marrocos da crise e, permitiu a estabilização da moeda de prata que tinha perdido 20% do seu valor e  a sobrevivência do comércio externo e interno.
   Aos poucos o dinheiro entrou nos cofres do Estado, o que permitiu ao sucessor  de Moulay Sulayman cunhar novamente moedas de prata. 


1 Fels A.D. Hégira,,1211(1796), 22 mm Bronze, cunhado em Fez,(KM 99.5)
  
   Esta página de história marroquina  sobre  as moedas de bronze cunhadas durante o reinado de Moulay Sulayman, é simplesmente um exemplo de como a moeda é um reflexo da história dos povos.
  O calendário muçulmano começou no ano 622 d. C., o ano da Hégira (fuga de Maomé de Meca para Medina).

M. Geada

BIBLIOGRAFIA

KRAUSE; Mishler(KM)  - Standard Catalog of World Coins
(1) EUSTACHE;  Daniel - Corpus des Monnaies Alawites . Banque du Maroc, 1984













sexta-feira, 14 de setembro de 2012


NA PROCURA DO DINHEIRO DE JUDAS


   Tentar reconstruir uma história acerca do dinheiro que tenha sido objecto de troca na célebre traição de Judas, deveria, como trabalho de investigação, obedecer e respeitar certas características sobre o seu conceito e objectividade.
  Em primeiro lugar exigirá o respeito pelo seu argumento histórico, e obviamente, uma comparação sobre as suas fontes, como forma da salvaguardar o melhor possível, tanto a sua fiabilidade, como a credibilidade, de que precisamos para corroborar os factos.
  Infelizmente, neste caso, essa análise comparativa não será de todo possível, visto a sua génese, ter como único elemento de documentação, alguns legados evangélicos dos Apóstolos S. Marcos, S. Lucas, S. João e S. Mateus. Tudo o que realmente possuímos e sabemos sobre a traição de Judas, é-nos relatado por esses escritos bíblicos, e por isso também a análise terá de ser cautelosa e consciente, sobre a forma como o sentido místico em interpretações ulteriores, poderá ter tido influência e criado limitações quanto à veracidade dos factos.
  Por tudo isto, nesta minha análise interpretativa deste “caso” histórico, pela sua forma intuitiva, torna-se mais empírica que científica.
  Terá sido no ano19 d.C. no reinado do imperador Tibério que Jesus Cristo foi crucificado.
  Nesse tempo, a Judeia era então uma província romana, e como tal nela se aplicariam as principais decisões que vinham de Roma. Seria portanto natural que a moeda principal que circulava fosse romana, ou provincial romana, embora se tenha conhecimento de que a algumas outras moedas fosse permitida a sua circulação, como o exemplo das moedas da dinastia de Heródes.
  Na generalidade da literatura, argumenta-se que Judas terá recebido pelo préstimo da sua traição, trinta moedas de prata. Neste ponto creio que todos os historiadores convergem.
  No meu ponto de vista, e para passar aos factos, pela característica que conhecemos hoje das moedas que então terão circulado, excluo as moedas de ouro como o”áureo”, o ”quinário” em prata, assim como os “sestércios”, “dupôndios” e “asses”, geralmente cunhados em bronze.
  Interessante salientar contudo, que no reinado de Tibério, só foram cunhados dois tipos de “denário”(denário do latim denarius) em prata. Não havendo conhecimento de que tenha sido cunhado nenhum outro tipo de moeda em prata, durante o período deste imperador 

Tibério, Denário emitido no ano 14 d.C. em Lião (França) 3,78grs.

    O primeiro denário, cunhado no ano 14 d.C. em Lião, apresenta no anverso o busto do imperador Tibério com a legenda “TI CAESAR DIVI AVG F AVGVSTVS”. No reverso apresenta Lívia, (sua mãe) ou a Pax, sentada, com um ramo de oliveira na mão esquerda, e um bastão na mão direita, com a legenda “PONTIF MAXIM”. ( Há divergências acerca da  figura do reverso).
   O segundo, terá sido cunhado no ano 16 d.C., e igualmente em Lião. Também este apresenta no anverso, o busto de Tibério, com a mesma legenda do primeiro. No reverso, apresenta o imperador conduzindo uma quadriga, com a legenda “TR POT XVII IMP VII”. O seu peso era variável, e valeria o equivalente a dez “asses”.
   Temos então, que estas moedas circulariam em todo o império, aquando da morte de Jesus Cristo. E, poderíamos concluir, que qualquer destas moedas “denários”teria grandes probabilidades de ter servido de aliciamento no negócio que propuseram a Judas. Mas, porque não inclui-los também misturados com outras moedas, ou simplesmente um outro tipo de moeda em prata?
   Alguns elementos substanciais transmitidos no legado dos quatro apóstolos servem para esclarecer algumas dúvidas sobre estas hipóteses.
   Hoje, no nosso quotidiano, e na nossa cultura, utilizamos o termo “dinheiro”. Mas, na ligação que se lhe faz, quando se menciona este caso de Judas, a palavra “dinheiro”, terá evoluído, e colado na sua identificação popular, aparecendo o termo tanto na literatura, como no cinema, e em que usado desta forma, se estará a deformar uma realidade histórica.

Denário emitido no ano 16 d.C. em Lião - 3,94grs.

   Nas sagradas escrituras, no que pesquisei, não vi mencionada a palavra “dinheiro”. Uma bíblia editada em 1859, que folheei numa biblioteca, foi-me bastante útil.
   Dos quatro evangelistas que se referem a este caso, dois deles, S .Marcos e S. Lucas, afirmam que Judas vendeu Jesus, mas sem dar pormenores sobre o montante do negócio.
   No evangelho de S. João, faz referência a trinta moedas de prata.
   É contudo, S. Mateus que na sua narração, nos poderá esclarecer mais sobre este assunto.
   Acusando o seu condiscípulo Judas, por este ter vendido o Mestre pela soma de trinta “siclos”de prata. Teria ele sido colector de impostos para falar desta maneira tão formal, no que se refere a “siclos”de prata?
  Não encontrei nada, que me tenha dado indicação de que alguma vez se tenha usado a palavra “siclo” em referência  ao assunto que tratamos.
   O termo “siclo” é conhecido como uma medida antiga, que equivalia a 6 gramas de prata.
   Mas na narrativa de S.Mateus, também poderia ser a moeda de prata utilizada por fenícios e hebreus, que em hebraico era designado por “shekel”.
   É pois muito provável que Judas tenha traído, e sido pago com 30 (trinta) “shekels” de prata.
   Julgo que naquela época, o único tipo de moeda de 1 (um) shekel em prata que circulou na região tenha sido o “shekel” dito de Jerusalém (como nas moedas de Tiro).
   Era uma moeda que pesava mais ou menos 14 a 15 gramas, e circulou em grande quantidade, tendo sido feitas várias cunhagens deste tipo de moeda. Uma delas foi precisamente no ano 33 d.C. O ano da suposta morte de Jesus Cristo? Aqui também existem muitas divergências, embora as datas que aparecem com mais frequência sejam entre os anos 30 e 33 d.C.
  O “shekel de Jerusalém” em baixo retratado, apresenta no anverso o rosto do antigo deus Melkart, também conhecido por Baal, virado à direita, e no reverso apresenta uma águia virada à esquerda.

Judeia, Shequel de prata 14,27grs. cunhado em Jerusalém 12/11 a.C., (provavelmente terá servido de tributo a Judas) A efígie de Melkart é totalmente diferente do shekel de Tiro.

   Atendendo a que o preço de um escravo, naquela época, seria de 180 g de prata, poderemos calcular que Judas no negócio efectuado, teria vendido o Mestre por cerca de 4,250 Kg de prata.
  Creio pois, ser o “shekel de Jerusalém” a mais provável moeda que procuramos identificar nesta história, pese embora o risco de decepcionar alguns coleccionadores que já possuam uma, ou as duas variantes do “denário” de Tibério, denominados por “dinheiro de Judas”.
   Contudo, estes dois “denários” continuam a ser extremamente interessantes, quem sabe se não terão sido utilizados pelos soldados romanos que guardavam o sepulcro, enquanto jogavam aos dados sobre a túnica de Jesus Cristo, o que lhes confere sempre uma grande história.
   O que lamentamos, é que ao longo dos tempos o conceito que nos parece mais plausível para esta história, por motivos menores, se tenha adulterado, e sobreposto ao texto original.
   Dizer que Judas entregou Jesus Cristo por 30 dinheiros, sempre é mais cómodo que dizer, Judas entregou Jesus Cristo por 30 shekels.
   Afirmar quais as moedas que pagaram a traição de Judas, é tarefa difícil, senão impossível.
   Denários da época de Augusto? Dracmas, siclos, ou shekels?
   Pouco provável é que tenha recebido denários de Tibério. Isto porque mesmo as cunhagens em grande quantidade, demoravam muito tempo a entrar em circulação, sobretudo nas províncias longínquas do império, como a Judeia onde circulavam muitos tipos de moeda.
   Esta questão, levantou-se na Idade Média, e foi proposto ou entendido pelos dirigentes eclesiásticos da época, que a moeda representativa desse facto histórico deveria ser uma moeda que representava Cristo com uma coroa de espinhos.
   De facto existe um “dracma”de Rodes que representa o deus Hélios ( na mitologia associado ao Sol ), com a cabeça adornada com raios, parecendo Jesus Cristo com a coroa de espinhos. Essas moedas, foram na época alvo de uma grande devoção.

Cária - Rodes, Dracma 175-170 a.C.


Bibliografia

Le Douzième Apôtre; Fac- Reflexion n°22, Fevereiro 1993, PP 14-26
(Le cas de Judas et la doctrine de la reprobation)
Centre Numismatique du Palais-V. S. O.  Paris 28-06-2002. 
http://www.vcoins.com/ancient/calgarycoin/
http://www.sacra-moneta.com/Monnaies-grecques-antiques/La-drachme-de-Rhodes.html

M. Geada






terça-feira, 4 de setembro de 2012

Cleópatra VII




   Cleópatra VII, ou simplesmente  Cleópatra, nasceu no ano 69 a.C..
  Não existe nenhuma informação certa sobre o seu aspecto físico que escapa a uma classificação estética banal. Algumas  moedas mostram-nos a  imagem de uma mulher com traços pesados e o nariz bastante proeminente.
    Em contrapartida, sabe-se que a sua presença era agradável, que libertava uma forte sedução, tudo isto  completado com uma voz cativante e de  um espírito brilhante e culto.
   Enquanto a educação das raparigas, mesmo de famílias reais, era negligenciada no mundo grego ou helenístico, Cleópatra aparentemente beneficiou do ensino de pedagogos muito cultos que, sobre um espírito inteligente, deu excelentes resultados.
    A faraó foi uma verdadeira poliglota que falava além do egípcio, o grego, o aramaico, o etiópico, o média, o árabe, sem dúvida também o hebraico, o latim e o troglodítico (1) .
   Algumas fontes antigas também lhe atribuem alguns livros sobre magia, cosméticos, pesos e medidas.
   Governou o Egipto do ano 51 ao ano 30 a.C.. Subiu ao trono com apenas 17 anos de idade, sucedendo ao seu pai Ptolomeo XII.
   Segundo a lei egípcia, para governar tinha que casar, foi assim que desposou o irmão Ptolomeo XIII quando este contava apenas 12 anos de idade.
   Era hábito no Egipto ser o homem a governar, mas Cleópatra reinou num país então exposto à miséria, deixando o seu jovem esposo e irmão fora dos assuntos do reino.
   Após três anos de governo comum, Ptolomeo incentivado pelos seus conselheiros, obrigou  Cleópatra a exilar-se. Esta refugiou-se na Síria, onde levantou um exército que deu origem a uma guerra civil.
   No ano 48 a.C., Ptolomeo aliou-se a Júlio César, que entretanto tinha chegado a Alexandria com um numeroso exército.
   Na ausência da faraó, César instalou-se no palácio real.
  Compreendendo que  se  motivasse   César  a  defender a  sua causa podia  ganhar  a  guerra, Cleópatra mandou  que  a   enrolassem  num  tapete, e assim penetrou no palácio real, um dia antes da chegada do irmão, e esposo, a Alexandria. 
   Nessa mesma noite Cleópatra seduziu César. Quando Ptolomeo chegou ao palácio e descobriu a nova aliança entre César e Cleópatra, desencadeou a guerra dita “de  Alexandria”.
   Foi durante esta guerra que ardeu parte da lendária  biblioteca desta cidade.
   O farol de Faros é conquistado pelo exército de Júlio César, que pessoalmente derrotou Ptolomeo. Este, vencido, tentou fugir mas morreu afogado, e Cleópatra retomou o trono do Egipto.
   Mais uma vez para poder reinar, a lei do Egipto impôs-lhe novo casamento. Desposou outro dos seus irmãos Ptolomeo XIV,  também com 12 anos de idade.
   Cleópatra concentrou todos os poderes e continuou a sua relação com Júlio César de quem deu à luz um filho, César, mais conhecido por  “Cesário” para o diferenciar do seu glorioso pai, no ano 47 a.C..
   Um ano depois a convite de César, Cleópatra e Cesário foram para Roma  onde se instalaram numa habitação nos jardins do Janículo, próximo da residência de Calpurnia, esposa de Júlio César.
  Os romanos não concordaram com um possível casamento de César com a egípcia, e acima de tudo  que este reconheça Cesário como filho legítimo.
   Após uma estadia de dois anos em Roma, sem sucesso, Cleópatra e Cesário regressaram  ao Egipto e  segundo a lenda mandou prender o jovem esposo Ptolomeo XIV, para o substituir pelo filho Cesário.   
   Doravante o seu co-soberano tem apenas quatro anos de idade.
   Nos ides de Março (2) do ano 44 a.C., Júlio César foi assassinado. Conspiração organizada pelo próprio filho adoptivo Brutus, e mais alguns senadores, o que deu origem a  uma guerra cívil.
   Cleópatra não tomou posição por nenhum dos pretendentes ao trono. No ano 44 a.C., Marco António convidou a rainha a ir visitá-lo a  Tarso.
   Cleópatra sabe que Marco António adora as mulheres e, espera obter desta visita apoio político e financeiro; ela mesmo precisa de um aliado em Roma.
   Diz a lenda que disfarçada em Afrodite deusa do amor, seduziu Marco António. A partir de então ficaram amantes; foram passar o inverno a Alexandria onde Cleópatra deu à luz dois gémeos, um rapaz e uma rapariga, Alexandre Hélio e Cleópatra Selene.
   Marco António decidiu fazer a paz com o seu principal  rival, Octávio. Para isso regressou a Roma onde casou com Octávia a irmã deste.
   No ano 36 a.C., em nome de Roma declarou guerra aos partos.
   Longe de Roma e da esposa, pediu a Cleópatra que fosse viver com ele para Antioquia.  
   Mais tarde regressaram a Alexandria onde Cleópatra deu à luz Ptolomeo Filadelfo, o terceiro filho de Marco António. Este ofereceu alguns territórios ao Egipto, entre eles Chipre e a Costa da Sicília.
   Quando no  ano 34 a.C., os partos foram derrotados, a vitória foi celebrada com toda a pompa e circustância nas ruas de Alexandria e não em Roma.
   Passado algum tempo num acordo comum entre os dois amantes, Marco António dividiu o reino do Egipto entre Cleópatra e os filhos.
   Em Roma Octávio desespera. No ano 31a.C., é pronunciado o divórcio entre Marco António e Octávia. 
   A aliança do General romano com Cleópatra é oficializada, e Octávio chefe de Roma declarou-lhes a guerra.
    Desta vez os dois amantes deverão inclinar-se, pois os seus exércitos foram vencidos na célebre batalha de Áccio no ano 31 a.C..
    Refugiado  em Alexandria Marco António foi preso. Enganado pelos romanos do suicídio de Cleópatra, deixou-se cair em cima da sua espada.
    Por sua vez a faraó também foi presa. Para a humilhar Octávio expõe a soberana como uma simples escrava nos países que atravessa. Mas Cleópatra tomou, uma última vez, o destino nas suas  mãos.
    Encerrada sob ordem de Octávio, pediu aos seus servos para lhe trazerem discretamente uma áspide misturada num cesto com figos.
   Provavelmente, Cleópatra escolheu esta forma de suicídio para alcançar a imortalidade.
   Quando os guardas romanos se aperceberam do drama já ela tinha iniciado a viagem para a eternidade, e posto fim à monarquia no Egipto, agora entre outras, uma província romana.
   Os Ptolomeos vindos da Macedónia reinaram no Egipto durante quase três séculos. A morte de Cleópatra VII não só pôs  fim a uma dinastia, mas também ao reino dos faraós

(1) Nome que davam os geógrafos da antiguidade  a uma etnia que eles localizavam no sul. do Egipto.
(2) O dia 15 de Março, Maio Julho e Outubro. E o dia 13 dos outros meses no calendário romano. 

 (Uma das mulheres mais famosas da história da humanidade, nunca foi a única detendora do poder no Egipto. Sempre governou com um homem a seu lado, com os irmãos e maridos, e mais tarde com o filho.
Contudo em todos os casos os seus companheiros sempre foram reis fictícios, foi sempre Cleópatra que exerceu o poder.)

 Denário cunhado em Alexandria no ano 34 a.C.
Anv. Busto de Cleópatra com diadema e drapeado à direita.
REGV FILIORVM REGVM
Rev. Busto de Marco António à direita, no campo uma tiara,(mitra de Pontífice).
ANTONI ARMENIE DEVITA


Tetradracma,(ateliê monetário incerto, talvez Antioquia) 36-33 a.C..
Anv. Busto de Marco António à direita, no campo, cabeça de cavalo.
Rev. Busto de Cleópatra drapeado, com diadema e colar de perlas à direita.


AE 20 cunhado em Cálcis ou Cálquida ( Fenícia) 32-31 a.C.
Anv. Busto de Cleópatra com diadema à direita.
Rev. busto de Marco António à direita.


Bronze de 80 dracmas, cunhado em Alexandria entre 51-29 a.C.
Anv. Busto de Cleópatra drapeado à direita.
Rev. Águia à esquerda sobre um feixo de raios, cornucópia e valor (P =80).
KLEOPATRAS  Basilis (SHS)


AE 17 cunhado em Cálcis ou Cálquida 32-31 a.C.
Anv. Busto de Cleópatra à direita.
BACILICCHC KLEOPATRAC
Rev. Nice, em grego Niké, (deusa grega que personificava a vitória, representada por uma mulher alada)com uma palma e uma coroa.
ETOY KAKAI TOI G QEAC NEWTERAC 


AE Dichalkon-oitava unidade, cunhado em Pafos ou Paphos (Chipre) 51-30 a.C.
Anv. Busto de Cleópatra à direita.
Rev.  Dupla cornucópia.

AE cunhado na Fenícia 36-35  a.C.
Anv. Busto de Cleópatra com diadema e drapeado à direita.
Rev. O deus Baal com dois grifos à direita.


AE 24 = 40 dracmas cunhado em Alexandria.
Busto de Cleópatra com diadema à direita.
Rev. Águia sobre un feixe de raios à esquerda, dupla cornucópia e M=40.
KLEOPATPAS BASILISSHS 


 Hexachalque ou hemiobolo cunhado em Patras 32-31
Anv. Busto de Cleopatra com diadema à direita.
Rev. Coroa de Isis.


Denário de Marco António e Cleópatra cunhado em Alexandria em 34.
Cleópatra é associada ao prestígio de Marco António, (novo Armeniacus).
CLEOPATRAE  REGINAE  REGVM  FILIORVM  REVV  FILIVVM
(À rainha Cleópatra, rainha dos reis e dos seus filhos que são reis.) 

M. Geada
Bibliographie:
 David SEAR, Roman coins and their values, volume 1, Spink, London 2002, p. 292; David SEAR, Greek coins.
Thibaux; Jean Michel - Le Roman de Cleopatre, Éditions de la Seine,1984.
Daix; Pierre - Cleopatre, Éditions Mengés 1981.
Vanoyeke; Violaine - Antoine et Cleópatre, Éditions Ange Bleu, 2001
http://wildwinds.com/coins/imp/cleopatra/i.html
www.omarlecheri.net
www.historiadumonde
www.fr.wikipedia.org
www.insecula.com

CLEÓPATRA NO CINEMA

Denário 31/32 a.C.
(Museu Arqueológico da Universidade de Newcastle)

   No cinema sob os traços de Elisabeth Taylor e de Richard Burton, em 1963, a rainha do Egipto e o general romano são de  uma beleza perfeita.
  Quase cinquenta anos mais tarde  o mito de uma beleza excepcional bem alicerçado no imaginário colectivo está em vistas de ser desacreditado por um estudo de arqueólogos da Universidade de Newcastle.
   Estes pesquisadores estudaram uma moeda de prata velha de dois mil anos que os representa.
  As análises revelam numa face da moeda, Cleópatra pouco sedutora, dotada de uma fronte inclinada, um queixo pontiagudo, nariz anguloso, e lábios finos.
  Na outra face, figura um Marco António com os olhos proeminentes, nariz adunco e pescoço largo.
  Este também um esboço muito diferente daquele do filme de Joseph L. Mankiwicz.
  Os escritores romanos falam-nos  duma Cleópatra inteligente, carismática, dotada de uma voz sedutora, mas, caso significativo, nunca falam da sua beleza.
  Segundo Lindsay Allason Jones, directora do Museu Arqueológico da Universidade de Newcastle, a ideia de uma Cleópatra bela e sedutora é recente.


    A faraó como símbolo da beleza no imaginário ocidental data de Willian  Shakespeare que no seu “António e Cleópatra” descreve assim a rainha. “A idade não pode desvanecer a sua imagem, nem esgotar a infinita variedade das suas qualidades”.
    Pascal Blaise em 1670 escreveu na sua obra “Pensées” que se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto teria mudado a face do mundo.
   Mas o cinema de Hollywood, com Claudette  Colbert, Vivien Leigh depois com Elizabeht Taylor, persistiu em magnificar a imagem da faraó.

M.Geada