quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013




 DEUSES IMPORTADOS E ADORADOS EM ROMA
     Na antiguidade, os deuses eram vistos e adorados de um modo muito diferente dos nossos dias e divididos  em duas grandes categorias: bons e maus. 
     Neste caso, Roma é semelhante à maioria das outras sociedades antigas, com uma religião evolutiva mergulhada na magia e superstição.
     (A religião romana, nasceu da herança indo-europeia.)
    No entanto, a sucessão de derrotas da segunda Guerra Púnica 218-201 a.C., deu origem a grande alteração na religião romana.
    Todos os deuses são invocados para salvar Roma, incluindo alguns gregos como:
Zeus”, Júpiter, pai e soberano dos deuses:
Héstia”, Vesta, deusa do fogo:
“Ares”, Marte, deus da guerra:
“Afrodite”, Vénus: deusa da beleza, do amor, e outros que ali começaram a ser adorados para maior glória de Roma.
    A partir desse momento, os romanos compreenderam que todos os deuses podiam ser bons uma vez adotados e, as suas imagens tornaram-se troféus de guerra tão importantes  como o ouro, a prata e as  pedras preciosas.
   As divindades  dos  povos conquistados, deixaram de ser destruídas e seguiam para  Roma para ali serem adoradas.
    Mas, se esses deuses vindos  de outros países  mudavam de campo e de nome, eles continuavam a ser venerados pelos povos conquistados.

Q. Antonius Balbus. Denário(serratus), 83/82 a.C..
Anv. ZEUS, “Júpiter” laureado à direita,  SC.
Rev. Vitória conduzindo uma quadriga, 
Q ANTO BALB / PR. B.

Faustina I- Denário Roma, 145/161
Anv. Busto de Faustina drapeado à direita.
DIVA FAVSTINA AVGVSTA
Rev. HÉSTIA “Vesta” em pé com uma patera
sobre um altar aceso e paládio, AVGVSTA

Vespasiano-Sestércio, Roma 71
Anv. Busto de Vespasiano laureado à direita
IMP CAES VESPAS AVG PM TR PPP COS III
Rev. ARES “Marte” com capacete e lança
 caminhando para a direita,  S C

Faustina II- Denário, Roma 148
Anv. Busto de Faustina com diadema e drapeada à direita.
FAVSTINAE AVG PII AVG FIL
Rev. AFRODITE “Vénus” em pé com
uma maçã e leme, VENVS

     A divisão religiosa entre os nativos romanos e outros habitantes do Império desapareceu.
   No entanto, parece que a vinda  desses deuses estrangeiros, teve um enorme impacto sobre a vida espiritual e social dos romanos.
   Com o surgimento da necessidade, Marcus Terentius Varro, (o Marco Terêncio Varrão, 116-27 a.C., agrónomo de profissão) publicou no ano 47 a.C., um repertório sobre esses deuses para indicar aos romanos qual  o culto adequado a todos, e a cada um.
    Varrão expõe sua « Teologia Tripartida », na qual ele insiste numa divisão em três tipos de deuses:
Visíveis como o Sol:
Invisíveis, como Neptuno ou Netuno:
Grandes benfeitores, como Hércules.

Diocleciano-Áureo, Roma, 284/286
Anv. Busto de Deocleciano laureado e drapeado à direita
DIOCLETIANVS P F AVG
Rev. Sol levantando a mão direita, e um globo na esquerda.
SOLI INVICTO
Agripa-Asse, Roma 37/41
Anv. Agripa laureado à esquerda.
M AGRIPPA L F COS III
Rev. Neptuno com tridente na mão esquerda,
um golfinho na direita,  S C
República Romana
Faustus Cornelius Sulla, denário 56 a.C.
Anv. Hércules com a pele de leão.
Rev. Globo rodeado por  coroas triunfais

    Diz-se que  uma rapariga  no dia do casamento, tinha que adorar uma  multitude de deuses para garantir a sua felicidade.
    A multiplicação dos deuses, tanto públicos como privados, tornou-se uma camisola de força em Roma, que paralisou toda a sociedade. Nada menos que cinco deuses, só para a espiga de trigo.
    Todos  estes inconvenientes não impediram Cícero de fazer a seguinte declaração.
  Se nos compararmos com os povos estrangeiros, somos iguais ou mesmo inferiores  noutras áreas, mas na religião, refiro-me ao culto dos deuses, somos muito superiores.
    Em todo o Panteão, Varrão escolheu alguns que são a glória de Roma. Jano, Júpiter, Saturno, Gênio, Mercúrio, Apolo, Marte, Vulcano, Neptuno, Juno, Diana, Minerva, Vénus, Vesta.

                            JANO
República Romana
(anónimo) Didracma, Roma 225/216, a.C.
Anv. Cabeças opostas de Jano.
Rev. Quadriga à direita, ROMA.

                         JÚPITER
República Romana
Meio Vitoriado, Roma 215/208 a.C.
Anv. Júpiter laureado à direita.
Rev. Uma Vitória coroando um troféu, ROMA

                           GÊNIO
República Romana
Cn. Cornelius Lentulus Marcellinus
Denário, Roma 76/75 a.C
Anv. Gênio à direita,
GPR (Gênio do povo romano)
Rev. EX cetro, globo, e leme, SC  CN LEN

                         SATURNO
República Romana
Nerivs-Denário, Roma, 49  a.C.
Anv. Saturno laureado à direita – NERI Q VRB
Rev. Águia legionária, um estandarte e duas insígnias.
H (Hastatus) P (Princeps)  COS

                       MERCÚRIO
República Romana
C. Mamilius Limetanus-Denário, Roma 82 a.C.
Anv. Mercúrio à direita, A e caduceo.
Rev. Ulisses caminhando para a direita
com o seu cão,Argos”.
C MAMIL LIMEAN                         

                           APOLO
República Romana
Q Pomponius Musa-Denário, Roma 66 a.C.
Anv. Apolo laureado à direita.
Rev. Terpsícore, (deusa da dança)
com uma lira na mão esquerda.
MVSA  Q  POMPO

                          MARTE
Répública Romana
(anónimo) Litra AR 241-235
Anv. Marte com capacete à direita.
Rev. Cabeça de cavalo à direita, ROMA

                         VULCANO
República Romana
Lucius Aurelius Cotta-Denário, Roma 105 a.C.
Anv. Vulcano com pílio e drapeado à direita, pinças e estrela.
Rev. Águia com as asas abertas, L COT  

            NEPTUNO ou NETUNO
República Romana
P. Plautius Hypsaeus- Denário Roma 60 a.C.
Anv. Neptuno à direita e tridente.
P YPSAE S. C.
Rev. Quadriga à esquerda.
CEPITC YPSAE COSPRI

                            JUNO
República Romana
T. Carisius, denário cunhado em 45 a.C.
Anv. Juno à direita, MONETA
Rev. Matriz da moeda sobre a bigorna, alicate e martelo.
T CARISIVS

                            DIANA
República Romana
C Hosidius C F Geta, Denário-Roma 64 a.C.
Rev. Diana com diadema e drapeada à direita,
arco e carcás (aljava). GETA III VIR
Rev. Javali ferido e atacado por um cão à direita.
C HOSIDI CF

                               MINERVA                                           
República Romana
(anónimo), AE 28, cerca de 264, a.C.
Anv.Minerva com capacete coríntio à esquerda.
Rev. Águia sobre de um feixe de raios, ND

                         VÉNUS
República Romana
C Considius Nonianus, denário roma 60 a.C.
Anv. Vénus com diadema e laureada à direita .
CC CONSIDIVS NONIANVS
Rev. Templo de Vénus Erice,  ERVC

                              VESTA
República Romana
L. Cassius Longinus, Denário Roma 60 a.C.
Anv. Vesta com diadema e véu à esquerda.
Rev. Figura masculina à esquerda efetuando
un ato cívico, (votar) LONGIN III V.

     Qual o motivo porque Roma tão aberta aos cultos estrangeiros, era tão reticente ao cristianismo?
     A resposta é simples: o cristianismo era o principal responsável.
    O seu deus era considerado um deus ciumento, que não consentia  outros deuses, ou imagens que os representassem.
    A intolerância cristã desempenhava um rolo em seu desfavor. Além disso, Tibério (14-37), disse que os cristãos eram uma seita a exterminar, porque ela dá um gosto de liberdade aos homens.
Graciano-  367- 383  - Siliqua
Anv. busto drapeado com diadema à direita 
DN GRATIA NVS PF AVG
Rev. VOTIS X MVLTIS XX
(Emitido entre 375 e 378 para manutenção das estátuas e templos.)

    O incêndio de Roma por Nero no ano 64, também teve conseqüências desastrosas  para eles que foram acusados, e será preciso esperar até ao reinado de  Constantino I  307-337, para ver o cristianismo emergir  das catacumbas.

MGeada

Bibliografia

François ZOSSO, Christian ZINGG: Les Empereurs Romains – 27 a.C. – 476 d.C., Editions Errance, Paris 1994.
Sabine BOURGEY, Dominique HOLLARD: L’Empire Romain - 225-337, Editions Errance,
Paris, 1991.
Sousa; Manuel Félix Geada: História dos Monumentos Romanos Contada Através das Moedas.
RNG The Romain Numismatic Gallery.
Catálogo de vendas Drouot : Monnaies Romaines, Collection E. P. Nicolas, Paris 9/10 de Março 1982.
http://www.wildwinds.com/coins/ric/i.html
http://www.sacra-moneta.com/Monnaies-romaines/Numismatique-romaine/

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013


SÍMBOLOS DA ARÁBIA EM MOEDAS ROMANAS

    Os romanos não só representaram nas moedas as províncias do Império, como também rios e mesmo as suas opiniões  sobre forma de personificações.
    Eles atribuiram igualmente a cada província, um símbolo específico que permite identificar a zona evocada na moeda, neste caso a Arábia, à qual foi  atribuída o camelo (dromedário).
    Animal bem conhecido e oriundo dos Países Orientais, aparece representado em moedas da República, e do Império.
    Após a derrota do rei Nabateu, Aretas III, pelo general romano Marcus Aemilius  Scaurus “Escauro”, (sob o comando de Pompeio) foram cunhados denários para comemorar essa vitória com a legenda no anverso, REX ARETAS.
    O reino Nabateu comprendia o que é hoje a Jordânia, o sul da Síria e parte da Arábia Saudita.   
    A maior das suas conquistas foi sem dúvida  Damasco, que garantiu ao país a condição de grande potência política naquela época.
    Todavia Roma concedeu relativa autonomia aos nabateus, sendo as suas únicas obrigações, o pagamento de impostos e a defesa das fronteiras.
   
 Marcus Aemilius  Scaurus(Escauro). denário, Roma 58 a.C.
Anv. Aretas segurando as rédeas do dromedário à direita.
SCAVR AED CVR EX SC  REX ARETAS.
Rev. Júpiter conduzindo uma quadriga à esquerda.
PHVPSAENS AED CVR CAPTV C HIPSAE COS  PREIVER 
(Moeda comemorativa da vitória de Escauro no ano 65 a.C., sobre o rei nabateu Aretas III).

   No reinado do imperador Trajano, entre outras encontramos a legenda ARAB. ADQ.,  ou ainda,  RESTITUTORI ARABIAI em moedas do imperador Adriano.
(Neste caso embora com pouca frequência,  a Arábia   aparece  simbolizada  por uma avestruz)

 Trajano-Sestércio, cunhado em Roma em 111.
Anv. Busto de Trajano laureado e radiado  à direita.
IMP CAES NERVAE  TRAIANO AVG GER DAC P M TR P COS V PP.
Rev. Personificação da Arábia com um ramo de incenso, 
e uma avestruz aos seus pés.
SPQR OPTIMO PRINCIPI  ARAB ADQVIS – S C

 Adriano-Sestércio cunhado em Petra (Arábia).
Anv. Busto laureado e drapeado de Adriano à esquerda.
HADRIANVS AVG  COS III.
Rev. Adriano com manto, em pé, dando a  mão à Arábia, que está 
com um joelho no chão, e um dromedário a seus pés.  
RESTITUTORI ARABIAI  SC .


   Alguns reversos  de Trajano e Adriano, também apresentam uma mulher com um ramo da planta que produz a resina para o incenso, e a Arábia  simbolizada por um pequeno dromedário.

 Trajano-Denário, cunhado em Roma em 111.
Anv. Busto de Trajano laureado e radiado  à direita.
IMP CAES NERVAE  TRAIANO AVG GER DAC P M TR P COS VI PP.
Rev. Personificação da Arábia com um ramo de incenso, 
e um dromedário aos seus pés.
SPQR OPTIMO PRINCIPI  ARAB ADQVIS

    A Arábia era na antiguidade uma das maiores regiões da Ásia.
   Em grande parte com  um clima desértico, situada entre o Egito e a Índia, era dividida em três partes.  
    Arábia Felix (Feliz), Arábia Deserta e Arábia Petra (Rochosa).
    É uma vasta península situada na junção da África e da Ásia, a leste da Etiópia e a norte da Somália, ao sul da Palestina, da Jordânia e da Mesopotânia, e ao sudoeste do Irão.
    É limitada pelo Mar Vermelho e pelo Golfo de Aqaba ou Acaba ao sudoeste, pelo mar da Arábia ao sudeste e, pelos Golfos de Omã e Pérsico a nordeste.
   
    Arábia Feliz: o seu nome está relacionado com o rico comércio do incenso.
   
   Arábia Deserta, a mais pequena e mais setentrional da Arábia, era habitada pelos Edomitas, Moabitas, e Amalequitas.
  Ela incluía esse país terrivelmente selvagem do norte, onde os israelitas se estabeleceram durante 40 anos após o seu êxodo do Egito.
    Os Romanos nunca se familiarizam muito com esta região.
   
   A Arábia Rochosa que ocupa uma posição central, é esteril no seu noroeste e pouco povoada, mas a sul é toda cultivada e muito  fértil.
   Quando no ano 106, o Imperador Trajano lhe retirou a autonomia e passou  a ser uma simples província romana, foram cunhadas moedas com a legenda  ARAB ADQVIS “Arábia adquisa”.
  O imperador Adriano ainda foi mais longe e rebatizou-a Adriana Petrae em sua honra.   


 Trajano-Denário, cunhado em Roma em 111.
Anv. Busto de Trajano laureado e radiado  à direita.
IMP CAES NERVAE  TRAIANO AVG GER DAC P M TR P COS VI PP.
Rev. Personificação da Arábia com um ramo de incenso,  e um dromedário aos seus pés.
SPQR OPTIMO PRINCIPI  ARAB ADQVIS

 Adriano-Sestércio cunhado em Roma em 121.
Anv. Busto laureado e drapeado de Adriano à direita.
HADRIANVS  AVG  COS III PP .
Rev. Adriano à esquerda e figura feminina (representação da Arábia) 
à direita, sacrificando juntos.
ADVENTI  AVG  ARABIE  SC .

    No entanto, o território ocupado pelos romanos só correspondia a uma pequena porção da actual Arábia ou seja, os territórios que fazem fronteira com a Judeia,  a quem deram o nome de Petreia, em homenagem à principal cidade da região Priesta, (Petra).

 Adriano- AE 28 cunhado em Petra.
Anv. Adriano com couraça e  laureado à direita.
AVTOKPATWP  KAICAP  TRAIANOC.
Rev. A Tiché (Tique ou Tiquê) à esquerda sentada numa rocha,
com uma mão estendida e, segurando um troféu com a esquerda.
PETRA MHTPOPOLIC.

 Adriano-AE 27 cunhado em Petra.
Anv. Busto de Adriano laureado à direita.
AYT  KAIC  TRA  ADRI  CEB .
Rev. Legenda em três linhas dentro de uma coroa de loureiro,
PETRA  MHTRO  POLIC.

 Adriano- AE 27 cunhado em Gerasa (Petra).
Anv. Busto de Adriano com couraça e laureado à direita.
DIAYT  K  TRA  ADPLIANOC  CEB.
Rev. Busto laureado da Tyché à esquerda com carcás (aljava) e arco.

     A imagem do camelo (dromedário) em representação da Arábia é compreensível por ser  um animal muito útil, e comum a esta região.

 Comodo-AE 19, cunhado em Decapolis (Síria)
Anv. Busto de Adriano laureado à direita.
KOMMO ANTWNINO
Rev. A Arábia representada por um camelo
NTPA BOCTRA
(Excepto  Damasco, a região de Decapolis está localizada na atual Jordânia)
   
  Este país era particularmente conhecido pela sua produção de incenso, muito utilizado nos cultos dos romanos e, que muito contribuíu para a prosperidade e riqueza da província. 

MGeada

BIBLIOGRAFIA

Depeyrot; George-La monnaie Romaine, Paris, 2006.
Louguet: L’imperalisme Macedonien et Helllénisation de L’Orient, 1926

domingo, 6 de janeiro de 2013


GELA
    Uma das maiores cidades da Grécia antiga, Gela (Sicília), deixou-nos numerosas emissões monetárias com um tema bem particular,“o Deus Rio Gela” protetor da cidade, simbolizado por um prótoma de touro androcefalo (com rosto humano).
   
(Nota: todas as datas deste artigo  são anteriores à era de Cristo.)
   
   Cidade agrícola e industrial, situada na costa do Canal da Sicília próxima do rio Gela, foi fundada no ano 689 (44 anos depois de Siracusa), por colonos vindos de Rodes comandados por Antífimo, e alguns cretenses guiados por Entimo, que cativados pela beleza do local, então habitado por grupos de indígenas (os Siculi), decidiram estabelecer-se e alicerçar a cidade, que chamaram de Gela, devido à proximidade do rio com o mesmo nome.
  Antífimo e Entimo, tiveram que afrontar as hostilidades dos habitantes que, progressivamente, foram recuando e obrigados a refugiar-se nas montanhas.
    Foi daqui que um século mais tarde partiu um grupo de colonos comandados por Pistilos e Aristomos, que depois de alcançarem o rio Acragas, ali fundaram a cidade com o mesmo nome no ano 581.
(Após as guerras púnicas, Acragas ficou sob o controle de Roma com o nome de Agrigentum.)
    A cunhagem de moedas em Gela, terá começado por volta do ano 498, sobre a tirania dos reis Kléandros (505-498), ou de Hipócrates (498-491).
    Gélon (491-490, depois Híeron (478-466, foram sucessivamente tiranos de Gela antes de se imporem em Siracusa.
    O último tirano de Gelas foi Polyzalos 478-477, antes do restabelecimento da democracia no ano 466.
    Gela teve um desenvolvimento económico e artístico extraordinário entre 450 e 413.           
    A expedição ateniense  e a indiferença de Siracusa alteraram esta situação.
    Finalmente, Gela também sofreu com os ataques dos cartagineses aquando da sua invasão no ano 406.
    A cidade destruída, nunca mais foi reconstruída. 
 

 Gela, Tetradracma AR(prata).-século V
Anv. Biga a passo para a direita, e Niké coroando os cavalos.
Rev. Prótoma de touro androcefalo nadando  para a  direita.

    No reverso o touro representando o Deus Rio, poderá provir da metrópole da cidade siciliana, Rodes (Cária), onde o culto ao deus antropomorfo Archelous era atestado.
     Todavia, hoje os investigadores preferem ver o deus rio Gela.

  Gela, Tetradracma AR. – cerca de 450
Anv. Biga a passo para a direita,
e coluna com uma coroa de flores.
Rev. Prótoma de touro androcefalo nadando para a  direita.
 
  Esta extraordinária moeda, fascinou especialistas e amadores pelas suas características estéticas, que fazem dela um testemunho perfeito do estilo de transição entre o período dito arcaico, e o início promissor do classicismo.
    O anverso deste tetradracma presta, certamente, homenagem à série de vitórias alcançadas por Gela nas corridas de carros.
    Pantares, Gelão, Híeron e Polyzalos entre outros, ilustraram-se nas corridas para grande glória da cidade.
   O reverso, oferece uma dimensão monumental ao deus Rio, gravado numa combinação de estilos, onde o arcaico da cabeleira se mistura perfeitamente ao  classicismo dos olhos e da barba finamente cinzelada.
    Este exemplar (único conhecido) com a coroa de folhas de oliveira em volta do pescoço do touro, além das vitórias de carros, também poderá comemorar alguns fatos guerreiros, nos quais se destacaram a bravura e habilidade dos combatentes de Gela, ao repelir vitoriosamente os invasores.
    A vitória de Himera sobre os cartagineses por volta do ano 480; a vitória de Cúmes contra os etruscos no ano 474 e, mais próximo da emissão desta moeda no ano 451, a vitória de Nomai contra Dukétios, chefe dos siciliotas.
    Se como pensa Jenkins, (grande especialista das moedas de Gela)este exemplar foi cunhado por volta do ano 450; o artista gravador do reverso soube antever a vanguarda sem desdenhar as puras tradições, como se deve fazer em todas as inspirações artíticas.  
               
Gela,Tetradracma Ar.- 515-405
Anv.Quadriga galopando para a esq. e Niké 
Rev. Prótoma de touro androcefalo
nadando para a direita

 Gela,Tetradracma AR.- cerca de 450
Anv.Biga a passo caminhando para a esq.
                                                Rev. Prótoma de touro androcefalo                                                
                                                                      nadando para a dir..                                                                         
                                                
Gela, Litra AR. – 465-450
                                  Anv.Cavalo a passo dentro de um circulo                                 
                                             de pérolas, caminhando para a dir..                                          
                                              Rev. Prótoma de touro androcefalo                                           
                                                               nadando para a  dir..                                                                 

 7 Gela, Litra AR. – 465-450
Anv.Cavalo a passo dentro de um círculo
de pérolas, caminhando para a dir., dois        
ramos de oliveira e quarto de lua.
Rv. Prótoma de touro androcefalo
nadando para a dir..

Gela, Didracma AR. – 490-485                                   
Av. Cavaleiro nu, com capucho, armado             
de uma lança, galopando para a dir..                  
                    Rev. Prótmoma de touro androcefalo                   
nadando para a dir..

 Gela, Didracma AR. – 490-475
Anv.Cavaleiro nu, com capaceto, armado
de uma lança, galopando para a dir..    
Rev. Prótoma de touro androcefalo
nadando para a dir..

 
 Gela, Hemiobolo AR.- cerca de 470                          
                               Av. Roda com quatro raios.                                
                      Rv. Prótoma de touro androcefalo                     
nadando para a dir..

 Gela, Tetras ou Trias BR(bronze) - 420-405
Anv. Touro investindo à esquerda e três pontos, (= valor)
Rev. Efigie de jovem com uma fita na cabeça
e chifres, simbolizando o deus Rio Gela

Gela, Tetras ou Trias BR. – cerca de 400
Av.Touro investindo à esq. e
três pontos=(valor) e grão de cevada.
Rv.Efígie de jovem com o cabelo eriçado e chifres
simbolizando o deus Rio Gela.
.
Gela
Tetradracma AR.– 415-405
Anv. Quadriga galopando para a esquerda, espiga de trigo e águia.
 Rev. Touro androcefalo ao passo para a esquerda,
espiga de trigo e grão de cevada.
“Jenkins (pag.93), pensa que este anverso,  é uma obra não assinada do célebre gravador de cunhos, Cimon.”

M. Geada

BIBLIOGRAFIA
Vigne: Jean Bruno – La Vie des Monnais Grecques, J. D. Editions, Paris 1998.
E: Gàbrici – La Monetazione del Bronzo Nella Sicilia Antica, Forni Editora Bologna, 1985. (Ristampa anastatica dell’edizione di Palermo, 1927).
G.K: Jenkins – Monnaies Grecques, 1992.
Ph.: Grierson – Monnaies et Monnayage, Aubier, Paris, 1976
Tradart: Revista Monnaies: n° 2- julho-agosto 1991.
Vedrines: Josiane - Monnais de Colection, julho, 1994.
Centre Numismatique du Palais-Royale: Catálogo de vendas, março 1997.
Centre Numismatique du Palais-Royale: Catálogo de vendas, dezembro 1999.
Vinchon: Jean – Catálogo de vendas, novembro, 2004.
http://www.wildwinds.com/coins/greece/sicily/gela/i.html
http://www.cosmovisions.com/$Fleuve01.htm

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012


SALONINA

    Júlia Cornélia Salonina, imperatriz romana de 254 a 268.
  Segundo a História de Augusto, Salonina seria originária da Bitínia, (Norte da Turquia atual) e casou com o imperador Galiano no ano 253.
    O casal terá tido três filhos: Salonino, Valeriano II e  Jules Galiano.
   A existência  de pelo menos dois, Salonino e Valeriano II, nomeados César quando teriam cerca de doze anos, é confirmada por moedas e inscrições lapidárias mas, é provável que o casal tivesse tido outros filhos, porque alguns (raros) documentos escritos, evocam também os nomes de Marinianus e Gala, mas a sua existência é todavia improvável. 

Salonino-Antoniniano, Lião 256. 
Anv. SAL(ONINVS) VALERIANVS C S (CAES)
Rev. PRINC INVENT
Ref. RIC V-1, 10, Cohen 61, Sear5 10770

Valeriano II-Antoniniano, Roma 258/259
Anv. P C L VALERIANVS NOB CAES
Rev. PRINCIPI  IVVENT
Ref. RIC 23, RSC 81

Salonina-Antoniniano, Roma 256/257
Anv. SALONINA AVG
Rev. PIETAS AVG - Pietas  sentada num trono à esquerda e três crianças.
Ref. RIC v-1, 35, Gobl 229 b, RSC 84, Sear 10647.

  A legenda FECUNDITAS (Fecundidade) AVG(VSTA) aparece com muita frequência nos reversos das suas moedas.

Salonina–Antoniniano, Roma 256/257
Anv. SALONINA AVG
Rev. FECVNDITAS AVG
Ref. RIC V 26, Cohen 44, VF

    Ainda durante o reinado de imperador Valeriano I,(seu sogro)foi elevada à dignidade de Augusta e, após a morte da imperatriz Mariniana (sua sogra) passou a ser a única imperatriz em exercício durante quinze anos.
   Salonina recebeu ainda a dignidade de PIA FELIX, fato excepcional porque só as imperatrizes Julia Domna  e Severina, tinham beneficiado desta distinção no século III.  
   Além de alguns bustos nos museus do Capitólio, da Hermitage, de São Petersbourg e, alguns documentos escritos (História de Augusto) a imperatriz Salonina, deixou-nos numerosas moedas que nos informam sobre os seus valores e vicissitudes do seu longo reinado.
   Relatados por muitos autores, os atos de benevolência atribuídos a Salonina tornam-se ainda mais credíveis por se inserirem perfeitamente na história daquela época.
   A captura de Valeriano I, pai de Galiano, por Sapor I (rei da Pérsia sassânida  entre 241-272), em 258 ou 259, causou grande emoção em todo o Império Romano.
 Após a morte de Trajano Décio, grande persecutor dos cristãos e, primeiro imperador romano morto em combate, os cristãos viram ali um sinal, um castigo da vingança divina.
  Talvez  por ansiedade  de escapar ao destino fúnebre dos seus antecessores, Galiano logo em 260, promulgou um édito de tolerância para com os cristãos.
  Desconhecemos se esta decisão foi influenciada pela imperatriz mas, é provável pelo fato de  eles já serem casados há muito tempo e, também pelos gestos de clemência de Salonina em 261, coincidirem perfeitamente com o édito.
   É portanto muito credível, Galiano ter sido influenciado por sua esposa.
   Mas estes gestos de clemência fariam da imperatriz uma cristã ?
 Sem dúvida não, visto que  Salonina e Galiano frequentavam assiduamente os filósofos Porfírio 234/305 e Plotino 205/270, cujas teses rejeitavam os cultos e dogmas cristãs e, também pelo fato de Galiano pensar construir em  Campania (ou Campanha), uma nova cidade dedicada ao filósofo Platão.
   As moedas da época cofirmam  esta orientação pagã, e apresentam durante os quize anos de reinado uma iconografia constantemnte dedicada aos deuses de Roma e, termina com uma série do bestiário onde a imperatriz se coloca sob a proteção da deusa Juno, com a legenda IVNONI CONS(ERVAT) AVG(VSTA) , A Juno protetora da imperatriz.

Salonina-Antoniniano, Roma 267-268
Anv. SALONINA AVG
Rev. IVNONI CONS AVG
Ref. RIC 15, Sear88 3041, Cohen 70.

Salonina-Antoniniano, Roma 266/267
Anv. COR SALONINA AVG
Rev. IVNONO CONS AVG
(Curiosa legenda IVNONO -  erro do artista monetário???)

    Os pricipais reversos da imperatriz colocam-na sob a proteção das deusas Juno, Vesta, Ceres, Segesta, Diana, ou louvando a saúde (SALIS), fertilidade (FECUNDITAS, felicidade (FELICITAS PUBLICAE).

Salonina, Lião 258
Anv. SALONIA AVG
Rev. DEAE SEGETIAI - (Imagem e templo da deusa Segesta.)
Ref. RIC V-1, 5 Lyons, Elmer 96, Sear 10631.

    Segesta aparece únicamente em moedas de Salonina.
   Este templo construído no interior do Circo Grande em Roma e, posteriormente mudado para o exterior a mando desta  imperatriz, pensa-se ter sido  mandado erigir por ela.
    Anteriormente, apenas um pequeno altar em Roma lhe era dedicado.

Salonina-Antoniniano, Ásia 267
Anv. SALONINA AVG
Rev. SALVS AVG
Ref. RIC 88, RSC 105, Sear5  10652 

    Difícil portanto de considerar no meio deste oceano de paganismo, que o reverso com a legenda AVGVSTA IN PACE ou AVG IN PACE (imperatriz em paz), possa ser um índice de  simpatia de Salonina para com os cristãos.
    A menção IN PACE, encontra-se nas sepulturas cristãs, (REQUIESCAT IN PACE - repousa/em em paz).

Salonina-Antoniniano, Milão 260/268
Anv. CORN SALONINA AVG
Rev. AVG IN PACE
Ref. RIC 57 var., Gobl 1378.

    Mantemos por nossa parte uma imperatriz não cristã mas, compreensiva e tolerante, da qual a sua história não relata nada de negativo, (salvo a sua irritação quando foi burlada por um negociante de pedras preciosas, “História de Augusto”).

UMA CUNHAGEM IMPORTANTE DURANTE UM PERÍODO PERTURBADO

   Mesmo se tiver-mos em conta o seu longo reinado, a cunhagem das moedas de Salonina foi muito importante.
   Às centenas de tipos de antoninianos conhecidos, juntam-se as moedas de ouro (áureos), os bronzes (sestércios, asses, dupôndios), prata (raríssimos quinários, tetradracmas de Alexandria e inúmeras moedas provinciais e coloniais).

Salonina-Quinário, Roma 254/255
Anv. SALONINA AVG
Rev. IVNO REGINA
Ref. RIC 40, RSC 61

   Durante os quinze anos de reinado foram cunhadas centenas de milhares ou mesmo milhões de moedas em seu nome.
    Em termos qualificativos, a percentagem de moedas emitidas pelo casal imperial é globalmente de 15% por Salonina, e 85% para Galiano: tudo isto num período dificil, perturbado  por ursupadores.
    Postúmio na Gália, Macrino e Quietus no Oriente, e ainda as incursões bárbaras dos vândalos e alamanos.
    O estado de guerra cívil ou estrangeira, causou uma necessidade sempre crescente  de moedas e, deu origem a que o  conteúdo de prata nas moedas de bolhão (liga de prata e cobre) fosse reduzido.
   Aos poucos, os  antoninianos do início do reinado cederam lugar a pequenas moedas de cobre, cobertas com uma fina película de prata.
   Os conflitos do período 253/268, e dos anos posteriores, são confirmados pelos numerosos tesouros encontrados e, cuja composição mostra  que foram enterrados no início do reinado de  Aureliano 270, imperador do qual um dos seus primeiros trabalhos foi construir uma muralha à volta de Roma.
    Estes tesouros  monetários que contêm principalmente moedas do fim do reinado de Galiano e Salonina, (em particular a série do bestiário) confirmam a grave ameaça que pesava sobre o império e, parece creditar as teses segundo as quais  Galiano foi assassinado, aquando dum golpe de estado dos generais Ilírios, (liderados por Cláudio o Gótico e Aureliano). 
     Em causa estaria a  sua incapacidade em manter a ordem.
  Durante o reinado de Galiano e Salonina, a inflação monetária originou o desaparecimento das moedas de bronze .
   Com um antoniniano agora reduzido a uma simples rodela de cobre prateada e, com pouco valor, a fabricação de grandes  bronzes tornou-se desnecessária. Sestércios, asses e dupôndius, desapareceram durante o reinado conjunto.
   O tradicional sistema monetário romano continuou em deriva até à implosão final,  que deu origem ao sistema monetário do Baixo-Império. 

CARACTERÍSTICAS DAS CUNHAGENS DE SALONINA


    A multiplicação das emissões e oficinas  monetárias (12 em Roma), obrigou  a uma modernização do sistema monetário e ao aparecimento das letras da oficina ou marca, que permite distinguir o local onde a moeda foi cunhada.
    Para Salonina é principalmente a letra  Q: (uma das oficinas de Roma)

Salonina-Antoniniano, Roma 260/268
Anv. SALONINA AVG
Rev. IVNO REGINA                               
Ref. RIC 12, Gobl 242b.

Para Milão, aparecem as letras MP e  MS,  primeira e segunda oficina.

Salonina Antoniniano, Milão 255/260
Anv. SALONINA AVG
Rev. IVNO AVG
Ref. RIC 62, Goebl 1381e, C 55.


    No Oriente,  para as diversas cunhagens da imperatriz os diferendos utilizados são : estrela (ou sol), crescente de lua, pavão, ou palma.
    Em  algumas emissões, é facil atribuir a data de cunhagem pela referência no reverso ao sétimo consulado de Galiano (VII C).

Salonina-Antoniniano, Antioquia 267
Anv. SALONINA AVG
Rev. AEQVITAS AVG   VII C
Ref. RIC 87, Gobl 1648d, Sear 10625

    O desaparecimento das letras S C (SENATVS CONSVLTVS) em algumas moedas de bronze, parece indicar a continuidade de divergências com o Senado, iniciadas no reinado de Valeriano I.

   A titelatura das moedas de Salonina é clássica e, encontramos nos seus antoninianos SALONINA AVG, COR SALONINA, OU CORN SALONINA AVG e,  um raro antoniniano SALONINA PF AVG, que reflete  a importância da imperatriz. ( PF=PIA FELIX )

Salonina-Antoniniano, Milão 254/268
Anv. SALONINA PF AVG
Rev. AVG IN PACE
Ref. RIC 58, Mir 36, 1377e, RSC 19     

   As moedas de Galiano e Salonina  encontram-se em grande quantidade, especialmente os antoninianos.
    As cunhagens de bronze, e as  provinciais  permanecem raras, sobretudo as da imperatriz.
  Os tetradracmas do Egito são mais correntes. Em contrapartida; os áureos, quinários  e denários, são extremamente raros.

Salonina-Áureo, Viminacium 254/257
Anv. CORN SALONINA AVG
Rev. IVNO REGINA
Ref. RIC 10, Sear5 10616.

   Cada oficina tem o seu estilo particular e, com um pouco de atenção, reconhecemos sem grande dificuldade os locais de produção: Treves, Milão, Roma, Viminacium, Antioquia (talvez ainda outra oficina oriental reconhecida como “Samósata” mas hoje posta em causa), e outras. 

Salonina-Alexandria, Tetradracma 263/264
Anv. KOPNHOA CAΩNEINA CEB
Rev. LIA
Ref. Koln 2967, Dattari 5335, BMC 2258, SNG.

   Estas  cunhagem de Galiano e Salonina são particularmente interessantes  por serem emitidas durante um período de quinze anos, o que é muito raro para imperadores romanos e, revelam nitidamente as dificuldades que afrontaram durante o seu longo reinado.
  Este período, torna-se ainda mais cativante por marcar uma volta na história numismática romana com o desaparecimento do bronze, e a redução quase a zero do antoniniano, ou ainda pela sua fiduciaria.

Salonina-Damasco, AE 22,  253/268
Anv. CORNE SANIONA AVG
Rev. COLΔAMAS METRO
Ref. SGI 4691, Rosemberger 63.

    Envolvida no trágico fim do seu esposo, Salonina saíu da história ao mesmo tempo que Galiano.
  O casal legou-nos uma cunhagem abundante e interessante: históricamente, iconográficamente e  intrinsicamente.

M.Geada

BIBLIOGRAFIA

Biblioteca Wikipédia
François ZOSSO, Christian ZINGG : Les Empereurs Romains – 27 a.C. – 476 d.C., Editions Errance, Paris 1994. 
Sousa; Manuel Félix Geada-História dos Monumentos Romanos Contada Através das Moedas. Coimbra, Julho, 2006