sábado, 29 de junho de 2013

NUMISMÁTICA HEBRAICA

Os hebreus, na sua origem, eram um povo nómada semita que vinha de Caldeia (nome antigo da Babilónia) e se fixou na Palestina.
A origem dos semitas situa-se na África e, foi desta região árida que por migrações sucessivas, algumas tribos incapazes de sobreviver na areia do deserto, partiram à conquista de um lugar à sombra.
Israel tomou posse do país onde se fixou pela força das armas que lhe asseguraram a vitória sobre os precedentes habitantes da Palestina.
Chamamos ás populações das regiões setentrionais, indo-europeias, e ás do centro e do sul da Assíria até a Arábia, semitas.
A palavra “semita” deriva de “Sem”, filho lendário de Noé que seria o ancestral de todos os povos semitas.
O termo hebreu está relacionado com “Heber” descendente de Sem, e a raiz da palavra é “Ibri”que significa passar.
Um hebreu é um homem muito errante um passante.
Os hebreus povo constituído por tribos, elegeram um rei por volta do ano 1 000 a.C., que como em todo o lado, tinha o papel específico de ser um militar em tempo de guerra, e juiz em tempo de paz.
Salomão, (segundo a bíblia hebraica) rei de Israel de 970 a 931 a.C., com a ajuda do rei de Tiro, começou a construção do primeiro templo que chegou a mobilizar 150 000 trabalhadores.
O templo foi inteiramente destruído no ano 587 a.C., por Nabucodonosor II, rei da Babilônia, 604-562.
Nenhum vestígio de utilização da moeda chegou até nós, para o período do primeiro templo de Jerusalém.
O livro deuteronómio (quinto livro do Pentateuco) fala das moedas de Abraão (que vivia no tempo de Hamurabi assim como de Josué e David Mardochée), mas não passam de pagamentos anacrónicos.
Os pagamentos nessa época efetuavam-se com um peso de metal, e o siclo correspondia a uma unidade monetária de peso.
No velho testamento encontramos algumas expressões de pagamento tais como: Abraão pagou a Efraim 100 chekels de prata.
Eleazar (ou Elazar) prendeu um anel de ouro que pesava meio chekel (=1 siclo).
Manaem rei de Israel pagou ao rei da Assíria um resgate de 1 000 talentos de prata. (O Talento valia 3 600 siclos).
À morte de Salomão o reino Hebreu foi dividido em dois: o reino de Israel e o reino de Judá.  
O primeiro durou dois séculos o segundo três.
Israel foi conquistado pelos assírios no ano 722 a.C., Judá invadida em seguida e os seus habitantes levados cativos para Babilónia, onde ficaram meio século.
Ciro 558-528 a.C., pôs fim ao Império de Caldeia, apresentou-se como o libertador das populações cativas, e autorizou o regresso dos judeus à Judeia no ano 555 aC..
O segundo período dito do segundo templo, começou no início da  sua construção por cerca do ano 535 a.C.. (Terminado no reinado de Dário I, 521-486).
Este período terminou com a destrução do templo pelo exército do imperador Tito no ano 70, e a dispersão do povo de Israel.      

(No ano 66, a população judaica revoltou-se contra o império Romano. Quatro anos mais tarde as legiões romanas sob o comando de Tito reconquistaram e destruiram Jerusalém assim como o segundo templo.
Este acontecimento particularmente doloroso na história judaica, é comemorado todos os anos no dia 9 de Abril.) 

Tito, Sestércio cunhado em Roma ou Trácia cerca de 80-81
Anv. Busto de Tito laureado à direita
IMP T CAESAR DIVI VESPAS F AVG.
Rev. A Judeia sentada chorando: palmeira, 
capacete,  lança e couraça.
IVD/AEA  CAP/TA S C
Ref. RIC 141, Cohen 112.
(Este tipo comemora o fim da guerra na Judeia, e a tomada de Jerusalém.)

Para a história numismática este período estende-se até ao ano 135 da nossa era, ano em que os romanos esmagaram a segunda revolta judaica e estabeleceram no sítio, em vez de Jerusalém, a cidade do Capitólio.
Foi durante o período do segundo templo que os judeus emitiram moeda própria: como estado soberano, como vassalos de Roma, ou ainda como inimigos dos romanos.
Estas moedas têm poucas figuras: um dos seus mandamentos proibia a representação de imagens consideradas como idolatria. Os semitas tinham aversão pelas imagens.
Por outro lado os judeus que lutavam pela independência, não pensavam produzir obras de arte, mas sim moedas de necesidade ou de urgência.
Para a história judaica, esta amoedação tem uma importância significativa e dá-nos o reflexo verídico dos acontecimentos desses tempos.
Podemos observar nessas moedas a marca do poder que dominava a terra da promissão.
A terra de Canaão prometida por Deus aos hebreus.
No século V a.C., a Judeia formava uma região integrada na quinta província Persa. Era uma possessão longíqua do império.

 Império Persa, Meio siclo (prata), Judeia 375-333 a.C..
Anv. Busto, laureado  à direita.
Rev. Águia com as asas abertas e legenda
aramaica YHDH (JUDA).
Ref. Hendi 1059, Meshorer TJC 16 

 Império Persa, Meio siclo (prata), Judeia 350 a.C.
Anv. Três tipos possíveis,  O rei, o mocho ou um lírio.
Anv. Falcão com as asas abertas e legenda aramaica YHDA 
Ref. Hendin 1051, Meshorer TJC 18.

Alexandre III dominou Israel por volta do ano 332 a.C., e a cultura helénica invadiu a Judeia assim como todos os territórios conquistados. Esta helenização não era mais que uma ocidentalização.
Foi Alexandre que levou o instrumento monetário (a moeda) à Ásia, à India e ao Oriente, pois não existe nehum vestígio de moeda, antes da chegada dos gregos.
À morte de Alexandre no ano 323 a.C., esta parte do território a leste do império, foi dividida entre os Ptolemeos do Egito e os Selêucidas da Síria.

  Jerusalém ?, ¼ obolo (prata), Ptolemeu II 285-246 a.C.
Anv. Busto de Ptolemeu  à direita.
Rev. Águia com as asas abertas e legenda aramaica YHDH (IUDAEA)
Ref. Hendin 1087,  Meshorer TJC 17.

Seleuco I comandante da cavalaria de Alexandre, apoderou-se da Babilónia.
Esta província (Babilónia) situava-se entre o Tigre e  Mediterrâneo.
Seleuco Nicator, fundador da dinastia, adotou o sistema monetário ático com um tetradracma de 17,20 grs..
A Judeia que era dominada pelos Ptolemeus, depois da quinta guerra síria no ano 198 a.C.,  passou a ser controlada pelos seleucos.

  Judeia, Seleuco IV Filopator,
BR (bronze)22, 187-175 a.C.
         Anv. Busto de Dionísio à direita.
Rev. BASILEUS SELEUKOU e proa de navio.
Ref. GB57112, SGCV II 6970, Hougton-lorber II 1316,2.

No ano 175, por necessidade financeira provocada  pela pesada indenização de guerra exigida por Roma, Seleuco enviou o seu comandante Heliodoro a Jerusalém confiscar o tesouro do templo.
Missão que não conseguiu, devido à resistência que encontrou comandada  pelo Sumo Sacerdote Onías III, (177-174 a.C..)
De regresso, ainda em setembro do mesmo ano, Heliodoro assassinou Seleuco IV.
Com o período em que a força romana começou a ser conhecida, os seleucidas começaram a terminar com as guerras de sucessão.
Sob o  comando de Matatias Asmoniano padre e pai dos Macabeus, uma revolta assegurará aos seus descendentes a independência da Judeia.
Jonathan, terceiro filho de Matatias recebeu o cognome de Macabeu (do sírio maqqaba “martelo”), em reconhecimento da sua bravura em combate.
Podemos ler no livro dos Macabeus, que o rei Antíoco concedeu a Simão Macabeu o direito de emitir moeda  depois da revolta vitoriosa dos asmonianos, (também dito asmoneus ou asmoneanos).
Simão o ultimo filho de Matatias foi assassinado no ano 131 a.C., o sacerdotismo assim como o comando militar passou aos seus descendentes por herança.
Na época, a moeda seleuca perdeu em peso e encontrou-se com tetradracmas com menos de 15grs..
Antíoco VII (138-129 a.C.),  ao perder a Judeia permitiu a Hircano I, terceiro filho de Simão restabelecer em seu favor o título de rei. 
Hircano escreveu o seu nome em pequenas moedas copiadas dos Ptolemeos  e dos Selêucidas.

 Judeia, Hircano I
Prutá bronze, Jerusalém, cerca de 132-130 a.C.
Anv. Ancora invertida e legenda.
Rev. Flor de lírio.
Ref. Hendin 1131, SGCV II 7101,


Do reino de Alexandre Janeu  (104-78 a.C.), chegaram até nos moedas bilíngues, as legendas hebraicas são repetidas em grego.

 Judeia Alexandre Janeu
Prutá, Jerusalém 104-78 a.C.
Anv. Flor de romã e legenda hebraica, Alexandre  rei
Rev. Âncora e legenda grega
BAΣIɅΞΩΣ  AɅEΞANΔPOY(Rei Alexandre)
Ref. Hendin 467, Mesmorer 5

Os asmonianos praticavam uma política expansionista de conversão ao judaismo e governaram até antes do ano 40 a.C.. Eles submeteram os Idumeus.     
As moedas, pelo tipo, acomodam-se aos seus preceitos religiosos. A unidade monetária o “prutah” estava em ligação com o dracma Ático.
Um dracma de prata equivalia a 168 prutás de bronze ou 6 obolos de prata.

 Judeia, Aristóbulo I, Prutá, 104-103 a.C.
Anv. Legenda hebraica no interior de uma coroa
(o sumo sacerdote e o conselho dos judeus)
Rev. Romã e cornucópia dupla .
Ref. Hendin 1143 

Durante a guerra cívil dos príncipes hebraicos Hircano I e Aristóbulo I, estes chamaram um mediador. Foi Pompeio, que na época acampava na região de Damas, o escolhido.

 Sexto Pompeio, Denário, Roma 137 a.C.
Anv. Roma com capacete à direita  X = 10 Asses.
Rev. SEX POM FOSTLVS - ROMA
 Loba amamentanto Rómulo e Remo,  árvore e pastor.
Ref. Crawford 235/1c,  Syd 461a

Foi como pacificadores que os romanos entraram na Palestina.
Com a ajuda de  Roma, Herodes que era Idumeu subiu ao trono da Judeia e manteve-se 33 anos no poder.
A sua dinastia identificou-se com a dos seus mestres romanos.
Herodes foi um déspota muito cruel e tornou-se impopular. Mesmo levando uma existência pagã ele obsteve-se de pôr a sua imagem nas moedas.
As suas moedas (em bronze) têm legendas em grego e, a águia que nelas figura faz alusão à águia de ouro que mandou erigir no cimo do templo.
Os tipos mais utilizados são: a palma, cornucópia, águia, e por vezes uma data e uma marca de valor. A legenda  é, BASILEOS HERODOU.

 Herodes (o Grande), Prutá, Jerusalém 37- 4 a.C..
Anv. Cornucópia, BASILEOS HERODOU.
Rev. Águia com as asas abertas.
Ref. JD59278, Hendin1175, Meshorer TJC 62, F.

 Herodes (o Grande), Prutá, Jerusalém 37- 4 a.C..
Anv. BACILEOS HERODOU no interior duma coroa
Rev. Âncora no interior de un círculo com raios.
Ref. JD55127, Hendin 1175, Meshorer TJC 62, F.
    
Em contrapartida o seu irmão Filipe natural de um pequeno estado montanhoso, vivia à moda grega e, colocou a sua efígie nas moedas à maneira dos príncipes Helénicos.
Foi a primeira vez que nas moedas judaicas apareceu uma figura humana.

Filipe AE 22, cunhado em Cesareia sob o reinado de Augusto no ano 12
Anv. Busto de Filipe à direita, KAICAPI CEBACT.
Rev. Templo de Augusto, ΦIɅIППOY TETPAPXOY,
entre as colunas, LIB
Hendin 1221, Mesmoer AJC 3

Roma perante as queixas violentas que se elevavam contra os Herodes acabou por nomear um procurador por volta do ano 6 d.C..
O regime dos procuradores bem aceite ao princípio, degradou-se e chegou aos limites do razoável com Pilatos que no ano 18 confiscou o tesouro do templo para financiar a construção de um aqueduto em direção a Jerusalém.  

 Jerusalém, Ponce Pilatos, Prutá, cunhado no ano 16
Anv. Simpulum (concha) TIBEPIOY KAICAPOC LIS
(Tibério César ano 16 ).
Rev. Coroa de flores.
Ref. Hendin 649
(O Simpulum (concha) era utilizada durante as “libações” : cerimónia religiosa entre os pagãos, que consistia em provar vinho e entorná-lo sobre a ara do sacrifício em honra de uma divindade.)

Jerusalém, Ponce Pilatos, Prutá cunhado no ano 16
Anv. Simpulum, TIBEPIOY KAICAPOC LIS (Tibério César ano 16)
Rev. Três espigas de cevada, IOYɅIA KAICAPOC
(Júlia, César) Ref. à mãe de Tibério.
Ref. Hendi 648

Foi uma época em que algumas seitas religiosas apareceram.
Essas seitas correspondiam ao que nós hoje chamamos partidos políticos.
Os Fariseus opunham resistência aos romanos, os Zelotes eram terroristas extremistas. O cristianismo era uma dessas seitas.
Os procuradores que controlavam a Judeia, respeitavam a susceptibilidade dos judeus e, as moedas cunhadas na Judeia não têm efígie: apenas o nome do imperador e alguns símbolos judaicos.
Houve 14 procuradores e todos eles tiveram a sua residencia principal em Cesareia.
Seis deles cunharam moedas em bronze “o pruta”(66 prutas = um denário), os tipos eram os habituais: a espiga, palmas, vasos e cornucópias.

PROCURADORES

Sob Ponce Pilatos encontramos nas moedas o nome  de Tibério.
Chama-se habitualmente o dinheiro de Cristo ás moedas de Tibério, que diz respeito à famosa cena ilustrada onde Jesus pergunta:”de quem é esta imagem ?”.
A resposta, “de César” e onde ele pronunciou a célebre frase: “dai a César o que pertence a César”.
   
(Desde o início do Império Romano com o imperador Augusto, “CAESAR”(César) passou a ser um título honorífico tomado por grande parte dos imperadores. Mais tarde, AVGVSTVS “ Augusto” também foi  um título honorífico.) 
   
Do ano 37 ao ano 44, Roma submeteu-se a Herodes Agripa, neto de Herodes o Grande. (Foi ele que se ocupou da educação do seu neto em Roma).

Jerusalém, Herodes Agripa, Prutá, 37- 44
Anv. Guarda sol com franjas,
AГPIПA BACIɅEWC (Herodes Agripa)
Rev. Três espigas de cevada, LS
Ref. Hendin 553

Herodes Agripa, tomou o título de rei para reinar na Palestina por vontade do imperador Cláudio.
Judeu em Jerusalém, em Cesareia ele vivia como em Roma. Agente de execução dos romanos, ele foi amado e venerado pelo povo a quem deixou boas recordações.
As suas moedas cunhadas em Jerusalém com um guarda sol, três espigas e sem efígie, eram para cirular na Judeia.
As moedas com a sua efígie destinadas a circular fora do território judaico, eram cunhadas em Cesareia.
Algumas moedas tem duas mãos juntas  e atestam a aliança com Roma, noutras podemos ler “PHILOROMAIOS” (amigo dos romanos).
À sua morte no ano 44, o seu reino foi anexado à província romana da Palestina.
No ano 66, os judeus exasperados pela ação do procurador Florus revoltaram-se. Tudo começou por uma contestação entre gregos e judeus, para o estabelecimento da autoridade administrativa municipal de Cesareia.
Florus culpou os judeus e depois disso extorquiu o tesouro do templo. A revolta durou quatro anos.
A queda de Jerusalém está imortalizada nos sestércios bem conhecidos, que mostram a Judeia personificada por uma mulher junto de uma palmeira  e a legenda IVDAEA OU IVDEA CAPTA.

 Vespasiano, Sestércio, Roma ano 71
Anv. busto de Vespasiano à direita
.IMP CAES VESPASIAN AVG P M TR P P P  COS III.
Rev. Vespasiano em pé com uma lança na mão direita, 
um pé apoiado num capacete, uma palmeira, e a Judeia
simbolizada por uma mulher sentada  chorando.
IVDEA CAPTA  SC
Ref. RIC (1962) 427, Cohen 239, BMC 543

Foi durante a primeira revolta contra a autoridade romana dos procuradores, que apareceu o primeiro chekel judaico: “sinal de independência”.
O metal (prata) era fornecido pelo tesouro do templo de Jerusalém.
Quando a cunhagem monetária começou a partir do século IV a.C., alguns chekels foram cunhados na Fenícia.
Todavia, nenhum chekel foi cunhado na Terra da Promissão: as forças Sírias, Persas ou Romanas nunca o permitiram.
A folha de palmeira que figura em diversos tipos monetários da revolta judaica 66-70, apresenta um carácter Messiânico.
Estas emissões que são moedas de urgência, umas têm o nome de Jerusalém outras o nome de Sião.
A referência ao nome da cidade santa é normal, porque estas moedas serviam para pagar o imposto ao templo.
No anverso do primeiro chekel judaico, figura a legenda “Chekel de Israel” com a data por cima de um cálice.
No reverso está gravada uma planta em flor com três frutos (romãs) e a legenda “Jerusalém a Santa”.

Jerusalém, Shekel AR.
Cunhado na primeira revolta judaica contra Roma em 68.
Anv. Cálice, e  Shekel de Israel,  3(ano).
Rev. Três romãs e legenda (Jerusalém a Santa).

É um espetacular testemunho do espírito desesperado da nação judaica para ascender à liberdade e independência, de toda a dominação estrangeira.
Depois de uma dolorosa afronta, o exército romano sob o comando do imperador Tito, pôs fim ao Estado de Israel e destruiu o templo no ano 70.
A fortaleza de Massada nas montanhas da Judeia, ainda resistiu mais de três anos.
No reinado do imperador Adriano em 133, uma segunda revolta sob a  direção de Simão (BAR KOCHBA) teve lugar mas, apesar de algumas vitórias ao princípio, conduziu à submissão definitiva da Judeia.

SEGUNDA REVOLTA

 Simão Bar Kochba, Dracma, 132-135 
Anv. Simão em hebraico dentro de uma grinalda feita com amêndoas.
Rev. Ramo de palmeira (simbolizando a festa  dos tabernáculos no templo),
e legenda hebraica “Pela Liberdade de Jerusalém” 
Ref. SH28931, hendin 1416 

 Simão Bar Kochba, Dracma, 134-135
Anv. Simão em hebraico dentro de uma grinalda
Rev. Jarro, palma e legenda hebraica, “Pela Liberdade de Jerusalém”
Ref. SH42161, Mildeng 79, Hendin 1418

Depois da destruição do segundo templo o povo judeu ansiava reconstruí-lo.
O anúncio feito por Adriano para a construção de um templo pagão no sítio do antigo, foi o detonador da revolta .
Rabbi Bem Akiba, filósofo e doutor de leis morto no ano 135 na revolta, considerava Simão como filho de estrela, alusão ao “Messias” anunciado no velho testamento.
Ele escreveu assim: “ja tudo existiu antes”, que nós agora interpretamos “a história é um eterno recomeço”.
O nome do federalista Simão aparece em alguns denários romanos carimbados.
Esta revolta foi o último sobressalto de independência antes da nascença do atual Estado de Israel em 1948.
Simão que tinha tomado o comando da insureição com Eleazaro, foi  derrotado pelas forças romanas em Betânia no ano 135 num pavaroso massacre.
(A Judeia arruinada parecia um deserto sob uma floresta de forcas).
Os denários romanos carimbados da segunda revolta, tem diferentes símbolos que fazem referência ao templo de Jerusalém: cítarras,  trombetas, cachos de uvas, folhas de palmeira, coroas de louro e cálices. A legenda é sempre, “liberdade de Israel”.     
Estas moedas circularam pouco tempo, é por essa razão que elas chegaram até aos nossos dias muito bem conservadas.

 Simão Bar Kochba Shekel (tetradracma) AR.
Anv. templo com quatro colunas encimado por uma estrela e a legenda, Simão.
Rev. Vaso com quatro ramos e Liberdade de Jerusalém.

A grandeza do Estado Judaico não era mais que espiritual, a sua população nunca ultrapassou um milhão de habitantes. Todavia, fora da Judeia, havia sete a oito milhões de judeus.
Na época de Moisés algumas comunidades israelitas estabeleceram-se perto do Nilo.
Cório autorizou que regressassem à Palestina, mas numerosos elementos ficaram na Mesopotâmia, outros serviram no exército de Alexandre e, muitos outros ficaram na Itália.
Roma e Alexandria eram dois centro judaicos muito importantes.
A origem da comunidade judaica de Alexandria provinha do reinado de Ptolemeo I (319 a.C.), que depois da tomada de Jerusalém transferiu um grande numero de pessoas para o Egito.
O primeiro centro de comunidade judaica de Roma, provinha dos prisioneiros feitos na guerra contra os seleucidas, e aos quais Pompeu (ou Pompeio) deu a liberdade.
Quanto aos seleucidas, eles transferiram a população de algumas cidades e vilas judaicas que foram saqueadas, para fundarem algumas colónias na Lídia.
No fim do primeiro século a.C., um judeu em cada quatro vivia na Palestina.

PROCURADORES ou GOVERNADORES
DA JUDEIA

  Coponius, primeiro procurador da Judeia,  (reinado de Augusto).
Prutá cunhado em Cesareia, no ano 6
Anv. Espiga de cevada e KAICAPOC (de César).
Rev. Palmeira- L ɅL
Ref. Hendin 1328

 Marcus Ambibulus, procurador sob Augusto.
Prutá cunhado em Cesareia no ano 9
Anv. Espiga de cevada e KAICAPOC (César).
Rev. Palmeira-L  ɅO
Ref. Hendin 1329

Valerius Gratus, procurador sob Tibério.
Prutá cunhado em Cesareia no ano 17.
Anv. Ramo de videira com um cacho de uvas, IOYɅIA (IOULIA) .
Rev. Ânfora, L A
Ref. Hendin 1336, Meshorer TJC 326.


  Ponce Pilatos, procurador sob Tibério.
Prutá cunhado em Cesareia no ano 30
Anv. Simpulum, TIBEPIOY KAICAPOC (Tibério César)
Rev. Grinalda – LIS
 Ref. Hendin 1342, Meshorer TJC 333

Antonius Felix procurador sob Cláudio.
Prutá cunhado em Cesareia no ano 54
Anv. Dois escudos e duas lanças entrecruzadas
NEPW KɅAV KAICAP (Nero Cláudio César).
Rev. Palmeira,  BPIP(Britanicus)L IA KAI
Ref. Hendin 1348, Meshorer TJC 340

  Porcius Festus, procurador sob Nero.
Prutá cunhado em Cesareia em 59/60
Anv. Coroa de flores, NEP/WNO/C (Nero)
Rev. Palma, KAICAP (César) L E
Ref. Hendin 1351, Meshorer TJC 345.

MGeada
Bibliografia
Anatole France; Le procurateur de Judée, éditions A. Ferroud, Paris 1919
Hayon; Ruben Maurice-La construction de l’histoire juive, éditions du Cerf, 1992.
Hayon; Ruben Maurice-Gnosticisme et judaisme, éditions Cerf, 1992.
Au Temps des Hébreux de 40 a.C. a  70 d.C.- Hachette Paris 1984
Renaud; Alain-L’impéralisme romain en Judée: De la paix d’Apamée a la conquete de Jérusalem par Pompei, Paris, 1992

sábado, 25 de maio de 2013


Tartarugas de Egina 

 
Segundo os historiadores, foi a ilha de  Egina o  primeiro dos estados da Grécia Antiga, (na Europa),  a cunhar moeda.
Fédon 675-?655, o mais conhecido dos reis de Argos, grande reformador de pesos e medidas, mandou cunhar  as primeiras moedas de prata de Egina.
Com uma tartaruga marinha no anverso, o reverso dividido em várias seções (por vezes no interior de um quadrado côncavo) e anepígrafes, estas moedas em pouco espaço de templo ultrapassaram as fronteiras da ilha e do mundo grego da época. 
Receberam  o nome de obolos, por terem substituído nas transações comerciais os obeloi (espetões de ferro).
Muitas destas barras foram encontradas no templo de Hera em Argos, atadas em feixes de seis, que constiuíam na época um dracma: nome que se nos referirmos à etimologia significava o que se podia conter numa mão fechada: um punhado de seis obeloi.


Uma das muitas lendas diz-nos que Egina tirou  o seu nome de Aegina,  filha do deus rio Asopo, (Pausãnias, II, 20,2; Apolodoro, III, 12,6).
A mesma lenda também atribui a colonização da ilha a emigrantes vindos de Fliunte: no entanto os eginetas consideravam-se argivos originários de Epidauro.

É certo que a ilha foi frequentada por embarcações fenícias,  e foi sem dúvida, devido aos seus contatos e à esterilidade do seu solo, que os eginetas se dedicaram ao comércio marítimo e à venda ambulante.
Heródoto (II, 178) , fala das relações dos  eginetas com o  Egito.
Foram um dos povos que deram origem à cidade de Naucratis no Egito, e que  por cerca do ano 563, construíram nesta cidade para os cidadãos gregos, um templo dedicado a Zeus.  

Os seus barcos forneciam todo o Peloponeso com mercadorias do Oriente.
Tudo isto leva-nos a concluir  que a origem da moeda na  Egina foi uma necessidade comercial, e ao mesmo tempo compreender a razão porque Fidon escolheu Egina para inaugurar a sua reforma há muito pensada, e à cunhagem de uma moeda oficial.

Egina era o centro comercial mais importante da Grécia Meridional, e deu origem a que o sistema monetário egineta ou fedoneano, se alargasse ao Peloponeso, grande parte das ilhas Egeias, e manteve-se como a principal unidade monetária em toda esta  região, até ao fim do século V a.C..

Protegida das invasões pela sua situação insular, Egina era não só um vasto centro comercial, como também o berço de um movimento artístico, conhecido na história da arte grega,  por  Escola Egineta.
Basta percorrer a lista dos artistas eginetas desde Calon cerca de 530 a.C., Onatas cerca de 490-460 a.C., e outros,  para compreendermos o extraordinário desenvolvimento da ilha e da sua supremacia sobre todo o Peloponeso, durante a época a que nos referimos numismáticamente: “as Tartarugas de Egina”.

As célebres esculturas do templo de Afaia que fazem a glória dos museus de Londres e Munique, são o fundamento de um dos capítulos essenciais da história da arte grega, e representam a expedição des Eácidas contra Tróia, sob o comando de Atena, e o combate dos gregos e troianos em  volta  do corpo de Pátroclo (um dos personagens principais da Hilíada).
As técnicas eginetas, em particular  a da fundição do ferro era famosa em todo o mundo helénico, (Pausãnias (V, 25, 13; VII, 5, 5) .

Logo que Atenas constituíu a sua frota e começou a desenvolver o seu comércio marítimo, Egina declarou-lhe guerra.
Heródoto, dá-nos muitos pormenores sobre esta longa e persistente rivalidade entre as duas cidades, originada  pelo domínio do comércio marítimo.
Aquando do conflito entre Beócia e Atenas no fim do século VI a.C., Beócia pediu auxílio a Egina que lhe enviou a sua frota, e juntos  devastaram a Costa de África, numa guerra que persistiu por diversas razões, e com algumas  interrupções até à invasão de Xerxes I no ano 480 a.C., (Heródoto, VIII, 46, 93) .
Numerosa  e forte teria que ser a armada egineta, que aquando da Batalha de Salamina ainda tinha trinta barcos, e destacou-se pela sua tecnica e bravura no combate. (Herodote, VIII, 46, 93).

Peso das moedas que circularam  em Egina
no período anterior a 480 a.C..


Didracma ou estáter---------------------------12,00  a  12,57 grs.  
Dracma------------------------------------------6,00   a    6,28 grs.
Triobolo(hemidracma)-------------------------3,00   a    3,14 grs.
Diobolo-------------------------------------------2,00  a    2,09 grs.
Tremiobolo---------------------------------------1,57  a    1,50 gr.
Óbolo---------------------------------------------1,00   a    1,04 gr.
Hemiobolo---------------------------------------0,50   a    0,52 gr.
Tartemorion------------------------------------- 0,25  a     0,26 gr.

O peso efetivo das moedas encontradas confirmam os dados aqui apresentados, porque se excluirmos dois estáters do museu britânico que por casualidade  têm 13,69 grs. e 12,96 grs. e alguns (raríssimos) entre 12,60 e 12,75 grs., a maioria dos estáters de Egina não excede 12,57grs. e, um caso único (conhecido) com apenas 12grs..
As moedas de Egina, Atenas, Corinto e outras cidades que tinham curso internacional e não apenas local, apresentam uma grande uniformidade de tipos.
Em Egina, foi a  tartaruga marinha, sem dúvida muito abundante nas costas da ilha, a escolhida para o seu brasão.

Estáters tipo tartaruga marinha


 Carapaça lisa, 550-520 a.C. 12,04 grs.


  
 Carapaça lisa, 520-510 a.C. 12,04 grs.

Estas moedas foram classificadas em diferentes grupos segundo o estilo da moeda, arcaico ou clássico.
Os critérios desta classificação são a regularidade do seu contorno, mas também o aspecto da tartaruga no anverso.
A carapaça pode ser completamente lisa, ou marcada por uma linha de pontos, dispostos no sentido vertical, tal como uma espinha dorsal.

Carapaça com uma linha de pontos

 Carapaça com uma linha de pontos.
510-500 a.C.  12,15 grs.


 Carapaça com uma linha de pontos.
510-485 a.C.  12,04 grs.

Sobre as moedas consideradas mais recentes, nota-se que a carapaça da tartaruga tem um contorno quase triangular em forma de escudo, e a parte superior cortada horizontalmente.
As tartarugas ditas do último estilo, têm uma carapaça com a espinha dorsal marcada por uma linha de pontos, aos quais se juntam mais dois laterais perto do pescoço, formando assim uma cruz ou um T.
No reverso o número de secções (de quatro a oito)  também é um elemento essencial para determinar a data da moeda.

Carapaça em forma de escudo


 Carapaça em forma de escudo
Cerca de 525-500 a.C.  12,36 grs.

Deste tipo de tartaruga (raríssimo) carapaça em forma de escudo, após inúmeras pesquisas, e alguns  contactos pessoais, apenas consegui esta foto  do C. N. G.
(Classical Numismatic Group).

Carapaça em forma de T


 Com uma linha de pontos em forma de T
cerca de  510-490 a.C. 12,28 grs. 4

    
 Com uma linha de pontos em forma de T
cerca de 460 a.C. 12,18 grs.  10

Origens artísticas do tipo com a  tartaruga de Egina

Qunhadas em enorme quantidade, ao examinarmos as séries monetárias com a tartaruga de Egina, ficamos surpreendidos porque motivo uma cidade à frente de um comércio tão importante, com uma escola de escultura tão famosa, produziu durante dois séculos moedas tão imperfeitas .
Na Egina, a moeda permaneceu simplesmente um instrumento comercial, um produto da indústria ao serviço dos comerciantes, e  não tomou contato com o movimento artístico.

Quanto à razão porque  a tartaruga marinha é representada nas moedas de Egina, os historiadores pensam que a abundância deste animal nas costas da ilha, tenha influenciado os eginetas a escolhê-la como emblema heráldico. 
Todavia os mitógrafos não se satisfazem com uma explicação tão simples. Dizem que a tartaruga para os eginetas representava a abóbada celeste: era o símbolo de Afrodite Urânia "Celestial", (nascida sem mãe do esperma de Úrano).        

Segundo (Pausânias VI 25,2), havia em Olímpia uma estátua criselefantina de Afrodite Urânia, uma obra de Fídias (célebre escultor da Grécia Antiga, 490-430 a.C.), que representava a deusa  com um pé sobre a  tartaruga, e por conseguinte incontestavelmente um atributo de Afrodite Urânia.
Ernest Curtis identificou esta deusa  com a Astarte fenícia, deusa titular da navegação e do comércio marítimo (Num. Chron., 1870, p.103).

Alguns historiadores afirmam que os fenícios erigiram um templo dedicado à deusa Astarte, que dominava o mercado e o porto de Egina .
Ernest Curtius ainda vai mais longe, e afirma que  Fidon instalou o seu primeiro ateliê monetário numa dependência do templo de Astarte, e será por isso que  ele escolheu para o anverso das suas moedas um dos atributos da deusa, a “tartaruga marinha”.
No entanto não existe nenhum documento que confirme esta afirmação, provavelmente imaginada com o objectivo de  apoiar a sua tese, ao afirmar que a moeda tem uma origem héraldica.

Se efetivamente esta Astarte (Afrodite) tivesse desempenhado um papel essencial para a cunhagem da moeda (tartaruga), como o afirma Curtis, e que o seu ateliê monetário estava instalado no templo, porque motivo durante essa época em Egina, a deusa ou o seu templo nunca foram representados em moedas?
Fato muito curioso, porque na época romana é muito frequente encontrar no reverso das moedas cunhadas em Egina, a imagem das antigas divindades da ilha.
Se esta afirmação se revelasse exata, como seria possível que os eginetas tivessem cometido tão grande sacrilégio?
Esquecer a deusa protetora da moeda e do comércio marítimo.

    
 Triobolo, = 3 obolos, com linha de pontos
650-600 a.C  3,01grs.22


 Obolo, carapaça lisa
480-460 a.C. 1,14 gr.6


 Hemiobolo, = 1/2  obolo, com linha de pontos
480-457 a.C. 0,52 gr. 30

Contramarcas sobre as moedas de Egina

Se examinarmos com atençao um lote de moedas de Egina anteriores a 480, ficamos admirados ao verificar que existe entre elas um elevado número de peças falsas: têm o núcleo em cobre ou chumbo, coberto com uma fina película de prata.
Os comerciantes de Egina e outros, não se privaram de imitar e falsificar as moedas do poderoso rei de Argos: daí a dificuldade de a fazer receber pelos comerciantes e banqueiros, que eram obrigados a verificar a qualidade de todas as moedas que lhes passavam pela mão, e contramarcá-las com a sua punção (como no tempo da moeda privada), uma marca de garantia.
Encontramos diversas formas de  contramarcas (ou carimbos) de particulares nos  estáters de Egina: palmas, liras, animais, e outros.

Contramarcas (ou carimbos)
Tartarugas marinhas


 Carapaça lisa, século VI a.C.

 Carapaça lisa, 500-480 a.C.

 Carapaça lisa, cerca de 480 a.C.

 Carapaça lisa, 470-460 a.C.

 Carapaça lisa, cerca de 460 a.C.

Última evolução das tartarugas

Após o ano 480 a.C., o aspecto da tartaruga sobre as moedas de Egina mudou.
A carapaça do animal deixou de ser decorada com uma linha de glóbulos, e aparece cunhada com um triplo alinhamento de glóbulos, por vezes autênticas obras de arte. 

Estáters tipo tartaruga terreste

   
 Cerca de 475 a.C.

  
Cerca de 400 a.C.   

Estas são as moedas do conflito entre  Egina e Atenas, quando após a expulsão dos Persas, a luta continuou ainda mais violenta, na qual Egina foi vencida e o seu comércio,  a  indústria, as suas artes, e a sua  moeda ficaram arruinados.
Derrotados uma primeira vez numa batalha naval no ano 460 a.C., os eginetas foram derrotados  numa segunda batalha no ano 456 a.C..
(Na mesma época os seus aliados tebanos também foram vencidos na batalha de Enofita no ano 457 a.C.,)
Depois de vencida e anexada ao Império Ateniense: Egina ficou a pagar um tributo anual, e a  frota ateniense  comandada por Tolmides passou  a dominar toda a costa do Peloneso.

MGeada

Bibliografia
J. Babelon, "La numismatique Antique", Collection Que Sais-Je, 1944
G.K: Jenkins – Monnaies Grecques, 1992.
Ph.: Grierson – Monnaies et Monnayage, Aubier, Paris, 1976.
Vigne: Jean Bruno – La Vie des Monnais Grecques, J. D. Editions, Paris 1998.
Dominique Gerin, Catherine Grandjean, Michel Amandry, François de Callatay – La Monnaie Grecque, Ellipses Édition Marketing S.A., Paris 2001.
Blanchet ; A.- Les Monnaies Grecques, Paris 1894.
Cibray : Gabriel – La Grèce Antique par ses monnaies,  Idon 1988.

http://www.lesitedelatortue.com/monnaies.htm
http://www.romancoins.info/Greece1.HTML#athina
http://www.monnaiesdantan.com/


terça-feira, 23 de abril de 2013



LABIRINTO DE CNOSSOS  

Construído em Creta a partir de cerca do ano 1700 a.C., o Palácio de Cnossos com as suas inumeras salas e corredores entrelaçados, é certamente o “Labirinto de Cnossos” que a mitologia atribui ao Minotauro.
Mas que esconde a lenda do Minotauro? E o palácio, era efectivamente um palácio?
Até ao fim do século XIX, antes da colonização grega, só sabíamos sobre Creta , o que alguns autores antigos  escreveram.
O assunto gira sempre à volta do labirinto e do suposto arquitecto Dédalo, originário de Atenas, forçado a exilar-se por ter assassinado um sobrinho.

Cnossos, estáter-420 a.C..
Anv. Minotauro a correr para a direita.
Rev. Labirinto. 

Astério, (na mitologia senhor das estrelas) rei de Creta, era filho e sucessor de Tectano e de uma filha de Creteo.
Quando Europa chegou à ilha após a sua aventura com Zeus, Astério acollheu-a e, embora não quizesse ter filhos da mulher que tinha sido uma das amantes do deus, casou com ela.
Todavia, tratou e educou como pai os filhos que sua esposa teve com Zeus: Minos, Radamanto e Sarpédon.
Após a morte de Astério, Minos baniu os irmãos que lhe contestavam o trono: afirmou que tinha recebido aprovação dos deuses para reinar e, para confirmar, declarou que obtinha todas as realizações dos seus anseios.
Prometeu então a Poseídon (Neptuno dos romanos) se o ajudasse, sacrificar em holocausto o primeiro animal que saísse do mar.
Quiz o destino que fosse um magnífico touro branco como ele nunca tinha visto.
Ao ver o majestuoso animal, Minos recusou sacrificá-lo, e ofereceu a Posídon um mais comum.
O “Deus do Mar” que não ficou contente com a troca de animais, decidiu vingar-se e  pediu a Afrodite (Vénus), para fazer o necessário para o castigar. Foi assim que a “Deusa do Amor” inspirou a Pasífae (ou Pasífaa) esposa de Minos, um amor irresistível pelo touro branco, ao ponto de tencionar copular com ele mas: como fazer?

Cnossos, estáter-420 a.C..
Anv. Minotauro a correr para a esquerda.
Rev. Labirinto.

Vivia então em Cnossos, Dédalo um famoso arquiteto a quem Pasífae pediu que lhe construisse uma vaca  tão perfeita que enganasse o touro, e na qual  ela  se pudesse esconder e copular com ele.
O touro ao ver a estátua tão perfeita, pensou tratar-se de uma verdadeira vaca,  e assim a rainha conseguiu concretizar o seu desejo.

Cnossos, estáter-cerca de 350 a.C..
Anv. Ariana ou Afrodite? à direita no interior de um labirinto.
Rev. Zeus sentado num trono com um cetro na mão direita.
   
Pasífae deu à luz um monstro. “O Minotauro”; tinha corpo de homem e cabeça  de touro: alimentava-se com carne humana, e colocou por conseguinte um grande problema ao rei Minos.
Este, em primeiro mandou-o acorrentar, mas o touro era tão forte que quebrava todas as correntes.
O rei pediu então ao arquitecto Dédalo, que lhe construísse junto ao seu palácio um complexo com numerosos corredores e salas emaranhadas, com formas tão complicadas, para que ninguém (homem ou animal) uma vez dentro, não mais pudesse encontrar o caminho para sair.
Era  o “LABIRINTO”. 
(Ele mesmo por ter desagradado ao rei, encontrou-se lá perdido com seu filho Ícaro,  e foi através dos ares que conseguiu evadir-se ).
Egeu rei de Atenas, após ser derrotado numa guerra contra Creta, ficou a pagar  um tributo no qual também eram incluídos, sete rapazes e sete raparigas que Minos metia no labirinto, para servirem de repasto ao minotauro.
Aquando do envio do terceiro tributo, Teseu filho do rei Egeu que estava presente, pensou que era tempo de terminar com tão grande barbaridade, decidiu tomar o lugar de um jovem e assim rumou para Creta.

Cnossos, estáter-III século a.C..                                                  
Anv. Hera com o stéfanos na cabeça à esquerda.
Rev. Labirinto e legenda

Na viagem da ida utilizou no seu barco velas pretas. Para o regresso se vencesse o Minotauro, ulilizaria velas brancas que o pai lhe tinha oferecido.
Chegado a Creta, a bela Ariana filha de Minos apaixonou-se por Teseu, e como ele estava decidido em matar o Minotauro, ela consentiu ajudá-lo e ofereceu-lhe uma espada.
Combinaram então utilizar uma astúcia bastante simples para que Teseu encontrasse o caminho de regresso, após ter executado a difícil tarefa.
Apenas lhes fazia falta um novelo de fio.
Ariana ficou à entrada do labirinto segurando o novelo que ia desenrolando à medida que o seu bem-amado avançava.
Teseu que encontrou o Minotauro adormecido, matou-o com um único golpe de espada na cabeça, e  libertou os jovens rapazes e raparigas.
Para o regresso, apenas teve que seguir o fio que Ariana segurava firmemente, e todos saíram sem dificuldade do labirinto.
Ao ter conhecimento que os atenienses tinham fugido, Minos pensou que eles só podiam ter conseguido com a ajuda de Dédalo.

Cnossos, estáter-320-300 a.C.
Anv. Deméter à direita.
Rev. Labirinto, seta e aljava.

Em consequência, prendeu o pai e filho no labirinto para confirmarem  a excelência do plano, dado que sem indicação nem o seu autor podia  encontrar a saída.
Minos certamente não contava com a imaginação do arquiteto, que de seguida disse ao filho.
A nossa fuga pode ser  dificultada por  terra ou por  água  mas,  os ares e o céu estão livres, e daí fabricou dois pares de asas que fixaram com cera de abelha nos ombros.
Antes de levantarem voo, Dédalo aconselhou o filho para não voar muito alto, pois ao aproximar-se do sol, a cera podia derreter e as asas caírem.
Ambos se elevaram sem grande esforço e saíram de Creta mas, o entusiasmo com este novo e maravilhoso poder incitou Ícaro a subir cada vez mais e, recusando ouvir os conselhos do pai, as asas descolaram-se e caiu ao mar.
O pai aflito continuou voando até à  Sicília, onde foi recebido pelo rei Cocálos.
Furioso com esta fuga, o rei Minos decidiu procurá-lo. Para isso, lançou um desafio que só um homem como Dédalo podia ganhar.
Prometeu grande recompensa a quem fosse capaz de passar um fio no interior da conha dum caracol.
Coisa muito fácil para Dédalo, que  atou um fio à pata de uma formiga e esta entrou por um lado deu a volta à espiral, e saíu pelo outro..
Minos soube então do paradeiro do arquiteto, mas como Cocálos recusou a entregar-lhe o seu hóspede, deu origem a uma guerra entre a Sicília e Creta.

Cnossos, estáter-200 a.C..
Anv. Apolo com coroa de louro à esquerda.
Rev. Labirinto circular e legenda.

Uma redescoberta

A partir de 1894, o arqueólogo Sir Arthur Evans percorreu a ilha à procura de vestígios deste período e, foi sob alguns vestígios gregos e romanos, que encontrou numerosos testemunhos da civilização cretense. 
Em 1900, Evans iniciou as escavações no Palácio de Cnossos.
Os trabalhos depressa se averiguaram frutuosos trazendo  à luz do dia, uma profusão de salas e corredores, que permitem iluminar e creditar as lendas com novos elementos
Uma arquitectura tão complexa, é sem dúvida a origem das lendas mitológicas sobre o labirinto, tanto quanto, numerosos frescos e esculturas representando touros foram encontrados no local.
Porque será que o palácio tem gozado de tão negativa reputação?
Talvez na realidade nem fosse um palácio, mas um santuário onde as vítimas eram imoladas, ou mesmo um local sagrado que servia de cemitério.

                                  Palácio real ou mausoléu?

Muitos arqueólogos contestam que os grandiosos vestígios posto à luz do dia por Evans, fosse um palácio habitacional: a sua localização náo é muito propícia para esse efeito.
Muito exposta e difícil de defender, não concorda com o espírito da época em que os gregos e egeus, efectuavam constantemente raides e invasões no Mar Mediterrâneo.
Além disso, as fontes de água são poucas em redor do palácio, o que daria origem a grandes problemas para abastecer a população em caso de cerco.
Quanto às salas: durante muito tempo designadas como apartamentos reais graças aos objectos encontrados: são apenas subsolos húmidos, e desprovidos de janelas.


Cnossos, estáter-200 a.C..
Anv. Zeus ou Minos? com coroa de louro à direita.
Rev. Labirinto e legenda.

Imaginamos mal um rei instalar-se ali intencionalmente.
E por último: o palácio não tem cozinhas nem cavalariças, particularidade difícilmente concebível, para um edifício desta importância.
Segundo o arqueólogo alemão Hans Georg Wunderlich, o palácio terá sido um imenso mausoléu destinado a receber, mas nunca terá sido habitado.
Os enormes potes de terra que se supunha  terem contido grãos ou óleo; são urnas onde os cadáveres eram conservados com mel.
Do mesmo modo, os silos em pedra são sarcófagos, e as canalisações, uma instalação que permitia trazer os fluídos necessários para embalsamar os corpos.
Teoria sedutora que faria do mítico Minos, uma figura alegórica da morte evidentemente temível.
No entanto, tal explicação confronta-se com um grande obstáculo, porque não foram encontrados nenhuns restos humanos, cinzas ou esqueletos nas ruínas do edifício.
Mas como as esvavações continuam, talvez um dia Cnossos nos revele todos os seus segredos.

Cnossos, estáter-200-150 a.C..
Anv. Atena com capacete à direita.
Rev. Coruja empoleirada numa ânfora, labirinto e legenda.

(Figuras naturais, sinais pré-históricos, cavernas com múltiplas salas e corredores, desenhos naturais de certos mariscos; o labirinto aparece em toda a parte e em diferentes épocas).
Símbolos labirínticos são também observados nas mais antigas gravuras rupestres, mas, a primeira representação verdadeiramente complexa, foi encontrada numa sepultura neolítica  escavada 3 000 anos a.C., perto de Luzzanas (Sardenha).
Um pouco espalhado em todo o mundo, além do exemplo cretense, encontramo-lo também em Cornouailles (França), em Tell Rifaat (Síria) gravado sobre mégalitos entre 1 800 e 1 400 antes da nossa era, e com alguns séculos a menos em Pontevedra na Galiza e Conímbriga.
   
Cnossos, estáter- 420 a.C..
Anv. Minotauro a correr para a direita.
Rev. Labirinto.

As civilizações gregas  e mais tarde as romanas, reproduziram-no um pouco por todo o lado.
Existe simultâneamente na Índia, na  América do Sul, e alguns países nórdicos, (mais de trezentos na Escandinávia).
Geralmente são labirintos com dez a vinte metros de diâmetro desenhados no chão com enormes blocos de pedra . A sua construção estende-se desde o primeiro milénio da nossa era até a alta idade-média.
Jogo, religião ou mágia; o labirinto apareceu mais tarde na iconografia cristã, e encontra-se com alguma frequência no pavimento de algumas catedrais.
Encontramo-lo também  em jardins dos séculos XVII e XVIII, onde o labirinto é por excelência iniciador e conduz ao ponto central que é o encontro.
A prova final onde o homem se encontra confrontado com o nada.

   Labirinto de Luzzanas (Sardenha)

 Labirinto de Micénas-Pilos
(Uma das mais antigas representações conhecidas.)
Museu Nacional arqueológico de Atenas.


  
    Minotauro no labirinto.
   Mosaico romano encontrado em Conímbriga.



MGeada


Bibliografia

Marie-Odile hartmann- Ariane contre le Minotaure; Editions Nathan 2004.
(Les Histoires Noirs de la Mythologie).
Paul de Saint-Hilaire-L’Univers Secret du Labyrinthe; Editions Alphée