sexta-feira, 27 de junho de 2014

Três vinténs
D. João príncipe regente
Três vintens (furado)

Divisa  monetária cujo valor proveio do aumento de 20% sobre a moeda de prata, decretada por D. Pedro II em 4 de agosto de 1688, passando desde então os 400 réis a correr por 480, os 200 por 240 réis, os 100 por 120 réis e finalmente os 50 por 60 réis ou “três vinténs”.

Foi esta a designação que prevaleceu, e como foi esta moeda a escolhida geralmente pelo povo para amuleto da virtude perservativa da castidade das donzelas, que suas mães lhe punham ao pescoço dependuradas num cordão (preto), esse foi o motivo porque uma grande parte dessas moedas aparecem furadas, assim como se ligou o nome dos “três vinténs” aquela virtude.


D. Pedro II, Três vinténs ND (furado)
PETRVS.II.DG.P.ET.ALG.REX
(Pedro II pela graça de Deus rei de Portugal e Algarve)

D. Pedro II, Três vinténs ND (sem furo)
Anv. PETRVS.II.D.G.REX.PORTV.
Rev. IN.HOC.SIGNO.VINCES
(Por este sinal vencerás)

A moeda dos “três vinténs” cunhou-se em quase todos os reinados desde D.Pedro II a D. Miguel 1828-1834, em que foram cunhados os últimos espécimes desse valor.
O seu peso inicial era de 2,16 gramas e ø19mm no reinado de D. Pedro, e terminou com 1,83 gramas e ø18mm no reinado de D. Miguel, sempre com o título de 916,6 milésimos.

Três vinténs (furado)

O que muitos ajuntadores não sabem, é porque grande parte desta simpaticazinha moeda aparece furada.
Os “três vinténs” tornaram-se tão populares ao ponto que as mães parturientes, usavam pô-la ao pescoço das filhas logo que nasciam pendurada num  fio como amuleto, que só retiravam quando casavam, daí a razão do furo.

Alguns rapazes  mais atrevidos quando se aproximavam delas começavam por procurar no pescoço a famosa moedinha e, quando não a encontravam pronunciavam descontentes,“já não tem os três vinténs” ou então, “já lhe tiraram os três”. Tinha chegado tarde, ela já tinha dono.

Num passado ainda recente, quando a virgindade feminina era um atributo quase indispensável para o casamento, era vulgar a expressão que fazia equivaler a existência da ainda virgindade à expressão “Ter os três vinténs” ou,  não.

D. João V, Três vinténs ND, (sem furo)

Anv. JOANNES.D.G.P.PORTUGALIA.ET.ALGarbiorvm.
(João V pela graça de Deus príncipe de Portugal e Algarve)
Rev. IN HOC SIGNO VINCES
(Por este sinal vencerás)

D. João V, Três vinténs ND (furado)
IOANNES.V.D.G.P.ET.ALG.REX
(João V pela graça de Deus rei de Portugal e Algarve)
IN.HOC.SIGNO.VINCES

Caso a menina não fosse virgem dizia-se que ela tinha perdido os “Três vinténs”, ou então quando a  virgindade era  oferecida a um rapaz, o felizardo dizia, “já lhe tirei os três”.

 É difícil de saber qual a origem destas expressões que hoje muitos jovens não conhecem e, numa época em que a mulher  alcançou  tão elevado grau de emancipação, essa expressão seria perfeitamente idiota.

Se consultarmos  um dicionário, o três é um número cardinal formado de dois e mais um, no entanto se nos referimos à expressão popular “os três”, remetemos logo para  o âmbito sexual.   

Na minha pesquisa sobre a origem desta expressão, notei que a vida não era fácil para a mulher que viveu nessa época.
Um período em que grande parte dos casamentos eram de conveniência (por vezes os jovens nem se conheciam) e havia condições a debater sobre o dote, comportamento da rapariga e outras.

Era frequente a família do rapaz exigir um atestado de bom comportamento da noiva, passado por uma autoridade local (geralmente o presidente da junta de freguesia) e, caso tivesse alguma dúvida, podia pedir um atestado de virgindade passado pela parteira, que tinha que fazer o teste de  virgindade.  

D. João V, Três vinténs ND (furado)


Hoje é fácil fazer esse teste, mas no passado, além de ser anedótico, era crucial para as meninas que podiam ter sido elas mesmo a romper o hímen.
Imaginem a parteira colocar  uma moedinha de três vintens sobre o hímen da donzela e se esta passasse para dentro o teste era positivo.

“Três vinténs” também era o preço da comissão da parteira para efetuar o teste.

No arquivo distrital de Viseu existe um documento com data incerta, mas que aparenta ser do início do século XIX, usado como prova passado por uma parteira da época chamada Bárbara Emília natural de Coura (Viseu), a pedido de uma jovem  (Maria dos Prazeres Jacynto Leite Capello Rêgu).   




Atestado de Virgindade

Eu, Bárbara  Emilia, parteira que soy de Coyra, atestu que Maria dos Prazeres Jacynto Leite Capello Rêgu tem as partes fodengas talinqual comu veyo ao mundo inseto uma nóida negra no alto da crica que não sendo de nacenssa é proveniente de marradas de pisa.
Por ser verdade pasei o prezente atestado de virgindade .

Bárbara Emilia das Dores

Outro documento da mesma parteira (do qual não me foi possível encontrar uma cópia) a pedido de Maria de Jesus,  que pretendia libertar-se da difamação de não ser pura, e provar a sua virgindade para contrair casamento.

O documento reza assim :

Atestado de Birgindade

Eu, Bárbara Emília, parteira que sou de Coyra, atesto e certufico pela minha onra que Maria de Jesus tem as partes fudengas talinqual como veyo ao mundo insceto umas pequenas noidas negras junto ao alto da crica que a não serem de nacenssa sarão purvenientes de marradas de piça.

Por ser verdade pasei o prezente atestado de virgindade.
Bárbara Emília das Dores


Estes documentos, verídicos, fazem-nos recordar embora de forma anedótica, a importância que a virgindade tem assumido na nossa e em muitas outras culturas.

D. Pedro IV, Três vinténs ND (sem furo)
Anv. PETRUS IV DG.PORTUG ET ALGARB REX
(Pedro IV pela graça de Deus rei de Portugal e Algarve)
Rev. IN HOC SIGNE VINCES

Outra expressão de “três vinténs”, faz referência ao preço de três vinténs que o homem pagava a partir do século XVI para desflorar uma escrava negra virgem. 

MGeada


domingo, 25 de maio de 2014



A moeda, curiosidade
Poderoso rei do Oriente ouviu um sábio da sua corte discorrer sobre as vantagens da “curiosidade”.

Os elogios aos homens curiosos que se tornaram famosos deixaram o monarca deslumbrado.
Quanto não devia a ciência à “curiosidade” quantas descobertas e invenções.

Inspirado pelas eloquentes palavras, resolveu o rei escolher para o cargo de  primeiro ministro o homem mais “curioso” do país.

Vários candidatos se apresentaram .
Marcado o dia e a hora para as suas provas, encheu-se o salão principal do palácio real de nobres e convidados.

A cada candidato o rei entregou uma moeda de ouro afim de demonstrar ser o mais “curioso”.
As moedas eram rigorosamente iguais no peso, formato e valor.

Os assistentes ao pouco comum torneio, estavam “curiosos” de saber como podia um homem demonstrar talento e perspicácia com a quase nula ajuda de uma moeda.

Não deixava de fato de ser original, o concurso imaginado pelo rei para a escolha do seu primeiro ministro.

Um dos pretendentes começou a examinar o anverso e reverso da sua moeda mostrando-se embaraçado.
Outro muito sério só pesava a sua moeda, e atirava-a para o alto muitas vezes.
Um virava e revirava a moeda procurando descobrir alguma irregularidade.

Outro candidato atirava ao chão a moeda, procurando arrancar ao tinido do ouro algo desconhecido, enquanto outro riscava com a ponta do punhal a sua moeda, mordendo- a depois.

Que pretendiam todos eles cavar daqueles discos de ouro ?

Apenas um conserva os braços cruzados observando os seus rivais.
Sua atitude foi observada pelo rei, que o interrogou por sua calma e passividade.

Respondeu o interprelado : Poderoso Senhor, desisto de ser nomeado primeiro ministro, a não ser que me permita comparar esta moeda que tenho nas minhas mãos, com muitas outras que possuo.

Confesso ter juntado por mera “curiosidade” centenas de moedas do nosso país, que examino frequentemente “curioso” como são diferentes, seja no metal de que foram fabricadas, no valor que nelas está marcado, e quanto foram úteis no negócio entre o povo.

As mais antigas são de ferro ou estanho, ou de cobre ou outro metal bruto.
Essas moedas vêm aumentando cada vez mais a minha “curiosidade”, pois cheguei a verificar que à medida que cresce o bem estar do nosso país, graças ao vosso governo sábio e honesto, apresentam mais belo aspecto.

Vejo todos os dias, movido pelo espírito “curioso”, que todos usam moedas e as trazem em seus bolsas;  muitas parecem sorridentes vendo o vosso real retrato nelas estampado.

Vede, pois, conclui o candidato que não me é possível demonstrar as vantagens da “curiosidade” de que falo, sem ter à minha vista as muitas moedas diferentes que possuo.

Bravo ! exclamou o rei ; pois sois o mais “curioso” e a partir de hoje ocupareis o cargo de meu primeiro ministro.

Foi simples e inesperado o desfecho dessa história que a todos parecia embaraçosa e incerta.

O fino e inteligente candidato ajuntador de moedas por mera “curiosidade” soube tirar da avidez do seu estudo, e das figuras e legendas que nelas se contêm, as palavras bajuladoras que lhe valeram tornar-se primeiro ministro do lendário rei.

Exemplo da vantagem de colecionar moedas, mesmo por mera “curiosidade”, pois foi assim que começaram muitas valiosas e importantes coleções.


 (Adaptado de uma fábula de Malba Than, com alteração no final).


“Não tenho nenhum dom especial, mas sou particularmente curioso!“

“A curiosidade é mais importante do que o conhecimento!”

Citações de Albert Einsten.

MGeada

terça-feira, 29 de abril de 2014

CALÍGULA (Um maluco a governar Roma)

CAIVS JVLIVS CAESAR AVGVSTVS GERMANICVS “Calígula”, terceiro imperador romano (37/41) nasceu em Antium  a 31 de agosto do ano 12, e faleceu em Roma   a 24 de janeiro de 41.

Caligula-Sestércio cunhado em Roma 37-41
Anv. Busto de Calígula laureado à esquerda,
CAESAR AVG GERMANICVS  PON M TR POT
Rev. SPQR PP OBCIVES SERVATOS, no interior de uma coroa de loiro.

Filho do popular Germânico e de Agripina Maior dita a Velha, neto de Tibério por adoção, foi criado entre os legionários comandados por seu pai, que achavam graça ao vê-lo disfarçado de soldado com pequenas caligae (sandálias militares) nos pés, e alcunharam-no de Calígula, alcunha que ele acabou por detestar.

Reinado de Calígula
AE 17, cunhado na Frígia entre 37 e 41
Anv. Busto de Germânico laureado à direita, GERMANIKOS
Rev. Busto de Agripina drapeado à direita,
AGRIPPINA EPI KLAECIKOY AIZANITWN

Segundo Suetónio, Calígula tinha dois anos quando foi enviado para a Germânia para se juntar aos seus pais, e enquanto criança seguiu a sua mãe que quase sempre acompanhou Germânico nas campanhas militares.

Ele e a mãe encontravam-se juntos com o seu pai quando no ano 19, este faleceu misteriosamente no Egito (Alexandria).

(A morte deste grande general continua rodeada de especulações. A hipótese mais aceite é que tenha sido envenenado por Gneu Calpúrnio Pisão governador da Síria, sob as ordens de Tibério que tinha ciúmes pela popularidade crescente do seu filho adotivo)

A morte de Germânico, provocou grandes motins em Roma originados pelas camadas mais pobres da população que o amava, e não acreditava numa morte natural.

Aquando do seu regresso a Roma, Calígula foi em primeiro confiado à sua mãe, e após a   sua relegação, foi confiado à sua antepassada Lívia (esposa de Augusto), até ao ano 29 quando esta faleceu.

Lívia-AE 21 cunhado em Alexandria entre 14-29

Anv. Busto de Lívia laureado à direita
Rev. Duas espigas de trigo e duas papoilas

Calígula contava vinte e cinco anos de idade, quando Tibério o nomeou seu sucessor.
Herdeiro da popularidade do seu pai, este jovem também parecia digno de a merecer.
Criado com a sua avó até aos dois anos, rodeado de escravos egípcios, Calígula reinou como um faraó no Egito.

Calígula-AE 15 cunhado em Corinto 32-33
Anv. Bustos de Calígula virado à direita e Tibério à esquerda, CAES GEM
Rev. Pegaso voando para a esquerda, COK

Generoso, concedeu grandes favores à sua família, ao povo e ao exército.
Baixou os impostos, autorizou livros proscritos por Tibério, concedeu  autoridade aos juízes e restabeleceu os comices das eleições.

Depois de um início de reinado promissor e quando Roma parecia ter encontrado a calma e a paz, no outono do ano 37 uma doença deixou-o quase louco e rápidamente incomodou a classe senatoriale e não só, devido ao seu abuso do poder.

No ano 33 casou com Junia Claudila que faleceu de parto no ano 36.
Quando no ano 37 tomou as rédeas do poder, passava de uma esposa a outra.
Todas as mulheres que teve voluntárias ou forçadas, eram esposas dos seus amigos.
Ennia Naevia, (de Macron chefe da guarda pretoriana), Lívia Orestilla, (de Pisão), Lollia Paulina (do cônsul Memmius).
A sua última conquista  Milónia Sesónia já não era jovem e tinha casado algumas vezes, mas como tinha um temperamento forte, agradou a Calígula sempre ávido de novas sensações.

Na época esta súbita mudança de comportamente foi atribuída a uma doença.

O historiador Suetónio, na “Vida de Calígula”evoca esta loucura devida a uma poção que lhe deu a sua última esposa Milónia Cesónia, que teve como único efeito,  provocar no imperador uma fúria sem limites.

Calígula-AE 27 cunhado em Cartagena (Espanha) 37-41
Anv. Busto de Calígula laureado à direita,
C CAESAR AVG GERMANIS
Rev. Busto de Milónia Cesónia à direita,
ATEL FLAC CN POM FLAC II VIR Q V N C   SAL AVG

Calígula terá mesmo sido vítima  de  doença mental, ou seria o poder supremo que modificou o seu caráter ?

A família foi a primeira a padecer com esta violência : “o incesto com as suas irmãs” que também obrigava a prostituir-se.

Calígula-Sestércio cunhado em Roma, 37-38

Anv. Busto de Calígula laureado à esquerda,
C CAESAR AVG GERMANICVS PON M TR POT.
Rev. AGRIPPINA-DRVSILLA-IVLIA  SC, (as três irmãs de Calígula).

O reverso deste raro sestércio representa as três irmãs de Calígula, Agripina, Drusila e Julia (sob os traços da Securitas, Pietas e Fortuna) com as quais segundo Suetónio  ele teve relações incestuosas.

Calígula que de início lhes concedeu honras Vestais, quando a sua paixão por elas esmoreceu, exilou-as para ilhas longínquas excepto Drusila que escapou a esse destino por ter falecido.

O imperador não admitia ser contrariado e gostava de ser odiado pelo povo.
Mandou matar grande número de inimigos, mas também muitos amigos sob os mais variados pretextos.
(Faz de modo a que eles se sitam morrer, dizia ele aos carrascos).

Conhecido pela sua crueldade com os presos e escravos humilhando-os sempre que possivel, os condenados eram torturados por ele em frente aos seus familiares, que para completar a sua angústia assistiam o imperador tomar posse das vítimas.

Proclamou-se deus assimilando-se a Júpiter, e ordenou que estátuas com a sua imagem fossem colocadas e adoradas em todos os templos romanos e mesmo nas sinagogas em Jerusalém, originando grande conflito com os judeus, que não aceitaram adorar um deus imperador.

Calígula-AE cunhado na Frígia, 37-41

Anv.Busto de Calígula à direita
GAIOS KAISAR
Rev. Zeus (Júpiter dos romanos) em pé com com um cetro na mão esquerda e uma águia na direita,
AIZANITWN EPI MHDHOU

No Egito pretendeu fazer-se adorar como Rá, o deus Sol nesta província romana.
Segundo a lei romana, todos os anos o imperador designava dois novos cônsules : no ano 41 nomeou cônsul o seu cavalo, “Incitatus”.

Um dia num teatro disse em voz alta que desejava que o povo romamo fosse uma só cabeça para que o pudesse decapitar de uma só vez.
“Que todos me odeiem e me temem” (dizia).

Simulou uma guerra contra os germanos e em seguida emsanguentou a Gália.
Quis massacrar algumas  legiões que não concordavam com o seu procedimento, mas assustado com a sua atitude fugiu para Roma.

Ainda segundo Suetónio esgotou os tesouros adquiridos por Tibério, aumentou os impostos ao povo, e entregou-se às mais loucas deboches.

O imperador também aproveitava espetáculos de gladiadores para lançar inimigos às feras, assim como combatentes que demostrassem alguma fraqueza.
Esse comportamento deu origem a que ele fosse odiado por todas as classes romanas.

De todas estas brutalidades Calígula foi acusado, mas também é indubitável que a imaginação dos historiadores como Suetónio por vezes é exagerada.

Durante o seu curto reinado teve que enfrentar  muitas conspirações, mas a última rebelião  fomentada pelos tribunos des coortes pretorianas foi-lhe fatal.

Após quatro anos de reinado no dia 24 de janeiro de 41, Calígula foi apunhalado por alguns membros da guarda pretoriana sob o comando de Cássio Querea (Cassius Chéréas), num tunel que ligava o Palácio Imperial ao Fórum, evento que gerou a cólera do seu tio Cláudio que logo tomou as rédeas do poder e ordenou a execução dos assassinos do sobrinho.

Reinado de Calígula-AE 18 cunhado em Cesareia (Israel) 40-41

Anv. Busto de Milónia Cesónia à esquerda,
KAISWNIA GUNH SEBASTOU
Rev. Júlia Drusila de frente em pé,
DROUSILLA QUGATRI SEBASTOU

Sua esposa Milónia Cesónia assim como a sua filha Júlia Drusila, foram assassinadas ao mesmo tempo que o imperador.

MGeada

domingo, 23 de março de 2014

Heliogábalo (um imperador Gay)

Ao examinarmos a história dos imperadores romanos, notamos que muitos deles foram corroídos por maus vícios e ambição.
Esse excessivo desejo de poder e riqueza originou muitas vezes atos de barbaria inimagináveis.

Muitos imperadores foram grandes tiranos e bárbaros, durante os seus reinados a morte misturava-se com corrupção e deboche, que segundo alguns historiadores também contribuiriam para o declínio  e queda do império romano.

Heliogábalo (Helagábalo), este mal conhecido da história, não tem nada a invejar a Calígula, Nero, Cómodo e outros déspotas. A lista infelizmente é muito longa.

Heliogábalo nasceu em Emeso (Síria) cerca do ano 203, faleceu em Roma a 11 de março de 222.
Sobrinho de Caracala, ainda muito jovem graças à sua formosura foi eleito sumo sacerdote do culto de Baal,  (deus associado ao sol na Síria e  Fenícia).


Heliogábalo- AE 25 cunhado em Selêucia Piéria (Síria),218
Anv. Busto de Heliogábalo laureado à direita.
AYT K M ANTWNICON
Rev. Templo  com quatro colunas e frontão triangular
encimado por uma águia dedicado ao deus Sol  EL  Gabal
com o Bétilo, representando o deus no interior,
CELEVK
(Bétilo : pedra sagrada na Síria e na Fenícia, considerada a morada de um deus e por vezes considerada como um deus.)

É por causa deste culto moneteísta do Sol que a palavra Helio faz parte do seu nome.
Este jovem imperador, impôs em Roma um despotismo cruel e converteu o palácio dos Césares, num teatro de devassidão.

Na sua função de grande sacerdote, adorava oferecer sacrifícios humanos.
Era seu hábito abrir o abdomém de adolescentes de ambos os sexos, de preferência na presença dos pais, para melhor ver as lágrimas e a angústia nos seus rostos. 

Todavia foi tolerante para com todas as religiões incluindo a católica.
Indiferente ao governo do império, só a adoração de Baal parecia interessá-lo e no seu templo praticava todo o tipo de orgias.

O seu nome era provavelmente Sexto Vário Avito Bassiano e como imperador romano adotou o nome de Marco Aurélio Antonino, e só após a sua morte recebeu o cognome de Heliogábalo.

Aclamado imperador pelas  tropas na Síria, a sua vitória sobre Macrino fez dele o líder incontestável de Roma de 218, até à sua morte, 222.

Esta subida ao poder deve-a às intrigas da sua mãe Júlia Soémia e sua avó Júlia Mesa, que para convencer as tropas  disseram  que Heliogábalo era filho do grande Caracala.
Esta estratégia funcionou e são elas que praticamente vão governar Roma. (sobretudo a avó.)

Heliogábalo e Júlia Soémia
AE 27 cunhado em Marcianópolis (Mésia ou Moesia Inferior) 218-222
Anv. Bustos de Heliogábalo e Júlia Soémia drapeados.
AVT K M A P ANTΏNEINOC AY IOYɅIA COVAIMI
Rev. Apolo com uma pátera na mão direita e um ramo na esquerda.
YΠ IOYɅ ANT CEɅEYKOY MAPKINANOΠOɅITΏN  E

Heliogábalo e Júlia Mesa
AE 27 cunhado em Marcianópolis (Mésia ou Moésia Inferior) 218-222
Anv. Bustos laureados e drapeados de Heliogábalo e Júlia Mesa.
Rev. Hera em pé com bastão e patera.
VP IOVL ANT CELEKOV MARKIANPOLITWN

Heliogábalo que é tirano e capricioso, logo de início mostrou sinais de desequilíbrio mental e  as suas estravagâncias que escandalizaram Roma, rápidamente esvaziaram os cofres do estado.

Durante o seu reinado (e de Júlia Mesa), a morte fazia parte do quotidiano romano, e quem fosse contra este duo era eliminado. Muitos aristocratas romanos compreenderam-no demasiado tarde, e pagaram o seu desacordo com a vida.

Provocou ainda mais ultraje quando casou com Júlia Aquila Severa (virgem Vestal), dizendo que o casamento iria dar origem a crianças parecidas com os deuses e, sendo ele de origem síria e sumo sacerdote do deus sírio Sol Invictus Elagabal, segundo um costume oriental devia unir-se a uma sacerdotisa.

Heliogábalo-Denário cunhado em Roma, 218-222
Anv. Busto de Heliogábalo laureado e drapeado à direita.
IMP ANTONINVS PIVS AVG
Rev. O Sol a caminhar para a esquerda.
P M TR P III COS III P P

Heliogábalo-Denário cunhado em Roma, 221-222
Anv. Heliogábalo laureado e drapeado à direita.
IMP ANTONINVS PIVS AVG
Rev. Heliogábalo com um ramo na mão esquerda
e uma pátera na direita, altar aceso e sol.
SVMMVS SACERDOS AVG

Heliogábalo, Denário cunhado em Roma, 218-222
Anv. Busto de Heliogábalo laureado e drapeado à direita.
IMP ANTONINVS PIVS AVG
Rev. Heliogábalo com uma pátera na mão direita,
oferecendo um sacrifício.
SACER D DEI SOLIS ELAGAB

Heliogábalo- denário cunhado em Roma, 218-222
Anv. Busto de Heliogábalo laureado e drapeado à direita.
IMP ANTONINVS PIVS AVG
Rev. Heliogábalo com com cetro na mão esquerda
e pátera na direita.
INVICTVS SACERDOS AVG 

Esta foi uma grande e grave violação da lei e tradição romana segundo a qual, qualquer Vestale que tivesse relações sexuais era decapitada ou sepultada viva.

Diz-se que frente ao povo Heliogábalo recuava com uma grande pedra nas mãos.
Há quem acredite que era um gesto de desprezo : outros veêm uma homossexualidade que ele não escondia, apesar de ter casado e divorciado de cinco mulheres, três (quatro) das quais são conhecidas.

Júlia Cornélia Paula, ainda que nascida  na Síria, era descendente de família nobre da Roma Antiga : (a Gens Cornélia).

Júlia Cornélia Paula 1° esposa
Denário cunhado em Roma em 219
Anv. Busto de Júlia drapeado à direita
IVLIA PAVLA AVG
Rev. Heliogábalo com a toga à esquerda
e Júlia drapeada à direita de mãos dadas.
CONCORDIA
(Toga: peça de vestuário caraterística da Roma Antiga.)

Júlia Aquila Severa (Vestal), da qual   um ano depois divorciou.

Aquila Severa, Segunda   2° e 4° esposa
Denário cunhado em Roma 221
Anv. Busto de Aquila drapeado à direita.
IVLIA AQVILIA SEVERA AVGVSTA
Rev. Aquila Severa drapeada à esquerda e Heliogábalo 
com a toga à direita de mãos dadas.
CONCORDIA

Annia Faustina, descendente de Marco Aurélio e viúva de Pomponius Bassus , assassinado pouco tempo antes por Heliogábalo.

Annia Galeria Faustina, 3° esposa
Denário cunhado em Roma, 221   
Anv. Busto de faustina drapeado à direita.
ANNIA FAVSTINA AVG
Rev. Annia drapeada à esquerda e Heliogábalo
com a toga à direita de mãos dadas.
CONCORDIA

Um ano depois divorciou e voltou a casar com a segunda esposa, Júlia Aquila Severa.

Segundo Dião Cássio, a sua relação mais estável foi com o seu cocheiro, um escravo louro oriundo da Cária chamado Hierocles, a quem Heliogábalo se referia como seu esposo.

Heliogábalo também pintava os olhos, depilava-se e usava perucas para se prostituir em tabernas, bordéis e no palácio imperial.

Tinha agentes que conheciam perfeitamente o tipo de homem que ele procurava, e encarregavam-se de os levar ao palácio, para num local decorado por Heliogábalo satisfazerem as indecências do imperador.

Herodiano (178-252), comentou que Heliogábalo danificava a sua beleza natural por usar demasiada maquilhagem e, que estava disposto a dar metade da sua fortuna, ao médico que lhe fizesse um transplante de orgãos genitais femininos.

Este imperador tem sido frequentemente caracterizado por historiadores modermos como transgénero, provavelmente transexual, apesar de talvez não ser adequando aplicar termos tão culturalmente específicos a alguém que viveu há quase 2 000 anos.

A História de Augusto diz que Heliogábalo também casou com Aurélio Zótico (um atleta de Esmirna) numa cerimónia pública em Roma.

(A causa da morte  do duo infernal “Heliogábalo e Júlia Mesa” está ligada à sucessão.)
Heliogábalo adoptou Alexandre Severo para mais tarde lhe suceder.
Todavia o povo que adorava o jovem Alexandre queria que ele governasse Roma, o que para Heliogáblo e Júlia Mesa fazia dele um adversário a eliminar.

O plano fracassou : o povo exasperado rebeliou-se, e os dois comparsas foram espancados e arrastados pelas ruas de Roma.
O povo tentou atirar os cadáveres ao esgosto, mas como as condutas eram estreitas, finalmente foram atirados ao rio Tibre sem qualquer forma de processo.
Heliogábalo tinha então 18 anos

No entanto este curto reinado é muito rico em realizações numismáticas com moedas cunhadas em seu nome, das suas três esposas, da sua mãe e da sua intigrante avó.

Heliogábalo que de início continuou com a tradição romana, cunhando diferentes deuses e alegórias nas suas moedas, mais tarde terminou com esta propaganda e guardou só uma.  “O deus Sol, Hélio”.

Heliogábalo-AE 17 cunhado na Síria, 218-222
Anv. Busto de Heliogablo com coroa radiada à direita.
AVT ANTWNINOC
Rev. Busto radiado de Hélio (Sol) à direita
MHTRO K EMI CWN

Uma das muitas lendas diz-nos que  foi numa quadriga puxada por quatro cavalos brancos, com arreios de ouro e ricos ornamentos, que o Bétilo foi transportado de Emeso (Síria) até Roma.

Ninguém segurava as rédeas, o veículo avançava  como se fosse o próprio deus o auriga.
Heliogábalo acompanhou o Bétilo durante toda a viagem, sempre virado para o deus.
(Terá feito o caminho retrogredindo).

13Heliogábalo-Áureo cunhado em Antioquia, 218-219
Anv. Busto de Heliogáblo laureado e drapeado à esq.
IMP C M AVR AMTONINVS P F AVG
Rev. Quadriga com o Bétilo a passo à direita e quatro guarda-sóis.
SANCT DEO SOLI ELAGABAL

Heliogábalo-Denário cunhado em Antioquia, 218-219
Anv. Busto de Heliogáblo laureado e drapeado à esq.
IMP C M AVR AMTONINVS P F AVG
Rev. Quadriga com o Bétilo a passo à direita e quatro guarda-sóis.
SANCT DEO SOLI ELAGABAL

Um enorme templo chamado Elagabalium foi construído no Palatino para receber El Gabal, que era representado por um meteorite cónico negro de Emeso.
Segundo Herodiano, esta pedra era venerada como se fosse enviada do céu.
Tinha pequenas saliências (como raios), e o povo acreditava ser a imagem do sol.

Todos os anos no verão havia um ritual dedicado ao deus, que se tornou muito popular graças à comida ali distribuída por Heliogábalo, que obrigava os senadores a dançar juntamente com ele (ao som de tambores e címbalos) à volta do altar do deus SOL INVICTOS.

Durante o festival, o imperador colocava a pedra de Emeso numa quadriga adornada com ouro e joias que desfilava pela cidade.

(Após o assassinato do imperador a população iniciou um violento massacre contra os cristãos, onde o papa Calisto I (há divergências mas,  segundo alguns historiadores) também perdeu a vida.
Este massacre tenderia provar que os cristãos de Roma eram considerados amigos e aliados do sumo- sacerdote de Baal, Heliogábalo).

MGeada

Bibliografia

Zosso ; François – Zingg ; Christien- Les Empereurs Romains, 27 a.C.-476 d.D.. Paris 1984.
Weber ; Frederic-Monnaies romaines, volume I.

sábado, 22 de fevereiro de 2014


FAROL DE ALEXANDRIA


Construído para servir de referência aos navegantes na ilha de Faros, a sua construção que teve início no reinado de Ptolemeu I (Soter) no ano 297 a.C., e terminada durante o reinado do seu filho Ptolemeu II (Filadelfo) 309-246 a.C, durou quinze anos.

Após quase dezassete séculos de atividade, o Farol de Alexandria foi a última das sete maravilhas do mundo antigo a desaparecer, devido aos numerosos sismos ocorridos na região entre os séculos IV a.C. e XIV d.C., particularmente o de 1308 que o deixou em ruínas .

O farol permaneceu  assim até ao final do século XV, data em que o sultão Al-Achraf Sayaf ad-Din Qait Bay, um dos últimos soberanos Mamelucos da dinastia Burji de Alexandria, ordenou a sua demolição para ali construir uma cidadela fortificada: “Qaitbay ou Qaitbey”.

Além da sua função de guia, o farol também simbolizava a magnificiência da cidade de Alexandria com a sua grande biblioteca e a tumba de Alexandre III “O Grande” seu fundador, no ano 331 a.C..

Edificado em pedra branca e granito de Assouão, seria  um edifício de três andares com :
Uma base quadrada ligeiramente piramidal :
Uma coluna octogonal :
Uma pequena torre redonda sobrelevada por uma estátua (talvez Zeus ?) que totalizava uma altura de 135 metros.

Localizado, o farol atualmente está todo cartografado e desde 1994, mais de 3 000 blocos de pedra foram repertoriados.

Uma das construções mais célebres da antiguidade, tardiamente entrou na lista das maravilhas do mundo.
A causa é provavelmente alexandrina e fácil de explicar, porque no momento em que as primeiras listas foram constituídas o farol ainda não estaria totalmente concluído.

As primeiras listas conhecidas mencionam :
As muralhas de Babilónia : 
Pirâmide de Quéops :
Colosso de Rodes : 
Mausoléu de Halicarnasso : 
Estátua de Zeus em Olímpia : 
Jardins Suspensos da Babilónia : 
Templo de Artemis de Efeso.

Além de algumas moedas, poucos testemunhos antigos relativos ao célebre Farol de Alexandria foram conservados.

Erigido na ilha de Faros, perto da costa de Alexandria, Estrabão (historiador, geógrafo e filósofo grego, (primeiro século a.C.)), evoca esta monumental construção.

« A ponta da ilha é um rochedo batido pelas ondas por todos os lados, com uma torre feita de pedra branca, admiravelmente construída com diversos andares, com o mesmo nome da ilha. 
Sóstrato de Cnido, arquiteto do farol e amigo dos reis que teve o privilégio de inscrever o seu nome no edifício, dedicou-a à salvação dos navegadores, como indica uma lápide encontrada.
Com efeito, como a costa era desprovida de abrigo, baixa dos dois lados, rodeada de recifos, e com fundos baixos, era necessário aqueles que vinham do largo um sinal elevado e luminoso, para guiar os barcos na entrada no porto »

Este pequeno testemunho  de Estrabão, é a maior descrição antiga sobre o farol que também não esqueceu o nome do arquiteto do edifício: Sóstrato de Cnido.

Preço 

Segundo a enciclopédia bisantina “Suda”, os trabalhos foram  inciados sob o reinado do primeiro rei Lágida Ptolemeu I em 297, terminado e inaugurado em 283 a.C., por Ptolemeu II.
Plínio o Antigo, diz-nos que os trabalhos custaram 800 talentos (um talento = a 26 kg) de prata, que corresponde a 20 800 kg de prata.
O preço da constução do farol equivaleu a 13,3 % da receita anual do país e como a construção durou alguns anos, não causou problemas às finanças Lágidas.

Sóstrato de Cnide e Ptolemeu II

Luciano de Samósate , autor do II século da nossa era, evoca um problema ligado à dedicação do farol.
Sóstrato de Cnide terá ali gravado o seu nome que mais tarde tapou com cal, e mandou inscrever os nomes de Ptolemeu II e da irmã/esposa, Arsinoé II.

No dia da inauguração o rei e a esposa  viram os seus nomes ali gravados, mas passados alguns anos quando a cal caiu, foi o nome de Sóstrato que apareceu como dedicatário do monumento. (Versão diferente de Estrabão).

Representações 

As representações do farol são pouco frequentes na antiguidade.
Algumas raras moedas com o farol cunhadas nos reinados dos imperadores Trajano, Adriano, Antonino Pio, Marco Aurélio e Cómodo, apresentam-nos todas um farol diferente.
Uma pequena lanterna com 10 cm de altura (conservada no museu greco-romano de Alexandria), alguns mosaicos e um vaso, permitem obter uma vaga ideia da aparência do monumento.

O mosaico de Séforis (Judeia), apresenta um farol circular, com uma enorme lareira no cimo.
O da igreja São João em Gérasa (Jordânia), apresenta um farol quadrado com um segundo andar circular.

A considerada representação mais fiável do farol foi descoberta num vaso em albatre encontrado em Bagram no Afeganistão, onde um colosso trona no topo dum pequeno edifício circular, tendo como base uma torre quadrada com janelas, construída com enormes blocos retangulares.
Este vaso extremamente frágil, é conservado no Museu Arqueológico de Cabul ou Cábul.

Por conseguinte  todas estas  fontes antigas não nos permitem conhecer a aparência exata do farol.

Estátuas 

No cimo do farol trona a estátua duma divindade da qual a identificação ainda hoje é problemática: Zeus, Posídon ou Hélio?
As raras representações do farol não permitem a sua identificação.

Posidippe (ou Posidippos  de Pella) no seu poema diz-nos que é uma estátua de Zeus, e talvez fosse o caso na primeira metade do século III a.C..

Uma outra fonte que parece orientar-se no mesmo sentido, é uma medalha de vidro do século I, que mostra o farol sobrelevado com a estátua de Zeus, com uma lança na mão esquerda e  uma taça na direita.
Nesta representação o farol tem nos acrotérios as estátuas de Ísis Pharia (deusa Ísis Farol) e de Posídon, divindades que tinham um templo na ilha de Faros.
A estátua de Zeus teria portanto permanecido no topo do farol, até à chegada dos romanos.

Um copo de vidro datado do século II, encontrado em Begram  (Afeganistão) mostra a imagem de um deus com um remo na mão esquerda, o que faria dele Posídon.
Este mesmo deus é referenciado num manuscrito aquando duma restauração do farol no século V.

Finalmente um mosaico encontrado em Qasr (Líbia), datado do ano 539, mostra o farol encimado com a estátua de Hélio.

Farol de Alexandria
(Sobrelevado com a estátua de Hélio)

Podemos pensar que as três estátuas se terão sucedido
Em primeiro a estátua de Zeus  venerado sobre a forma de Amon-Zeus como ancestral dos Ptolemeus.

Quando  os romanos chegaram ao Egito, estes  terão substituído a estátua de Zeus que lhes fazia recordar os Lágidas, e colocaram no local Posídon, porque a sua função (deus supremo do mar) convinha perfeitamente com a missão do farol : proteger os navegadores.
Também é  possível que  já no fim da Antiguidade Posídon tenha sido substituído por Hélio, (uma divindade comum).

Existe um édito promulgado em 391 por Teodósio I, imperador romano que fez do cristianismo a religião do Estado.
Este édito tinha por objetivo abolir os cultos pagãos no território Romano, no qual o Egito também estava incluído.

Sabemos que este  édito foi muito bem acolhido em Alexandria e,  que  entre outras decisões deu origem à destrução do templo de Serápis.
(Divindade sincrética helenístico-egípcia da Antiguidade Clássica. O seu templo mais célebre era o de Alexandria ,(Egito). O seu símbolo era uma cruz.

Além disso após a cristianização de Roma, é mais lógico que fosse São Marcos patrono da cidade, ou simplesmento Pedro que encimassem o farol.
Em contrapartida temos a certeza que no século IX, uma mesquita foi instalada na parte superior da torre por Ahmad Ibn Tulun. (Fundador da dinastia dos Tulúnidas que reinou no Egito de 868 a 905. (Tulúnidas deriva do nome do fundador da dinastia: Ahmad Ibn Tulun)).

Junto da cidadela fortificada “Qaitbay” foram encontradas duas estátuas colossais.
Uma de Ptolemeu (em Faraó) e outra de Ísis ?.
Pensa-se que estas estátuas deviam estar colocadas em frente do farol, para serem vistas pelos navegadores quando entravam no porto.
Não se sabe exatamente qual Ptolemeu, mas pensa-se ser Ptolemeu II e que a estátua dita de Ísis, seja na realidade sua esposa Arsinoé II, que o Faraó divinizou após a sua morte.

Para conhecermos melhor este  edifício, temos que nos apoiar na arqueologia e sobretudo nos testemunhos medievais, nomeadamente no bispo Aroulfe que no anos 670 habitava Alexandria, e alguns documentos árabes  escritos por Yacoubi, Idrissi e Mohammad Ibn’Abd al-Rahim al-Qaisi de Granada, dito Al-Andalus (ou Al Ândalus).

Trajano-Dracma cunhado em Alexandria 116/7
Anv. Busto de Trajano laureado à direita,
AVT KAIC TPAIAN AΔPIANOC CEB.
Rev. Ísis Pharia em pé com um sistro às costas num barco à vela, farol encimado
por uma estátua, um tritão nos acrotérios e lanterna. LIZ.
(Isis Pharia: protetora da ilha na qual o farol foi construído).
(Sistro: antigo instrumento de música egípcio, que consistia num arco metálico em forma de ferradura)

Trajano-Hemidracma cunhado em Alexandria, 116/7
Anv. Busto de Trajano laureado à direita,
AVT KAIC TPAIAN AΔPIANOC CEB.
Rev. Farol com uma estátua no cimo e um tritão em cada acrotério.  I A
(Dois tipos de farol diferentes no mesmo reinado.)

 Adriano-dracma cunhado em Alexandria 133/4.
Anv. Adriano laureado e drapeado à direita
AVT KAIC TPAIAN AΔPIANOC CEB.
Rev. Ísis Pharia em pé com um sistro às costas num barco à vela,
farol encimado por uma estátua, um tritão nos acrotérios e lanterna. LIZ.

Adriano-Hemidracma cunhado em Alexandria, 132/3
Anv. Busto de Adriano laureado à direita,
AVT KAIC TPAIAN AΔPIANOC.
Rev. Farol com uma estátua no cimo e um tritão nos acrotérios.  LIZ

Adriano-hemidracma cunhado em Alexandria 136/7
Anv. Busto de Adriano laureado à direita,
AVT KAIC TPAIAN AΔPIANOC.
Rev. Farol com uma estátua no cimo e um tritão nos acrotérios.  K A

Sabina (esposa de Adriano)-Hemidracma cunhado em Alexandria (data incerta)   
Env. Busto de Sabina com diadema e drapeado à direita.
Rev. Farol encimado por uma estátua e um tritão nos acrotérios.

(Difícil saber  a aparência exata do farol, visto que  nestas quatro moedas cunhadas no  reinado de Adriano, já temos quatro tipos de farol diferentes).

Antonino Pio-Hemidracma cunhado em Alexandria 144/5
Anv. Busto de Antonino laureado à direita,
AVT K T AIɅ AΔP ANTWNINOC.
Rev. Farol encimado por uma estátua e um tritão nos acrotérios.

Antonino Pio-Hemidracma cunhado em Alexandria 141/2
Anv. Busto radiado de Antonino à direita,
AVT K T AIɅ AΔP ANTWNINOC.
Rev. Farol encimado por uma estátua e um tritão nos acrotérios.

Antonino Pio-Dracma cunhado em Alexandria 148/9
Anv. Busto de Antonino laureado à direita,
AVT K T AIL ADR ANTWNINOC CEB EVC.
Rev. Ísis Pharia em pé com um sistro às costas num barco à vela, farol encimado
por uma estátua, um tritão nos acrotérios e lanterna.
DWDE KAT LOV.

Faustina II (esposa de Antonino)-Dracma cunhado em Alexandria 148/9
Anv. Busto de Faustina com diadema e drapeado à direita.
Rev. Ísis Pharia em pé com um sistro às costas num barco à vela,
farol encimado por uma estátua, um tritão nos acrotérios e lanterna.

Faustina II-Dracma cunhado em Alexandria
Anv. Busto de Faustina drapeado à direita.
Rev. Ísis Pharia em pé com um sistro às costas num barco à vela,
farol encimado por uma estátua, um tritão nos acrotérios e lanterna.
(Cinco tipos diferentos, reinado de Antonino Pio).

Marco Aurélio-Hemidracma cunhado em Alexandria 154/155.
Anv. Busto de Marco Aurélio drapeado à direita
M AVPHLIOC KAICAP.
Rev. Farol encimado por uma estátua, um tritão nos acrotérios, LIS

Marco Aurélio-Hemidracma cunhado em Alexandria 152/3
Anv. Busto de Marco Aurélio drapeado à direita
M AVPHLIOC KAICAP.
Rev. Farol encimado por uma estátua, um tritão nos acrotérios, LIS

Marco Aurélio-dracma cunhado em Alexandria 148/9
Anv. Busto de Marco Aurélio drapeado à direita.
Rev. Ísis Pharia em pé com um sistro às costas num barco à vela,
farol encimado por uma estátua, um tritão nos acrotérios e lanterna.
(Três tipos diferentes para o imperador Marco Aurélio).

Cómodo-Tetradracma cunhado em Alexandria 188/9
Anv. Busto de Cómodo à direita,
M A KOM AVTM CEB EYCEB.
Rev. Farol à esquerda, e navio mercante romano denominado  de “CORBITA”  LKΘ

Cómodo-Tetradacma cunhado em Alexandria 188/9
Anv. Busto de Cómodo laureado à direita,
M A KOMANT CEB EVCEB.
Rev. Farol à esquerda, e navio mercante romano denominado  de “CORBITA”  LKΘ

(Este navio faz referência à frota africana organizada em urgência pelo imperador Cómodo em 186, quando devido à penúria egípcia faltou o trigo em Roma .
Esta frota tinha por missão, procurar trigo na África. O sucesso da operação deu lugar à glorificação do imperador e da sua frota. (Visível nestas moedas)

MGeada