quarta-feira, 27 de agosto de 2014


Cativos na numismática romana

São frequentes as  imagens de cativos nas moedas da República e Império Romano.

Após as suas vitórias, os romanos tinham por hábito colocar os prisioneiros junto dos seus estandartes e cortar o cabelo dos reis e oficiais vencidos, que em seguida enviavam para Roma para celebrarem o seu triunfo.

Também era hábito obrigar os presos acorrentados a desfilar perante o carro triunfal do imperador.
Foi nesta condição que Zenóbia participou no triunfo do imperador Aureliano.
A procissão do triunfo, realizada no interior do Pomério, começava com o desfile de carros alegóricos, carregados com os troféus conquistados: (obras de arte, ouro, prata, moedas, armaduras, armas e estandartes).

(Pomério:(em latim, Pomerium ou Pomoerium), na Roma antiga era uma designação para a fronteira simbólica da cidade de Roma. Foi ampliado várias vezes durante a República e Império Romano).

Logo a seguir geralmente acorrentados, os líderes derrotados e as suas famílias, aliados e soldados, seguidos pelos cativos e escravos.
Além da exebição, alguns estavam destinados a ser executados.
Também a pé, seguiam os Senadores e Magistrados romanos, seguidos pelos Lictores com as suas vestes vermelhas e seus fasces coroados com louro.

(Os Lictores eram funcionários públicos encarregados de ir à frente dum magistrado com feixes de varas denominadas fasces, abrindo o caminho para que este pudesse passar.
O seu número variava segundo o grau de importância do magistrado.
Eram também encarregados de convocar o réu quando fosse solicitado pelo magistrado).

O desfile continuava com o carro triunfal puxado por quatro cavalos, em que o general conquistador (imperador) com o rosto pintado com mínio, tal como a estátua de Júpiter Capitolino e com uma coroa de louro, (símbolo da vitória) que avançava lentamente sob os aplausos da população.

Um companheiro, um rei ou general vencido,  podia compartilhar o carro com ele, ou nalguns casos, os  filhos mais novos do imperador.

Os filhos mais velhos assim como os seus oficiais a cavalo, seguiam de perto.
Em seguida, os soldados do imperador (legionários) desarmados, vestidos com a toga e coroados com coroas de louro, que entoavam cânticos em louvor do imperador.

O cortejo terminava com dois bois brancos enfeitados com guirlandas e com os chifres dourados, para serem sacrificados em honra de Júpiter.
Tudo acompanhado com música, nuvens de incenso e flores.

Se a morte impedia os derrotados prestar homenagem ao triunfo dos romanos, uma cerimónia extremamente humilhante para eles, o seu cadáver era geralmente transportado para participar na cerimónia  da vitória do imperador.

Foi o que aconteceu com o cadáver de Cleópatra VII, que cometeu suicídio para escapar da ignomínia de uma exposição pública.

Durante o período republicano figuras de cativos com as mãos amarradas atrás das costas aparecem em moedas de muitas famílias.

L. Aemilius Lepidus Paulus – Denário cunhado em Roma, em 62 a.C..
Anv. A Concórdia com véu e diadema à direita,
PAVLLVS LEPIDVS CONCORDIA
Rev. Aemilius vestido com a toga, troféu de guerra e três cativos, (Perseu rei da Macedónia com as mãos amarradas atrás das costas e os seus dois filhos).
TER  PAVLLVS  

Faustus Cornelius Sula (morto em 46 a.C., era filho do ditador Lucius Cornelius Sula ou Sila, e genro do grande Pompeio).
Denário cunhado em Roma em 56 a.C..
Anv. Busto de Diana com diadema e colar de pérolas à direita,  FAVSTVS
Rev. Boco (rei da Mauritânia e vassalo de Roma) ajoelhado oferecendo um ramo de oliveira a Sula sentado num trono, ao mesmo tempo que lhe entrega Jugurta rei da Numídia (que desfilou em Roma dentro de uma jaula com as mãos amarradas atrás das costas)  FELIX

C. Memmius – Denário cunhado em Roma em 56 a.C..
Anv. Ceres com uma coroa de espigas de trigo à direita
C. MEMMI CF
Rev. Cativo ajoelhado diante dum troféu de guerra,
IMPERATOR C. MEMMIVS  

Júlio César – Denário cunhado em Espanha em 46-45 a.C..
Anv. Vénus com diadema à direita, e Cupido por trás do pescoço,
Rev. Troféu de estandarte e armas entre dois prisioneiros: figura feminina chorando e masculina com as mãos amarradas atrás das costas.

Do mesmo modo podemos ver cativos em moedas de muitos imperadores romanos.
Acorrentados, de pé, prostrados aos pés de divindades, amarrados às rodas do carro do imperador, ladeados por Vitórias, ou sentados  sob insígnias militares ou troféus.

Cativas ou cativos aos pés do imperador ou a serem espezinhados pelo imperador a cavalo, também aparecem com muita frequência.

Cativos sentados num troféu ou debaixo duma palmeira numa atitude de desespero, figuram em moedas que comemoram a vitória de Vespasiano e Tito sobre Jerusalém e a conquista da Judeia.

Exemplo: moedas com a legenda IVDEA CAPTA, ou ainda GERMANICO AVG (moedas de Marco Aurélio) assim como moedas com a legenda VIRTVS EXERCITVS ROMANORVM, do imperador Juliano II.

Vespasiano-Áureo cunhado em Roma, fim de 69, início de 70
Anv. Vespasiano laureado à direita,
IMP CAES VESPASIANVS AVG
Rev. cativa (Judia) sentada com as mãos amarradas e troféu militar
IVDAEA

Vespasiano-denário cunhado em Roma 69-70
Anv. Vespasiano laureado à direita
IMP CAES VESPASIANVS AVG
Rev. cativa (Judia) com as mãos amarradas e troféu militar
IVDAEA

Vespasiano-Denário cunhado em Tarraco, 69-70
Anv. Vespasiano laureado à direita
IMP CAESAR VESPASIANVS AVG
Rev. Cativa (Judia) numa atitude triste e troféu militar
IVDAEA 
Tarraco: (COLONIA IVLIA VRBS TRIVNPHALIS TARRACO) atual Tarragona, foi uma cidade romana na Península Ibérica, capital da província da Hispânia Citerior (no período da República Romana) e depois da Tarraconense (sob o Império).

Vespasiano-Denário cunhado em Roma, 69-70      
Anv. Vespasiano laureado à direita
IMP CAES VESPASIANVS AVG
Rev. Cativa (Judia) com as mãos amarradas atrás das costas  e palmeira
IVDAEA

Vespasiano-Sestércio cunhado em Roma em 71
Anv. Vespasiano laureado à direita
IMP CAE VESPASIAN AVG PM TR PPP COS III
Rev. Sob uma palmeira, a Judeia sentada numa couraça chorando, e cativo Judeu em pé com as mãos amarradas atrás das costas, com lanças e escudos ao redor.
IVDAEA CAPTA  SC  

Vespasiano-Sestércio cunhado em Roma em 71
Anv. Vespasiano laureado à direita
IMP CAE VESPASIAN AVG PM TR PPP COS III
Rev.  A Judeia sob uma palmeira, sentada numa couraça em atitude triste, 
cativo Judeu em pé com as mãos amarradas, lanças e escudos ao redor.
IVDAEA CAPTA SC 

Vespasiano-Sestércio cunhado em Roma em 71
Anv. Vespasiano laureado à direita
IMP CAES VESPASIAN AVG PM TR PPP COS III
Rev. Sob uma palmeira: Vitória com um pé sobre um capacete, 
com um escudo nas mãs com a inscrição OB CIVes SERvatos, 
Judia sentada em atitude triste,
VICTORIA AVGVSTI SC  

Tito-Denário cunhado em Roma em 72-73
Anv. Tito drapeado e laureado à direita,
T CAES IMP VESP PON TR POT
Tito vestido de militar com um pé em cima dum capacete, com lança e cetro,
palmeira, e a Judeia cativa sentada chorando.

Tito-Denário cunhado em Roma entre janeiro e julho de 80
Anv. Tito laureado à direita
IMP TITVS CAES VESPASIAN AVG PM
Rev. Troféu de armas e dois cativos
TR P IX IMP XV COS VIII P P 

Tito-denário cunhado em Roma, 93-94
Anv. Tito laureado à direita
T CAES IMP VESPASIANVS
Rev. Troféu de armas e cativo ajoelhado com as mãos amarradas
TR POT VIII COS VII

Tito-denário cunhado em Roma, 93-94
Anv. Tito laureado à direita
T CAES IMP VESPASIANVS
Rev. Troféu de armas e cativo ajoelhado com as mãos amarradas
TR POT VIII COS VII

Também aparecem cativos chorando ou sentados numa pilha de armas em moedas do imperador Domiciano.

Domiciano-Sestércio cunhado em Roma em 85
Anv. Domiciano laureado à direita,
IMP CAES DOMITIAN AVG GERN COS XI
Rev. Mulher (germânica) cativa sentada chorando, troféu militar 
e cativo germânico em pé com as mãos amarradas atrás das costas,
GERMANIA CAPTA SC

Domiciano –Áureo cunhado em Roma em 85
Anv. Domiciano laureado à direita,
IMP CAES DOMIT AVG GERM PM TR P V
Rev. A Germânia simbolizada por uma mulher em tronco nu sentada em atitude triste, e lança quebrada,
IMP XII COS XII CENSoria Potestat PP

Trajano-Denário cunhado em Roma, 98-117
Anv. Trajano laureado à direita,
IMP TRAIANO AVG GER DAC PM TR P
Rev. Cativo (Daciano) sentado numa pilha de armas com as mãos amarradas atrás das costas,
COS V P P S P Q  R OPTIMO PRINC   DAC CAP   

Trajano –Denário cunhado em Roma, 98-117
Anv. Trajano laureado à direita,
IMP TRAIANO AVG GER DAC P M TR P
Rev. A Dácia simbolizada por uma mulher chorando, sentada numa pilha de armas,
COS V P P S Q R OPTIMO PRINC   DAC CAP

Trajano-Denário cunhado em Roma, 98-117
Anv. Trajano laureado à direita,
IMP TRAIANO AVG GER DAC P M  TR  P COS V P  P
Rev. Cativa Dácia sentada em atitude triste e espada,
S P Q R  OPTIMO PRINCIPI 

Marco Aurélio-Sestércio cumnhado em Roma em 172
Anv. Marco Aurélio laureado à direita,
ANTONINVS AVG TR P XXVI
Rev. A Germânia submetida, sentada em atitude triste,
GERMANIA SVBACTA IMP VI COS III  SC

Marco Aurélio-denário cunhado em Roma 165-166
Anv. Marco Aurélio laureado à direita,
ANTONINVS AVG ARMENIACVS
Rev. A Arménia cativa, sentada em atitude triste, IMP II COS III
P M TR P XII  ARMEN

Septímio ou Sétimo Severo, denário cunhado em Roma, cerca de 195
Anv. Septimo Severo laureado à direita,
L SEP SEV PERT AVG IMP V
Rev. Dois cativos com as mãos amarradas e troféu militar,
PART ARAB PART ADIAB  COS II PP

Caracala-Sestércio cunhado em Roma em 210
Anv. Busto de Caracala laureado à direita,
M AVREL ANTONINVS PIVS AVG 
Rev. Troféu militar entre uma Vitória e a Bretânia, esta com um cativo a seus pés,
VICTORIAE BRITANNICAE  S C

Caracala-Denário cunhado em Roma em 202
Anv. Busto de Caracal laureado e drapeado à direita,
ANTONINVS PIVS AVG
Rev. Marte (deus da guerra) com um troféu militar: dois cativos Partas aos seus pés,
PART MAX PONT TR

Gordiano III-AE 23 cunhado em Antioquia, 238-244
Anv. Gordiano laureado e drapeado à direita
IMP CAES M ANT GORDIANVS AVG
Rev. Dois cativos sentados entre duas Vitórias,
CAES ANTIOCH COL  S

Galiano – Antoniniano cunhado em Milão em 257
Anv. Busto de Galiano com coroa radiada à direita,
IMP GALIENNVS PF AVG
Rev. Troféu militar e dois cativos com as mãos amarradas atrás das costas
GERMANICVS MAXIMVS 

Probo-Áureo cunhado em Roma, 276-282
Anv. Probo com couraça e laureado à direita,IMP PROBVS P AVG
Rev. Troféu militar entre dois cativos,
VICTORIA GERM

Também acontece que o cativo seja representado a ser espezinhado por um imperador a cavalo.

Probo-AE 22 cunhado em Kapu Dagh (Turquia) entre  276 e  282
Anv. Probo com capacete e couraça à esquerda,
VIRTVS PROBI AVG
Rev. Probo a cavalo espezinhando um cativo sentado com as mãos amarradas
ADVENTVS PROBI AVG

Probo-Antoniniano, 281-282
Anv. Pro com couraça e coroa radiada à direita,
IMP PROBVS P F AVG
Rev. Vitória alada com um troféu de armas e dois cativos com as mãos amarradas atrás das costas,
VICTORIA GERM  PHP

Licínio-Fóllio cunhado em Aquilea em 320
Anv. Licinio com capacete e couraça à direita,
IMP LICINIVS AVG
Rev. Dois cativos entre um estandarte,
VIRTVS EXERCITVS VOT XX   AQS

Constantino I, Follis cunhado em Treves 323-324
Anv. Constantino laureado à direita,
CONSTANTINVS AVG
Rev. Vitória com arco troféu e uma palma, e a Sármata vencida com as mãos amarradas.
SARMATIA DEVICTA

Constâncio-Sólido cunhado em Salonica (ou Tessalónica), 340-350
Anv. Constâncio com diadema e drapeado à direita,
FL IVL CONSTANS PF AVG
Rev. Constâncio com um troféu militar entre dois cativos,
VIRTVS EXERCITVM   TES

Juliano II, Sólido cunhado em Antioquia, 361-363
Anv. Juliano laureado e drapeado à direita,
FL CL IVLIANVS PF AVG
Rev. A Virtude vestida de militar segurando um cativo pelo cabelo
VIRTVS EXERCITVS ROMANORVM  ANTI

Roma fundou o seu império com as conquistas militares: por isso apresentar os derrotados, era conforme à sua ideologia imperalista.

As primeiras celebrações dos triunfos de Roma terão sido provavelmente simples desfiles de vitória celebrando o regresso dum general vitorioso e o seu exército à Cidade Eterna com o seu butim, e  terminando com alguma cerimónia religiosa para agradecer aos deuses.

O desfile sempre teve início no Campo de Marte, talvez antes de romper o dia.
Com atrasos imprevistos e alguns acidentes, a marcha seria muito lenta com algumas paragens previstas no caminho até ao destino final, o Templo de Júpiter Capitolino.

Apesar da curta distância (cerca de 4 km), a lenta procissão podia demorar  dois, três dias e por vezes mais, segundo os  troféus conquistados.

Reis ou generais, soldados, cativos, escravos, armas, ou ainda ouro, prata, joias, obras de arte e outros. 
Por vezes o imenso Campo de Marte tornava-se pequeno para acolher o fruto do saque, e tinham que reunir fora dos muros da cidade.

Conclusão: a imagem dos cativos (que eram considerados como um nada, um vencido) que muitas vezes servia de objeto de troca, é um tema muito representado na numismática romana.


MGeada

sexta-feira, 25 de julho de 2014




  As Spintrianas
 (Fichas dos Prostíbulos)

A prostituição segundo uma expressão clássica é o ofício mais velho do mundo, e sempre desempenhou um papel fundamental na nossa sociedade.
Originalmente era um ato sagrado.
Espalhada pelo Oriente, ela colonizou toda a costa do Mediterrâneo, na Síria, no Egito na Grécia.
Mas dos templos onde a prostituição existiu à glória de Deus e ao benefício do tesouro sagrado, ela desviou-se e as sacerdotisas passaram a ser cortesãs hospedadas  en casas chamadas "Direções" 600 anos a.C.
Na numismática esta coleção de tema provocador, é pouco conhecida, e não se conhece nenhuma publicação que trate este tema a fundo.
Os raros colecionadores (discretos) que colecionam moedas e fichas eróticas são verdadeiros peritos nesta temática, conhecem-se perfeitamente uns aos outros e formam um círculo muito fechado entre eles.

A imáginaria erótica na numismática

Hoje não existe nenhum assunto sobre o qual um artigo não tenha já sido escrito. Antigamente não era assim. O assunto, objecto do estudo que se segue pode ser classificado tabu.
O ato do amor é hoje considerado como um exercício agradável enquanto que para os nossos antepassados da longínqua antiguidade era um ato divino.
Na Grécia antiga, as moedas veiculavam gravuras libertinas e “chocantes”.
As manifestações da primitiva arte grega mostram-nos assuntos tratados com um realismo alegre que a nossa época considera indecente .
Nos tempos antigos morria-se muito e fácilmente, por isso prestava-se homenagem à fertilidade.
Desde que os homens começaram a semear os campos e a domesticar os animais, as pessoas ficaram sensíveis ao regresso das estações e admirados com a fertilidade da terra que dá cem grãos por cada um semeado. ( Lucas cap.8, vers.4 a 8 ).
Com a fecundação dos animais e dentro de um raciocínio análogo, evocar as relações sexuais reforçava a fertilidade da terra.
Ao lado dos deuses do céu, os deuses da fertilidade eram adorados no símbolo do “falo”que aparece com muita frequência.
Aristóteles ensina-nos que a adoração do falo tinha por objectivo estimular a fertilidade da terra.
Nas atribuições dos deuses, Hermes apoiava a fecundidade, o falo era o seu símbolo, ele era o HERME.
Em Atenas em fachadas de habitações de gente muito respeitável por vezes num nicho, havia a reprodução de um corpo humano estilizado com o falo proeminente.
A mutilação desses “HERMES” por Alcibíades (general ateniense ) quando da expedição contra Siracusa contribuiu para a sua queda e foi o princípio do declínio de Atenas. 


 Nicho com corpo humano estilizado e falo proeminente


A seta fálica na fachada da casa e no caminho
indicam a direção do lupanar.

Alguns animais, machos, mostram-nos a alegria de viver de maneira evidente e com todos os seus atributos físicos.
Em Mendes (Calcídia) um dracma mostra-nos um burro com o orgão sexual erecto.
Tasos (costa da Tárcia ) um estáter mostra um sátiro nu com uma ninfa nos braços.
Em Naxos(costa da Sicília)um sátiro sentado com as pernas abertas,“perdeu toda a vergonha”.
Na Macedónia (Lete) um estáter  representa um sátiro nu  com o orgão sexual erecto e uma Ménade (sacerdotisa do culto Baco, outro nome das Bacantes) e convida-a a apagar o fogo que o devora.
Um outro estáter mostra um sátiro nu a correr para direita.
A atração do sexo é dada com ingenuidade e de forma natural, o sátiro não tem nada de agressivo.

 Mendes-Calcídia, Dracma 420-392 a.C.

 Tasos-Tárcia, Estáter 500-480 a.C.

 Naxos-Sicília, Dracma 450 a. C.

 Lete-Macedónia, Estáter 540-525 a.C.

 Lete- Macedónia, Estáter, 530-480 a.C.

Nestas reproduções realistas da antiguidade grega não se deve ver erotismo, mas sim alusões a cerimónias de fecundidade porque a moeda é um sinal de “autoridade”guia o povo e exerce um impacto sem igual.

SPINTRIANAS

As Sprintrianas (fichas da época romana) existem em vários museus. São pseudo moedas, ou fichas que na bibliografia numismática aparecem sempre com as tésseras, só que estas não têm imagens eróticas.
Num leilão em Paris em 1974 estas fichas foram  apresentadas com a seguinte definição.
“Fichas de locais de corrupção sexual que apresentam a  cortesã; o  número do reverso é o número da cabine  onde a  cortesã  exerce o seu mister ou talvez o número de referência da postura”.
O número XV nunca é ultrapassado. O pudor afasta este tema dos grandes medalheiros, em contrapartida sabe-se que Filipe de Gonzague duque de Mântua e o duque de Orleães, eram grandes colecionadores destas fichas.
O catálogo feito por este último para uma venda à Grande Cartarina da Rússia, é uma raridade bibliográfica que expõe municiosamente todos os pormenores desta coleção.
No catálogo descritivo das Spintrianas da coleção do duque de Orleães podemos ler na página seis o seguinte comentário.

“Nós acreditamos segundo Suetónio 69-125, que Tibério mandou construir uma rotunda dividida em várias  cabines  numeradas  que  eram   um    teatro  de libertinagem, e que o imperador gozava o espectáculo dos comportamentos lúbricos numa sala situada ao meio”.

Os “atores” admitidos na arena recebiam uma ficha numerada que lhes indicava a cabine onde deviam  entrar, e a postura exigida.
Assunto “escabroso e repugnante”dizia o duque deste passatempo de Tibério em Capri.
Com um diâmetro de um médio bronze 22 mm, não era moeda de circulação. Numa face os números podiam significar o mesmo que as tésseras de teatro, bilhetes ou  fichas que davam entrada a um espetáculo onde os sujeitos se exibiam nas mais revoltosas obscenidades.
Um numismata inglês qualificou-as de “monstruosas obscenidades”.
Suetónio escreveu que era proibido pagar os serviços de um prostíbulo com uma moeda com a efígie do imperador que  era considerado um deus; quem o fizesse cometia o crime de lesa-majestade.
Os prostíbulos fizeram fichas especiais que se podiam comprar como hoje se compram as fichas dos casinos e outras. A tesouraria imperial podia deste modo cobrar uma taxa sobre os lucros ao proprietário ou rendeiro local.
As escavações efetuadas permitem confirmar que os locais onde se encontram estas fichas correspondem aos sítios de prazer abertos ao público.
Estas pseudo moedas hoje estão conservadas em diferentes museus. Elas são um achado como qualquer outro objecto arqueológico, e formam um material de estudo para o conhecimento dos costumes íntimos de um povo de uma determinada época.
Conhecem-se pergaminhos do mesmo estilo da época dos faraós que também mostram cenas eróticas.
Estas séries de médios bronzes que representam cenas eróticas com um casal em diferentes posições, são muitas vezes qualificados de obscenos. Cunhados poucos exemplares e um uso restrito eles são raros e nos leilões públicos atingem preços muito elevados.

Fichas de posição romanas

 I 

 II 

III 

 IIII  (IV)

V

VI

VII

VIII

 VIIII (IX) 

X

XI

XII

XIII

XIIII (XIV)

 XV 

Tradicionalmente estes objectos são considerados como fichas de prostíbulos e, na legenda vê-se o número do quarto onde oficiava a especialista da posição descrita.
Em Pompeia escavações puzeram a descoberto vários prostíbulos, casas  pequenas que tinham no rés-do-chão um certo número de quartos estreitos com uma simples cama de pedra num canto (a qual devia ter um colchão ou uma peça mais delicada).



Pompeia, quarto com cama em pedra. 


Pompeia, Fresco no quarto dum prostibulo.


Enquanto as casas romanas ricas eram iluminadas por janelas grandes e um jardim interior, os quartos dos prostíbulos não tinham luz ou então tinham só um pequeno postigo.
Os históriadores notaram que estas fichas parecem ser muito raras para corresponderem a essa atividade.
Se  Pompeia  tinha  vários  prostíbulos, quantos não haveria em Roma e nas outras grandes cidades do império? Centenas, milhares?
Ora essas fichas são muito raras: para serem só fichas de admissão: teria que haver muito mais.
Segundo parece elas foram mais frequentes noutras regiões da actual Itália e talvez mesmo em Roma. Isto levou a que as relacionem com os versos do poeta Marcial 40-104 que fazia alusão, à distribuição de fichas de todos os tipos no reinado de Domiciano.
Elas seriam lançadas para o meio do povo, pequena "burguesia" e davam direito a variadas prendas. Os históriadores imaginam estes a apressarem-se a ir levantar os respectivos prémios em troca das fichas.
Esta hipótese permite explicar a sua raridade. Estas fichas só terão sido cunhadas no reinado de Domiciano.
Diz-se que na coleção do Vaticano havia muitos exemplares mas que foram destruídos.
A série completa é de quinze números associados a várias cenas. 
Cada número pode ser associado a duas, três, ou mesmo quatro posições diferentes”.      
As pesquisas que foram  efectuadas premitem datar estas fichas do reinado de  Tibério 14-37 d.C..
Há a certeza que alguns cunhos que serviram para cunhar estas fichas, também foram utilizados para outras emissões de fichas  com a data confirmada.
Assim podemos relacionar estas fichas com uma passagem da vida dos doze Césares(coleção de anedotas de imenso interesse documental muito interessante) do históriador latino Suetónio consagrada à atividade de Tibério na ilha de Capri.
Os históriadores já há muito tempo notaram que Tibério tinha sido vítimo duma campanha de calúnias.
É verdade que desde o princípio da história de Roma, todos os imperadores e homens políticos viveram sempre em Roma excepto em tempo de guerra.
Tibério no fim do seu reinado decidiu instalar-se em Capri.
Ausente da vida de Roma, do senado e fora de vista da população, o imperador é assunto de todas as conversas, interrogações, críticas e má  fama.
Desde então os  herdeiros  potenciais, a oposição, e os desiludidos  da  vida  política soltaram as línguas e acusaram-no de todos os males; especularam durante muito tempo sobre as suas supostas actividades sexuais.
Os históriadores associam obscenidade e ditadura às qualidades do bom imperador.
Os casais são sempre representados em camas decoradas de tapeçarias, o que pode corresponder aos quartos descritos por Suetónio.
   
Fichas modernas (francesas)

Os prostíbulos fazem parte dos hábitos da sociabilidade, encontram-se nas cidades, perto dos portos de mar, bairros de “má fama”e mesmo bairros “burgueses”.
Os militares dizem que por ocasião da deslocação das tropas francesas, o prostíbulo era instalado ao mesmo tempo que o alojamento dos militares e antes da enfermaria.


Prostíbulo militar no campo de Arbalou L'Arbi (Marrocos, década de 1930)

O rei Luis XV punia toda a prostituta que exercesse o seu mister a menos de uma légua do acampamento.
Era bárbara a punição infligida e consistia na amputação da ponta do nariz e dos lobos das orelhas.

 
Fichas utilizadas pela legião estrangeira (francesa)
B.M.C.=Bordel Militaire de Campagne
Bordel Militar de Campanha

  Guerra colonial Marrocos-França

 Guerra colonial Marrocos-França
(Interessante, o soldado à direita a virar os bolsos :
uma maneira de fazer compreender às  meninas que não tem dinheiro.)

Nota de serviço do 15 de fevereiro de 1941, com carimbo 
do General de Gaulle, relativa aos horários do prostíbulo
para tropas, aspirantes e oficiais. 

 Bordel militar alemã- Brest (França) 1940

O prostíbulo é quase sempre dirigido por uma mulher casada e nalguns casos ex-prostituta (por vezes o seu nome aparece nas fichas) que guarda preciosamente as suas empregadas.
A ficha é entregue ao cliente à entrada em troca do preço estipulado. Este sistema é vantajoso, o cliente paga antes.
A ficha também evita que as prostitutas entrem em contacto com o dinheiro, que por vezes eram moedas de ouro o que  as  podia  levar  a  esconder  algumas; além  disso talvez fosse melhor que o “pessoal” não tivesse noção do dinheiro que ganhava, ou melhor do interesse que dá ao comércio porque assim podiam-se evitar alguns conflitos.


 Mme. Liane
Paris rue St. Lazare, n°23

 Mignon de Midi
Paris rue Grange Batelière n°7

Aux Glaces
Paris rue Ste. Apolline n°25

 Arts D’Agrement-Lea
Paris rue des Quatre Vents n°3

 Aux Faunes
Paris rue Blondel n°4

 Cabaret du Ciel
Paris Bd. de Clichy Montmarte, n°53

 Angela
Paris rue du Chateau D’eau n°59

 Aux Salons Georgette
Estrasburgo rue des Pécheurs n°17

 Mme. Aline
Lião rue Confort n°3

 Maison Anita
Nantes rue Scribe n°28

 Discretion-Securité
La Féria
Nice rue St. MIchel n°8

Au Classique
Nimes (dep.30) rue Floriem n°3

 Chez Mme. Jeanne
Stenay (dep.55) route de Mouzai n°2

A prostituta era paga à proporcionalidade das fichas que entregava ao fim do dia. Alguns prostíbulos com maior estrutura inscreviam o nome das prostitutas nas fichas para evitar roubos entre elas.
Tal como as moedas, estas fichas constituem excelentos meios de comunicação, tendo en conta que uma ficha oferecida ou comprada, não é obrigatório “gastá-la”no mesmo dia. Ela pode sair do estabelecimento e pode voltar a ser vendida ou oferecida sem ser utilizada, exatamente como uma moeda.
Os anversos e reversos são utilizados para passar mensagens, e servem uma publicidade gratuita divulgando principalmente o endereço, o nome da casa e  da responsável.
Outras até indicam as horas de abertura e a especialidade da casa.
Alguns responsáveis ainda vão mais longe e indicam por exemplo salões privados, oferta de champagne, banhos e massagens. Mas o prostíbulo perfeitamente integrado também sabe ser discreto, as fichas por vezes são legendadas de forma a tranquilizar o cliente com as palavras “segurança e discrição”. Neste caso o cliente fica tranquilo e passa a porta sem preocupação.

Diz-se que as fichas não servem para pagar, elas atestam que os serviços pedidos foram prestados.
Hoje estas fichas não são fáceis de encontrar, por vezes aparecem em alguns comerciantes, nalguns leilões e com um pouco de sorte nalgumas feiras.


 Aux Belles Poulles
Paris, rue Blondel 32


 Maison de Société
Paris, Bd. de La Chapelle n°406


 
 Mme. Yvonne
Chaumont, (dep.52) rue du Gaz n°1   

Estes objectos são todos muito raros e como tal quando aparecem em leilões atingem sempre um preço elevado.
Não é fácil fazer uma estimativa dos preços das Spintrianas fichas dos prostíbulos romanos, porque raramente  aparecem em leilões.
O preço das fichas francesas é mais acessível e, segundo o seu estado de conservação e raridade pode custar entre, quarenta a duzentos euros, por vezes mais.
Apesar de ter procurado muito, sobre Portugal não encontrei nenhuma documentação, também não posso afirmar a existência dessas fichas; porque depois de consultar vários especialistas na numismática nenhum deles tem conhecimento de fichas de prostíbulos em Portugal.


 Cyteria Bar
Corbeil (dep.91) rue de la Juiverie n°7

 Le Grand 7 à Versailles

 Mme. Charlotte
Versailles, rue Basse n°7

Argélia, (colónia francesa)

 Au Chat Noir
Argel, impasse Rene Caille n°2

 Au Chabanais            
Argel, rue du Chéne n°22

Outros países

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Cuba

 Romano-Egípcio (em pasta de vidro)

Suíça

Suíça

 Reino Unido

EUA
(Século XIX início século XX)

 Carson City (Nevada)

 Chicken Ranch (Texas)

 Denver (Colorado)

 Denver (Colorado)

 Dodge City (Kansas)

 Folsom (Califórnia)

La Grange (Texas)

 La Grange (Texas)
(Situado a cerca de 4 km do centro da cidade.)

 Los Angeles (Arizona)

 São Francisco (Califórnia)

 São Francisco (Califórnia)

 São Francisco (Califórnia)

 Tombstone (Calfornia)

 Virginia City (Montana)

Saigão (Vietname)

Tabela de preços - França, 1915

Tabela de preços - Itália, anos 30

Tabela de preços - Itália, 1939

MGeada

Bibliografia
Roland; Elie-Monnaies  et  Jetons  des  Maisons de Tolerance. Neuilly, I.N.S.N., 2003, pag.179.
Lips; Harri-(2002). L'imagerie Erótique dans la Numismatique.
Numismatique  et Change, n°325, ano 30,  pag. 34/38.
Depeyrot; George: Les Spintriennes. Plein Phare, Setembro 2 000, pag.23/25.
Audeval; Catherine: Les jetons des Maisons Closes. Plein Phare, Setembro 2 000, pag. 26/29.