sexta-feira, 25 de julho de 2014




  As Spintrianas
 (Fichas dos Prostíbulos)

A prostituição segundo uma expressão clássica é o ofício mais velho do mundo, e sempre desempenhou um papel fundamental na nossa sociedade.
Originalmente era um ato sagrado.
Espalhada pelo Oriente, ela colonizou toda a costa do Mediterrâneo, na Síria, no Egito na Grécia.
Mas dos templos onde a prostituição existiu à glória de Deus e ao benefício do tesouro sagrado, ela desviou-se e as sacerdotisas passaram a ser cortesãs hospedadas  en casas chamadas "Direções" 600 anos a.C.
Na numismática esta coleção de tema provocador, é pouco conhecida, e não se conhece nenhuma publicação que trate este tema a fundo.
Os raros colecionadores (discretos) que colecionam moedas e fichas eróticas são verdadeiros peritos nesta temática, conhecem-se perfeitamente uns aos outros e formam um círculo muito fechado entre eles.

A imáginaria erótica na numismática

Hoje não existe nenhum assunto sobre o qual um artigo não tenha já sido escrito. Antigamente não era assim. O assunto, objecto do estudo que se segue pode ser classificado tabu.
O ato do amor é hoje considerado como um exercício agradável enquanto que para os nossos antepassados da longínqua antiguidade era um ato divino.
Na Grécia antiga, as moedas veiculavam gravuras libertinas e “chocantes”.
As manifestações da primitiva arte grega mostram-nos assuntos tratados com um realismo alegre que a nossa época considera indecente .
Nos tempos antigos morria-se muito e fácilmente, por isso prestava-se homenagem à fertilidade.
Desde que os homens começaram a semear os campos e a domesticar os animais, as pessoas ficaram sensíveis ao regresso das estações e admirados com a fertilidade da terra que dá cem grãos por cada um semeado. ( Lucas cap.8, vers.4 a 8 ).
Com a fecundação dos animais e dentro de um raciocínio análogo, evocar as relações sexuais reforçava a fertilidade da terra.
Ao lado dos deuses do céu, os deuses da fertilidade eram adorados no símbolo do “falo”que aparece com muita frequência.
Aristóteles ensina-nos que a adoração do falo tinha por objectivo estimular a fertilidade da terra.
Nas atribuições dos deuses, Hermes apoiava a fecundidade, o falo era o seu símbolo, ele era o HERME.
Em Atenas em fachadas de habitações de gente muito respeitável por vezes num nicho, havia a reprodução de um corpo humano estilizado com o falo proeminente.
A mutilação desses “HERMES” por Alcibíades (general ateniense ) quando da expedição contra Siracusa contribuiu para a sua queda e foi o princípio do declínio de Atenas. 


 Nicho com corpo humano estilizado e falo proeminente


A seta fálica na fachada da casa e no caminho
indicam a direção do lupanar.

Alguns animais, machos, mostram-nos a alegria de viver de maneira evidente e com todos os seus atributos físicos.
Em Mendes (Calcídia) um dracma mostra-nos um burro com o orgão sexual erecto.
Tasos (costa da Tárcia ) um estáter mostra um sátiro nu com uma ninfa nos braços.
Em Naxos(costa da Sicília)um sátiro sentado com as pernas abertas,“perdeu toda a vergonha”.
Na Macedónia (Lete) um estáter  representa um sátiro nu  com o orgão sexual erecto e uma Ménade (sacerdotisa do culto Baco, outro nome das Bacantes) e convida-a a apagar o fogo que o devora.
Um outro estáter mostra um sátiro nu a correr para direita.
A atração do sexo é dada com ingenuidade e de forma natural, o sátiro não tem nada de agressivo.

 Mendes-Calcídia, Dracma 420-392 a.C.

 Tasos-Tárcia, Estáter 500-480 a.C.

 Naxos-Sicília, Dracma 450 a. C.

 Lete-Macedónia, Estáter 540-525 a.C.

 Lete- Macedónia, Estáter, 530-480 a.C.

Nestas reproduções realistas da antiguidade grega não se deve ver erotismo, mas sim alusões a cerimónias de fecundidade porque a moeda é um sinal de “autoridade”guia o povo e exerce um impacto sem igual.

SPINTRIANAS

As Sprintrianas (fichas da época romana) existem em vários museus. São pseudo moedas, ou fichas que na bibliografia numismática aparecem sempre com as tésseras, só que estas não têm imagens eróticas.
Num leilão em Paris em 1974 estas fichas foram  apresentadas com a seguinte definição.
“Fichas de locais de corrupção sexual que apresentam a  cortesã; o  número do reverso é o número da cabine  onde a  cortesã  exerce o seu mister ou talvez o número de referência da postura”.
O número XV nunca é ultrapassado. O pudor afasta este tema dos grandes medalheiros, em contrapartida sabe-se que Filipe de Gonzague duque de Mântua e o duque de Orleães, eram grandes colecionadores destas fichas.
O catálogo feito por este último para uma venda à Grande Cartarina da Rússia, é uma raridade bibliográfica que expõe municiosamente todos os pormenores desta coleção.
No catálogo descritivo das Spintrianas da coleção do duque de Orleães podemos ler na página seis o seguinte comentário.

“Nós acreditamos segundo Suetónio 69-125, que Tibério mandou construir uma rotunda dividida em várias  cabines  numeradas  que  eram   um    teatro  de libertinagem, e que o imperador gozava o espectáculo dos comportamentos lúbricos numa sala situada ao meio”.

Os “atores” admitidos na arena recebiam uma ficha numerada que lhes indicava a cabine onde deviam  entrar, e a postura exigida.
Assunto “escabroso e repugnante”dizia o duque deste passatempo de Tibério em Capri.
Com um diâmetro de um médio bronze 22 mm, não era moeda de circulação. Numa face os números podiam significar o mesmo que as tésseras de teatro, bilhetes ou  fichas que davam entrada a um espetáculo onde os sujeitos se exibiam nas mais revoltosas obscenidades.
Um numismata inglês qualificou-as de “monstruosas obscenidades”.
Suetónio escreveu que era proibido pagar os serviços de um prostíbulo com uma moeda com a efígie do imperador que  era considerado um deus; quem o fizesse cometia o crime de lesa-majestade.
Os prostíbulos fizeram fichas especiais que se podiam comprar como hoje se compram as fichas dos casinos e outras. A tesouraria imperial podia deste modo cobrar uma taxa sobre os lucros ao proprietário ou rendeiro local.
As escavações efetuadas permitem confirmar que os locais onde se encontram estas fichas correspondem aos sítios de prazer abertos ao público.
Estas pseudo moedas hoje estão conservadas em diferentes museus. Elas são um achado como qualquer outro objecto arqueológico, e formam um material de estudo para o conhecimento dos costumes íntimos de um povo de uma determinada época.
Conhecem-se pergaminhos do mesmo estilo da época dos faraós que também mostram cenas eróticas.
Estas séries de médios bronzes que representam cenas eróticas com um casal em diferentes posições, são muitas vezes qualificados de obscenos. Cunhados poucos exemplares e um uso restrito eles são raros e nos leilões públicos atingem preços muito elevados.

Fichas de posição romanas

 I 

 II 

III 

 IIII  (IV)

V

VI

VII

VIII

 VIIII (IX) 

X

XI

XII

XIII

XIIII (XIV)

 XV 

Tradicionalmente estes objectos são considerados como fichas de prostíbulos e, na legenda vê-se o número do quarto onde oficiava a especialista da posição descrita.
Em Pompeia escavações puzeram a descoberto vários prostíbulos, casas  pequenas que tinham no rés-do-chão um certo número de quartos estreitos com uma simples cama de pedra num canto (a qual devia ter um colchão ou uma peça mais delicada).



Pompeia, quarto com cama em pedra. 


Pompeia, Fresco no quarto dum prostibulo.


Enquanto as casas romanas ricas eram iluminadas por janelas grandes e um jardim interior, os quartos dos prostíbulos não tinham luz ou então tinham só um pequeno postigo.
Os históriadores notaram que estas fichas parecem ser muito raras para corresponderem a essa atividade.
Se  Pompeia  tinha  vários  prostíbulos, quantos não haveria em Roma e nas outras grandes cidades do império? Centenas, milhares?
Ora essas fichas são muito raras: para serem só fichas de admissão: teria que haver muito mais.
Segundo parece elas foram mais frequentes noutras regiões da actual Itália e talvez mesmo em Roma. Isto levou a que as relacionem com os versos do poeta Marcial 40-104 que fazia alusão, à distribuição de fichas de todos os tipos no reinado de Domiciano.
Elas seriam lançadas para o meio do povo, pequena "burguesia" e davam direito a variadas prendas. Os históriadores imaginam estes a apressarem-se a ir levantar os respectivos prémios em troca das fichas.
Esta hipótese permite explicar a sua raridade. Estas fichas só terão sido cunhadas no reinado de Domiciano.
Diz-se que na coleção do Vaticano havia muitos exemplares mas que foram destruídos.
A série completa é de quinze números associados a várias cenas. 
Cada número pode ser associado a duas, três, ou mesmo quatro posições diferentes”.      
As pesquisas que foram  efectuadas premitem datar estas fichas do reinado de  Tibério 14-37 d.C..
Há a certeza que alguns cunhos que serviram para cunhar estas fichas, também foram utilizados para outras emissões de fichas  com a data confirmada.
Assim podemos relacionar estas fichas com uma passagem da vida dos doze Césares(coleção de anedotas de imenso interesse documental muito interessante) do históriador latino Suetónio consagrada à atividade de Tibério na ilha de Capri.
Os históriadores já há muito tempo notaram que Tibério tinha sido vítimo duma campanha de calúnias.
É verdade que desde o princípio da história de Roma, todos os imperadores e homens políticos viveram sempre em Roma excepto em tempo de guerra.
Tibério no fim do seu reinado decidiu instalar-se em Capri.
Ausente da vida de Roma, do senado e fora de vista da população, o imperador é assunto de todas as conversas, interrogações, críticas e má  fama.
Desde então os  herdeiros  potenciais, a oposição, e os desiludidos  da  vida  política soltaram as línguas e acusaram-no de todos os males; especularam durante muito tempo sobre as suas supostas actividades sexuais.
Os históriadores associam obscenidade e ditadura às qualidades do bom imperador.
Os casais são sempre representados em camas decoradas de tapeçarias, o que pode corresponder aos quartos descritos por Suetónio.
   
Fichas modernas (francesas)

Os prostíbulos fazem parte dos hábitos da sociabilidade, encontram-se nas cidades, perto dos portos de mar, bairros de “má fama”e mesmo bairros “burgueses”.
Os militares dizem que por ocasião da deslocação das tropas francesas, o prostíbulo era instalado ao mesmo tempo que o alojamento dos militares e antes da enfermaria.


Prostíbulo militar no campo de Arbalou L'Arbi (Marrocos, década de 1930)

O rei Luis XV punia toda a prostituta que exercesse o seu mister a menos de uma légua do acampamento.
Era bárbara a punição infligida e consistia na amputação da ponta do nariz e dos lobos das orelhas.

 
Fichas utilizadas pela legião estrangeira (francesa)
B.M.C.=Bordel Militaire de Campagne
Bordel Militar de Campanha

  Guerra colonial Marrocos-França

 Guerra colonial Marrocos-França
(Interessante, o soldado à direita a virar os bolsos :
uma maneira de fazer compreender às  meninas que não tem dinheiro.)

Nota de serviço do 15 de fevereiro de 1941, com carimbo 
do General de Gaulle, relativa aos horários do prostíbulo
para tropas, aspirantes e oficiais. 

 Bordel militar alemã- Brest (França) 1940

O prostíbulo é quase sempre dirigido por uma mulher casada e nalguns casos ex-prostituta (por vezes o seu nome aparece nas fichas) que guarda preciosamente as suas empregadas.
A ficha é entregue ao cliente à entrada em troca do preço estipulado. Este sistema é vantajoso, o cliente paga antes.
A ficha também evita que as prostitutas entrem em contacto com o dinheiro, que por vezes eram moedas de ouro o que  as  podia  levar  a  esconder  algumas; além  disso talvez fosse melhor que o “pessoal” não tivesse noção do dinheiro que ganhava, ou melhor do interesse que dá ao comércio porque assim podiam-se evitar alguns conflitos.


 Mme. Liane
Paris rue St. Lazare, n°23

 Mignon de Midi
Paris rue Grange Batelière n°7

Aux Glaces
Paris rue Ste. Apolline n°25

 Arts D’Agrement-Lea
Paris rue des Quatre Vents n°3

 Aux Faunes
Paris rue Blondel n°4

 Cabaret du Ciel
Paris Bd. de Clichy Montmarte, n°53

 Angela
Paris rue du Chateau D’eau n°59

 Aux Salons Georgette
Estrasburgo rue des Pécheurs n°17

 Mme. Aline
Lião rue Confort n°3

 Maison Anita
Nantes rue Scribe n°28

 Discretion-Securité
La Féria
Nice rue St. MIchel n°8

Au Classique
Nimes (dep.30) rue Floriem n°3

 Chez Mme. Jeanne
Stenay (dep.55) route de Mouzai n°2

A prostituta era paga à proporcionalidade das fichas que entregava ao fim do dia. Alguns prostíbulos com maior estrutura inscreviam o nome das prostitutas nas fichas para evitar roubos entre elas.
Tal como as moedas, estas fichas constituem excelentos meios de comunicação, tendo en conta que uma ficha oferecida ou comprada, não é obrigatório “gastá-la”no mesmo dia. Ela pode sair do estabelecimento e pode voltar a ser vendida ou oferecida sem ser utilizada, exatamente como uma moeda.
Os anversos e reversos são utilizados para passar mensagens, e servem uma publicidade gratuita divulgando principalmente o endereço, o nome da casa e  da responsável.
Outras até indicam as horas de abertura e a especialidade da casa.
Alguns responsáveis ainda vão mais longe e indicam por exemplo salões privados, oferta de champagne, banhos e massagens. Mas o prostíbulo perfeitamente integrado também sabe ser discreto, as fichas por vezes são legendadas de forma a tranquilizar o cliente com as palavras “segurança e discrição”. Neste caso o cliente fica tranquilo e passa a porta sem preocupação.

Diz-se que as fichas não servem para pagar, elas atestam que os serviços pedidos foram prestados.
Hoje estas fichas não são fáceis de encontrar, por vezes aparecem em alguns comerciantes, nalguns leilões e com um pouco de sorte nalgumas feiras.


 Aux Belles Poulles
Paris, rue Blondel 32


 Maison de Société
Paris, Bd. de La Chapelle n°406


 
 Mme. Yvonne
Chaumont, (dep.52) rue du Gaz n°1   

Estes objectos são todos muito raros e como tal quando aparecem em leilões atingem sempre um preço elevado.
Não é fácil fazer uma estimativa dos preços das Spintrianas fichas dos prostíbulos romanos, porque raramente  aparecem em leilões.
O preço das fichas francesas é mais acessível e, segundo o seu estado de conservação e raridade pode custar entre, quarenta a duzentos euros, por vezes mais.
Apesar de ter procurado muito, sobre Portugal não encontrei nenhuma documentação, também não posso afirmar a existência dessas fichas; porque depois de consultar vários especialistas na numismática nenhum deles tem conhecimento de fichas de prostíbulos em Portugal.


 Cyteria Bar
Corbeil (dep.91) rue de la Juiverie n°7

 Le Grand 7 à Versailles

 Mme. Charlotte
Versailles, rue Basse n°7

Argélia, (colónia francesa)

 Au Chat Noir
Argel, impasse Rene Caille n°2

 Au Chabanais            
Argel, rue du Chéne n°22

Outros países

 Argentina

 Bélgica

China

Cuba

 Romano-Egípcio (em pasta de vidro)

Suíça

Suíça

 Reino Unido

EUA
(Século XIX início século XX)

 Carson City (Nevada)

 Chicken Ranch (Texas)

 Denver (Colorado)

 Denver (Colorado)

 Dodge City (Kansas)

 Folsom (Califórnia)

La Grange (Texas)

 La Grange (Texas)
(Situado a cerca de 4 km do centro da cidade.)

 Los Angeles (Arizona)

 São Francisco (Califórnia)

 São Francisco (Califórnia)

 São Francisco (Califórnia)

 Tombstone (Calfornia)

 Virginia City (Montana)

Saigão (Vietname)

Tabela de preços - França, 1915

Tabela de preços - Itália, anos 30

Tabela de preços - Itália, 1939

MGeada

Bibliografia
Roland; Elie-Monnaies  et  Jetons  des  Maisons de Tolerance. Neuilly, I.N.S.N., 2003, pag.179.
Lips; Harri-(2002). L'imagerie Erótique dans la Numismatique.
Numismatique  et Change, n°325, ano 30,  pag. 34/38.
Depeyrot; George: Les Spintriennes. Plein Phare, Setembro 2 000, pag.23/25.
Audeval; Catherine: Les jetons des Maisons Closes. Plein Phare, Setembro 2 000, pag. 26/29. 





































sexta-feira, 27 de junho de 2014

Três vinténs
D. João príncipe regente
Três vintens (furado)

Divisa  monetária cujo valor proveio do aumento de 20% sobre a moeda de prata, decretada por D. Pedro II em 4 de agosto de 1688, passando desde então os 400 réis a correr por 480, os 200 por 240 réis, os 100 por 120 réis e finalmente os 50 por 60 réis ou “três vinténs”.

Foi esta a designação que prevaleceu, e como foi esta moeda a escolhida geralmente pelo povo para amuleto da virtude perservativa da castidade das donzelas, que suas mães lhe punham ao pescoço dependuradas num cordão (preto), esse foi o motivo porque uma grande parte dessas moedas aparecem furadas, assim como se ligou o nome dos “três vinténs” aquela virtude.


D. Pedro II, Três vinténs ND (furado)
PETRVS.II.DG.P.ET.ALG.REX
(Pedro II pela graça de Deus rei de Portugal e Algarve)

D. Pedro II, Três vinténs ND (sem furo)
Anv. PETRVS.II.D.G.REX.PORTV.
Rev. IN.HOC.SIGNO.VINCES
(Por este sinal vencerás)

A moeda dos “três vinténs” cunhou-se em quase todos os reinados desde D.Pedro II a D. Miguel 1828-1834, em que foram cunhados os últimos espécimes desse valor.
O seu peso inicial era de 2,16 gramas e ø19mm no reinado de D. Pedro, e terminou com 1,83 gramas e ø18mm no reinado de D. Miguel, sempre com o título de 916,6 milésimos.

Três vinténs (furado)

O que muitos ajuntadores não sabem, é porque grande parte desta simpaticazinha moeda aparece furada.
Os “três vinténs” tornaram-se tão populares ao ponto que as mães parturientes, usavam pô-la ao pescoço das filhas logo que nasciam pendurada num  fio como amuleto, que só retiravam quando casavam, daí a razão do furo.

Alguns rapazes  mais atrevidos quando se aproximavam delas começavam por procurar no pescoço a famosa moedinha e, quando não a encontravam pronunciavam descontentes,“já não tem os três vinténs” ou então, “já lhe tiraram os três”. Tinha chegado tarde, ela já tinha dono.

Num passado ainda recente, quando a virgindade feminina era um atributo quase indispensável para o casamento, era vulgar a expressão que fazia equivaler a existência da ainda virgindade à expressão “Ter os três vinténs” ou,  não.

D. João V, Três vinténs ND, (sem furo)

Anv. JOANNES.D.G.P.PORTUGALIA.ET.ALGarbiorvm.
(João V pela graça de Deus príncipe de Portugal e Algarve)
Rev. IN HOC SIGNO VINCES
(Por este sinal vencerás)

D. João V, Três vinténs ND (furado)
IOANNES.V.D.G.P.ET.ALG.REX
(João V pela graça de Deus rei de Portugal e Algarve)
IN.HOC.SIGNO.VINCES

Caso a menina não fosse virgem dizia-se que ela tinha perdido os “Três vinténs”, ou então quando a  virgindade era  oferecida a um rapaz, o felizardo dizia, “já lhe tirei os três”.

 É difícil de saber qual a origem destas expressões que hoje muitos jovens não conhecem e, numa época em que a mulher  alcançou  tão elevado grau de emancipação, essa expressão seria perfeitamente idiota.

Se consultarmos  um dicionário, o três é um número cardinal formado de dois e mais um, no entanto se nos referimos à expressão popular “os três”, remetemos logo para  o âmbito sexual.   

Na minha pesquisa sobre a origem desta expressão, notei que a vida não era fácil para a mulher que viveu nessa época.
Um período em que grande parte dos casamentos eram de conveniência (por vezes os jovens nem se conheciam) e havia condições a debater sobre o dote, comportamento da rapariga e outras.

Era frequente a família do rapaz exigir um atestado de bom comportamento da noiva, passado por uma autoridade local (geralmente o presidente da junta de freguesia) e, caso tivesse alguma dúvida, podia pedir um atestado de virgindade passado pela parteira, que tinha que fazer o teste de  virgindade.  

D. João V, Três vinténs ND (furado)


Hoje é fácil fazer esse teste, mas no passado, além de ser anedótico, era crucial para as meninas que podiam ter sido elas mesmo a romper o hímen.
Imaginem a parteira colocar  uma moedinha de três vintens sobre o hímen da donzela e se esta passasse para dentro o teste era positivo.

“Três vinténs” também era o preço da comissão da parteira para efetuar o teste.

No arquivo distrital de Viseu existe um documento com data incerta, mas que aparenta ser do início do século XIX, usado como prova passado por uma parteira da época chamada Bárbara Emília natural de Coura (Viseu), a pedido de uma jovem  (Maria dos Prazeres Jacynto Leite Capello Rêgu).   




Atestado de Virgindade

Eu, Bárbara  Emilia, parteira que soy de Coyra, atestu que Maria dos Prazeres Jacynto Leite Capello Rêgu tem as partes fodengas talinqual comu veyo ao mundo inseto uma nóida negra no alto da crica que não sendo de nacenssa é proveniente de marradas de pisa.
Por ser verdade pasei o prezente atestado de virgindade .

Bárbara Emilia das Dores

Outro documento da mesma parteira (do qual não me foi possível encontrar uma cópia) a pedido de Maria de Jesus,  que pretendia libertar-se da difamação de não ser pura, e provar a sua virgindade para contrair casamento.

O documento reza assim :

Atestado de Birgindade

Eu, Bárbara Emília, parteira que sou de Coyra, atesto e certufico pela minha onra que Maria de Jesus tem as partes fudengas talinqual como veyo ao mundo insceto umas pequenas noidas negras junto ao alto da crica que a não serem de nacenssa sarão purvenientes de marradas de piça.

Por ser verdade pasei o prezente atestado de virgindade.
Bárbara Emília das Dores


Estes documentos, verídicos, fazem-nos recordar embora de forma anedótica, a importância que a virgindade tem assumido na nossa e em muitas outras culturas.

D. Pedro IV, Três vinténs ND (sem furo)
Anv. PETRUS IV DG.PORTUG ET ALGARB REX
(Pedro IV pela graça de Deus rei de Portugal e Algarve)
Rev. IN HOC SIGNE VINCES

Outra expressão de “três vinténs”, faz referência ao preço de três vinténs que o homem pagava a partir do século XVI para desflorar uma escrava negra virgem. 

MGeada


domingo, 25 de maio de 2014



A moeda, curiosidade
Poderoso rei do Oriente ouviu um sábio da sua corte discorrer sobre as vantagens da “curiosidade”.

Os elogios aos homens curiosos que se tornaram famosos deixaram o monarca deslumbrado.
Quanto não devia a ciência à “curiosidade” quantas descobertas e invenções.

Inspirado pelas eloquentes palavras, resolveu o rei escolher para o cargo de  primeiro ministro o homem mais “curioso” do país.

Vários candidatos se apresentaram .
Marcado o dia e a hora para as suas provas, encheu-se o salão principal do palácio real de nobres e convidados.

A cada candidato o rei entregou uma moeda de ouro afim de demonstrar ser o mais “curioso”.
As moedas eram rigorosamente iguais no peso, formato e valor.

Os assistentes ao pouco comum torneio, estavam “curiosos” de saber como podia um homem demonstrar talento e perspicácia com a quase nula ajuda de uma moeda.

Não deixava de fato de ser original, o concurso imaginado pelo rei para a escolha do seu primeiro ministro.

Um dos pretendentes começou a examinar o anverso e reverso da sua moeda mostrando-se embaraçado.
Outro muito sério só pesava a sua moeda, e atirava-a para o alto muitas vezes.
Um virava e revirava a moeda procurando descobrir alguma irregularidade.

Outro candidato atirava ao chão a moeda, procurando arrancar ao tinido do ouro algo desconhecido, enquanto outro riscava com a ponta do punhal a sua moeda, mordendo- a depois.

Que pretendiam todos eles cavar daqueles discos de ouro ?

Apenas um conserva os braços cruzados observando os seus rivais.
Sua atitude foi observada pelo rei, que o interrogou por sua calma e passividade.

Respondeu o interprelado : Poderoso Senhor, desisto de ser nomeado primeiro ministro, a não ser que me permita comparar esta moeda que tenho nas minhas mãos, com muitas outras que possuo.

Confesso ter juntado por mera “curiosidade” centenas de moedas do nosso país, que examino frequentemente “curioso” como são diferentes, seja no metal de que foram fabricadas, no valor que nelas está marcado, e quanto foram úteis no negócio entre o povo.

As mais antigas são de ferro ou estanho, ou de cobre ou outro metal bruto.
Essas moedas vêm aumentando cada vez mais a minha “curiosidade”, pois cheguei a verificar que à medida que cresce o bem estar do nosso país, graças ao vosso governo sábio e honesto, apresentam mais belo aspecto.

Vejo todos os dias, movido pelo espírito “curioso”, que todos usam moedas e as trazem em seus bolsas;  muitas parecem sorridentes vendo o vosso real retrato nelas estampado.

Vede, pois, conclui o candidato que não me é possível demonstrar as vantagens da “curiosidade” de que falo, sem ter à minha vista as muitas moedas diferentes que possuo.

Bravo ! exclamou o rei ; pois sois o mais “curioso” e a partir de hoje ocupareis o cargo de meu primeiro ministro.

Foi simples e inesperado o desfecho dessa história que a todos parecia embaraçosa e incerta.

O fino e inteligente candidato ajuntador de moedas por mera “curiosidade” soube tirar da avidez do seu estudo, e das figuras e legendas que nelas se contêm, as palavras bajuladoras que lhe valeram tornar-se primeiro ministro do lendário rei.

Exemplo da vantagem de colecionar moedas, mesmo por mera “curiosidade”, pois foi assim que começaram muitas valiosas e importantes coleções.


 (Adaptado de uma fábula de Malba Than, com alteração no final).


“Não tenho nenhum dom especial, mas sou particularmente curioso!“

“A curiosidade é mais importante do que o conhecimento!”

Citações de Albert Einsten.

MGeada

terça-feira, 29 de abril de 2014

CALÍGULA (Um maluco a governar Roma)

CAIVS JVLIVS CAESAR AVGVSTVS GERMANICVS “Calígula”, terceiro imperador romano (37/41) nasceu em Antium  a 31 de agosto do ano 12, e faleceu em Roma   a 24 de janeiro de 41.

Caligula-Sestércio cunhado em Roma 37-41
Anv. Busto de Calígula laureado à esquerda,
CAESAR AVG GERMANICVS  PON M TR POT
Rev. SPQR PP OBCIVES SERVATOS, no interior de uma coroa de loiro.

Filho do popular Germânico e de Agripina Maior dita a Velha, neto de Tibério por adoção, foi criado entre os legionários comandados por seu pai, que achavam graça ao vê-lo disfarçado de soldado com pequenas caligae (sandálias militares) nos pés, e alcunharam-no de Calígula, alcunha que ele acabou por detestar.

Reinado de Calígula
AE 17, cunhado na Frígia entre 37 e 41
Anv. Busto de Germânico laureado à direita, GERMANIKOS
Rev. Busto de Agripina drapeado à direita,
AGRIPPINA EPI KLAECIKOY AIZANITWN

Segundo Suetónio, Calígula tinha dois anos quando foi enviado para a Germânia para se juntar aos seus pais, e enquanto criança seguiu a sua mãe que quase sempre acompanhou Germânico nas campanhas militares.

Ele e a mãe encontravam-se juntos com o seu pai quando no ano 19, este faleceu misteriosamente no Egito (Alexandria).

(A morte deste grande general continua rodeada de especulações. A hipótese mais aceite é que tenha sido envenenado por Gneu Calpúrnio Pisão governador da Síria, sob as ordens de Tibério que tinha ciúmes pela popularidade crescente do seu filho adotivo)

A morte de Germânico, provocou grandes motins em Roma originados pelas camadas mais pobres da população que o amava, e não acreditava numa morte natural.

Aquando do seu regresso a Roma, Calígula foi em primeiro confiado à sua mãe, e após a   sua relegação, foi confiado à sua antepassada Lívia (esposa de Augusto), até ao ano 29 quando esta faleceu.

Lívia-AE 21 cunhado em Alexandria entre 14-29

Anv. Busto de Lívia laureado à direita
Rev. Duas espigas de trigo e duas papoilas

Calígula contava vinte e cinco anos de idade, quando Tibério o nomeou seu sucessor.
Herdeiro da popularidade do seu pai, este jovem também parecia digno de a merecer.
Criado com a sua avó até aos dois anos, rodeado de escravos egípcios, Calígula reinou como um faraó no Egito.

Calígula-AE 15 cunhado em Corinto 32-33
Anv. Bustos de Calígula virado à direita e Tibério à esquerda, CAES GEM
Rev. Pegaso voando para a esquerda, COK

Generoso, concedeu grandes favores à sua família, ao povo e ao exército.
Baixou os impostos, autorizou livros proscritos por Tibério, concedeu  autoridade aos juízes e restabeleceu os comices das eleições.

Depois de um início de reinado promissor e quando Roma parecia ter encontrado a calma e a paz, no outono do ano 37 uma doença deixou-o quase louco e rápidamente incomodou a classe senatoriale e não só, devido ao seu abuso do poder.

No ano 33 casou com Junia Claudila que faleceu de parto no ano 36.
Quando no ano 37 tomou as rédeas do poder, passava de uma esposa a outra.
Todas as mulheres que teve voluntárias ou forçadas, eram esposas dos seus amigos.
Ennia Naevia, (de Macron chefe da guarda pretoriana), Lívia Orestilla, (de Pisão), Lollia Paulina (do cônsul Memmius).
A sua última conquista  Milónia Sesónia já não era jovem e tinha casado algumas vezes, mas como tinha um temperamento forte, agradou a Calígula sempre ávido de novas sensações.

Na época esta súbita mudança de comportamente foi atribuída a uma doença.

O historiador Suetónio, na “Vida de Calígula”evoca esta loucura devida a uma poção que lhe deu a sua última esposa Milónia Cesónia, que teve como único efeito,  provocar no imperador uma fúria sem limites.

Calígula-AE 27 cunhado em Cartagena (Espanha) 37-41
Anv. Busto de Calígula laureado à direita,
C CAESAR AVG GERMANIS
Rev. Busto de Milónia Cesónia à direita,
ATEL FLAC CN POM FLAC II VIR Q V N C   SAL AVG

Calígula terá mesmo sido vítima  de  doença mental, ou seria o poder supremo que modificou o seu caráter ?

A família foi a primeira a padecer com esta violência : “o incesto com as suas irmãs” que também obrigava a prostituir-se.

Calígula-Sestércio cunhado em Roma, 37-38

Anv. Busto de Calígula laureado à esquerda,
C CAESAR AVG GERMANICVS PON M TR POT.
Rev. AGRIPPINA-DRVSILLA-IVLIA  SC, (as três irmãs de Calígula).

O reverso deste raro sestércio representa as três irmãs de Calígula, Agripina, Drusila e Julia (sob os traços da Securitas, Pietas e Fortuna) com as quais segundo Suetónio  ele teve relações incestuosas.

Calígula que de início lhes concedeu honras Vestais, quando a sua paixão por elas esmoreceu, exilou-as para ilhas longínquas excepto Drusila que escapou a esse destino por ter falecido.

O imperador não admitia ser contrariado e gostava de ser odiado pelo povo.
Mandou matar grande número de inimigos, mas também muitos amigos sob os mais variados pretextos.
(Faz de modo a que eles se sitam morrer, dizia ele aos carrascos).

Conhecido pela sua crueldade com os presos e escravos humilhando-os sempre que possivel, os condenados eram torturados por ele em frente aos seus familiares, que para completar a sua angústia assistiam o imperador tomar posse das vítimas.

Proclamou-se deus assimilando-se a Júpiter, e ordenou que estátuas com a sua imagem fossem colocadas e adoradas em todos os templos romanos e mesmo nas sinagogas em Jerusalém, originando grande conflito com os judeus, que não aceitaram adorar um deus imperador.

Calígula-AE cunhado na Frígia, 37-41

Anv.Busto de Calígula à direita
GAIOS KAISAR
Rev. Zeus (Júpiter dos romanos) em pé com com um cetro na mão esquerda e uma águia na direita,
AIZANITWN EPI MHDHOU

No Egito pretendeu fazer-se adorar como Rá, o deus Sol nesta província romana.
Segundo a lei romana, todos os anos o imperador designava dois novos cônsules : no ano 41 nomeou cônsul o seu cavalo, “Incitatus”.

Um dia num teatro disse em voz alta que desejava que o povo romamo fosse uma só cabeça para que o pudesse decapitar de uma só vez.
“Que todos me odeiem e me temem” (dizia).

Simulou uma guerra contra os germanos e em seguida emsanguentou a Gália.
Quis massacrar algumas  legiões que não concordavam com o seu procedimento, mas assustado com a sua atitude fugiu para Roma.

Ainda segundo Suetónio esgotou os tesouros adquiridos por Tibério, aumentou os impostos ao povo, e entregou-se às mais loucas deboches.

O imperador também aproveitava espetáculos de gladiadores para lançar inimigos às feras, assim como combatentes que demostrassem alguma fraqueza.
Esse comportamento deu origem a que ele fosse odiado por todas as classes romanas.

De todas estas brutalidades Calígula foi acusado, mas também é indubitável que a imaginação dos historiadores como Suetónio por vezes é exagerada.

Durante o seu curto reinado teve que enfrentar  muitas conspirações, mas a última rebelião  fomentada pelos tribunos des coortes pretorianas foi-lhe fatal.

Após quatro anos de reinado no dia 24 de janeiro de 41, Calígula foi apunhalado por alguns membros da guarda pretoriana sob o comando de Cássio Querea (Cassius Chéréas), num tunel que ligava o Palácio Imperial ao Fórum, evento que gerou a cólera do seu tio Cláudio que logo tomou as rédeas do poder e ordenou a execução dos assassinos do sobrinho.

Reinado de Calígula-AE 18 cunhado em Cesareia (Israel) 40-41

Anv. Busto de Milónia Cesónia à esquerda,
KAISWNIA GUNH SEBASTOU
Rev. Júlia Drusila de frente em pé,
DROUSILLA QUGATRI SEBASTOU

Sua esposa Milónia Cesónia assim como a sua filha Júlia Drusila, foram assassinadas ao mesmo tempo que o imperador.

MGeada

domingo, 23 de março de 2014

Heliogábalo (um imperador Gay)

Ao examinarmos a história dos imperadores romanos, notamos que muitos deles foram corroídos por maus vícios e ambição.
Esse excessivo desejo de poder e riqueza originou muitas vezes atos de barbaria inimagináveis.

Muitos imperadores foram grandes tiranos e bárbaros, durante os seus reinados a morte misturava-se com corrupção e deboche, que segundo alguns historiadores também contribuiriam para o declínio  e queda do império romano.

Heliogábalo (Helagábalo), este mal conhecido da história, não tem nada a invejar a Calígula, Nero, Cómodo e outros déspotas. A lista infelizmente é muito longa.

Heliogábalo nasceu em Emeso (Síria) cerca do ano 203, faleceu em Roma a 11 de março de 222.
Sobrinho de Caracala, ainda muito jovem graças à sua formosura foi eleito sumo sacerdote do culto de Baal,  (deus associado ao sol na Síria e  Fenícia).


Heliogábalo- AE 25 cunhado em Selêucia Piéria (Síria),218
Anv. Busto de Heliogábalo laureado à direita.
AYT K M ANTWNICON
Rev. Templo  com quatro colunas e frontão triangular
encimado por uma águia dedicado ao deus Sol  EL  Gabal
com o Bétilo, representando o deus no interior,
CELEVK
(Bétilo : pedra sagrada na Síria e na Fenícia, considerada a morada de um deus e por vezes considerada como um deus.)

É por causa deste culto moneteísta do Sol que a palavra Helio faz parte do seu nome.
Este jovem imperador, impôs em Roma um despotismo cruel e converteu o palácio dos Césares, num teatro de devassidão.

Na sua função de grande sacerdote, adorava oferecer sacrifícios humanos.
Era seu hábito abrir o abdomém de adolescentes de ambos os sexos, de preferência na presença dos pais, para melhor ver as lágrimas e a angústia nos seus rostos. 

Todavia foi tolerante para com todas as religiões incluindo a católica.
Indiferente ao governo do império, só a adoração de Baal parecia interessá-lo e no seu templo praticava todo o tipo de orgias.

O seu nome era provavelmente Sexto Vário Avito Bassiano e como imperador romano adotou o nome de Marco Aurélio Antonino, e só após a sua morte recebeu o cognome de Heliogábalo.

Aclamado imperador pelas  tropas na Síria, a sua vitória sobre Macrino fez dele o líder incontestável de Roma de 218, até à sua morte, 222.

Esta subida ao poder deve-a às intrigas da sua mãe Júlia Soémia e sua avó Júlia Mesa, que para convencer as tropas  disseram  que Heliogábalo era filho do grande Caracala.
Esta estratégia funcionou e são elas que praticamente vão governar Roma. (sobretudo a avó.)

Heliogábalo e Júlia Soémia
AE 27 cunhado em Marcianópolis (Mésia ou Moesia Inferior) 218-222
Anv. Bustos de Heliogábalo e Júlia Soémia drapeados.
AVT K M A P ANTΏNEINOC AY IOYɅIA COVAIMI
Rev. Apolo com uma pátera na mão direita e um ramo na esquerda.
YΠ IOYɅ ANT CEɅEYKOY MAPKINANOΠOɅITΏN  E

Heliogábalo e Júlia Mesa
AE 27 cunhado em Marcianópolis (Mésia ou Moésia Inferior) 218-222
Anv. Bustos laureados e drapeados de Heliogábalo e Júlia Mesa.
Rev. Hera em pé com bastão e patera.
VP IOVL ANT CELEKOV MARKIANPOLITWN

Heliogábalo que é tirano e capricioso, logo de início mostrou sinais de desequilíbrio mental e  as suas estravagâncias que escandalizaram Roma, rápidamente esvaziaram os cofres do estado.

Durante o seu reinado (e de Júlia Mesa), a morte fazia parte do quotidiano romano, e quem fosse contra este duo era eliminado. Muitos aristocratas romanos compreenderam-no demasiado tarde, e pagaram o seu desacordo com a vida.

Provocou ainda mais ultraje quando casou com Júlia Aquila Severa (virgem Vestal), dizendo que o casamento iria dar origem a crianças parecidas com os deuses e, sendo ele de origem síria e sumo sacerdote do deus sírio Sol Invictus Elagabal, segundo um costume oriental devia unir-se a uma sacerdotisa.

Heliogábalo-Denário cunhado em Roma, 218-222
Anv. Busto de Heliogábalo laureado e drapeado à direita.
IMP ANTONINVS PIVS AVG
Rev. O Sol a caminhar para a esquerda.
P M TR P III COS III P P

Heliogábalo-Denário cunhado em Roma, 221-222
Anv. Heliogábalo laureado e drapeado à direita.
IMP ANTONINVS PIVS AVG
Rev. Heliogábalo com um ramo na mão esquerda
e uma pátera na direita, altar aceso e sol.
SVMMVS SACERDOS AVG

Heliogábalo, Denário cunhado em Roma, 218-222
Anv. Busto de Heliogábalo laureado e drapeado à direita.
IMP ANTONINVS PIVS AVG
Rev. Heliogábalo com uma pátera na mão direita,
oferecendo um sacrifício.
SACER D DEI SOLIS ELAGAB

Heliogábalo- denário cunhado em Roma, 218-222
Anv. Busto de Heliogábalo laureado e drapeado à direita.
IMP ANTONINVS PIVS AVG
Rev. Heliogábalo com com cetro na mão esquerda
e pátera na direita.
INVICTVS SACERDOS AVG 

Esta foi uma grande e grave violação da lei e tradição romana segundo a qual, qualquer Vestale que tivesse relações sexuais era decapitada ou sepultada viva.

Diz-se que frente ao povo Heliogábalo recuava com uma grande pedra nas mãos.
Há quem acredite que era um gesto de desprezo : outros veêm uma homossexualidade que ele não escondia, apesar de ter casado e divorciado de cinco mulheres, três (quatro) das quais são conhecidas.

Júlia Cornélia Paula, ainda que nascida  na Síria, era descendente de família nobre da Roma Antiga : (a Gens Cornélia).

Júlia Cornélia Paula 1° esposa
Denário cunhado em Roma em 219
Anv. Busto de Júlia drapeado à direita
IVLIA PAVLA AVG
Rev. Heliogábalo com a toga à esquerda
e Júlia drapeada à direita de mãos dadas.
CONCORDIA
(Toga: peça de vestuário caraterística da Roma Antiga.)

Júlia Aquila Severa (Vestal), da qual   um ano depois divorciou.

Aquila Severa, Segunda   2° e 4° esposa
Denário cunhado em Roma 221
Anv. Busto de Aquila drapeado à direita.
IVLIA AQVILIA SEVERA AVGVSTA
Rev. Aquila Severa drapeada à esquerda e Heliogábalo 
com a toga à direita de mãos dadas.
CONCORDIA

Annia Faustina, descendente de Marco Aurélio e viúva de Pomponius Bassus , assassinado pouco tempo antes por Heliogábalo.

Annia Galeria Faustina, 3° esposa
Denário cunhado em Roma, 221   
Anv. Busto de faustina drapeado à direita.
ANNIA FAVSTINA AVG
Rev. Annia drapeada à esquerda e Heliogábalo
com a toga à direita de mãos dadas.
CONCORDIA

Um ano depois divorciou e voltou a casar com a segunda esposa, Júlia Aquila Severa.

Segundo Dião Cássio, a sua relação mais estável foi com o seu cocheiro, um escravo louro oriundo da Cária chamado Hierocles, a quem Heliogábalo se referia como seu esposo.

Heliogábalo também pintava os olhos, depilava-se e usava perucas para se prostituir em tabernas, bordéis e no palácio imperial.

Tinha agentes que conheciam perfeitamente o tipo de homem que ele procurava, e encarregavam-se de os levar ao palácio, para num local decorado por Heliogábalo satisfazerem as indecências do imperador.

Herodiano (178-252), comentou que Heliogábalo danificava a sua beleza natural por usar demasiada maquilhagem e, que estava disposto a dar metade da sua fortuna, ao médico que lhe fizesse um transplante de orgãos genitais femininos.

Este imperador tem sido frequentemente caracterizado por historiadores modermos como transgénero, provavelmente transexual, apesar de talvez não ser adequando aplicar termos tão culturalmente específicos a alguém que viveu há quase 2 000 anos.

A História de Augusto diz que Heliogábalo também casou com Aurélio Zótico (um atleta de Esmirna) numa cerimónia pública em Roma.

(A causa da morte  do duo infernal “Heliogábalo e Júlia Mesa” está ligada à sucessão.)
Heliogábalo adoptou Alexandre Severo para mais tarde lhe suceder.
Todavia o povo que adorava o jovem Alexandre queria que ele governasse Roma, o que para Heliogáblo e Júlia Mesa fazia dele um adversário a eliminar.

O plano fracassou : o povo exasperado rebeliou-se, e os dois comparsas foram espancados e arrastados pelas ruas de Roma.
O povo tentou atirar os cadáveres ao esgosto, mas como as condutas eram estreitas, finalmente foram atirados ao rio Tibre sem qualquer forma de processo.
Heliogábalo tinha então 18 anos

No entanto este curto reinado é muito rico em realizações numismáticas com moedas cunhadas em seu nome, das suas três esposas, da sua mãe e da sua intigrante avó.

Heliogábalo que de início continuou com a tradição romana, cunhando diferentes deuses e alegórias nas suas moedas, mais tarde terminou com esta propaganda e guardou só uma.  “O deus Sol, Hélio”.

Heliogábalo-AE 17 cunhado na Síria, 218-222
Anv. Busto de Heliogablo com coroa radiada à direita.
AVT ANTWNINOC
Rev. Busto radiado de Hélio (Sol) à direita
MHTRO K EMI CWN

Uma das muitas lendas diz-nos que  foi numa quadriga puxada por quatro cavalos brancos, com arreios de ouro e ricos ornamentos, que o Bétilo foi transportado de Emeso (Síria) até Roma.

Ninguém segurava as rédeas, o veículo avançava  como se fosse o próprio deus o auriga.
Heliogábalo acompanhou o Bétilo durante toda a viagem, sempre virado para o deus.
(Terá feito o caminho retrogredindo).

13Heliogábalo-Áureo cunhado em Antioquia, 218-219
Anv. Busto de Heliogáblo laureado e drapeado à esq.
IMP C M AVR AMTONINVS P F AVG
Rev. Quadriga com o Bétilo a passo à direita e quatro guarda-sóis.
SANCT DEO SOLI ELAGABAL

Heliogábalo-Denário cunhado em Antioquia, 218-219
Anv. Busto de Heliogáblo laureado e drapeado à esq.
IMP C M AVR AMTONINVS P F AVG
Rev. Quadriga com o Bétilo a passo à direita e quatro guarda-sóis.
SANCT DEO SOLI ELAGABAL

Um enorme templo chamado Elagabalium foi construído no Palatino para receber El Gabal, que era representado por um meteorite cónico negro de Emeso.
Segundo Herodiano, esta pedra era venerada como se fosse enviada do céu.
Tinha pequenas saliências (como raios), e o povo acreditava ser a imagem do sol.

Todos os anos no verão havia um ritual dedicado ao deus, que se tornou muito popular graças à comida ali distribuída por Heliogábalo, que obrigava os senadores a dançar juntamente com ele (ao som de tambores e címbalos) à volta do altar do deus SOL INVICTOS.

Durante o festival, o imperador colocava a pedra de Emeso numa quadriga adornada com ouro e joias que desfilava pela cidade.

(Após o assassinato do imperador a população iniciou um violento massacre contra os cristãos, onde o papa Calisto I (há divergências mas,  segundo alguns historiadores) também perdeu a vida.
Este massacre tenderia provar que os cristãos de Roma eram considerados amigos e aliados do sumo- sacerdote de Baal, Heliogábalo).

MGeada

Bibliografia

Zosso ; François – Zingg ; Christien- Les Empereurs Romains, 27 a.C.-476 d.D.. Paris 1984.
Weber ; Frederic-Monnaies romaines, volume I.