terça-feira, 28 de outubro de 2014

ANTÍNOO (O grande amor do imperador Adriano)

Uma das grandes histórias de amor do mundo antigo,  foi a que viveram o imperador Adriano e o jovem Antínoo, o mais célebre de todos os amores do imperador.

Adriano (24-01-76/10-06-138), imperador romano (117/138), sucedeu  a Trajano numa época em que o Império Romano se estendia de Edimbourg (Escócia) a Baçorá ou  Basra (Iraque).
Nascido  em Cadix, Adriano grande viajante, exprimia-se em grego, tentou instaurar a “PAX ROMANA”, e interessava-se mais aos jovens rapazes que às raparigas .

O seu encontro com Antínoo um jovem (duma grande beleza ) pelo qual se apaixonou, aconteceu provavelmente durante o inverno de 128, aquando da sua visita a Claudiópolis (Bitínia).
A partir daí o jovem grego que Adriano comparava com a deusa “Vénus”, tornou-se o favorito do Imperador.

Contrariamente à data do seu nascimento (na Bitínia entre 108 e 111 ?) que só pode ser estimada em função das estátuas e bustos  que o representam no fim da sua vida, o local e a data da sua morte são conhecidos.

O jovem Antínoo morreu afogado no rio Nilo,  aquando duma viagem ao Egito em outubro do ano 130.
A causa deste afogamento permanece misteriosa, todavia Adriano sempre acreditou ter sido um simples acidente.


Adriano-Denário cunhado em Roma em 136
Anv. Busto de Adriano laureado à direita,
HADRIANVS AVG COS III P P.
Rev. O Egito semi-deitado à esquerda, com um sistro na mão direita,
o braço esquerdo apoiado num cesto com frutos, e íbis.
AEGIPTOS.


Adriano-dracma cunhado em Alexandria em 128/129.
Anv. Busto de Adriano laureado e drapeado à direita,
AVT KAI TRAI ADRIA CEM.
Rev. O rio Nilo semi-deitado sobre um crocodilo à esquerda,
com uma cornucópia na mão direita (sinal de abundância).
L TRICKAI.

Historiadores e autores alegam diferentes hipóteses: uns  pensam que o jovem se tenham afogado intencionalmente, por não se sentir capaz de assumir a sua relação com o imperador.
Outros que o jovem grego se tenha oferecido em sacrifício para prolongar a vida do Imperador, após ter consultado um vidente.

Outros evocam um assassinato, alegando que Adriano não tinha filhos e tencionava adotar o seu amante, o que faria dele seu sucessor.
Uma ideia que não agradava ao senado, nem à maioria do povo romano.

O culto de Antínoo

Desalentado por este trágico desastre, o imperador mandou embalsamar o corpo do seu jovem companheiro.
No Egito, Antínoo foi deificado sob os traços de Osiris e uma cidade “Antinoópolis” foi fundada em sua honra, assim como um templo o que provocou a irritação da sua esposa Sabina.

Os romanos também não perdoaram ao imperador o seu amor por este jovem, nem o culto que lhe dedicou após a sua morte.
Além do templo erigido em Antinoópolis, que passou a ser o centro do culto de Antínoo, todos os anos na data aniversário da sua  morte, Adriano também ali realizava jogos e corridas de carros.

Antínoo- Ae 25 cunhado em Alexandria após 135.
Anv. Busto de Antínoo à esquerda, ANTINNOC  
Rev. Templo de Antínoo (em Antinoópolos).

Adriano-Dracma cunhado em Alexandria,133/4
Anv. Busto drapeado e laureado de Adriano à direita,
AVT CIAK TPAIANA AΔPIANOC CEB.
Rev. Busto de Antínoo laureado à direita, IH.

Antínoo-AE 38 cunhado em Claudiópolis cerca de 130.
Anv. Busto de Antínoo drapeado à esquerda,
ANTINOON ΘEΏN ΠATPIΣ = (A pátria do deus Antínoo).
Rev. Antínoo sob os traços de Hermes Nomios vestindo
quíton e clâmide, um pedum (cajado) na mão esquerda, e vaca. 
BEIΘϒNIEΏN  AΔPIANΏN.

Antínoo-Hemidracma cunhado em Alexandria 134/5
Anv. Busto de Antínoo à direita,
ANTINOOY HPWOC.
Rev.Antínoo com um caduceo cavalgando à direita  IO

O imperador também permitiu às cidades gregas da Ásia Menor que lhe erigissem altares e dedicassem templos, provocando ainda mais a fúria da imperatriz.

AE 32 cunhado em Corinto, (data incerta).
Anv. Busto de Antínoo à direita,
ANTIONOO - ΣOKTIɅIO  MARKEɅɅOC IEPEVC TOV.
Rev. Templo de Antínoo (em Corinto),
TOIC AXAIOIC ANEΘHKE N.
ANTIONOO ΣOKTIɅIO  MARKEɅɅOC. 
(Cunhada por Hostilios Markelos, sacerdote do culto de Antínoo.)

Antínoo-AE 24 cunhado em Delfos, 130/138.
Anv. Busto de Antínoo à direita,
NOONHWAPROP OIAMFIKTIONEC
Rev. Tripé, OEIRRE UCARICTO
Cunhada por Aristotime, sacerdote do culto de Antínoo).

Antínoo-AE 24 cunhado em Delfos, 130/138
Anv. Busto de Antínoo à direita,
HPΏC ANTINOOC.
Rev. Águia no interior duma coroa de louro,
IEPΏC APICOTIMOC ANEΘHKE.
(Cunhada por Aristotime, sacerdote do culto de Antínoo).

Adriano mandou ainda cortar, gravar e transportar para Roma, o Obelisco do Pincio, do qual três faces são dedicadas a Antínoo e a quarta à glória do Imperador.

Este obelisco terá sido erigido na tumba de Antínoo (há divergências).

Este monumento tem uma titelatura inabitual de Adriano em hieróglifos, que levou alguns egiptólogos a reconhecer um texto escrito por um sacerdote do templo da cidade de Akhmim, também conhecida por Panópolis.

Ao mesmo tempo, o Imperador encomendou estátuas e bustos com a imagem do jovem bitínio  em tão grande quantidade, que Antínoo tornou-se um dos personagens da antiguidade mais representado na Bacia do Mediterrâneo.

O seu nome também foi atribuído a uma constelação formada por cinco estrelas, da atual constelação da águia.

Na Grécia pátria do jovem mancebo, foram cunhadas grandes quantidades de moedas com a sua efígie.
O mesmo aconteceu no Egito e sob o impulso de Adriano, o culto de Antínoo vai ser durante algum tempo a maior religião do Império Romano.

Antínoo-AE 34 cunhado em Claudiópolis (Bitínia)  após 130.
Anv. Busto de Antínoo drapeado à direita,
ANTINOON ΘEΏN H ΠATPIΣ.
Rev. Pastor de frente  com um pedum (cajado), e um boi ao seu lado.
BEIΘϒNIEΏN AAPIANΏN.
(Segundo Von Moch o reverso representa Hermes a roubar o rebanho dos deuses, ((um mito Homérico)).

Antínoo-Dracma cunhado em Corinto em 134.
Anv. Busto de Antínoo drapeado à direita,
ANTINOOY OCTIAɅOC MAPKEɅɅOC IEPEVC TOV.
Rev. Belerofonte nu domando o pégaso,
KOPIN QI OCI ANEQHKE.

(Jônia) 117/138.
Antínoo-AE 38 cunhado em Smirne
Anv. Busto de Antínoo à esquerda,
ANTINOOC HPΏC
Rev. Boi à direita,
ΠOɅEMΏN  ANEΘHKE  CMYPN.

Tumba de Antínoo

Se as circunstâncias da sua morte permanecem um mistério, outro enigma envolve este personagem famoso da antiguidade romana : o local onde foi construído o seu túmulo.

É hoje  impossível situar o local exato onde repousa o jovem amante do imperador Adriano.
A resposta a esta questão estava nos textos gravados no Obelisque do Pincio, encontrado em Roma no início do século XVI, perto da Porta Maggiore.
Infelizmente esta escultura foi encontrada quebrada em três pedaços, e a passagem que indica o local da tumba de Antínoo, encontra-se num dos sítios onde o obelisque se  quebrou.

Antínoo-AE 28 cunhado na Síria após 130
Anv. Busto nu de Antínoo à direita,
ANTINOOC  PANO.
Rev. Cavalo ao passo à direita.

Antínoo-AE 34 cunhado em Tarso, 130/1
Anv. Busto de Antínoo à direita,
ANTINNOC  HPΏC.
Rev. Bacia sobre um tripé, no qual está enrolada uma serpente.
AΔPIANHC TAPOCT MHTPOΠOɅEΏC  NEΏK / NEΏ ΠYΘIΏ.

No entanto várias hipóteses tem sido avaçadas pelos historiadores e egiptólogos que durante séculos e mais recentemente durante o decurso do século XX, se dedicaram a decifrar os hieróglifes.

Antínoo-AE 17 cunhado Nicópolis (Épiro-Acarnânia), 117/138.
Anv.Busto de Antínoo à direita,
ANTINOOC QEON.
Rev. Crescente de lua e estrela,
NEIKOPOLIC.

Antínoo-AE 17 cunhado em Nicópolis, (Épiro-Arcarnânia), 117/138
Anv. Busto de Antínoo à direita
ANTINOOC OCRCVM.
Rev. Porta da cidade (Nicópolis) com três entradas e duas torres,
NEIKOPOLEITWN.
(Exemplar da Biblioteca Nacional de França).

A lógica seria que Antínoo tenha sido sepultado em Antínoe, cidade fundada no local do seu trágico fim.
Esta opinião foi abandonada pelos investigadores que alegaram que o obelisque foi encontrado em Roma e não no Egito.  
Além disso, é difícil de imaginar que o imperador Adriano tenha abandonado o corpo do seu bem amado em terra estrangeira.


Antinoo-AE 27 cunhado em Aureliópolis (Lìdia) 117/138
Anv. Busto de Antínoo drapeado à direita,
ANTINOOC HPOC
Rev. Tmolo ou Tmolus em pé com um
bastão na mão direita e uma cesta à cabeça,
TIMOLITIWN
(Tmolo: na mitologia grega o deus das montanhas).

O Templo de Vénus e Roma  consagrado por Adriano no ano 135, também é um possível local, mas é improvável que o imperador tivesse a audácia de associar o jovem e a relação controversa que teve com ele, com os valores tão tradicionais representados pela deusa Vénus.
(A ideia que o Imperador pretende-se reunir estes dois“efebos”semelhantes na sua beleza e trágico fim, motivou muitos historiadores).

Pela sua localização que se acorda perfeitamente com as tradições realistas, o Palácio do Palatino (residência dos imperadores) e particularmente o Jardim de Adônis, também reteve a atenção dos investigadores.

Antínoo-Téssara de chumbo cunhada em Alexandria, 117/118.
Anv. Busto de Antínoo drapeado à direita,  AU.
Rev. Busto de Zeus Amom com chifres à direita. 

A Vila Adriana (residência de Adriano) situada no alto de Tibur também é  um sitio previlegiado pelos arqueólogos.
Escavações ali efetuadas, troxeram à luz do dia vestígios que poderiam ser a tumba de Antínoo, e foram encontradas muitas estátuas  e representações do jovem grego.

Antínoo-Téssara de chumbo cunhada em Alexandria, 117/ 138
Anv. Bustos de Antínoo e Isis.
Rev. O Nil (rio) sentado num hipopótamo à esquerda.

Mais recentemente o egiptólogo francês Jean-Claude Grenier na sua obra “L’Osiris  d’Antínoos”, após ter retomado a tradução dos textos do obelisque e analisado os trabalhos dos seus predecessores, concluiu que Antínoo foi provavelmente sepultado em Roma numa das propriedades familiares de Adriano.

Os Horti Domitiai, actual Castel Sant’Angelo (Castelo de Santo Ângelo) que Adriano herdou da sua mãe (Domícia Paulina) e onde o Imperador mandou erigir o seu próprio túmulo, também é um local muito indicado pelos investigadores mas,  apesar das pesquisas ali efetuadas o local onde repousa o jovem Antínoo permanece um mistério.

Antínoo- Téssara de chumbo cunhada em Alexandria, 117/138
Anv. Antínoo cavalgando à direita.
Rev. O Nilo (rio) sentado num penedo e Zeus Amom em pé.

Por não pertencer à família imperial e na impossibilidade de o deificar em Roma, para perpétuar a sua memória, Adriano criou a cidade de Antinoópolis.

Mais de trinta cidades cunharam as suas moedas e o seu culto permaneceu até ao terceiro século.

A cunhagem de moedas com Antínoo  companheiro intímo  de Adriano é surpreendente, visto ele não  estar ligado ao imperador pelo sangue ou casamento, nem sequer ser um presumível herdeiro.
Antínoo só foi venerado e deificado após a sua morte, e o seu culto espalhou-se a todo o mundo romano e algumas colónias gregas.
Nada menos de 1 500 bustos e estátuas foram encontrados.

Antínoo-Téssara de chumbo cunhada em Alexandria 117/118
Anv. Busto de Antínoo à direita,  LB
Rev. Niké caminhando à esquerda com uma coroa e uma palma,  nilómetro.

(Nilómetro : poço provido de uma escada que descia até ao nível do lençol freático para permitir a medição das flutuações do nível da água do rio Nil.

Todos os templos tinham um destes instrumentos destinado a determinar a intensidade da inundação anual e em consequência, o valor dos impostos a pagar).

A sua amoedação também é muito importante, (mais de trinta tipos diferentes) ainda que grande parte das moedas fosse cunhada no reinado de Adriano entre os anos 130/138, estima-se que algumas continuaram a ser cunhadas  até ao reinado de Marco Aurélio (161/180), e em  Claudiópolis ou Adriana, (actual Bolu) foram cunhadas  até ao reinado de Caracala (211/217).

Marco Aurélio-AE 24
Cunhado na Macedónia, dedicado a Antínoo, 161/180.
Anv. Busto de Marco Aurélio laureado e drapeado à direita,
KAIPAC ANTΏNINOC.
Rev. Um raio alado.
KOINON MAKEΔONΏN.

Antínoo-AE 38 cunhado em Smirne (Jônia) 134/5
Anv.Busto de Antínoo à esquerda,
ANTINOOC HPΏC
Rev. Boi à direita,
ΠOɅEMΏN  ANEΘHKE  CMVP.

Antínoo-AE 26 cunhado em Tarso (Cilícia) em134. 
Anv. Busto de Antínoo à esquerda,
ANTINOOC HPΏC.
Rev. Cista (espécie de açafate) Dionísica, três tirsos ligados entre si com guirlandas, 
NEWKOROU ADRIANHC TARCOU METROP OLEWC NEW IAKCW.

A mais bem conservada dos três exemplares conhecidos : um ligeiro desgaste na legenda do anverso, mas que magnífico retrato de Antínoo !
Estimada a 45 000 CHF, num leilão em fevereiro de 2002,  foi abjudicada por 109 000 CHF.
A partir daí, não voltaram ao mercado.

Antínoo foi o mais célebre dos amores do imperador Adriano, provavelmente por causa da sua morte por afogamento.
As teorias abundam sobre este assunto. Assassinado, acidente ou suicídio ritual ?
Após quase  2 000 anos depois o mistério não foi desvendado.

Em todo o Oriente Grego Antinoo foi venerado com moedas comemorativas.
Nenhuma foi cunhada em Roma, tal ato seria muito escandaloso.

Para manterem bons termos com Adriano, os egípcios adolaram Antínoo e à flor de lotus passaram a chamar Antinoia.
O culto a esta nova divindade ainda vigorava nas colónias romanas, no reinado de Valentiniano I, 364/375.

MGeada

domingo, 28 de setembro de 2014


Popeia Sabina


Filha de Tito Ólio (questor do imperador Tibério) e Popeia Sabina a Velha, Poppaea Sabina a Jovem, nasceu em Pompeia no ano 30 d.C..

Imperatriz consorte-romana, Popeia casou em terceiras núpcias com o imperador Nero.
Historiadores descrevem-na como sendo uma bela mulher que recorreu a inumeras intrigas para se tornar imperatriz.

Ambiciosa e implacável, no ano 44, apenas com 14 anos de idade Popeia casou  em primeiras núpcias com Rúfio Crispino, um cidadão da ordem equestre.

Nero, AE 26 cunhado em Perinto (Trácia) 62-65
Anv. Popeia com diadema e drapeada  à direita
Rev. Atributos de Isis no interior duma coroa de louro.


Em seguida casou com Otão um (sete anos mais novo que ela, e do qual se divorciou em 58) grande amigo do novo imperador Nero, unicamente para se aproximar deste, tornando-se a sua amante preferida, com um principal objetivo: ser sua esposa e imperatriz romana.

Nero-Tetradracma cunhado no Egito 63-64
Anv. Nero com coroa radiada à direita
Rev. Popeia dradrapeada à direita

Segundo Tácito, Popeia terá sido a razão pela qual Nero assassinou a sua mãe (Agripina) no ano 59, por esta não apreciar a relação e o possível casamento do filho com Popeia, que segundo alguns historiadores modernos teve lugar no ano 62.


Ainda segundo Tácito, após a morte de Agripina, Popeia pressionou Nero para que este divorciasse e posteriormente executasse a sua primeira esposa e meia-irmã Cladia Octávia, exilada em Campânia, mais tarde aprisionada na ilha de Ventotene por falsas acusações de adultério.

Nero-AE 16 cunhado na Frígia, 63-65
Anv. Popeia Sabina à direita
Rev. Ártemis (ou Artemisa) caminhando à direita

Nero e Otávia viveram juntos oito anos mas não tiveram filhos.
Acusada de infertilidade, esta também foi uma das razões para que Nero divorciasse, para duas semanas depois casar com a intrigante Pompeia.

O historiador Flávio Josefo escreveu-nos uma história diferente, e diz que a imperatriz Popeia era muito religiosa, e que influenciava Nero a tolerar todas as religiões pricipalmente a judaica, (ela mesmo seria prosélita judia).

Nero-AE 24, cunhado em Licônia 54-68
Anv. Nero laureado à direita
Rev. Popeia sentada num trono com um ramo de papoilas
na mão direita, e um bastão na esquerda.

Todavia, no ano 64, Popeia contribuiu para a nomeação de procurador da Judeia de Géssio Floro, o esposo de uma amiga que não tinha grande simpatia para com os judeus.

No dia 21 ou 23 de janeiro do ano 63, Popeia deu à luz uma filha, Cláudia que faleceu quatro meses depois. Nero concedeu à mãe e à filha o título de Augusta.

Nero- AE 19 cunhado em Cesareia em 65
Anv. Popeia sentada num trono no interior dum templo,
DIVA POPPAEA AVG
Rev. Cláudia no interior dum templo,
DIVA CLAVDIA NER

A causa da morte de Popeia Sabina continua incerta.
Segundo Suetónio no verão de 65, a imperatriz encontrava-se grávida do segundo filho, quando teve grande disputa com Nero por este frequentar e passar muito tempo nas corridas.
Furioso, Nero ter-lhe-á dado um pontapé na barriga que provocou a sua morte.

Aqui também o historiador Tácito discorda, e data a sua morte depois das Quinquennalis Neronia.
(Festas instituídas pelo imperador Nero no ano 60, semelhantes às olimpíadas gregas. Elas consistiam em concursos de música, ginástica e equestres.
Segundo Suetónio e Tácito, foi Nero que em primeiro introduziu estes jogos em Roma em louvor de César e Augusto).

Nero-Áureo cunhado em Roma, 54-58
Anv.Busto de Nero à direita,
NERO CAESAR AVGVSTVS

Outros autores alegam que Nero terá envenenado a esposa, mas também aqui Tácito discorda. 
Dião Cássio diz que Nero terá pulado sobre a barriga da esposa,  mas admite não saber se foi intencionalmente ou não.
Historiadores  modernos inocentam o imperador dizendo que Popeia morreu simplesmente dum  aborto, ou dum parto complicado no qual o filho também não sobreviveu.

M. Acilius Aviola (procônsul na Ásia), AE 18
Anv. Popeia com diadema  e drapeada virada para a direita, e Nero laureado para a  esquerda
Rev. A Tique (ou Tiquê) coroada e drapeada à direita

Após a morte de Popeia, Nero inconsolável não consentiu que  o seu corpo fosse cremado.
Depois de perfumado e embalsamado com ervas aromáticas, foi colocado no Mausoléu de Augusto.

Nero-AE 21, Bósforo entre 45 e 68/69
Anv. Nero laureado à direita
Rev. Popeia drapeada à esquerda

Aquando do discurso fúnebre: Nero elogiou a sua esposa, concedeu-lhe honras divinas, e diz-se ter queimado na cerimónia o equivalente a dez anos de produção de incenso da Arábia.

No ano 67, o imperador  ordenou que um jovem livre “Sporus” fosse castrado e casou com ele.
Segundo Dião Cássio, Sporus tinha uma tão impressionante semelhança com Pompeia Sabina, que Nero chegou a chamá-lo pelo nome da sua falecida esposa

MGeada

quarta-feira, 27 de agosto de 2014


Cativos na numismática romana

São frequentes as  imagens de cativos nas moedas da República e Império Romano.

Após as suas vitórias, os romanos tinham por hábito colocar os prisioneiros junto dos seus estandartes e cortar o cabelo dos reis e oficiais vencidos, que em seguida enviavam para Roma para celebrarem o seu triunfo.

Também era hábito obrigar os presos acorrentados a desfilar perante o carro triunfal do imperador.
Foi nesta condição que Zenóbia participou no triunfo do imperador Aureliano.
A procissão do triunfo, realizada no interior do Pomério, começava com o desfile de carros alegóricos, carregados com os troféus conquistados: (obras de arte, ouro, prata, moedas, armaduras, armas e estandartes).

(Pomério:(em latim, Pomerium ou Pomoerium), na Roma antiga era uma designação para a fronteira simbólica da cidade de Roma. Foi ampliado várias vezes durante a República e Império Romano).

Logo a seguir geralmente acorrentados, os líderes derrotados e as suas famílias, aliados e soldados, seguidos pelos cativos e escravos.
Além da exebição, alguns estavam destinados a ser executados.
Também a pé, seguiam os Senadores e Magistrados romanos, seguidos pelos Lictores com as suas vestes vermelhas e seus fasces coroados com louro.

(Os Lictores eram funcionários públicos encarregados de ir à frente dum magistrado com feixes de varas denominadas fasces, abrindo o caminho para que este pudesse passar.
O seu número variava segundo o grau de importância do magistrado.
Eram também encarregados de convocar o réu quando fosse solicitado pelo magistrado).

O desfile continuava com o carro triunfal puxado por quatro cavalos, em que o general conquistador (imperador) com o rosto pintado com mínio, tal como a estátua de Júpiter Capitolino e com uma coroa de louro, (símbolo da vitória) que avançava lentamente sob os aplausos da população.

Um companheiro, um rei ou general vencido,  podia compartilhar o carro com ele, ou nalguns casos, os  filhos mais novos do imperador.

Os filhos mais velhos assim como os seus oficiais a cavalo, seguiam de perto.
Em seguida, os soldados do imperador (legionários) desarmados, vestidos com a toga e coroados com coroas de louro, que entoavam cânticos em louvor do imperador.

O cortejo terminava com dois bois brancos enfeitados com guirlandas e com os chifres dourados, para serem sacrificados em honra de Júpiter.
Tudo acompanhado com música, nuvens de incenso e flores.

Se a morte impedia os derrotados prestar homenagem ao triunfo dos romanos, uma cerimónia extremamente humilhante para eles, o seu cadáver era geralmente transportado para participar na cerimónia  da vitória do imperador.

Foi o que aconteceu com o cadáver de Cleópatra VII, que cometeu suicídio para escapar da ignomínia de uma exposição pública.

Durante o período republicano figuras de cativos com as mãos amarradas atrás das costas aparecem em moedas de muitas famílias.

L. Aemilius Lepidus Paulus – Denário cunhado em Roma, em 62 a.C..
Anv. A Concórdia com véu e diadema à direita,
PAVLLVS LEPIDVS CONCORDIA
Rev. Aemilius vestido com a toga, troféu de guerra e três cativos, (Perseu rei da Macedónia com as mãos amarradas atrás das costas e os seus dois filhos).
TER  PAVLLVS  

Faustus Cornelius Sula (morto em 46 a.C., era filho do ditador Lucius Cornelius Sula ou Sila, e genro do grande Pompeio).
Denário cunhado em Roma em 56 a.C..
Anv. Busto de Diana com diadema e colar de pérolas à direita,  FAVSTVS
Rev. Boco (rei da Mauritânia e vassalo de Roma) ajoelhado oferecendo um ramo de oliveira a Sula sentado num trono, ao mesmo tempo que lhe entrega Jugurta rei da Numídia (que desfilou em Roma dentro de uma jaula com as mãos amarradas atrás das costas)  FELIX

C. Memmius – Denário cunhado em Roma em 56 a.C..
Anv. Ceres com uma coroa de espigas de trigo à direita
C. MEMMI CF
Rev. Cativo ajoelhado diante dum troféu de guerra,
IMPERATOR C. MEMMIVS  

Júlio César – Denário cunhado em Espanha em 46-45 a.C..
Anv. Vénus com diadema à direita, e Cupido por trás do pescoço,
Rev. Troféu de estandarte e armas entre dois prisioneiros: figura feminina chorando e masculina com as mãos amarradas atrás das costas.

Do mesmo modo podemos ver cativos em moedas de muitos imperadores romanos.
Acorrentados, de pé, prostrados aos pés de divindades, amarrados às rodas do carro do imperador, ladeados por Vitórias, ou sentados  sob insígnias militares ou troféus.

Cativas ou cativos aos pés do imperador ou a serem espezinhados pelo imperador a cavalo, também aparecem com muita frequência.

Cativos sentados num troféu ou debaixo duma palmeira numa atitude de desespero, figuram em moedas que comemoram a vitória de Vespasiano e Tito sobre Jerusalém e a conquista da Judeia.

Exemplo: moedas com a legenda IVDEA CAPTA, ou ainda GERMANICO AVG (moedas de Marco Aurélio) assim como moedas com a legenda VIRTVS EXERCITVS ROMANORVM, do imperador Juliano II.

Vespasiano-Áureo cunhado em Roma, fim de 69, início de 70
Anv. Vespasiano laureado à direita,
IMP CAES VESPASIANVS AVG
Rev. cativa (Judia) sentada com as mãos amarradas e troféu militar
IVDAEA

Vespasiano-denário cunhado em Roma 69-70
Anv. Vespasiano laureado à direita
IMP CAES VESPASIANVS AVG
Rev. cativa (Judia) com as mãos amarradas e troféu militar
IVDAEA

Vespasiano-Denário cunhado em Tarraco, 69-70
Anv. Vespasiano laureado à direita
IMP CAESAR VESPASIANVS AVG
Rev. Cativa (Judia) numa atitude triste e troféu militar
IVDAEA 
Tarraco: (COLONIA IVLIA VRBS TRIVNPHALIS TARRACO) atual Tarragona, foi uma cidade romana na Península Ibérica, capital da província da Hispânia Citerior (no período da República Romana) e depois da Tarraconense (sob o Império).

Vespasiano-Denário cunhado em Roma, 69-70      
Anv. Vespasiano laureado à direita
IMP CAES VESPASIANVS AVG
Rev. Cativa (Judia) com as mãos amarradas atrás das costas  e palmeira
IVDAEA

Vespasiano-Sestércio cunhado em Roma em 71
Anv. Vespasiano laureado à direita
IMP CAE VESPASIAN AVG PM TR PPP COS III
Rev. Sob uma palmeira, a Judeia sentada numa couraça chorando, e cativo Judeu em pé com as mãos amarradas atrás das costas, com lanças e escudos ao redor.
IVDAEA CAPTA  SC  

Vespasiano-Sestércio cunhado em Roma em 71
Anv. Vespasiano laureado à direita
IMP CAE VESPASIAN AVG PM TR PPP COS III
Rev.  A Judeia sob uma palmeira, sentada numa couraça em atitude triste, 
cativo Judeu em pé com as mãos amarradas, lanças e escudos ao redor.
IVDAEA CAPTA SC 

Vespasiano-Sestércio cunhado em Roma em 71
Anv. Vespasiano laureado à direita
IMP CAES VESPASIAN AVG PM TR PPP COS III
Rev. Sob uma palmeira: Vitória com um pé sobre um capacete, 
com um escudo nas mãs com a inscrição OB CIVes SERvatos, 
Judia sentada em atitude triste,
VICTORIA AVGVSTI SC  

Tito-Denário cunhado em Roma em 72-73
Anv. Tito drapeado e laureado à direita,
T CAES IMP VESP PON TR POT
Tito vestido de militar com um pé em cima dum capacete, com lança e cetro,
palmeira, e a Judeia cativa sentada chorando.

Tito-Denário cunhado em Roma entre janeiro e julho de 80
Anv. Tito laureado à direita
IMP TITVS CAES VESPASIAN AVG PM
Rev. Troféu de armas e dois cativos
TR P IX IMP XV COS VIII P P 

Tito-denário cunhado em Roma, 93-94
Anv. Tito laureado à direita
T CAES IMP VESPASIANVS
Rev. Troféu de armas e cativo ajoelhado com as mãos amarradas
TR POT VIII COS VII

Tito-denário cunhado em Roma, 93-94
Anv. Tito laureado à direita
T CAES IMP VESPASIANVS
Rev. Troféu de armas e cativo ajoelhado com as mãos amarradas
TR POT VIII COS VII

Também aparecem cativos chorando ou sentados numa pilha de armas em moedas do imperador Domiciano.

Domiciano-Sestércio cunhado em Roma em 85
Anv. Domiciano laureado à direita,
IMP CAES DOMITIAN AVG GERN COS XI
Rev. Mulher (germânica) cativa sentada chorando, troféu militar 
e cativo germânico em pé com as mãos amarradas atrás das costas,
GERMANIA CAPTA SC

Domiciano –Áureo cunhado em Roma em 85
Anv. Domiciano laureado à direita,
IMP CAES DOMIT AVG GERM PM TR P V
Rev. A Germânia simbolizada por uma mulher em tronco nu sentada em atitude triste, e lança quebrada,
IMP XII COS XII CENSoria Potestat PP

Trajano-Denário cunhado em Roma, 98-117
Anv. Trajano laureado à direita,
IMP TRAIANO AVG GER DAC PM TR P
Rev. Cativo (Daciano) sentado numa pilha de armas com as mãos amarradas atrás das costas,
COS V P P S P Q  R OPTIMO PRINC   DAC CAP   

Trajano –Denário cunhado em Roma, 98-117
Anv. Trajano laureado à direita,
IMP TRAIANO AVG GER DAC P M TR P
Rev. A Dácia simbolizada por uma mulher chorando, sentada numa pilha de armas,
COS V P P S Q R OPTIMO PRINC   DAC CAP

Trajano-Denário cunhado em Roma, 98-117
Anv. Trajano laureado à direita,
IMP TRAIANO AVG GER DAC P M  TR  P COS V P  P
Rev. Cativa Dácia sentada em atitude triste e espada,
S P Q R  OPTIMO PRINCIPI 

Marco Aurélio-Sestércio cumnhado em Roma em 172
Anv. Marco Aurélio laureado à direita,
ANTONINVS AVG TR P XXVI
Rev. A Germânia submetida, sentada em atitude triste,
GERMANIA SVBACTA IMP VI COS III  SC

Marco Aurélio-denário cunhado em Roma 165-166
Anv. Marco Aurélio laureado à direita,
ANTONINVS AVG ARMENIACVS
Rev. A Arménia cativa, sentada em atitude triste, IMP II COS III
P M TR P XII  ARMEN

Septímio ou Sétimo Severo, denário cunhado em Roma, cerca de 195
Anv. Septimo Severo laureado à direita,
L SEP SEV PERT AVG IMP V
Rev. Dois cativos com as mãos amarradas e troféu militar,
PART ARAB PART ADIAB  COS II PP

Caracala-Sestércio cunhado em Roma em 210
Anv. Busto de Caracala laureado à direita,
M AVREL ANTONINVS PIVS AVG 
Rev. Troféu militar entre uma Vitória e a Bretânia, esta com um cativo a seus pés,
VICTORIAE BRITANNICAE  S C

Caracala-Denário cunhado em Roma em 202
Anv. Busto de Caracal laureado e drapeado à direita,
ANTONINVS PIVS AVG
Rev. Marte (deus da guerra) com um troféu militar: dois cativos Partas aos seus pés,
PART MAX PONT TR

Gordiano III-AE 23 cunhado em Antioquia, 238-244
Anv. Gordiano laureado e drapeado à direita
IMP CAES M ANT GORDIANVS AVG
Rev. Dois cativos sentados entre duas Vitórias,
CAES ANTIOCH COL  S

Galiano – Antoniniano cunhado em Milão em 257
Anv. Busto de Galiano com coroa radiada à direita,
IMP GALIENNVS PF AVG
Rev. Troféu militar e dois cativos com as mãos amarradas atrás das costas
GERMANICVS MAXIMVS 

Probo-Áureo cunhado em Roma, 276-282
Anv. Probo com couraça e laureado à direita,IMP PROBVS P AVG
Rev. Troféu militar entre dois cativos,
VICTORIA GERM

Também acontece que o cativo seja representado a ser espezinhado por um imperador a cavalo.

Probo-AE 22 cunhado em Kapu Dagh (Turquia) entre  276 e  282
Anv. Probo com capacete e couraça à esquerda,
VIRTVS PROBI AVG
Rev. Probo a cavalo espezinhando um cativo sentado com as mãos amarradas
ADVENTVS PROBI AVG

Probo-Antoniniano, 281-282
Anv. Pro com couraça e coroa radiada à direita,
IMP PROBVS P F AVG
Rev. Vitória alada com um troféu de armas e dois cativos com as mãos amarradas atrás das costas,
VICTORIA GERM  PHP

Licínio-Fóllio cunhado em Aquilea em 320
Anv. Licinio com capacete e couraça à direita,
IMP LICINIVS AVG
Rev. Dois cativos entre um estandarte,
VIRTVS EXERCITVS VOT XX   AQS

Constantino I, Follis cunhado em Treves 323-324
Anv. Constantino laureado à direita,
CONSTANTINVS AVG
Rev. Vitória com arco troféu e uma palma, e a Sármata vencida com as mãos amarradas.
SARMATIA DEVICTA

Constâncio-Sólido cunhado em Salonica (ou Tessalónica), 340-350
Anv. Constâncio com diadema e drapeado à direita,
FL IVL CONSTANS PF AVG
Rev. Constâncio com um troféu militar entre dois cativos,
VIRTVS EXERCITVM   TES

Juliano II, Sólido cunhado em Antioquia, 361-363
Anv. Juliano laureado e drapeado à direita,
FL CL IVLIANVS PF AVG
Rev. A Virtude vestida de militar segurando um cativo pelo cabelo
VIRTVS EXERCITVS ROMANORVM  ANTI

Roma fundou o seu império com as conquistas militares: por isso apresentar os derrotados, era conforme à sua ideologia imperalista.

As primeiras celebrações dos triunfos de Roma terão sido provavelmente simples desfiles de vitória celebrando o regresso dum general vitorioso e o seu exército à Cidade Eterna com o seu butim, e  terminando com alguma cerimónia religiosa para agradecer aos deuses.

O desfile sempre teve início no Campo de Marte, talvez antes de romper o dia.
Com atrasos imprevistos e alguns acidentes, a marcha seria muito lenta com algumas paragens previstas no caminho até ao destino final, o Templo de Júpiter Capitolino.

Apesar da curta distância (cerca de 4 km), a lenta procissão podia demorar  dois, três dias e por vezes mais, segundo os  troféus conquistados.

Reis ou generais, soldados, cativos, escravos, armas, ou ainda ouro, prata, joias, obras de arte e outros. 
Por vezes o imenso Campo de Marte tornava-se pequeno para acolher o fruto do saque, e tinham que reunir fora dos muros da cidade.

Conclusão: a imagem dos cativos (que eram considerados como um nada, um vencido) que muitas vezes servia de objeto de troca, é um tema muito representado na numismática romana.


MGeada