quarta-feira, 24 de dezembro de 2014


Sol Invictvs “Sol Invencível”
(A data do 25 de dezembro para comemorar o dia de Natal, terá sido escolhida para coincidir com as festividades romanas do “Dies Natalis Solis Invicti”: dia do nascimento do Sol Invencível?)

Considerado um deus do Baixo império romano (235-476),  o Deus Sol já apareceu representado numa onça romana por volta dos anos 217-215 a.C..

Durante o período republicano (509-27 a.C.), e Alto império, muitos monetários e imperadores representaram o Sol nas suas cunhagens, (como alegória) mas a legenda “SOLI INVICTO” (como Deus Sol), só apareceu a partir da segunda metade do século III.

Anónimo-Onça cunhada em Roma por volta de 217-215 a.C.
Anv. O Sol de frente com coroa radiada
Rev. Duas estrelas e quarto de lua,  ROMA
(Ref. RRC-39/4, RIC I-614)

Marcus Aburius Geminus (monetário)-Denário cunhado em Roma  em 132 a.C.
Anv. Roma com capacete à direita, GEM  XVI
Rev. O Sol conduzindo a quadriga solar,
MABIR ROMA
(Ref. CR-250, Sydenham-487)
Cunhado no ano 132, este denário é considerado a primeira moeda romana a representar a quadriga solar.

Aqui a inconografia retrata o Deus Sol, o equivalente de Hélios deus grego, na sua primeira e principal função, conduzir o carro solar (durante o dia), do Oriente para Ocidente para levar luz e calor à terra e aos homens.

No início simples personificação do astro brilhante, o Sol: o Deus Sol Hélios vai enriquecer ao contato com filósofos helenísticos (estoícismo) e dos cultos orientais (Mitra) para resultar na figura sincrética SOL INVICTVS no terceiro século da nossa era.

Marcus Aquillius (monetário)-Denário cunhado em Roma 109-108 a.C.
Anv. O Sol com coroa radiada à direita,  X
Rev. A Deusa Lua conduzindo uma biga, quarto de lua e 4 estrelas,  AQUIL ROMA
(Ref. Crawford-303/1, Sydenham-557)

No fim da República Romana, encontramos grande variedade de temas nos denários.
Aqui a associação do Sol com a  Lua, o divino casal astral a gerir a regularidade cíclica do tempo.

No reverso, é possível que as quatro estrelas representem alguma constelação?

Lucius Lucrectius Trio (monetário) -Denário cunhado em Roma em 76 a.C.
Anv. O Sol com coroa radiada à direita,
Rev. TRIO dentro de um quarto de lua, L LVCRETI, 7 estrelas
(Ref. RRC-390/1, RCV 1-4307)

A associação das duas grandes fontes luminosas da abóbada celeste Sol e Lua com as sete estrelas, é um esquema cósmico muito antigo, talvez ligado à etrenidade e à era dourada (ou idade dourada).

C. Coelius Caldus (monetário)-Denário cunhado em Roma em 51 a.C.
Anv. C Coelius à direita,
C COEL CALDVS,
Rev. O Sol com coroa radiada à direita,
(Crawford-437, Sydenham-892, RRC-437/1-403)

P. Clodius Turrinus (monetário)-Denário cunhado em Roma em 42 a.C.
Anv. O Sol com coroa radiada à direita
Rev. Quarto de lua, 5 estrelas,
P CLODIVS   M. F.
(Ref. Crawford-494/21, Sydenha-115, RRC-494/20b, RCV 1-14)

No ano 42 a.C., provavelmente inspirado pelo retrato de Hélios que adornava as moedas de Rodes no período helenístico, o triunvirado monetário Lucius Mussidius Longus cunhou denários em Roma representado o busto radiado do Sol ¾ de frente.

Segundo algumas interpretações, a presença do Sol nesta moeda pode significar a divinização de César, desejada por Marco António no ano 42 a.C., ou então um sacerdócio do triunvirado dedicado ao culto do Sol?

L. Mussidius Longus (triunvirado monetário)-Denário cunhado em Roma em 42 a.C.
Anv. O Sol ¾ de frente com coroa radiada
Rev. Duas estátuas de Vénus Cloacina numa plataforma,
MVSSIDIVS LONGVS CLOACIN
(Ref. Crawford-494/43ª, Sydenha-1094, RRC 1-491)  

Marco António-Denário cunhado em Roma, outono do ano 42 a.C.
Anv. Marco António à direita,
M ANTONI IMP,
Rev. O Sol no interior dum templo distilo,
III VIR R. P. C
(Ref. Crawford-496/1, Sydenha-1168)
(Ainda não se encontrou nenhum vestígio deste templo) 

A imagem do Sol (Oriente) aparece por vezes em busto no reverso de raras moedas.
Este culto um pouco tardio, vai ter a sua apogeo no decurso do século III.

Marco António (triunvirado)-Denário cunhado em Roma em 42 a.C.
Anv. Marco António à direita e lítuo´,
Rev. O Sol com coroa radiada à direita,
M ANTONNIVS III VIR R P
(Ref. Crawford-496/2, CRI-127, RCS-68, Sydenha-1170)

Marco António-Denário cunhado em Roma em 38/37 a.C.
(Cunhado pelo triunvirado Lucius Mussidius Longus)
Anv. O Sol com coroa radiada à direita,
M ANTONIVS M N AVG R IM TER
Rev. Marco António velado e vestido com a toga, com um lítuo na mão direita,
III VIR  R P C COS DESIG ITER ET TER
Ref. Crawford-533/2, Sydenha-1199)

No reverso deste denário, Marco António vestido com a toga e velado como os sacerdotes, mostra o lítuo, “bastão sagrado dos áugures”, e na outra face a cabeça radiada do Sol vista de lado.

A divindade faz recordar a política oriental de Marco António, a sua aproximação de Cleópatra VII rainha do Egito, e a sua assimilação a Alexandre o Grande em Hélios.
Os seus filhos terão os nomes de Alexandre “Hélios” e Cleópatra “Selene”, o Sol e a Lua dos gregos de Alexandria.

L. Aquillius Florus (monetário, para Augusto)
Denário cunhado em Roma em 19-18 a.C.
Anv. O Sol com coroa radiada à direita,
L AQVILLIVS FLORVS III VIR
Rev. Quadriga puxando um carro em forma de módio, com três espigas,
CAESAR AVGVSTVS  S C
(Ref. RIC-313, BMC-55.C.429, RCV 1- 1601)
(Módio: antiga medida de capacidade entre os romanos que equivalia aproximadamente ao
alqueire)

O imperador Aureliano (270-275), fez do Sol o culto oficial em Roma, sem por isso proibir outros cultos tradicionais romanos.
Todavia não sabemos se o novo Deus era uma reformulação do antigo culto latino do Sol, a renascença do culto solar de Heliogábalo, ou um culto completamente novo.

No reinado de Septímio Severo (193-211), magnificas moedas de ouro legendadas “Concordiae Aeternae”, são ornamentadas com os bustos do imperador e sua esposa Júlia Domna.
Septímio com coroa radiada símbolo do Sol, e Júlia com uma coroa encimada com um quarto de lua, símbolo da Lua.

Septímio Severo (atribuído a Caracala)-Áureo cunhado em Roma em 201
Rev. Caracala laureado e drapeado à direita,
ANTONINVS PIVS AVG PO PON TR  P III
Rev. Bustos de Septímio Severo representação do deus Sol, e Júlia Domna a deusa Lua.
(Septímio associou o filho ao governo quando este contava apenas 13anos de idade)
(Ref. RIC (Caracala)-52, BMC/re-260, RCV-6519)

O casal astral Sol/Lua representa a eternidade do tempo.

Heliogábalo (218-222) e o culto do Sol

O primeiro deus solar explicitamente qualificado foi o deus provincial sírio Héliogábalo.
Segundo a história de Augusto, o jovem herdeiro da dinastia dos Severos (Sexto Vário Avito Bassiano (Heliogbálo)), ao tornar-se imperador adotou o nome de Marco Aurélio António, e levou a pedra negra (o Bétilo) de Emeso para Roma.

Logo que foi nomeado imperador, Heliogábalo negligenciou as religiões tradicionais romanas e declarou o seu “culto solar”, como religião principal do Império.
(O cognome de Heliogábalo só o recebeu após a a sua morte (em 222)).

Heliogábalo-Áureo cunhado em Antioquia em 221-222
Anv. Heliogábalo laureado e drapeado à direita,
IMP C MAVR ANTONIVS P F AVG
Rev. Quadriga com o Bétilo (o Deus Sol) e 4 guarda-sóis,
SANCT DEO ELAGABAL
(Ref. RIC-196a)

Heliogábalo-Denário cunhado em Antioquia 221-222
Anv. Heliogábalo laureado e drapeado à direita,
IMP ANTONINVS PIVS AVG
Rev. Heliogábalo com uma pátera sacrificando em honra do Deus Sol,
SACERD  DEI SOLLIS ELAGAB
(Ref. RIC-246, BMCRE-226, rsc-246, RCTV-7542)

Nos reinados de Quieto, Macrino, Galiano e outros, o Sol Invicto divindade à qual o cristianismo de Constantino I se apoiou, aparece com muita frequência na numismática romana.

Algumas moedas (raras) apresentam uma linguagem “solar” mais complexa.
Os áureos de Póstumo com a legenda CLARITAS AVG cunhados em Tréveris e Colônia, põem em cena os casais Póstumo-Hércules no anverso e Sol-Lua no reverso, metáfora dum imperador e da sua divindade particular, guiados e protegidos por astros com propriedades luminosas e salvadoras.
(Colónia: eram estabelecimentos criados pelo Estado Romano para controlar um território recentemente conquistado(exemplo Colonia Agrippinensis- Colónia Agripina)).

Póstumo-Áureo cunhado em Colônia 260-269
Anv. Bustos de Póstumo e Hércules laureados,
POSTVMVS PIVS FELIX AVG
Rev. O Deus Sol com coroa radiada, e a Deusa Lua
com uma coroa encimada com um quarto de lua,
CLARITAS AVG
(Ref. RIC V2- 260, Cohen12-5,42)

Quieto (Titus Fulvius Lunius Quietus)
Antoniniano cunhado na Síria em 260-261
Anv. Quieto com coroa radiada e drapeado à direita,
IM C FVL QVIETVS PF AVG
Rev. O Sol saudando com a mão direita e um globo na esquerda,
SOL INVICTO
(Ref. RIC V-2, Sear-3398)

Macrino-Antoniniano cunhado em Samósata em 260-261
Anv. Macrino com coroa radiada e drapeado à direita,
IMP C FVL MACRINVS P F AVG
Rev. O Sol saudando com a mão direita e um globo na esquerda,
SOLI INVICTO
(Ref. RIC-12, C 12, MIR-174 1k)

Galiano-Antoniniano cunhado em Antioquia em 265
Anv. Galiano com coroa radiada e drapeado à direita,
GALLIENVS   AVG
Rev. O Sol com um globo na mão direita e um chicote na esquerda.
SOLI INVICTO
(Ref. RIC-658, Goebel-1659g, Sear-10364)

Vitorino-Antoniniano cunhado na colónia Agripina em 268-270
Anv. Vitorino com coroa radiada  e drapeado à direita,
IMP C VITORINVS PF AVG
Rev. O Sol saudando com a mão direita e um chicote na esquerda,
INVICTVS
(Ref. RIC V-2 Colônia 114, Elmer-683, Sear-11170)

Cláudio II (o Gótico)-Antoniniano cunhado em Antioquia 268-270
Anv. Cláudio com coroa radiada e drapeado à esquerda,
IMP C CLAVDIVS AVG
Rev. O Sol saudando com a mão direita e um chicote na esquerda,
SOL AVG
(Ref. RIC-221)

Aureliano e o SOLI INVICTO

Após as suas vitórias no Oriente, o imperador Aureliano reformou o culto do Sol e proclamou o deus solar, a principal divindade do Império.

O século III, foi um período de grande turbulência religiosa.
Com o surgimento do cristianismo, imperadores tais como Trajano Décio ou Valeriano, adotaram uma política de repressão para restaurar a supremacia da religião tradicional romana, mas sem êxito.

Político hábil, Aureliano compreendeu o interesse de fundar uma nova ordem moral fundada na supremacia dum ser supremo. O SOLI INVICTO.

De fato, a imagem do Sol oferece a vantagem de representar o Panteão Romano, e crenças de inspiração oriental, como o “mitraismo” muito popular nos círculos militares.

Desejando a unidade religiosa dos romanos, Aureliano pôs o Império sob a proteção do Deus Sol, cuja luz é fonte de vida para o mundo.

No regreso das suas campanhas vitoriosas em Palmira, construiu em Roma no Campo de Marte, um templo em honra do SOL INVICTO, e instituiu jogos em honra do Deus realizados todos os quatro anos, a partir do ano 274.

Foi igualmente o imperador Aureliano que estabeleceu a data do 25 de dezembro (data do solstício do inverno no calendário Juliano) como o nascimento do Deus Supremo: O SOL.

Naquela ocasião os representantes do culto que eram apenas simples sacerdotes, passaram a ser pontífices, e membros do colégio dos pontífices estabelecido por Aureliano.
Cada membro do colégio também fazia parte da elite senatorial, e indica-nos que a função de sacerdote do culto era muito prestigiosa.

A identidade do Deus Sol de Aureliano foi assunto de muitas divergências.
Tendo como fundamento algumas passagens da História de Augusto, há quem afirme que o Sol de Aureliano foi inspirado no Deus Sol do Heliogábalo de Emeso.

Outros com base nos testes de Zósimo, sugerem que este culto teve como fundamento Hélios o Deus Sol de Palmira.
Esta hipótese deve-se ao fato de Aureliano ter consagrado uma estátua de Hélios, que tinha tomado no templo do Deus Sol de Palmira, aquando da conquista desta cidade.

Aureliano-Antoniniano cunhado na Sérdica,(Sófia-Bulgária)em 270-275
Anv. Aureliano com coroa radiada e drapeado à direita,
IMP AVRELIANVS AVG
Rev. O Sol com um globo na mão esquerda espezinhando um dos dois cativos,
SOLI INVICTO  XXIS
(Ref. RIC-308, Cohen-236, Sear-11610v)

Em todos os casos, o SOLI INVICTO foi bem aceite e protegido pelos imperadores após Aureliano, e aparece nas suas moedas até ao reinado do imperador Constantino I (306-337).

Probo-Antoniniano cunhado na Síscia 276-282
Anv. Probo com coroa radiada e drapeado à esquerda,
IMP PROBVS AVG
Rev. O Sol a conduzir uma quadriga galopando para a esquerda,
SOLI INVICTO  XXIQ
(Ref. Alfodi-76-60)

Probo-Antoniniano cunhado em Roma 276-282
Anv. Probo com coroa radiada e drapeado, com um cetro na mão direita,
IMP C M AVR PROBVS P AVG
Rev. O Sol conduzindo uma quadriga de frente,
SOLI INVICTO   OSRB
(Ref. RIC-204v)

Probo-Antoniniano cunhado em Ticine (atual Pavia) em 278
Anv. Probo com coroa radiada e drapeado, com um cetro ma mão direita,
IMP PROBVS P F AVG CONS II
Rev. O Sol no interior dum templo distilo,
SOLI INVICTO    SXXT
(Ref. RIC V-2, Ticinum-417, Pink-1949, pag.63)

Galério-Áureo cunhado em Nicomédia (atual Izmit, Turquia) em 294
Anv. Maximiliano laureado à direita,
MAXIMIANVS NOB CAESAR
Rev. O Sol saudando com a mão direita e um chicote na esquerda,
SOLI INVICTO   SMN
(Ref. Calico-4948, Cohen-200)

Licínio I-Follis cunhado em Nicomédia em 312
Anv. Licínio laureado e drapeado à direita,
IMP C VAL LICIN LICINIVS P F AVG
Rev. O Sol saudando com a mão direita e a cabeça de Serapis na esquerda,
SOLI INVICTO  SMN
(Ref. RIC VI-Nicomédia 77a)

Licínio I-AE 3 cunhado em Roma 314-315
Anv. Licínio laureado e drapeado à direita,
IMP LICINIVS  P F AVG
Rev. O Sol saudando com a mão direita e um globo na esquerda,
SOLI INVICTO COMITI (Sol Invencível Companheiro)
(Ref. RIC 7-Roma 29)

Maximino II (Daia)- Follis cunhado em Antioquia em 312
Anv. Maximino laureado e drapeado à direita,
IMP C GAL VAL MAXIMINVS P F AVG
Rev. O Sol saudando com a mão direita e a cabeça de Serapis  na esquerda,
SOLI INVICTO   ANT
(Ref. RIC VI-154)

Maximino II (Daia) Follis cunhado em Óstia em 312-313
Anv. Maximino laureado e drapeado à direita,
Rev. O Sol saudando com a mão direita e um globo na esquerda,
SOLI INVICTO COMITI   HOSTT
(Ref. RIC VI-Óstia 90a)

Crispo-Follis cunhado em Londres em 317
Anv. Crispo laureado e drapeado à direita,
FL IVL CRISPVS NOB CAES
Rev. O Sol saudando com a mão direita e um globo na esquerda
SOLI  INVICTO   PLN
(Ref. RIC VII-113)

A última referência conhecida ao Sol Invictus data do ano 383, portanto no século XV este culto ainda tinha tantos adeptos que Santo Agostinho (354-430), achou necessário pregar contra eles.

É comummente aceite que a data do 25 de dezembro para comemorar o dia de Natal, foi escolhida para coincidir com as festividades romanas do “Dies Natalis Solis Invicti”, dia do nascimento do Sol Invencível.

Invictus (Invencível) era um atributo dedicado a numerosas divindades da religião romana clássica.
Entre alguns desses deuses havia: Júpiter (o pai dos deuses): Marte (o deus da guerra): Apolo (na Roma antiga o deus do sol e patrono da verdade): ou ainda Silvano (deus das florestas).

Invictus foi invocado desde o III século a.C., e já estava bem estabelecido enquanto título de um culto quando foi aplicado à Mitra por volta do II século a.C.
A mais antiga referência ao Sol Invictus encontra-se numa dedicação do ano 158 d.C..
“Soli Invicto deo ex voto suscepto accepta missione honesta ex nume(ro) eq(uitum) sing(ularium) Aug(usti) P(ublius) Aelius Amandus d(e) d(icavit) Tertullo et Scerdoti co(n) s(ulibus) “.

Significa que: Publius Aelius Amandus fez esta dedicação ao Sol Invicto, em acordo com o voto que fizera após a sua dispensa honrosa da guarda equestre do imperador, durante o consulado de Tertullus et Sacerdos.

Outra menção ao Sol Invictus, data do fim do II século da nossa era, inscrita numa “phalerae romana” com a inscrição “inventori lucis soli invicto augusto”: ao inventor da luz Sol Invictus Augusto.

Nesta citação, Augusto não se refere ao imperador; é uma palavra que marca o carácter elevado da divindade a quem se aplica.
(Phalerae: tem várias definições entre as quais um pequeno adorno em metal geralmente circular, em que foi gravada, ou esculpida uma figura em relevo).

Constantino I e o Sol Invictus

 Sol Invicto foi representado em moedas de muitos imperadores e com diversas legendas, todavia foram poucos que utilizaram nas legendas o epíteto Comiti.
Nas moedas de Constantino I, o Sol aparece com muita frequência com a legenda “SOLI INVICTO COMITI”, que nos mostra claramente que o Sol era companheiro do imperador.

Um sólido (solidus) de Constantino cunhado no ano 313 em Ticino (Pávia), assim como uma medalha de ouro têm a legenda “Invictus Constantinus”, enquanto alguns follis representam os bustos do Sol e do imperador com a legenda Soli Invicto Comiti.

O Sol e Constantino I
INVICTUS CONSTANTINVS MAX AVG

Constantino I-Follis cunhado em Trévores em 310-313
Anv. Constantino laureado e drapeado à direita,
CONSTANTINVS P F AVG
Rev. Constantino sob os traços do Sol
SOLI INVICTO COMITI
(Ref. RIC VI-893)

Constantino I- follis cunhado em Londres 310-312
Anv. Constantino laureado e drapeado à direita,
CONSTANTINVS P F AVG
Rev. O Sol com um globo na mão direita e um chicote na esquerda,
COMITI AVG  PLN
(Ref. RIC VI-169)

Constantino I-Múltiplo de ouro cunhado em Ticino 320-321
Anv. Constantino com coroa radiada à direita,
IMP CONSTANTINVS SPV AVG
Rev. O Sol a coroar Constantino, este com
um globo na mão direita e um cetro na esquerda,
SOL INVICTO COMITI  SMT
(Ref. RIC VII-98 (Ticinum),C 16)

A propaganda monetária, insiste no fato que o Sol é companheiro privilegiado do imperador, ao qual transmite o seu poder e suas virtudes.
“Astro invencível”, “soberano do mundo e dos elementos”, “regulador cósmico”,”ser imortal e eterno”, o Sol é o grande rei celestial e o imperador romano seu vigário na terra .
Nestes múltiplos cunhados em Ticino, o Sol coroa o imperador vitorioso.

No dia “7 de março do ano 321”, Constantino I decretou que o dia do SOL “le Dies Solis” seria o “domingo”.

MGeada

Bibliografia

Mr. Lauyan: Catalogue Photographique Monnaies Romaines Solaires

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Votos na numismática romana

É com muita frequência que encontramos moedas do império Romano evocando os “VOTA” (votos) particularmente nos séculos III e IV da nossa era.

Esses reversos, muitas vezes limitam-se a algumas letras e números no interior duma coroa.
Esse tipo epígrafo fez dizer a Ernesto Babelon no seu tratado das moedas (t.l, p.63) que não passavam de moedas vulgares, embora tenha reconhecido que era interessante por fixar uma cronologia.

Portanto as moedas romanas que representam os votos, são associadas a tipos figurativos mais diversos  do que à primeira vista parecem.
Além disso, estas moedas evocam um assunto primordial, na história imperial romana: a relação dos imperadores com a religião.

Constantino I- Follis cunhado em Salonica em 317-318
Anv. Constantino com diadema e drapeado à direita,
IMP CONSTANTINVS PF AVG
Rev (No interior duma coroa)  VOT XX MVLT XXX   T.S.Γ.
(Ref. RIC VII-Salonica 27)

Este reverso apresenta o tipo mais corrente de votos : linhas com  letras e números

Constantino II- Medalha de prata cunhada em Salonica  337-340
Anv. Constantino II à esquerda, com coroa radiada; um globo
encimado por uma Vitória na mão direita, e um cetro na esquerda,
CONSTANTINVS IVN NOB CAESAR
Rev. Cipo sobre um altar com a inscrição XX XXX MUL FEL (em quatro linhas),  TSΓ
VOTA ORBIS ET URBIS SENET PR

Os votos que encontramos mencionados nas moedas romanas, fazem referência a cerimónias religiosas  celebradas para obter favores dos deuses para o imperador e para o Império.
Eram acompanhados por um sacrifício solene e podiam ser pronunciados para obter um favor  divino, neste caso orientados para o futuro.

Nesta eventualidade: as  legendas nas moedas indicam que os Votos são “VOTA SVSCEPTA” (votos pedidos).
Em termos religiosos podemos falar de votos propiciatórios, ou seja para obter piedade, indulgência, ou outro benefício dos deuses em troca dum sacrifício.
Súplicas que nem sempre se concretizavam.

Caso o voto se realizasse, era hábito fazer outra cerimónia de agradecimento.
Neste caso as moedas tem a menção VOTA SOLVTA (Voto concretizado), nesta circunstância  orientado para o passado e destinava-se a agradecer aos deuses a concretização dum voto pedido .

Moeda do imperador Augusto mencinando os VOTA SVSCEPTA

Augusto-Denário, cunhado em Roma, 17-16 a.C..
Anv. Augusto à direita
Rev. IOVI VOT SVSC PRO SAL CAES AVG S.P.Q.R .
Um voto feito a Júpiter (IOVI) em favor da saúde de Augusto César
PRO SALUTE CAESAR AVGVSTVS
(SPQR) em nome do Senado e do Povo Romano.
(Ref. RIC I-57)

Antonino Pio-Dupôndio cunhado em Roma 158-159
Anv. Antonino com coroa radiada à direita,
ANTONINVS AVG PIVS P P TR P XXII
Rev. Antonino com manto e véu, oferecendo um sacrifício,
VOTA SVSCEPTA DEC III COS IIII  S C
(Ref. RIC 3-1020, BMCRE-2075)

Sétimo Severo-Denário cunhado em Roma em 206
Anv.Sétimo Severo laureado à direita,
SEVERVS PIVS AVG
Rev. (à direita), Sétimo Severo oferecendo um sacrificio acompanhado por um flautista,
VOTA SVSCEPTA XX
(Ref. RCS-794)

Moedas de Antonino Pio mencionando os VOTA SOLVTA destinada a agradecer aos deuses a concretização dos seus votos.

Antonino Pio-Sestércio cunhado em Roma em 159
Anv. Antonino laureado à direita,
ANTONINVS AVG PIVS PP
Rev. Antonino com manto e véu, oferecendo um sacrifício,
VOTA SOL DEC II  COS IIII  SC
(Ref. RIC-792, BMC-1723, Cohen-1107)

Antonino Pio-Denário cunhado em Roma no ano 159.  
Anv. Antonino laureado à direita,
ANTONINVS AVG PIVS PP TR P XXII.
Rev. Antonino com manto e véu oferecendo um sacrificio,
VOTA SOL DEC II COS IIII
VOTA SOLVTA, (Agradecer os seus vinte anos de reinado).
DEC II, (Segunda década).
COS IIII, (Cônsul pela quarta vez).
(Ref . RIC-291)

A tradição dos votos já é anterior à fundação do império.
Portanto durante o período Republicano apenas  um denário da Gens Nonia (que não consegui encontrar) lhes faz referência.

A frequência dos votos está relacionada com o formalismo da religião romana.
Durante o período imperial, era frequente oferecer votos públicos aos deuses para a prosperidade do Império.
Outros votos eram oferecidos dois dias antes dos "nonae" pela saúde do imperador.

(No calendário romano os nonae são o quinto ou sétimo dia do mês.
Sétimo quando os meses têm 31 dias: Martius, Maius, Quintilis e October.
Quinto quando têm menos de trinta dias: Januaris, Februarius, Aprilis, Iunius, Sextilis, September, November, December, e o eventual mês Intercalarius ou Mercedonius, de vinte e dois ou vinte e três dias, inserido no mês de Februarius unicamente nos anos bixestos).

Os romanos pensavam que tinha sido inserido no calendário romano com Januarius e Februarius pelo rei Numa Pompílio no século VII a.C.).

Também acontecia que se pronunciassem votos em ocasiões especiais, nomeadamente para solicitar saúde para o imperador doente.
Encontramos igualmente votos pronunciados para os cinco, dez, quinze, vinte, trinta e mesmo quarenta anos de reinado do imperador.


Constâncio-Sólido cunhado na Síscia, 347-348 .
Anv. Constâncio com diadema e drapeado à direita,
CONSTANS AVGVSTVS.
Rev. Duas Vitórias mantendo entre elas uma grinalda com a inscrição VOT X MVLTiplicabilis XX,
VICTORIAE DD NN AVGG, SES.
(Agradecimento pelos 10 anos de reinado e votos para que se repitam por mais vinte).

Por temerem provocar a ira dos deuses, era com muita frequência que os romanos faziam votos acompanhados por cerimónias religiosas.
Este formalismo bem presente no quotidiano romano, é um dos principais cultos da religião muito fiel às suas tradições.

Algumas legendas mais utilizadas para mencionar os votos

VOTA PVBLICA (votos públicos)
VOTA SVSCEPTA (votos pedidos)
VOTA SOLVTA (votos concretizados)
VOTA V (vota quinquannalis)
VOTA X (vota decennalis)
VOT X et XX (votis decennalis (solitis) et multis vicesimarius (susceptis)) VOT XV MVLT XXX (Votis quindecennalibus (solitis) multis tricesimalibus (susceptis)).
VOT XX sic XXX (votis vicennalibus (feliciter solutis) sictricesimalia (solventur)).
VOTIS MVLTIS (votis multis (susceptis solutisque)).

Legendas menos utilizadas evocando os votos.

VOT  PC  (vota populi constantinopolitani)
VOT  PR  (vota populi romani)
VOT  PVB (vota publica)
VOT X F por vezes FEL (votis decennalibvs felicibus)

A estes exemplos devem ser adicionados votos às referências : quinquannalia, decennalia, quindecennalia etc.

É ao imperador Augusto no ano 27 a.C., que se deve a instauração dos votos decenais, quando no dia 13 de janeiro do ano 27 a.C., prometeu que nos próximos dez anos haveria paz em todo o mundo romano.

Passados estes dez anos, fez novos votos por cinco anos de governo que foram renovados periodicamente até ao fim do seu reinado.
Estes votos são uma das bases de datação das moedas, especialmente na ausência da menção do Consulado Imperial.

Os votos tornaram-se mais frequentes nas moedas romanas a partir do reinado do imperador Trajano, (fim do primeiro início do segundo século d.C.).
A partir daí podemos observar através dos séculos a notável continuidade das moedas com os  VOTA, até aos imperadores bisantinos do século VI.

Quase todos os imperadores (mesmo ursupadores) cunharam moedas mencionando os votos.
São raros aqueles que não o fizeram, e quase sempre por causa do seu muito curto reinado, (por vezes algumas semanas, e até  alguns  dias).
Os votos também são pouco frequentes em moedas das imperatrizes.  

A tradição iconográfica da representação dos votos continou nas moedas do Império Bisantino.
Esta iconografia assim como outros temas pagãs, ainda duraram muito tempo apesar da adoção do cristianismo como religião oficial do império do Império por Constantino I no início do século IV.

Teodósio II-Sólido cunhado em Constantinopla entre 430 e 439
Anv. Teodósio de frente com uma lança ao ombro,
diadema, capacete e armadura,
D N THEODO-SIV PF AVG.
Rev. Constantinopla sentada no trono com o globus cruciger  na mão direita, e cetro na esquerda,
VOT XXX MVLT XXXX (CONOB= oficina monetária, Constantinopla)

Outras representações  figurativas e epigráficas associadas aos votos.

Muitas referências aos votos são unicamente representadas em forma de texto, como é o caso no reverso deste denário de Lucila esposa de Lúcio Vero cunhado no ano 164.

Lucila (Annie Aurelia Galerie Lucilla)
Denário cunhado em Roma em 164
Anv. Lucila drapeada à direita,
LVCILLAE AVG M ANTONI AVG F
Rev. VOTA PVBLI-CA  em três linhas no interior de uma coroa de louro.

Este tipo de representação não exclui os tipos figurativos associados à temática dos votos, que são muito  diversos.
Durante o período mais antigo ou seja entre os reinados de Trajano e Adriano, o tipo dos votos representado nas moedas, era a imagem do imperador sacrificando só, ou por vezes acompanhado por sacerdotes, magos, músicos e outros.

Adriano-Denário cunhado em Roma 134-138
Anv. Adriano com diadema à direita,
HADRIANVS AVG COS III P P
Rev. Adriano com manto e véu oferecendo um sacrifício,
VOTA PUBLICA
(Ref.RIC II-290, BMCRE-777, RSC-1481)

Antonino Pio-Sestércio cunhado em Roma em 147-148
Anv. Antonino laureado à direita,
ANTONINVS PIVS  PP TR P  XI
Rev. Antonino com manto e véu oferecendo um sacrifício.
COS IIII  VOTA  SC
(Cohen-1095)

Também acontece que os Vota sejam representados num escudo entre duas Vitórias, numa coluna, num altar, um“estandarte militar” etc, (neste caso associados à guerra).

Licínio I-Follis cunhado na Síscia em 220
Anv. Licinio laureado e com couraça à direita,
LICINIVS  IVN NOB C
Rev. Duas Vitorias sustentando um escudo em cima de um altar,
com a legenda VOT PR em duas linhas.
VITORIA LAETAE PRINC PERP  B SIS
(associado à guerra)
(Ref. Ric 7-98)

Licínio II- Follis cunhado na Síscia em 320
Anv. Licínio vestido de militar com uma Vitória na mão direita,
LICINIVS IVN NOB CAES
Rev. VOT X num estandarte, e dois cativos,
VIRTVS EXERCIT   SIS
(associado à guerra)
(Ref. RIC VII-Síscia 125)

Contantino II-Follis cunhado em Londres em 322-323
Anv. Constantino drapeado com coroa radiada à direita,
CONSTANTINVS IVN NC
Rev. VOT IS XX, num altar encimado por um globo,
BEAT TRANQLITAS   F B   PLON (Neste caso associado à paz)
(RIC VII- Londres 253)  

Durante os períodos críticos do império especialmente a partir da segunda metade do século III, muito imperadores tiveram que implorar os deuses para lhes conceder a vitória militar e deram-no a conhecer através das moedas : mas não é certo que os seus  votos sempre se concretizassem.

MGeada

Bibliografia
http://www.ancientcoins.ca/RIC/index.htm

terça-feira, 28 de outubro de 2014

ANTÍNOO (O grande amor do imperador Adriano)

Uma das grandes histórias de amor do mundo antigo,  foi a que viveram o imperador Adriano e o jovem Antínoo, o mais célebre de todos os amores do imperador.

Adriano (24-01-76/10-06-138), imperador romano (117/138), sucedeu  a Trajano numa época em que o Império Romano se estendia de Edimbourg (Escócia) a Baçorá ou  Basra (Iraque).
Nascido  em Cadix, Adriano grande viajante, exprimia-se em grego, tentou instaurar a “PAX ROMANA”, e interessava-se mais aos jovens rapazes que às raparigas .

O seu encontro com Antínoo um jovem (duma grande beleza ) pelo qual se apaixonou, aconteceu provavelmente durante o inverno de 128, aquando da sua visita a Claudiópolis (Bitínia).
A partir daí o jovem grego que Adriano comparava com a deusa “Vénus”, tornou-se o favorito do Imperador.

Contrariamente à data do seu nascimento (na Bitínia entre 108 e 111 ?) que só pode ser estimada em função das estátuas e bustos  que o representam no fim da sua vida, o local e a data da sua morte são conhecidos.

O jovem Antínoo morreu afogado no rio Nilo,  aquando duma viagem ao Egito em outubro do ano 130.
A causa deste afogamento permanece misteriosa, todavia Adriano sempre acreditou ter sido um simples acidente.


Adriano-Denário cunhado em Roma em 136
Anv. Busto de Adriano laureado à direita,
HADRIANVS AVG COS III P P.
Rev. O Egito semi-deitado à esquerda, com um sistro na mão direita,
o braço esquerdo apoiado num cesto com frutos, e íbis.
AEGIPTOS.


Adriano-dracma cunhado em Alexandria em 128/129.
Anv. Busto de Adriano laureado e drapeado à direita,
AVT KAI TRAI ADRIA CEM.
Rev. O rio Nilo semi-deitado sobre um crocodilo à esquerda,
com uma cornucópia na mão direita (sinal de abundância).
L TRICKAI.

Historiadores e autores alegam diferentes hipóteses: uns  pensam que o jovem se tenham afogado intencionalmente, por não se sentir capaz de assumir a sua relação com o imperador.
Outros que o jovem grego se tenha oferecido em sacrifício para prolongar a vida do Imperador, após ter consultado um vidente.

Outros evocam um assassinato, alegando que Adriano não tinha filhos e tencionava adotar o seu amante, o que faria dele seu sucessor.
Uma ideia que não agradava ao senado, nem à maioria do povo romano.

O culto de Antínoo

Desalentado por este trágico desastre, o imperador mandou embalsamar o corpo do seu jovem companheiro.
No Egito, Antínoo foi deificado sob os traços de Osiris e uma cidade “Antinoópolis” foi fundada em sua honra, assim como um templo o que provocou a irritação da sua esposa Sabina.

Os romanos também não perdoaram ao imperador o seu amor por este jovem, nem o culto que lhe dedicou após a sua morte.
Além do templo erigido em Antinoópolis, que passou a ser o centro do culto de Antínoo, todos os anos na data aniversário da sua  morte, Adriano também ali realizava jogos e corridas de carros.

Antínoo- Ae 25 cunhado em Alexandria após 135.
Anv. Busto de Antínoo à esquerda, ANTINNOC  
Rev. Templo de Antínoo (em Antinoópolos).

Adriano-Dracma cunhado em Alexandria,133/4
Anv. Busto drapeado e laureado de Adriano à direita,
AVT CIAK TPAIANA AΔPIANOC CEB.
Rev. Busto de Antínoo laureado à direita, IH.

Antínoo-AE 38 cunhado em Claudiópolis cerca de 130.
Anv. Busto de Antínoo drapeado à esquerda,
ANTINOON ΘEΏN ΠATPIΣ = (A pátria do deus Antínoo).
Rev. Antínoo sob os traços de Hermes Nomios vestindo
quíton e clâmide, um pedum (cajado) na mão esquerda, e vaca. 
BEIΘϒNIEΏN  AΔPIANΏN.

Antínoo-Hemidracma cunhado em Alexandria 134/5
Anv. Busto de Antínoo à direita,
ANTINOOY HPWOC.
Rev.Antínoo com um caduceo cavalgando à direita  IO

O imperador também permitiu às cidades gregas da Ásia Menor que lhe erigissem altares e dedicassem templos, provocando ainda mais a fúria da imperatriz.

AE 32 cunhado em Corinto, (data incerta).
Anv. Busto de Antínoo à direita,
ANTIONOO - ΣOKTIɅIO  MARKEɅɅOC IEPEVC TOV.
Rev. Templo de Antínoo (em Corinto),
TOIC AXAIOIC ANEΘHKE N.
ANTIONOO ΣOKTIɅIO  MARKEɅɅOC. 
(Cunhada por Hostilios Markelos, sacerdote do culto de Antínoo.)

Antínoo-AE 24 cunhado em Delfos, 130/138.
Anv. Busto de Antínoo à direita,
NOONHWAPROP OIAMFIKTIONEC
Rev. Tripé, OEIRRE UCARICTO
Cunhada por Aristotime, sacerdote do culto de Antínoo).

Antínoo-AE 24 cunhado em Delfos, 130/138
Anv. Busto de Antínoo à direita,
HPΏC ANTINOOC.
Rev. Águia no interior duma coroa de louro,
IEPΏC APICOTIMOC ANEΘHKE.
(Cunhada por Aristotime, sacerdote do culto de Antínoo).

Adriano mandou ainda cortar, gravar e transportar para Roma, o Obelisco do Pincio, do qual três faces são dedicadas a Antínoo e a quarta à glória do Imperador.

Este obelisco terá sido erigido na tumba de Antínoo (há divergências).

Este monumento tem uma titelatura inabitual de Adriano em hieróglifos, que levou alguns egiptólogos a reconhecer um texto escrito por um sacerdote do templo da cidade de Akhmim, também conhecida por Panópolis.

Ao mesmo tempo, o Imperador encomendou estátuas e bustos com a imagem do jovem bitínio  em tão grande quantidade, que Antínoo tornou-se um dos personagens da antiguidade mais representado na Bacia do Mediterrâneo.

O seu nome também foi atribuído a uma constelação formada por cinco estrelas, da atual constelação da águia.

Na Grécia pátria do jovem mancebo, foram cunhadas grandes quantidades de moedas com a sua efígie.
O mesmo aconteceu no Egito e sob o impulso de Adriano, o culto de Antínoo vai ser durante algum tempo a maior religião do Império Romano.

Antínoo-AE 34 cunhado em Claudiópolis (Bitínia)  após 130.
Anv. Busto de Antínoo drapeado à direita,
ANTINOON ΘEΏN H ΠATPIΣ.
Rev. Pastor de frente  com um pedum (cajado), e um boi ao seu lado.
BEIΘϒNIEΏN AAPIANΏN.
(Segundo Von Moch o reverso representa Hermes a roubar o rebanho dos deuses, ((um mito Homérico)).

Antínoo-Dracma cunhado em Corinto em 134.
Anv. Busto de Antínoo drapeado à direita,
ANTINOOY OCTIAɅOC MAPKEɅɅOC IEPEVC TOV.
Rev. Belerofonte nu domando o pégaso,
KOPIN QI OCI ANEQHKE.

(Jônia) 117/138.
Antínoo-AE 38 cunhado em Smirne
Anv. Busto de Antínoo à esquerda,
ANTINOOC HPΏC
Rev. Boi à direita,
ΠOɅEMΏN  ANEΘHKE  CMYPN.

Tumba de Antínoo

Se as circunstâncias da sua morte permanecem um mistério, outro enigma envolve este personagem famoso da antiguidade romana : o local onde foi construído o seu túmulo.

É hoje  impossível situar o local exato onde repousa o jovem amante do imperador Adriano.
A resposta a esta questão estava nos textos gravados no Obelisque do Pincio, encontrado em Roma no início do século XVI, perto da Porta Maggiore.
Infelizmente esta escultura foi encontrada quebrada em três pedaços, e a passagem que indica o local da tumba de Antínoo, encontra-se num dos sítios onde o obelisque se  quebrou.

Antínoo-AE 28 cunhado na Síria após 130
Anv. Busto nu de Antínoo à direita,
ANTINOOC  PANO.
Rev. Cavalo ao passo à direita.

Antínoo-AE 34 cunhado em Tarso, 130/1
Anv. Busto de Antínoo à direita,
ANTINNOC  HPΏC.
Rev. Bacia sobre um tripé, no qual está enrolada uma serpente.
AΔPIANHC TAPOCT MHTPOΠOɅEΏC  NEΏK / NEΏ ΠYΘIΏ.

No entanto várias hipóteses tem sido avaçadas pelos historiadores e egiptólogos que durante séculos e mais recentemente durante o decurso do século XX, se dedicaram a decifrar os hieróglifes.

Antínoo-AE 17 cunhado Nicópolis (Épiro-Acarnânia), 117/138.
Anv.Busto de Antínoo à direita,
ANTINOOC QEON.
Rev. Crescente de lua e estrela,
NEIKOPOLIC.

Antínoo-AE 17 cunhado em Nicópolis, (Épiro-Arcarnânia), 117/138
Anv. Busto de Antínoo à direita
ANTINOOC OCRCVM.
Rev. Porta da cidade (Nicópolis) com três entradas e duas torres,
NEIKOPOLEITWN.
(Exemplar da Biblioteca Nacional de França).

A lógica seria que Antínoo tenha sido sepultado em Antínoe, cidade fundada no local do seu trágico fim.
Esta opinião foi abandonada pelos investigadores que alegaram que o obelisque foi encontrado em Roma e não no Egito.  
Além disso, é difícil de imaginar que o imperador Adriano tenha abandonado o corpo do seu bem amado em terra estrangeira.


Antinoo-AE 27 cunhado em Aureliópolis (Lìdia) 117/138
Anv. Busto de Antínoo drapeado à direita,
ANTINOOC HPOC
Rev. Tmolo ou Tmolus em pé com um
bastão na mão direita e uma cesta à cabeça,
TIMOLITIWN
(Tmolo: na mitologia grega o deus das montanhas).

O Templo de Vénus e Roma  consagrado por Adriano no ano 135, também é um possível local, mas é improvável que o imperador tivesse a audácia de associar o jovem e a relação controversa que teve com ele, com os valores tão tradicionais representados pela deusa Vénus.
(A ideia que o Imperador pretende-se reunir estes dois“efebos”semelhantes na sua beleza e trágico fim, motivou muitos historiadores).

Pela sua localização que se acorda perfeitamente com as tradições realistas, o Palácio do Palatino (residência dos imperadores) e particularmente o Jardim de Adônis, também reteve a atenção dos investigadores.

Antínoo-Téssara de chumbo cunhada em Alexandria, 117/118.
Anv. Busto de Antínoo drapeado à direita,  AU.
Rev. Busto de Zeus Amom com chifres à direita. 

A Vila Adriana (residência de Adriano) situada no alto de Tibur também é  um sitio previlegiado pelos arqueólogos.
Escavações ali efetuadas, troxeram à luz do dia vestígios que poderiam ser a tumba de Antínoo, e foram encontradas muitas estátuas  e representações do jovem grego.

Antínoo-Téssara de chumbo cunhada em Alexandria, 117/ 138
Anv. Bustos de Antínoo e Isis.
Rev. O Nil (rio) sentado num hipopótamo à esquerda.

Mais recentemente o egiptólogo francês Jean-Claude Grenier na sua obra “L’Osiris  d’Antínoos”, após ter retomado a tradução dos textos do obelisque e analisado os trabalhos dos seus predecessores, concluiu que Antínoo foi provavelmente sepultado em Roma numa das propriedades familiares de Adriano.

Os Horti Domitiai, actual Castel Sant’Angelo (Castelo de Santo Ângelo) que Adriano herdou da sua mãe (Domícia Paulina) e onde o Imperador mandou erigir o seu próprio túmulo, também é um local muito indicado pelos investigadores mas,  apesar das pesquisas ali efetuadas o local onde repousa o jovem Antínoo permanece um mistério.

Antínoo- Téssara de chumbo cunhada em Alexandria, 117/138
Anv. Antínoo cavalgando à direita.
Rev. O Nilo (rio) sentado num penedo e Zeus Amom em pé.

Por não pertencer à família imperial e na impossibilidade de o deificar em Roma, para perpétuar a sua memória, Adriano criou a cidade de Antinoópolis.

Mais de trinta cidades cunharam as suas moedas e o seu culto permaneceu até ao terceiro século.

A cunhagem de moedas com Antínoo  companheiro intímo  de Adriano é surpreendente, visto ele não  estar ligado ao imperador pelo sangue ou casamento, nem sequer ser um presumível herdeiro.
Antínoo só foi venerado e deificado após a sua morte, e o seu culto espalhou-se a todo o mundo romano e algumas colónias gregas.
Nada menos de 1 500 bustos e estátuas foram encontrados.

Antínoo-Téssara de chumbo cunhada em Alexandria 117/118
Anv. Busto de Antínoo à direita,  LB
Rev. Niké caminhando à esquerda com uma coroa e uma palma,  nilómetro.

(Nilómetro : poço provido de uma escada que descia até ao nível do lençol freático para permitir a medição das flutuações do nível da água do rio Nil.

Todos os templos tinham um destes instrumentos destinado a determinar a intensidade da inundação anual e em consequência, o valor dos impostos a pagar).

A sua amoedação também é muito importante, (mais de trinta tipos diferentes) ainda que grande parte das moedas fosse cunhada no reinado de Adriano entre os anos 130/138, estima-se que algumas continuaram a ser cunhadas  até ao reinado de Marco Aurélio (161/180), e em  Claudiópolis ou Adriana, (actual Bolu) foram cunhadas  até ao reinado de Caracala (211/217).

Marco Aurélio-AE 24
Cunhado na Macedónia, dedicado a Antínoo, 161/180.
Anv. Busto de Marco Aurélio laureado e drapeado à direita,
KAIPAC ANTΏNINOC.
Rev. Um raio alado.
KOINON MAKEΔONΏN.

Antínoo-AE 38 cunhado em Smirne (Jônia) 134/5
Anv.Busto de Antínoo à esquerda,
ANTINOOC HPΏC
Rev. Boi à direita,
ΠOɅEMΏN  ANEΘHKE  CMVP.

Antínoo-AE 26 cunhado em Tarso (Cilícia) em134. 
Anv. Busto de Antínoo à esquerda,
ANTINOOC HPΏC.
Rev. Cista (espécie de açafate) Dionísica, três tirsos ligados entre si com guirlandas, 
NEWKOROU ADRIANHC TARCOU METROP OLEWC NEW IAKCW.

A mais bem conservada dos três exemplares conhecidos : um ligeiro desgaste na legenda do anverso, mas que magnífico retrato de Antínoo !
Estimada a 45 000 CHF, num leilão em fevereiro de 2002,  foi abjudicada por 109 000 CHF.
A partir daí, não voltaram ao mercado.

Antínoo foi o mais célebre dos amores do imperador Adriano, provavelmente por causa da sua morte por afogamento.
As teorias abundam sobre este assunto. Assassinado, acidente ou suicídio ritual ?
Após quase  2 000 anos depois o mistério não foi desvendado.

Em todo o Oriente Grego Antinoo foi venerado com moedas comemorativas.
Nenhuma foi cunhada em Roma, tal ato seria muito escandaloso.

Para manterem bons termos com Adriano, os egípcios adolaram Antínoo e à flor de lotus passaram a chamar Antinoia.
O culto a esta nova divindade ainda vigorava nas colónias romanas, no reinado de Valentiniano I, 364/375.

MGeada