quinta-feira, 24 de março de 2016




Moeda de 100 Patacas com a efígie do General Ramalho Eanes, cunhada por ocasião da sua visita à China e a  Macau, de  21 a 26 de maio de 1985.

Que dizer sobre este ilustre conterrâneo que ainda não tenha sido dito?
Que este Grande Alcainense esteve na política para “servir Portugal” e não para se servir de Portugal, é o único presidente da Repúbica Portuguesa retratado numa moeda. 

Na sua viagem ao Extremo Oriente, foi acompanhado pelo ministro dos Negócios estrangeiros Jaime Gama, e pela secretária de Estado do Comércio Externo.
Durante a sua visita, o tema transição, foi abordado pela primeira vez.

Após o encontro de 24 de maio entre Ramalho Eanes e o Diretor do Conselho Consultor do Partido Comunista Central Chinês, Deng Xiaoping, chegou-se a um consenso sobre a questão de Macau, ficando acertado o início das discusssões para 1986, o que veio a acontecer a 30 de junho.

Foi o embaixador Rui Medina a chefiar  a delegação de Portugal, que negociou a transferência da soberania de Macau.
No dia 13 de abril de 1987, foi assinada em Pequim a declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre Macau, por Cavaco Silva e Zhao Ziyang.


Descrição da moeda:
Macau-100 Patacas cunhada na casa da moeda de Singapura (Singapura Mint) em 1985.
Anverso: a efígie do General Ramalho Eanes à esquerda. Na orla, a legenda, visita a Macau do Presidente Eanes e o ano da cunhagem. 
Por baixo da efígie, a legenda em chinês, “Visita a Macau do Presidente da República Portuguesa”.
Reverso: desenho das insígnias de Macau ao centro; em cima, legendas em português e chinês do nome da cidade “Macau”; em baixo, o valor “100 Patacas” e, marca da casa da moeda.


MGeada

domingo, 28 de fevereiro de 2016



1 Europa para a Europa em 1928

A primeira moeda para circular na Europa, “com o nome de Europa”, foi uma iniciativa francesa no ano 1928.
Esta resolução foi tomada no contexto de uma aliança franco-alemã, que devia incluir-se num programa mais vasto de uma política de paz e, um acordo internacional elaborado por Aristide Briand.

Esta política, teve o seu ponto culminante com o Pacto Kellogg-Briand, que tinha por objetivo estabelecer um plano para uma  paz universal e perpétua.
A iniciativa deste pacto deve-se a Aristide Briand, ministro dos negócios estrangeiros francês e Frank Billings Kellogg, secretário de estado americano.

Também conhecido por Pacto de Paris, foi assinado nesta cidade  a 27 de agosto de 1928, por quinze países: Alemanha, Estados Unidos, França, Reino Unido, Itália, Japão, Belgica, Polônia, Canadá, Austrália, Nova Zelâmdia, África do Sul, Irlanda, Índia-sob mandato britânico, e Tchecoslováquia, “entrou em vigor no dia 24 de junho de 1929”.
Dos 57 estados existentes na época praticamente todos aderiram, exceto dois da península arábica: Arábia Saudita e a República Árabe do Iêmem, e três sul-americanos: Argentina, Bolívia e Brasil.

Se o pacto foi aceite com estusiasmo nos Estados Unidos, ele originou uma reserva inegável na Europa, por este ser apenas  um texto, com uma duração limitada.
De fato, alguns países declararam renunciar à guerra como meio político, no entanto, não estavam previstas sanções.
Em caso de violação, só estava prevista uma reprobação internacional.

No mesmo contexto um memorando (memorandum) Aristide Briand propunha um regime de União Europeia Federal.
Esse programa “muito vasto”, revelou-se ilusório. No entanto, os seus promotores para o concretizar, tinham calculado que “os Estados Federados da Europa” deveriam em primeiro lugar, adotar uma moeda única.

Os seus protagonistas acreditavam fervosamente que a paz e amizade entre os povos, dependia de uma moeda comum entre os países da Europa.

Para o efeito, pediu-se à casa da moeda de Paris para elaborar um projeto.
Para concretizar a iniciativa,  tinha que se saber qual a efígie que seria gravada no anverso da primeira "moeda europeia" e, ao mesmo tempo, ser uma personalidade que tivesse a unanimidade dos países membros da federação.

“Foi Louis Pasteur (1822-1895) o favorito. ” 
Poderia ser feita melhor escolha do que este cientista francês?
“O homem mais ilustre no seu tempo”, cuja ação pacífica e benéfica espalhada por todo o mundo, tinha por missão, aliviar o sofrimento e prolongar a vida do ser humano.

O ensaio monetário desta moeda foi realizado por iniciativa do engenheiro Joseph Archer, fundador do "Movimento Federalista da Europa”, que pediu a Victor Peter para o gravar.

Para o anverso, Peter inspirou-se de dois bustos de Pasteur: um modelado por ele próprio e, outro do escultor Paul Dubois.

No reverso da moeda a legenda circular: «ETATS FEDERES D’EUROPE, e data entre duas estrelas * 1928 *.
No centro mapa da Europa com uma pequena parte do norte da África e Oriente Médio visíveis, e  1/10 EUROPA

(O 1/10, é exclusivo aos ensaios em latão e bronze-alumínio)
(O 10, faz referência aos primeiros 10 países que aderiram ao Pacto)   

Foram efectuados ensaios em latão, bronze, bronze-alumínio,  bronze prateado e estanho.
Foi o modelo em bronze que predominou.

1/10-Europa em latão
Anv. Louis Pasteur à direita
LOUIS PASTEUR 1822- 1895
Rev. Legenda circular ETATS FEDERES D’EUROPE  * 1928 *
No centro mapa da Europa e 1/10 EUROPA
(O 1/10: é exclusivo aos ensaios em latão e bronze-alumínio)
(O 10: faz referência aos primeiros 10 países que aderiram ao Pacto?)  
(Ref. Maz-2620)

1/10-Europa em Br.-Al., (bronze-alumínio)
Anv. Louis Pasteur à direita)
LOUIS PASTEUR 1822- 1895
Rev. Legenda circular ETATS FEDERES D’EUROPE  * 1928 *
No centro mapa da Europa, 1/10 EUROPA
(Ref. Maz-2620, Vae 10-1298)

1- Europa em bronze
Anv. Louis Pasteur à direita
LOUIS PASTEUR 1822- 1895
Rev. Legenda circular ETATS FEDERES D’EUROPE  * 1928 *
No centro mapa da Europa, 1 EUROPA
 (Ref. Maz-2619)

1- Europa em bronze prateado
Anv. Louis Pasteur à direita
LOUIS PASTEUR 1822- 1895
Rev. Legenda circular ETATS FEDERES D’EUROPE  * 1928 *
No centro mapa da Europa, 1 EUROPA
 (Ref. Maz-2619)

1- Europa em estanho
Anv. Louis Pasteur à direita
LOUIS PASTEUR 1822- 1895
Rev. Legenda circular ETATS FEDERES D’EUROPE  * 1928 *
No centro mapa da Europa, 1 EUROPA
 (Ref. Maz-2619)

Estas moedas que nunca tiveram curso legal como instrumento de troca, foram uma iniciativa de Joseph Archer, deputado de Haute Loire e fundador do movimento fedaralista na Europa.

Ainda no ano 1928, o Europa começou a circular em Cizely, cidade francesa da qual o maire (presidente da câmara) Philibert Beson é amigo de Joseph Archer, depois em todo o departamento da Nièvre. Aqui o Europa circulou como "moeda regional", "moeda da paz", renumeração do trabalho.

Conceitualmente, é uma forma de troca organizada, na qual em vez de avaliar o preço das mercadorias em termos monetários, o valor da unidade monetária foi fixado independentemente da oferta e da procura, segundo as quantidades reais das mercadorias.

Assim o valor do Europa foi determinado igual a:
2 quilos de trigo
200 gr. de carne
30 centigramas de ouro 
100 gr. de cobre
2 quilos de aço
50 centilitros de vinho de 10 graus 
200gr. de algodão
10 kilowatts-hora
1 tonelada quilométrica
30 minutos de trabalho
(kilowatt-hora: é uma unidade de energia igual à energia consumida por um aparelho de 1 000 wats, (1 kw) de energia durante o período de uma hora). 
(Tonelada kilométrica: unidade que representa a tarifa (ou custo) de uma tonelada por kilómetro).

A cunhagem do Europa foi sómente uma implementação parcial do programa federalista de Joseph Archer, do qual Philibert Besson foi propagandista: programa que prevê entre outros a constituição dos "Estados Federados da Europa" e a supressão das barreiras alfandegárias.

Homem trabalhador e muito imaginativo, ilustrou-se pelas suas muitas invenções, particularmente no plano militar durante a guerra 14-18.
Preocupou-se muito com os problemas económicos e sociais. Lançou sucessivamente o Movimento Federista Agrário, a Federativa, os Federistas, a Federação das Industrias e os Estados Federados da Europa, movimento baseado num  duplo objetivo.

1-Os federistas fazem os negócios entre eles ao preço justo, por vezes também chamado preço natural ou seja, a soma dos custos suportados na produção e distribuição, pela moeda trabalho e a sua unidade o Europa .

2-Os Estados Unidos da Europa e a supressão das barreiras alfandegárias.

Por conseguinte há mais de 70 anos, "Joseph Archer e Philibert Besson", já foram grandes impulsionadores do mercado comum e da União Europeia.

MGeada

Bibliografia
Jean-Albert Dubois ; La fin de l’Union monétaire latine (thèse) Université de Neuchâtel, 1950.
Jean-Marc Leconte ; Le breviaire des monnaies de l’Union Latine, editions Cressida, Paris, 1994
Philibert Besson ; “Jean-Luc Dousset”, le Fou qui avair raison, editions Jeanne d’Arc, 15-10-2013.
Une Monnaie Pour l’Europe ; edition du Crédit Communal de Bruxelles. Emitido aquando do XI Congresso Internacional de Numismática, do 08-13 de setembro1991.
Xavier Benoit-Lucy ; Une monnaie pour L’Europe, editions Hatier, Paris 1992.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016


Tribuna da Arenga


É frequente encontrar-mos  em moedas cunhadas durante o período do Império Romano a legenda ADLOCVTION: “Alocução”.

Isto deve-se ao fato, de naquela época ser habitual o imperador arengar os soldados;  é isso que numerosas moedas ilustram.
(Arenga: do verbo arengar, discurso que se pronuncia em público, perante uma assembleia, tropa etc).

Esta cerimónia também acontecia quando algum imperador ascendia ao poder, aquando da adoção de um príncipe para lhe suceder, quando um magistrado era admitido entre os dirigentes mais próximos do imperador e, também quando este recebia personagens estrangeiros.

A imagem do imperador a arengar as tropas antes de partirem para os campos de batalha, ou no regresso de uma expedição militar gravado no metal, lembrava ao soldado o seu dever, ou o agradecimento pelo serviço que prestou ou a prestar .
Por vezes durante estas arengações era distribuído dinheiro às tropas.
Algumas dessas raras moedas, fazem parte das mais belas e, mais  procurados do período imperial.

O reverso  apresenta-nos uma “tribuna ou estrado” (em latim suggestum) e, era dali que o imperador vestido com a toga ou com o paladumento, em pé, ou sentado com o braço levantado, como se implorasse ou agradecesse às tropas, a sua participação numa batalha. 
(Toga: manto de lã amplo e longo dos magistrados romanos).
(Paludamento: manto ou capa preso no ombro direito usaso por comandantes militares e pelo chefe supremo de todo o exército).

É frequente que o Prefeito do Pretório, oficiais do exército e por vezes soldados, apareçam ao lado ou por tráz do imperador.

Frente à tribuna ou estrado, um grupo de soldados, geralmente entre três ou seis virados para o imperador, alguns deles com insígnias encimadas com uma águia símbolo da legião, estandartes e outras insígnias miltares. 
Outros ostentam o seu escudo e lança.

A primeira moeda em que vemos este tipo de alocução é do imperador Calígula, 16 de março 37-24 de janeiro 41.

Alguns exemplos de moedas representando alocuções imperiais.   

Calígula- Sestércio cunhado em Roma 37-41
Anv. Calígula laureado à esquerda,
C CAESAR AVG GERMANICVS PON M TR POT
Rev. Calígula em pé arengando quatro soldados
com insígnias encimadas com águias.
ADLOCTV COH
(Ref. RIC I-32, MIR-3, 6-4, CNR XII, 36/8, BMCRE-33)

Galba-Sestércio cunhado em Roma 68-69
Anv. Galba laureado à direita,
IMP SER SVLP GALBA CAES AVG TR POT
Rev. Galba em pé arengando um grupo de soldados,
ADLOCVT SC
(Ref. klawans Lawrence-13/2)

Galba-Sestércio cunhado em Roma em  68-69
Anv. Galba laureado à direita,
SER SVPI GALBA IMP CAESAR AVG TR P
Rev. Galba vestido de militar, acompanhado pelo Prefeito do Pretório, arengando os soldados.
ADLOCVTIO   SC
(Ref. RIC-467, 249 var., CBN-236, Himer pl.56,214)

Trajano-Sestércio cunhado Roma 114-117
Anv. Trajano laureado a direita,
IMP CAES NER TRAINO OPTIMO AVG GER DAC P M TR P COS VI P  P
Rev. Trajano sentado numa cadeira currule, acompanhado 
de dois oficiais, arengando um grupo de  soldados
IMPERATOR VIII  S C
(Ref. RIC II-655, Cohen-176, BMC-1017, Sear-318, Banti-78)

Trajano-Sestércio cunhado em  Roma em 116
Anv. Trajano laureado à direita
IMP CAES NER TRAIANO OPTIMO AVG GER DAC PARTHICO P M TR P COS VI P P
Rev. Trajano numa plataforma, sentado numa cadeira currul, acompanhado pelo Prefeito do Pretório.
“Cena de investidura de Partamaspates rei da Pártia”
REX PARTHIS DATVS
(Ref. RIC II-667, BMCRE-1046, Cohen-328)

Adriano-Sestércio cunhado em Roma em 137
Anv. Adriano laureado à direita
HADRIANVS AVG COS III PP
Rev. Adriano acompanhado do Prefeito do Pretório, 
arengando um grupo de soldados e um oficial
(Ref. RIC -908var., Cohen-236var.)

Caracala-Sestércio cunhado em Roma  em 214
Anv. Caracala laureado à direita
M AVREL ANTONINVS PIVS AVG GERM
Rev. Caracala ladeado por dois oficiais, arengando um grupo de soldados,
P M TR P XVII IMP XVIII COS III P P  S C
(Ref.RIC IV-525c, BMC/RE-480)

Lúcio Vero-Áureo cunhado em Roma 161-169
Anv. L. Vero cabeça nua à direita,
L VERSVS AVG ARMENIACVS
Rev. Lúcio vestido de militar, sentado numa cadeira currule acompanhado por um oficial e um
soldado, a coroar  Soemo rei da Armênia.
REX  ARMEN  DAT
(Rev. BMC-Aurelius 300, RIC-512,Calicó-2154)

Cómodo-Denário cunhado em Roma 186-187
Anv.Cómodo laureado à direita
M COMM ANT P BRIT FEL
Rev. Cómodo arengando três soldados
FIDES EXERC PM  TRP XII IMP VIII COS V PP
(Ref. RIC-148var., Cohen-144var.)

MGeada

Bibliografia
Zosso; François / Zingg; Christien-Les Empereurs  Romains, 27 a.C.- 476 d.C.
Paris, 1984.
Weber; Frederic-Monnais Romaines, volume I.
Cohen; Henri-Description Historique des Monnaies Frappées sous L’empire  Romain volume IV, Paris 1884.
Michel; M. Galléazzi-Dictionnaire Latin-Français, appliqué aux inscriptions monnétaires romaines; Revigny 1994.
Sear; David R- Romain Coins and their values II- London, 2002.
http://www.sixbid.com  

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015




O soldo do legionário romano

No início da República Romana, excepto em caso de doença ou outro, o serviço militar “não renumerado” era obrigatório a todos os homens em idade de combater.
Após a temporada da campanha militar concluída, esses soldados a tempo parcial regressavam às suas casas e retomavam as suas atividades civis.

Desde o cerco de Veios (antiga cidade etrusca) no ano 306 a. C.,  Roma à frente da Liga latina teve que suportar uma longa guerra contra os etruscos.
Foi então que surgiu pela primeira vez a questão das condições de remuneração dos combatentes; (antes, era um dever cívico de todo cidadão).

No final do século III a.C., Polybius; general e homem de estado romano, fixou o salário dos  legionários em 2 óbolos por dia ou seja cerca de 180 denários por ano. Um centurião recebia 4 óbolos um cavaleiro 1 dracma.

Anónimo- Óbolo cunhado no sul da Itália, cerca do ano 260 a.C.
Anv. Efígie feminina à direita
Rev. Leão caminhando para a direita com uma lança na boca,   ROMANO
(Ref. Crawford-16/1ª, Sydenham-5, RBW-10, HN Italy-276)

 Anónimo-Dracma cunhado em Roma cerca de 280-212 a.C.
Anv. Cabeça janiforme
Rev. Júpiter conduzindo uma quadriga para a esquerda, ROMA
(Ref. Crawford-44/6,5, Sydenham-67, Babelon-25,)

República Romana- Denário cunhado em Roma cerca de 211-202 a.C.
Anv. Cabeça de Roma com capaceto à direita,  X
Rev. Os dioscuros Castor e Polux galopando para a direita,  ROMA
(Ref. RRC-44/5, RCV-38)

Sob Júlio César, como ditador absoluto da República Romana "49-44 a.C"., o salário do legionário passou para 225 denários por ano mas, éra-lhes descontado o preço do fardamento militar.
Por vezes parte do salário era pago em sal, (na época mercadoria rara)  que o legionário podia trocar contra outros bens em quase todos os países ocupados por Roma.

O número de homens em cada legião variava entre 4 000 e 8 000 homens, geralmente 4800 a 5 000 soldados, incluindo 300 a 600 auxiliares.
 No entanto, durante o período de Júlio César, o número de soldados por legião nunca ultrapassou os três mil homens.

Júlio César-Denário cunhado em Roma no ano 44 a.C.
Anv. César laureado à direita e lítuo,
CAESAR IMP
Rev. Venus com uma Vitória na mão direita,  um bastão na esquerda e escudo,
M. METTIVS  (monetário)
(Ref. Crawford-480/3, Sydenham-1056, RSC-34)

O pagamento do soldo em sal, está na origem da palavra “salário” (do latim salarium, o sal).

As tropas auxiliares, unidades especializadas tais como os cavaleiros; recebiam salários diferentes.
Assim “Thus Duplicaruis Alae ou Sequiplicarius Alae”, significa que estas unidades de cavalaria recebiam um soldo superior de uma vez e meia ou duas, em relação ao resto das tropas. 

Durante o período de Marco António "cônsul e general romano" alguns documentos atestam que  foram cunhados denários individuais para todas as legiões; "23" sob o seu comando.
Todavia para a LEG I ainda não foi encontrado nenhum exemplar.

Geralmente as moedas eram cunhadas ou "batidas", nos acampamentos militares.
Num cunho fixo, sobre o qual se colocava o disco monetário, o moedeiro escostava, seguro por uma das mãos,  o cunho móvel, que recebia a pancada do martelo, empunhado pela outra mão.

Este processo inventado na Lídia durante o reinado do rei Creso 595-547 a.C., esteve em vigor em Portugal até cerca de 1678, ano em que foi  substituído pela cunhagem mecânica o “balancé”.

Marco António-Denário cunhado em Patras 32-31 a.C.
Anv. Galera pretoriana,  ANT AVG III VIR RPC
Rev. Águia legionária entre duas insígnias militares,  LEG II
(Ref. RSC-27, Crawford-544/14, Sydenham-1216)

Marco António-Denário cunhado em Patras 32-31 a.C.
Anv. Galera pretoriana,  ANT AVG III VIR RPC
Rev. Águia legionária entre duas insígnias militares,  LEG XXIII
(Ref. RSC-27, Crawford-544/39, Sydenham-1246, RSC-60)

O soldo anual era pago em três vezes (três stipendium) repartido entre os  meses de janeiro, maio e setembro.
O imperador Domiciano (81-96), introduziu um quarto stipendium e aumentou o soldo anual para 300 denários.

Domiciano-Denário cunhado em Roma no ano 71
Anv. Domiciano laureado à direita,
IMP CAES DOMITIAN AVG PONT
Rev. Golfinho enrolado numa âncora,
P P COS VII DES VIII
(Ref. RIC-13)

A palavra latina “stipendium numerare” chegou até aos nossos dias e, significa pagar o soldo aos soldados.

MGeada

Bibliografia
François Cadiou, Hibera in terra miles- Os exércitos romanos e a conquista da Hispânia sob a República Romana, 218-45 a.C., casa de Velazquez, 2008, 700 pg.
Laurent Fleuret; Les armées au combat dans les Anales de Tacito, Mémoire de maîtrise, Université de Nantes, 1997.
Yvan le Bohec; L’armée romaine sous le haut empire, Paris, Picard, 2002, 3e édition.
http://www.monnaies-romaines.net/

sexta-feira, 27 de novembro de 2015


Pecunia non olet
Dinheiro não tem cheiro

À primeira vista esta opinião pode parecer anormal ou pelo menos imoral.
Ela é infelizmente bastante explícita no seu significado mas, não é minha intenção entrar aqui em argumentos escuros.

Sabem de onde vem esta expressão? 

Os imperadores romanos para pagarem as tropas concentradas nas fronteiras do seu imenso território ou, simplesmente para comprar consciências, o silêncio dos seus inimigos ou amigos, muitas vezes tiveram de recorrer aos mais diversos expedientes.
Criação de novos  impostos, tributos cada vez mais pesados impostos aos povos sob o seu domínio, desvalorização da moeda e outros. 

Vespasiano que reinou de 69 a 79, após ter usado e abusado de vários artífices para cobrar dinheiro, teve a ideia de construir pequenos edifícios públicos e, fazer pagar um tributo ou contribuição  aos utilizadores que hoje  podemos chamar taxa.

  

Em Roma ninguém reclamou o estabelecimento dessas “vespasianas” (mictórios ou urinois),  nem do zelo que o imperador lhes dedicava, para salvaguardar a higiene e a pobreza da cidade, exceto o seu filho, futuro imperador Tito que, escandalizado perante o afluxo de tanto dinheiro, declarou que não queria sujar as mãos com essas moedas.

“Pai o  teu dinheiro cheira mal” terá dito Tito, ao mesmo tempo que lhe atirava uma moeda.
Vespasiano não se exaltou e tentou acalmar o  filho, para isso  mandou chamar um escravo, aproximou-lhe  uma moeda do nariz  e perguntou-lhe se era fedorenta.


“Non olet, domine” não tem cheiro mestre, terá respondido o escravo, "segundo Suetônio e Dião Cássio que relatam este acontecimento".
Vespasiano não só cobrava um tributo aos utilizadores, como também vendia a urina que, na  época, era o único produto conhecido para fixar as cores nas tinturas e branquer a roupa.   

Roma chegou a ter 144 vespasianas.
Por vezes construídas na proximidade dos banhos, logo de início tiveram enorme sucesso.
Se na capital romana havia 144, quantas não haveria no imenso Império Romano?

Apesar de narrada como anedota sobre a avareza de Vespasiano, a história conta a luta do imperador que, para equilibrar as contas de Roma a braços com uma guerra civil desde a morte do imperador Nero, não deu importância aos eventuais maus cheiros e conseguiu por as contas do Império em dia. 

Tito Flávio Sabino “Vespasiano”
Nasceu perto de  Rieti (Itália) no dia 17 de novembro do ano 9 e, faleceu em Roma em 23 de junho de 79.

Sestércio cunhado em Roma no ano 71
Anv. Vespasiano laureado à direita,
IMP CAES VESPASIAN AVG P M  TR  P P P COS III
Rev. Vespasiano com um pé num capacete, lança na mão direita, parazónio (espada curta) na esquerda, palmeira e a Judeia chorando sentada numa couraça.
IVDAEA CAPTA S C
(Ref. C-239, RIC-427, BMC-53)

MGeada

Bibliografia
Dio Cassius; História Romana. livro 65, capítulo14
Gabriel Remy; A comme... Paris, Le diccionaire du monde mystérieux des monnaies, editions Seichamps,1981.
Wikipédia

sexta-feira, 30 de outubro de 2015



Asclépio, o deus médico

Asclépio (em grego, Asklepiós) ou Esculápio (em latim, Aesculapius), deus da medicina e da cura na mitologia greco-romana, tem como símbolo, um bastão ou bordão, com uma cobra enrolada.

Faustina II (a Jovem), AE 15 cunhado em Lídia, cerca de 170 d.C.
Anv. Faustina à direita
Rev. Bastão de Esculápio
(Ref. BMC-16, Waddington-5045)

Apesar de não fazer parte do Dodecateão “deuses do Monte Olimpo”, nem do Panteão Romano, Asclépio foi uma das divindades mais populares do nundo antigo ao ponto que, Lúcio Apuleio aquando duma alocução disse, Aescupapius ubique “Esculápio por toda a parte, em todos os lados”.  
(Lúcio Apuleio: escritor e filósofo romano).

Asclépio ou Esculápio deus da medicina, aparece com muita frequência na numismatica greco-romana.

Nas primeiras seis moedas por serem cunhadas em regiões da Grécia Antiga, vou designá-lo por Asclépio; nas moedas romanas, por Esculápio.

Pérgamo (Mísia)-AE 20, cerca de 300-133 a.C.
Anv. Asclépio laureado à direita
Rev. Águia sobre um raio
(Ref. SNGCop-379)

Pérgamo (Misia)-AE 17 cerca de 200-30 a.C.
Anv. Asclépio à direita
Rev. Cobras entrelaçadas
(Ref. SNGCop-401, Lindgren I-299, BMC-164)

Lendas

Segundo a lenda mais corrente, Ascplépio era filho de Apolo e Coronis, filha de Flégias rei dos “lápidas”.
Coronis na ocasião vivia com Apolo e já estava grávida, quando tomou novo amante; um  arcadiano chamado Isquis.

Apolo foi prevenido da sua infortuna graças ao seu dom de adivinhação, ou então terá sido avisado por uma gralha-preta (pássaro da família dos corvos), que na ocasião eram brancas.
Coronis ao ter conhecimento do fato, amaldiçou a gralha que a partir desse dia passou a ter a plumagem preta.

Ilhas de Cária, Cós-Tetrabolo, cerca de 145-88 a.C.
(Magistrado NIKOME ΘEYФAMI)
Anv. Asclépio à direita
Rev. cobra no interior de um quadrado côncavo
(Ref. ANSMN-11)
(Tetrabolo=4 óbolos)

Pérgamo (Mísia)-AE 14, 113 a.C.
Anv. Asclépio laureado à direita
Rev. Bastão de Asclépio
(Ref. SNGFrance-1828, SNGCop-370)

Apolo contou a sua infelicidade  à sua irmã Artemis que de imediato crivou de flechas a infiel Coronis, ou então terá sido ele mesmo que a matou assim como o seu amante Isquis.

Os corpos já se encontravam na pira funerária, quando Apolo se apercebeu que a sua amante estava grávida. Sem hesitar, arrebatou o filho do ventre de Coronis salvando-o das chamas.

Pérgamo (Mísia)-E 20. após 133 a.c.
Anv. Asclépio laureado à direita
Rev. Cobra
(Ref. SNG V,Aul. 1372)


Ilhas de Cária, Cós-AE 22, I século a.C.
Anv. Asclépio laureado à direita
Rev. Cobra
(Ref. COP-684, BMC-194, SNG Tubingen-3525)

Numa outra versão, Coronis deu à luz normalmente quando em companhia do seu irmão visitava Epidauro, cidade da Grécia Antiga.
Uma outra lenda diz-nos, Asclépio ser filho de Arsinoé, uma filha de Leucipe.

De início o pequeno Asclépio foi acolhido por um pastor que o alimentou com o leite das suas cabras.
Mais tarde, Apolo confiou o seu filho ao Centauro Quírom que lhe ensinou a arte da medicina.

Sabina-AE 28 cunhado em Lídia, por cerca de 130
Anv. Sabina à direita
Rev. Bastão de Esculápio
(Ref. BMC-15, SNG Cop-210)

Cómodo- AE 31 cunhado em Lídia, 177-192
(Magistrado, Vettios Antoninus)
Anv. Cómodo à direita.
Rev. Esculápio com o bastão na mão direita, à sua esquerda um sacerdote
(Ref. Mionnet IV-327, Vienna-8228, Paris-563-564)

Atena deu a Esculápio dois frascos contendo o sangue de uma Medusa.
Um altamente venenoso permitia matar, outro um remédio maravilhoso que permitia  ressuscitar os mortos.

Após ter ressuscitado Licurgo (rei de Nemeia), Canapeu (um dos sete contra Tebas), Tíndaro (na mitologia grega  rei de Esparta), Hipólito (filho de Teseu e de  Hipólita, rainha das amazonas), Hades queixou-se a Zeus que a ordem do mundo era susceptível de ser alterada  e este matou Asclépio com um raio.

Clódio Albino- Denário cunhado em Roma, 193-195
Anv. Clódio à direita
Rev. Esculápio com o seu bastão
(Ref. RIC IV-2, BMCRE-88, RSC-9), Cohen-9)

Geta-Denário cunhado em Roma 194-195
Anv. Geta à direita
Rev. Esculápio ladeado por duas cobras no interior 
de um dos seus muitos templos, (raríssimo)

Enfurecido, Apolo matou os ciclopes que forjaram o raio.
Ato que não agradou a Zeus que, sem a intercessão de Léto (ou Latona), uma das suas amantes, Apolo  que teria sido lançado ao “Tarto”, só foi condenado a servir um ser mortal como pastor durante um ano.
(Tarto: na mitologia grega um lugar localizado nas profundezas da terra).

Outra lenda  diz-nos que Apolo não se vingou nos ciclopes , mas nos seus filhos.

Todavia Zeus, ressuscitou Asclépio sobre a forma de uma serpente,  cumprindo assim a profecia da filha de Quírom, que tinha predito que este viria a ser um deus.
Asclépio foi considerado como um dos deuses mais populares.
Casou com Epione, princesa de Cos (o seu nome significa suave), tiveram diversos filhos entre os quais Panáceia, Hígia (ou Higéia) e Télesforo.


Caracala-AE 29 cunhado em Augusta Trajana (Trácia)198-217
Anv. Caracala laureado à direita.
Rev. Esculápio no interior do templo
(Ref. Moushmov-3078)
(Augusta Trajana: atual Strara Zaroga em Bulgária)

Caracala- AE 30 cunhado em Pérgamo (Mísia) em 214
Anv. Caracala com couraça e laureado à direita
Rev. À esquerda Caracala vestido com a toga; junto ao templo, 
um vitimário prestes  a sacrificar um touro em louvor de Esculápio 
(Ref. SNGFrance-2230, BMC-324, Von Fritze Pergamon pl, VIII, 8)
(Mísia: antiga Ásia Menor, atualmente território da Turquia)

Culto

Os seus principais santuários (Asclépieia) eram Epidauro o “mais famoso”, Tricca, Cós, Pérgamo, Atenas, Cnidos e Cirene. 
Epidauro foi a “Meca” da medicina durante muitos séculos e, só perdeu a sua hegemonia após ser destruído por um sismo durante o período romano.

Era ao templo de Epidauro que se ia buscar a cura seguindo algumas regras muito austeras.
Serpentes não venenosas passeavam livremente no tempo de Asclépio.
Em seguida o deus aparecia em sonho aos sacerdotes do culto, e revelava-lhes o remédio que curava o doente. 

No século VI a. C., Epidauro fazia parte da Antifictiona, liga religiosa que agrupava doze povos, não cidades, quase todos da Grécia Central nos tempos do período arcaico, antes do surgimento da Pólis, e períodos seguintes da Grécia Antiga.

Epidauro participou nas guerras Persas e tornou-se um ponto estratégico entre Esparta e Atenas.
A sua celebridade foi adquirida através do tempo de Asclépio.

Templo de Hígia, filha de Asclépio
Caracala-AE 28 cunhado em Marcianopolis 198-217
Anv. Bustos de Caracala e Júlia Domna (sua mãe)
Rev. Hígia no interior do templo
(Ref. Varbanov-1048)
(Marcianopolis: cidade romana na província de Mésia, actual Devnja em Bulgária)

Antonino Pio-Áureo cunhado em Roma em 215
Anv. Antonino laureado à direita
Rev. Esculápio no interior de um templo; à sua direita uma criança ;em frente do templo Antonino oferecendo um sacrifício; à sua direita, um secerdote  
(Ref. Choen-317, RIC-270ª, BMCRE-148)

A cidade juntou-se à Liga Aqueia ou Liga Acaia e foi tomada por Cleômenes III no ano 255 a.C..
No Século I a.C., foi saqueada por Sula, homem de estado romano, que na ocasião era cônsul.
A cidade desapareceu definitivamente da história, no século VI da nossa era.

Nas suas  ruínas podemos observar vários templos, entre os quais o  Templo de Asclépio.

Os descendentes de Asclépio, os “Asclepíades” formaram uma confraria com os seus ritos secretos.
Hipócrates grande médico da antiguidade dizia ser descendente de Asclépio.

O culto de Esculápio foi introduzido em Roma no ano 290 a.C., aquando de uma epidemia de peste.
Um templo ao deus foi erigido numa ilha do Tibre.
Mais tarde, por vezes era confundido com Serápis, divindade sincrética helenístico-egípcia da Antiguidade Clássica.

Iconografia

De início representado como um jovem imberbo, por volta do século IV a.C., passou a ser representado como um homem de idade com a barba grande.

Por vezes Asclépio aparece rodeado pela sua esposa, Epione (a que cura),  das suas filhas, Panácea, Hígia, e dos seus filhos Podalírio, Machaon e Télesforo.

Póstumo, Antoniniano cunhado em Colônia em 226
Anv. Póstumo à direita
Rev. Esculápio com o seu  bastão na mão direita
(Ref. RIC V-2 Cologne 327 , Elmer-418, Cunetio Hoard-2433)

Galieno-Antoniniano cunhado em Antioquia 265-266
Anv. Galieno à direita
Rev. Esculápio com o bastão na mão direita  
(Ref. RIC-632)

Podalírio e Machaon herdaram o dom da cura do seu  pai e governaram juntos  as cidades de Tricca, e Itome.
Devido à sua boa reputação na área da medicina,  foram convidados a participar na expedição a Troia onde prestaram bons serviços como médicos.

Télesforo: epíteto do deus Euamerion também era adorado no templo de Esculápio.

Télesforo, terceiro filho de Asclépio é uma divindade associada à convalescença, aparece muitas vezes representado juntamente com o seu pai e sua irmã Hígia.

No Oriente e principalmente na Bulgária, algumas farmácias parecem santuários pagãs consagrados a duas divindades; Esculápio e Hígia das quais os bustos enquadram as portas.

    
  
MGeada

Bibliografia
Dr. Constance Joel.; les Filles d’Esculape, Éditions  Robert Lafont, 1988
Edith Hamilton ; La Mitologie, Ses Dieux, ses Héros, ses Legendes, Éditions Marabout 1978
José Maria Folgosa , Dicionário de Numismática, Edição: Livraria Fernando Machado, Porto, “sem data”.
Mário da Gama Kury ; Dicionário da Mitologia Grega e Romana. Zahar, 2003. 405p.
Mitologia- Mitos e Lendas de Todo o Mundo, Editora Caracter, edição 2012.
Thomas Bulfinch, O Livro da Mitologia,Editora Martin Claret,2013.
http://www.oniros.fr/esculape.html