domingo, 29 de janeiro de 2017



Porque colecionamos as moedas ??? !!!

Para a maior parte das pessoas a moeda é apenas o fruto de um trabalho e, a promessa de poder comprar alguma coisa com ela.
Para o colecionador, além de ser um poder de compra, ela é o vestígio de uma época, de uma civilização, uma página de história que começou há cerca de 27 séculos.

Algumas moedas  foram feitas com imagens célebres, por exemplo com Júlio César, Alexandre III “o Grande” um dos maiores conquistadores que o mundo conheceu, Cleópatra VII a última rainha do Egito Antigo “célebre pela sua formosura” e, com outros reis, rainhas, imperadores etc.

Outras nos vêm de Roma, Bisâncio (Constantinopla hoje Istambul), Cartago hoje parcialmente coberto pela areia na África do Norte e, dos melhores vestígios que temos são as suas moedas.

As moedas que nos vêm desses tempos passados contam-nos coisas que a maior parte de nós não conhece.
Estudando bem uma moeda, não importa qual, seja de que país for, ela tem a sua história e ocupa um lugar importante no cortejo que desfila à cerca de 2 700 anos.     

As moedas que hoje nos passam pela mão, são o resultado de centenas de anos de experiência. Os primeiros moedeiros deram-lhe uma dimensão prática, deram-lhe um nome, escolheram os metais e, o seu zelo pode ver-se pelos magníficos tipos que se vêm nas moedas.

A coleção de moedas é uma paixão que remonta ao tempo dos antigos romanos.
Sabe-se que o Papa Bonifácio VIII (1294-1303), foi um grande numismata e, dedicava-se só às moedas greco-romanas.
Não esquecer o nosso rei D. Luis, grande colecionador, também conhecido por "o rei numismata". 
Pouco a pouco, o interesse dos colecionadores voltou-se para as moedas do seu próprio país mas, as moedas antigas foram e continuam a ser as preferidas. 

Colecionar as moedas, era há mais ou menos duzentos e cinquenta anos, um privilégio de príncipes e de gente com fortuna.
Esta forma de coleção era tão bem considerada que, os livros de estudo dos jovens nobres, as tinham como uma das ciências mais distintas e, mais dignas de um cavaleiro.

O que era antes um passatempo nobre, é hoje um “hobbi” passatempo favorito que apaixona milhões de adeptos novos e velhos .

Na América a coleção de moedas teve um princípio diferente. O primeiro colecionador foi Joseph Mickley de Filadélfia.
Em 1817, ele começou à procura de um grande cêntimo (em bom estado de conservação) do ano 1799, que era o ano do seu nascimento e, era também a data rara dos grandes cêntimos.

Joseph Mickley juntou centenas até encontrar o que procurava: como a primeira moeda americana tinha sido cunhada em 1793,  em 1817 não havia muitas moedas antigas a colecionar.
Por isso, Mickley e os seus amigos começaram a colecionar todas as séries americanas por datas e, não uma moeda de cada tipo como acontecia nessa ocasião na Europa.

Lídia-Proto-moeda conhecida por glóbulo em electro
Giges-Primeiro rei da dinastia Mermnada da Lídia
Reinou aproximadamente de 680 a 644 a.C.

 
Lídia-Aliates II quarto rei da Lídia,
Estáter em electro, reinou de 617 a 560 a.C.
(prótoma de leão à direita)

 
Reino da Macedónia-Alexandre III o “Grande”, 336-323 a.C.
Tetradracma póstumo cunhado em Anfípolis cerca de 320-317 a.C.
Anv. Heracles com a pele de leão na cabeça
Rev. Zeus sentado num trono, com um bastão na mão esquerda e uma águia na direita.
(Ref. Price-129, Muller, Alexandre-280, SNP Cop-689)

 
Sicília-Decadracma cunhado em Siracusa cerca 400 a.C.
Anv. Auriga conduzindo uma quadriga ao galope;Niké ou Nique coroando o auriga.
Rev Ninfa Aretusa (Persefone)com o cabelo ornamentado com espigas de trigo, dois golfinhos. 
(Ref. exemplar proveniente da coleção Spina, venda Nomos 1).

 
Cartago- Shequel ou didracma cunhado por cerca do ano 270 a.C.
Anv. Tanit com coroa de espigas de trigo à esquerda
Rev Cavalo e palmeira
(Ref. MAA-36var., Muller África-108, “mesmo cunho do n.383 da coleção Gulbenkian”)

Corinto-Estáter cerca de 375-300 a.C.
Anv. Pegaso voando para a esquerda
Rev. Atena à esquerda.
(Ref. SNG-Delpierre 1901)

 
Ilhas de Cárias- Tetradracma cunhado em Rodes, cerca de 380 a.C.
Anv. Hélios (Sol) de frente
Rev. Rosa  POΔ ION
(Ref. SNG Finlândia-452, SNG Delpierre-2753-2756, bmc-27-30)

 
Egito-AE 24=40 dracmas, cunhado em Alexandria, 51-30 a.C.
Anv. Cleópatra VII com carrapito à direita
Rev. Águia à esquerda-ΚΛΕΟΠΑTPΑΣ BAΣIΛIΣΣHΣ
(Ref. Sovoronos-1871)

 
República Romana-Denário cunhado em Roma em 44 a.C.
Anv. Júlio César com coroa de espigas à direita, CAESAR IMP
Rev. Venus com uma Vitória na mão direita e lança na esquerda, M.METTIVS
(Ref. Crawford-480/3, CRI-100, Alfoldi (Caesar in 44 v Chr))

 
Tito-Sestércio cunhado em Roma 80-81
Anv. Tito à esquerda sentado numa cadeira curul,
IMP T CAES VESP AVG P M TR P P P COS VIII    S C
Rev. Coliseu, a Domus Áurea e a fonte Meta Sudans
(Era nesta fonte "Meta Sudans" que se lavavam os gladiadores)
(Ref. RIC-10 var., Cohen-400 var.)


Portugal

Em Portugal a primeira unidade monetária foi o “dinheiro” no reinado de D. Afonso I (Henriques),
1112-1139.
 
D. Afonso Henriques-Dinheiro
Anv. Dois triângulos sobrepostos que formam uma estrela de cinco pontas, ALFONSVS
Rev. Cruz latina, REX POR

D. João III-Português de ouro n/d cunhada em 1450 em Lisboa
Anv.Escudo - IOANNES:3:PORTUGALIE:AL:D – N:ETI ARRIA PESIE:IN R
Rev. Cruz – IN:HOC:SIGNO:VINCEES

 
Um escudo 1916

 
Um escudo 1927

 
Um escudo 2001

 
Euro 2001
Anv. Valor e mapa da Europa
Rev . Doze estrelas, sete castelos, cinco escudetes, as letras da palavra Portugal, data.
Ao centro, selo real de 1144.

MGeada

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016


Capricórnio, imagem de um animal fantástico na numismática romana.

Na mitologia romana, um animal híbrida meio bode, meio peixe que segundo Caio Juno Higino, na realidade o Capricórnio é Pan.
Para este autor, os deuses por causa do terror que lhes inspirou o gigante Typhon, transformaram-se em diversos tipos de animais.
(C.J.Higino: escritor da Roma Antiga, seria natural da Península Ibérica, talvez Valência dos Edetamos “Valência Edetanorum”, Hispânia, por cerca do ano 64 a.C., e faleceu em Roma no ano 17a. C..)

Pan foi o último a adotar esta solução e, ao mergulhar no rio, tomou a forma de um animal estranho híbrido, com cabeça e tronco de cabra e cauda de peixe.

Augusto-Áureo cunhado em Pérgamo no ano 19 a.C.
Anv. Augusto à direita, AVGVSTVS
Rev. Capricórnio à direita,
SIGNIS RECEPTIS
(Ref. RIC-521, BMC-680, Calicó-272, Giard-1011 (Paris)

Devido a esta metamorfose talentuosa, Júpiter colocou-o entre as estrelas.  
Foi por esta razão que Aratus lhe chamou Aegipan (Egipan).

(Aratus: Arato de Solos, poeta grego da corte do rei Antígono Dóson rei da Macedónia, século III a. C..)

(Aegipan: Egipan, divindade mitológica campestre, meio homem, meio animal, aparece quase sempre dotado de pés e orelhas de cabra: era associado ao deus Pan.)

Augusto-Denário cunhado em Lião no ano 12 a. C.
Anv. Augusto à direita, DIVI AVGVSTVS
Rev. Capricórnio e globo, IMP XI
(Ref. RIC-174,I, BMC-465)

Este tipo de Capricórnio aparece com muita frequência em moedas do imperador Augusto, com legenda  latina ou grega.

Segundo Suetónio, a razão da presença do Capricórnio nas moedas do imperador é a seguinte:
Aquando do seu retiro em Apolónia, Augusto acompanhado por Agripa terão subido até ao observatório do adivinho Teógenes.

Este prediu a Agripa uma prosperidade maravilhosa. Augusto temendo alguma mau predição, recusou divulgar o dia do seu nascimento.

Depois de muito hesitar e a pedido de Agripa, Augusto deu a data de nascimento ao bruxo e, qual não foi o seu espanto quando este se levantou e prosternou-se aos seus pés!

Augusto-Cistóforo de prata cunhado em Efeso cerca de 25-20 a.C.
Anv. Augusto à direita, IMP CAESAR
Rev. Capricórnio e cornucópia no interior de uma coroa de louro, AVGVSTVS
(Ref. RIC-480(c), Cohen-16)
(Este cistóforo com a valia de 3 denários, foi cunhado para circular na Ásia Menor.)

A partir daí, Augusto teve tanta confiança no seu destino que publicou o seu horóscopo e, mandou cunhar moedas com o seu símbolo: o Capricórnio.
(Suetónio: vidas dos doze Césares, Augusto 94.)

Outros testemunhos de autores antigos, também atestam que Augusto nasceu realmente sob o signo do Capricórnio e, que o imperador era particularmente supersticioso.
Na sua numária, além do Capricórnio, vemos muitas vezes representações de cornucópias, uma estrela, um leme ou um navio.

Augusto-Denário-cunhado provavelmente na Gália) no ano 27 a.C. a.C.
Anv. Augusto à direita
Rev. Capricórnio e uma estrela,   AVGVSTVS
(Ref. RIC-542)

Este símbolo também é visível em moedas dos imperadores Vespasiano, Tito, Domiciano e, em raras moedas  de Adriano e Antonino Pio.
Alguns bronzes de Domiciano com a legenda AVGVSTVS IMP XX, apresentam este símbolo acompanhado de uma cornucópia.

O globo como símbolo do mundo, apareceu nas moedas romanas no ano 742 (=11 anos d.C.), visível em moedas de Augusto entre as pernas do Capricónio.

Augusto-Denário cunhado em Colônia Patrícia (Espanha) 18-16 a.C.
Anv. Augusto à direita
Rev. Capricórnio, cornucópia e globo, AVGVSTVS
(Ref. RIC-126, Cohen-21)

Cunho monetário de Augusto

Vespasiano-Denário cunhado em Roma cerca de 79 d.C.
Anv. Vespasiano laureado à direita,
IMP CAES VESPASIANVS S AVG
Rev. Capricórnio e globo,
TR POT X COS VIIII
(Ref. RIC-118c, Cohen-554)

Vespasiano-Denário cunhado em Roma 80-81
Anv. Vespasiano laureado à direita,
DIVVS AVGVSTVS VESPASIANVS
Rev. Dois Capricórnios sustentando um escudo com a inscrição S C, um globo por baixo do escudo, .
(Ref. (RIC 2-19, RSC-280)

Este tipo de reverso que também aparece em raras moedas de Tito, é uma marca da felicidade do Império Romano, que sob estes dois príncipes, pai e filho, era forte como na época de Augusto.

Tito-Denário cunhado em Roma 79-81
Anv. Tito laureado à esquerda,
IMP TITVS CAES VESPASIAN AVG PM
Rev. Capricórnio e globo,
TRP VIIII IMP XV COS VII PP
( Ref. RIC-37, RSC-294, BMC-235)

Capricórnios, também são visíveis em moedas dos imperadores Galiano e Caráusio, como símbolo de algumas legiões.

Galiano-(Antoniniano cunhado em Milão no ano 258
Anv. Galiano com coroa radiada à direita,
GALIENVS AVG
Rev. Capricórnio, LEGI ITAL VI P VI F
(Ref. RIC V-1 Milão 315, Gobl-0982, Sear-102549)

Caurásio-Antoniniano cunhado em Londres 287-293
Anv. Caráusio com coroa radiada à direita,
IMP CARAVSIVS PF AVG
Rev. Capricórnio, LEG II AVG ML
(Ref. RIC-58,9)

Este animal estranho, meio bode, meio peixe, décimo signo do Zodíaco e, um dos quatro pontos cardinais (sul) existe, mas apenas na imaginação dos homens.

MGeada

Bibliografia
 
Philipe Bodet: le Capricorne, Symbole Parlant sur les Monnaies Romaines.
Daremberg et Saglio : Le Dictionnaire des Antiquites Grecques et Romaines.
Frédéric Weber : Catalogue des Monnaies de L’Empire Romain.
Michel Prieur : Les Monnaies Romaines-Setembro 2004.
George Depeyrot : Monnaies Romaines : Histoire et Vie D’un Empire-dezembro 2014.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016



Nossa Senhora da Conceição
Moeda mandada cunhar por D. João IV por decreto-lei de 25 de março de 1646

Padroeira de “Alcains” e de Portugal, Conceição foi o nome que D. João IV deu à moeda que mandou cunhar para comemorar a adoção que fizera de Nossa Senhora da Conceição para padroeira do Reino de Portugal nas cortes celebradas em Lisboa no ano 1646.

No dia 25 de março de 1646, dia de Ramos, perante a Corte e representantes do Reino e cinco bispos reunidos na Capela Real dos Paços da Ribeira, realizou-se esta solene cerimónia de juramento.
Pedro Vieira da Silva leu em voz alta o texto e, por fim a fórmula de juramento que o rei ajoelhado diante do altar foi repetindo.
O mesmo fizeram o príncipe. os grandes representantes do povo e os bispos presentes.
O ato terminou com o solene Te Deum. 

O Rei prometeu à Senhora da Conceição em seu nome e dos seus sucessores, um tributo anual de 50 cruzados de ouro e,  ordenou que os estudantes da Universidade de Coimbra, antes de tomarem algum grau de instrução , jurassem defender a Imaculada Conceição. 

D. João IV não foi o primeiro rei português a colocar o reino sob a sua proteção, apenas decretou que fosse permanente, uma devoção a que os nossos reis recorreram muitas vezes em momentos críticos  para Portugal.

D. João I escreveu nas portas da capital elogios à Virgem e, em 1386, mandou construir o Convento da Batalha (Mosteiro de Santa Maria da Vitória, conhecido por Mosteiro da Batalha). enquanto o seu intrépido companheiro de armas D. Nuno Álvares Pereira no ano 1389 em Lisboa, erigiu à virgem, o Convento do Carmo.

Foi por decreto-lei de  25 de Maio de 1646, que Nossa Senhora da Conceição foi escolhida para padroeira do Reino de Portugal.

Para comemorar este evento, cunharam-se medalhas de ouro de 22 quilates, com o peso de 12 oitavas (1 oitava=3,600 gr) e outras de prata com o peso de uma onça (=28,800gr.) que por lei foram admitidas como moedas correntes.


D. João IV-Conceição, ouro 12 000 réis, cunhada em 1648


D. João IV-Conceição, prata 600 réis, cunhada em 1648

Descrição das moedas

Anv. as armas do Reino coroadas assentes sobre a Cruz de Cristo,
JOANNES IIII, D.G PORTUGALIAE ET ALGARBIAE REX
(João IV pela Graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves)
Rev. Ao centro a Imagem de Nossa senhora da Conceição, aureolada com um conjunto de 7 estrelas, em pé sobre um globo, em volta do qual se enrola uma serpente, tendo por baixo, a data.
Dos lados veêm-se, à esquerda, o Sol, Templo, e Horto (ou Cerrado). À direita, o Espelho, a Arca do Santuário e a Fonte Selada
REGNI TVTELARIS
(Padroeira do Reino)

No ano 1946, para comemorar o terceiro centenário  da proclamação de Nossa Senhora da Conceição como padroeira de Portugal, foi feita uma recunhagem tendo sido introduzido no reverso um elemento novo: as datas de 1646 e 1946 entre os braços da cruz.
Fizeram-se três emissões: em ouro, prata, e cobre.
Estas medalhas têm um módulo de 42mm, e um peso de 80 gr. as de ouro, em prata 41,8 gr., as de cobre 37,2 gr, .


República-Recunhagem de 1946

Simbologia da Conceição




Coroa a imagem da Virgem, um conjunto de 7 estrelas.

O número 7 é o número da vida, da união de Deus com a matéria. (3+4) = as três pessoas da Santíssima Trindade e os quatros elementos da natureza: água, terra, fogo, ar.
Significados que fazem referência  à missão da Virgem Maria.
Com efeito, por Ela vem a vida, e Ela própria é a manifestação da união de Deus com a matéria, (a natureza).

Por outro lado o número 7 indica os graus da iniciação Mariana, traduzida pelas 7 dores da Virgem.
A Virgem  significa a possibilidade criadora e regeneradora. É a Natura (Natureza), aquela que haveria de nascer (pois sem Ela, Cristo não poderia encarnar) e dar nascimento.

De mãos postas indica a alquimia divina de Ora et Labora (reza e trabalha), tão bem aproveitada pela Ordem Dominicana.
Olha para a direita, para o lado favorável, do Bem, da Divindade. Está em pé, que significa manter-se.


Os seus pés pisam a Lua, o símbolo por excelência da mulher, desde os tempos Neolíticos. 
A Lua assenta sobre o mundo rodeado pela serpente, cujo corpo dá um nó.
A serpente foi identificada ao dragão, simbolizando biblicamente o mal. Mas aqui a Virgem não pisa a sua cabeça. Tal facto referencia outros sentidos.

A serpente designa o Ouroboros, símbolo da lei do eterno retorno, de tudo aquilo que está em constante recriação.
É a lei da natureza física; por isso aparece enrolada no globo, que representa a esfera terreste.

(Ouroboros: Figura mitológica, geralmente faz referência à criação do universo e, pode simbolizar a contunuidade, o eterno retorno, o renascimento da terra etc, ).

A serpente é também o símbolo das iniciações maiores e do caminho para as conseguir.
Ao pisar a cabeça da serpente, a Virgem quebrou a Lei do Eterno Retorno para transformar o círculo em espiral.

No entanto, nesta moeda, a Virgem não pisa a serpente, a Lua separa a Virgem do mundo; a iniciação superior, da inferior, o espírito da matéria.
Nesta moeda a serpente é o símbolo da Imaculada Conceição, alusivo à redenção do pecado original operado em Maria por especial previlégio na sua concepção.

Rodeiam a figura da Virgem seis figurações, que correspondem a invocações de ladainhas da Virgem. Não existe uma relação simples; com efeito, alguns dos símbolos utilizados podem referir-se a várias invocações.


O Sol, designa a Divindade e a Criação (Santa Mãe de Deus; Mãe do Criador).

O Espelho, designa o espelho da justiça. Na concepção tradicional a mulher simbolizada pela Lua, é o espelho do Sol.


O Templo, é a sede da sabedoria. A Virgem Maria representa a visibilidade do Feminino Divino. 


A Arca de Noé, significa a Arca da Aliança. A Virgem exprime o momento da aliança real de Deus com o Homem, a matéria, a natureza. (Segundo a Bíblia, a Arca de Noé conservou a natureza).


O Horto (ou Cerrado), é o refugio dos Pecadores. Neste jardim fechado símbolo do Éden, os pecadores encontram o seu estado primeiro, quando o homem vivia em  armonia total com Deus.


A Fonte, é a saúde dos doentes. Repete-se com as devidas variações o sentido anterior. 

O número seis (referência a estas seis simbologias) indica sucessivamente a união do Criador com a Criatura. A harmonia dos opostos através de um eixo central (a própria Virgem), o Coração, a Beleza, a Vida, o Sol. 
Relaciona-se com a diversificação, a multiplicação, a reintegração, “tudo funções afirmadas pela ladainha da Virgem”.

A moeda coloca deste modo, o conhecimento das duas iniciações. O Reino (de Portugal) só poderá ser tutelado pela iniciação superior e não pela iniciação inferior.
Por esta, estará sujeita a todas as eventualidades históricas, normalmente adversas; por aquela, surge a garantia de vencer as incertezas terrestes.


350 ̊ Aniversário da Proclamação de N.S. da Conceição Padroeira de Portugal
1 000$00 prata cunhada em 1996.

Anv. Campo preenchido por um manto estilizado, sobreponde-se ao centro o escudo das armas nacionais, orlado na parte superior pela legenda República Portuguesa, e na orla inferior pelo valor facial 1000$00.

Rev. Ao centro a imagem da Senhora da Conceição de corpo inteiro com o menino ao colo, coberta com um manto, devidamente coroados, assentes numa meia lua, com diversas coroas a comporem parte do campo, orlados com a legenda  N. S. DA CONCEIÇÃO PADROEIRA  DE PORTUGAL

MGeada

Bibliografia

José Valério; Moedas Comemorativas Portuguesas, edição do autor, 2010.
Alberto Gomes ; Moedas Portuguesas e do Território Português Antes da Fundação da Nacionalidade.
António Miguel Trigueiros: A Conceição, Moeda, Medalha e Venera da Padroeira do Reino-Lisboa, 8 de dezembro de 2008-8 de maio de 2014.
Salgado; Javier Sáez- História da Moeda em Portugal, 2002.
http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/13591.pdf      

terça-feira, 25 de outubro de 2016










Estádio de Domiciano
(Atual Piazza Navona)

Situado no Campo de Marte, aparece num áureo de Septímio Severo (193-211).
A moeda mostra-nos, em simultâneo, a fachada com as portas de entrada e as arcadas.
Supõe-se que a fila superior devia conter as estátuas alusivas às competições atléticas que ali se realizavam.
É o único estádio com tão grande dimensão construído fora da Grécia e do mundo oriental. Ao invés dos gregos, os romanos não eram apreciadores de competições atléticas, e além disso, as competições podiam ser feitas em circos ou estádios desmontáveis.
Porém, os imperadores romanos não deixaram de organizar estas competições, até era usual para ganharem as boas graças do povo, inventar novos jogos tais como o CERTAMEM CAPITO- LINI   IOVI  (O  Jogo  de  Júpiter  Capitolin )  de   Domiciano,
(Competição musical equestre e atlética) organizada todos os quatro anos.
Foi para estes jogos que o imperador Domiciano mandou construir um grande estádio, idêntico aos estádios gregos; tinha 225 m de comprimento, mas as técnicas arquitecturais são romanas.
Construído na parte ocidental do Campo de Marte, ao lado das termas de Nero e dos banhos de Agripa, a sua dimensão é pequena, se a comparar-mos com a do circo grande, que tinha   620 m.

Ficou célebre pela qualidade das suas instalações. A fachada exterior era ornamentada com uma dupla série de arcadas, tinha um cenário móvel, várias entradas e um sumptuoso estrado destinado ao imperador e às entidades religiosas.

Para além das competições clássicas:
QVADRIGARVM (Corrida de carro),
LVCTA (Luta),
DISCVS (Lançamento do disco),
SALIENDI (Concurso de salto),
JACVLI (lançamento do dardo),
também havia uma competição entre jovens raparigas.

A maior parte dos atletas eram gregos. O prémio dos vencedores era uma coroa de folhas de loureiro, e de folhas de oliveira, àrvores consagradas a Marte e a Júpiter.
O estádio de Domiciano é conhecido pela sua longevidade.
       
No ano 217, no reinado de Macrino, por causa de um incêndio que o devastou, o estádio teve algumas reparações para receber os jogos dos gladiadores, mas foi Alexandre Severo que terminou a sua restauração.
A moeda aqui reproduzida comemora esse evento.

Septímio Severo-Áureo cunhado em Roma em 206
Anv. S. Severo laureado à direita,  SEVERVS PIVS  AVG
Rev. Vista aérea do Estádio de Domiciano com 9 pessoas: 1 praticando atletismo, 2 pugilistas que se afrontam, 3 vestidos com a toga, o da direita coroando o do meio, 2 praticando a luta e o imperador sentado. P P COS III
(Ref. RIC-260, BMCRE-319,pl. 35. 4, Cohen-571, Calico-2518)
(Este  raríssimo áureo de Septímio Severo, são as únicas moedas que representam este estádio).
       
Em meados do século IV, depois do advento do Cristianismo e a abolição dos jogos sangrentos, o estádio ainda era usado para competições atléticas.


MGeada

Bibliografia
Brigitte Hintzen-Bolen, Art et Arquitecture: Rome.
Coarelli Fillipo ; Guia Arqueológico de Roma-Roma 1980.
Marcel le Gay, Jean-Louis Voisin, Yvan le Nohec ; Histoire de Rome dans L’Antiquite.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016


O Mito do rapto das Sabinas

Após a fundação da cidade de Roma, a principal peocupação de Rómulo foi povoá-la ; para isso, transformou a cidade num asilo.
Desde então todos os fora da lei da Itália, os banidos, assassinos, e escravos fugitivos encontraram ali refúgio.
Mas, grave problema; a nova cidade carecia de mulheres.
 
Consciente do problema, Rómulo preocupou-se com a sua povoação, e iniciou alguns contatos com as cidades e povos vizinhos, enviando embaixadores para aceitarem a sua aliança e consentirem alguns casamentos entre os dois povos.

Temendo a concorrência duma sociedade rival, as aspirações de Rómulo não tiveram o sucesso esperado. Depois de várias negociaçães  sem sucesso, os romanos decidiram recorrer à astúcia e força. 

Rómulo decidiu então organizar as Ludi Consuales, (Consuálias),  festival  da Roma Antiga celebrado em honra do deus Conso, uma das mais antigas divindades agrárias romanas, que além da festa religiosa também incluía jogos, representações teatrais e corridas de cavalos e mulas).

Convidou então os habitantes das cidades vizinhas : sabinos, ceninenses, crustumerinos, antemnos e outros,  que motivados pela  curiosidade de ver a nova cidade, aderiram em grande número.

Durante o festival, Rómulo deu o sinal combinado aos seus homens indicando que era o momento oportuno de passar ao ato, e estes sequestraram todas as raparigas em idade de casar, assim como as esposas dos seus hóspedes e expulsaram os homens.

O Rapto das Sabinas, Nicolas Poussin, 1637-1638
Museu do Louvre, Paris

Rómulo suplicou as mulheres sequestradas a aceitar os romanos como esposos.
Tratou-as sempre bem, e além de lhes conceder a livre escolha do esposo, também lhes prometeu direitos cívicos e de propriedade.

Falou individualmente com  cada uma, e fez-lhes compreender que a violência  foi originada pelo orgulho dos seus pais e esposos, e à sua recusa de aliar-se por casamentos a um povo vizinho.

É como esposas que ireis compartilhar com os romanos a sua existência, a fortuna, a sua pátria e, unir-vos  com eles pelo enlace que pode aproximar os mortais, tornando-vos as mães dos seus filhos.

As sabinas viveram  felizes  com os romanos,  compartilharam os bens e direitos cívicos dos seus esposos e,  desejo comum a todos os seres humanos, foram mães de homens  e mulheres livres.

A Guerra   

Furiosas pela ultraje dos romanos, as cidades vizinhas decidiram declarar guerra aos romanos e formaram uma coalizão liderada por Titus Tatius (TitoTácio), rei dos sabinos.

O conflito começou por ser favorável a Rómulo e ao seu exército, que numa primeira fase derrotaram os Ceninenses  e mataram o rei. Em seguida venceu os Crustumerinos  e os  Antemnos.
Todavia Rómulo recebeu os povos vencidos na sua cidade, o que permitiu aumentar a população de Roma e ao mesmo tempo reunir as famílias.

Os sabinos e a traição de Tarpeia

Liderados por Tito Tácio os sabinos também entraram em guerra contra Roma, e quase conseguiram conquistar a cidade  devido à traição de Tarpeia, uma Vestale filha de Espúrio Tarpeia governador do Capitólio.

Ao vê-la adornada com jóias, Tácio compreendeu a sua paixão e prometeu-lhe todas as jóias que ela quizesse, se os ajudasse a penetrar na cidadela .
A Vestale  pediu colares de ouro, pedras preciosas, e braceletes  que os sabinos usavam no braço esquerdo, que ela acreditava serem de ouro.

Tácio aceitou a proposta e, à noite quando Tarpeia abriu as portas da cidade (segundo uma das muitas a lenda), Tácio atirou-lhe não só o bracelete de ouro como o escudo.
Como todos os soldados fizeram o mesmo, Tarpéia morreu sob o impacto dos braceletes e enterrada pelos escudos, e para completar o preço da traição, atiraram-na do cimo dum rochedo que ainda hoje é conhecido por Rocha ou Rochedo Tarpeia.

 (Segundo uma versão de Plutarco, Tarpeia seria filha de Tito Tácio, que forçada a viver com Rómulo traíu os romanos por ordem do pai).

LVCIVS TITVRIVS SABINVS, (monetário)
Denário cunhado em Roma em 89 a.C..
Anv. Busto de Titus Tatius (Tito Tácio) à direita,  SABIN.
Rev. Uma Vitória coroando e conduzindo uma biga, L TITVRI

LVCIVS TITVRIVS SABINVS (monetário)
Denário cunhado em Roma em 89 a.C..
Anv. Busto de Titus Tatius à direita,  SABIN.
Rev.Cena ilustrando o Rapto das Sabinas.

LVCIVS TITVRIVS SABINVS (monetário)
Denário cunhado em Roma em 89 a.C..
Anv. Busto de Titus Tatius à direita,  SABIN.
Rev.Tarpéia entre dois soldados sabinos
com escudos aos seus pés,  TITVRI.

Augusto-denário cunhado em Roma em 19/18 a.C..
Anv. Busto de Augusto à direita,
CAES AVGVSTVS.
Rev. Tarpéia enterrada nos escudos até à cinta.
T VRPILIANVS III VIR.

Rocha Tarpeia

Inversão da situação

Rómulo e os romanos reagiram de imediato e comandados por Hostus Hostilius lançaram-se na batalha.
Quando o chefe romano Hostus morreu sob os golpes do adversário, as linhas romanas cederam e recuaram. 

Como a derrota ameaçava, o que seria um desastre, Rómulo implorou Júpiter, tratou-o com um novo nome (Júpiter Ferétrio) e prometeu erigir-lhe um templo no sítio exato onde ele invertesse a tendência da batalha.
A sua súlpica foi ouvida pelo pai dos deuses e os romanos cessaram de recuar.

Foi então que as sabinas por tanto sofrerem com esta guerra  onde combatem os seus pais, irmãos, tios, contra os seus esposos e pais dos seus filhos que nasceram após o seu sequestro, interviram lançando-se no meio da batalha para reconciliar os os dois exércitos.

Intervenção das Sabinas-Jacques-Louis David-1799
Museu do Louvre Paris.

Perante o massacre e para salvar aqueles que amam nos dois campos adversos, as sabinas ao perigo das suas vidas interpuzeram-se com os seus filhos no meio da luta, para que cessassem o combate ao mesmo tempo que diziam.
Se estão cansados destes laços de paternidade, destas obrigações matrimoniais, então voltem a vossa cólera contra nós.
Somos nós a causa desta guerra, somós nós que temos matado e ferido nossos maridos e pais.
Para nós é preferível morrer que viver sem um ou outro, como viúvas ou orfãos. 

Templo de Júpiter Ferétrio
Marcus Claudius Marcellinus cerca de 268-208 a.C..
Denário cunhado em Roma, por cerca de 222 a.C..
Anv. Busto de M. C. Marcellinus à direita,
MARCELILINVS e Tríscele (ou Triskelion)
Rev. M. C. Marcellinus com um troféu e vestido com a toga,
a subir as escadas do templo
MARCELLVS COS QVINT (Consul pela quinta vez)

Reinado de Rómulo e Titus Talius (Tito Tácio)

Após a reconciliação, os sabinos aceitaram formar uma só nação com os romanos, passaram a viver no Capitólio, e Tácio dirigiu Roma conjuntamente com Rómulo até à sua morte, (cinco anos mais tarde).

Acompanhado pelos Céléres (os trezentos cavaleiros da guarda de Rómulo) Rómulo ainda passou muitos anos a lutar contra os vizinhos etruscos das cidades de Veios (Veii ou Veius)  e Fidenas (Fidenae), antes de os obrigar a fazer as pazes com Roma, em troca de alguns territórios.

MGeada

Bibliografia


Alexandre Grandazzi; La fondation de Rome, 1991, Les Belles lettres (réédition 1997).
Babelon ; Description Des Monnaies de la Republique Romaine, 3 volumes, 1979.
Antiquités romaines, livre I, 74-75.
Ernest Babelon ; Description Historique Et Chronologique Des Monnaies de La republique Romaine, abril 2013, réédition de 1885.
Grinaldi, Pierre ; Les Villes Romaines, 1990.
Durando, Furio ; Itália Antiga. Grandes Civilizações do Passado, 2006.
Laure Orvieto; Contes et Légendes de la naissance de Rome.
Massimo Pallottino ; Origini e storia primitiva di Roma, Milano, pag. 123 et pp. 130-131.
Naissance de Rome ; Catalogue d’exposition au Petit Palais, 1997, préfacé d’articles sur l’archéologie romaine.
Tive-Live ; Ab urbe condita, 1.9-13
Tive-Live ; Histoire de Romaine, 1,4.
Tive-Live ; La Fondation de Rome, Flammarion, abril 1999.

Pline L’Ancien ; Histoire naturelle, III,69.