sábado, 25 de fevereiro de 2017


Bigas trigas e quadrigas na numismática romana.

Numa passagem da “Germânia” de Tácito, (historiador, orador e político romano, 55-120, a.C.,) o autor mencionou que, tal como os denários “Serrati” serrados e, os “Bigatis” Bigas, são as moedas de prata favoritas dos bárbaros nas suas transações com os romanos.

As “bigati”, são denários da República Romana que têm como tipo de reverso, uma divindade numa biga: um carro puxado por dois cavalos.

A emissão das mais antigas bigas remonta a cerca do ano 217 a.C.,  e, eram cunhadas simultaneamente com os denários tipo “Dióscuros”.
Como estes, têm no anverso a deusa Roma com capacete mas, o reverso é ocupado pela deusa Lua (ou Selene na mitologia grega) num carro puxado por dois cavalos ao galope. Os equi lunares “lunares equi” ? mencionados por Ovídio (Fasti, V,16).

Denário cunhado em Roma em 109-108 a.C.
Rev. a Lua conduzindo uma biga puxada por cavalos
(Ref. Crawford-303/1, Sydenham-557)

Mais ou menos na mesma época foram emitidos em Roma “bigatis” tipo  Vitória semelhantes aos da Lua, que  dizem terem sido copiados das moedas da Grande Grécia.

Campânia-AE 25 cunhado em Cápua em 216-211 a.C. (Sob a ocupação de Aníbal)
Rev.  uma Vitória conduzindo uma biga puxada por cavalos
(Exemplar da Biblioteca Nacional de França)
(Ref. J. Babelon, Catálogo da coleção de Luynes, Paris, 1936, n.62

Denário cunhdo em Roma no ano 154-141 a.C.
Rev. Uma Vitória conduzindo uma biga puxada por cavalos
(Ref. Crawford-206, Sydenham-388, BMC-670)

Oa denários “bigati” com bigas tipo Lua e Vitória, foram emitidos em grande abundância até ao ano 104 a.C., mas, estes não destronaram o tipo primitivo dos dióscuros Castor e Polux a cavalo, que continuou a ser o mais comum, até que os emblemas particulares dos magistrados, foram substituindo os primeiros reversos  tradicionais.

Denário cunhado em Roma 211-209 a.C.
Rev. Dioscuros cavalgando para a direita
(Ref. Crawford-61/1, Sydenham-147)

É provável que o nome “bigati”para os “Germanos” de Tácito, englobava não só os denários tipo biga conduzida pela  “Lua” ou, por uma “Vitória”, mas também os do tipo Dióscuros galopando lado a lado com uma lança na mão.

No seguimento das cunhagens  da República Romana, encontramos outros denários aos quais devido ao seu tipo também podemos chamar “Bigatis”.
São os diferentes reversos da biga de Diana, esta conduzindo uma biga  puxado por cavalos ou veados, de Apolo, ou ainda Juno Caprotina numa biga puxada por bodes.
Enumeremos também os denários com as bigas de Ceres, Cibele, de Marte, Génio do povo romano, da Liberdade, da Pietas:  não esquecendo as bigas puxadas por centauros,  dragões, elefantes, leões, hipocampos etc..

Denário cunhado em Roma 179/170 a.C.
Rev. Diana conduzindo uma biga puxada por cavalos
(Ref. Sydenham-325)

Denário cunhado em Roma 138 a.C.
Rev. Juno Caprotina conduzindo uma biga puxada por bodes
(Ref. Crawfood-231/1- Sydenham-432)

Denário cunhado em Roma no ano 131
Rev. Apolo conduzindo uma biga puxada por cavalos
(Ref. Crawford-254/1, Sydenham-465)

Denário cunhado em Roma em 92 a.C.
Rev. Diana conduzindo uma biga puxada por cervos
(Ref. Crawford-336/1b, Sydenham-595)

Enumeremos também os denários com as bigas de  Hércules, Pax, Júpiter, Cibele, Liberdade, Netuno, Ceres, Juno Sospita e outros, por vezes puxadas por centauros Dragões, elefantes, leões, serpentes Hipocampos (cavalos marinhos) etc..


Denário cunhado em Roma no ano 139 a.C.
Rev. Hércules conduzindo uma biga puxada por centauros
(Ref. Crawford-229/1, Sydenham-429, BMC-914, Sear-106)

Denário cunhado em Roma em 128 a.C.
Rev. A Pax conduzindo uma biga, ROMA
(Ref. Sydenham-496)

Denário cunhado em Roma no ano 125 a.C.
Rev. Júpiter conduzindo uma biga puxada por elefantes
(Ref.Crawford-269/1, Sydenham-485)

Denário cunhado em Roma em 78 a.C.
Rev. Cibele conduzindo uma biga puxada por leões
(Ref. Crawford.385/4)


Denário serrado cunhado em Roma no ano 75 a.C.
Rev. Libertas (Liberdade) conduzindo uma biga puxada por cavalos
(Ref. Crawford-391/1)


Denário serrado, cunhado em Roma no ano 72 a.C.
Rev. Netuno conduzindo uma biga puxada por Hipocampos (cavalos marinhos)
(Ref. Crawford-399/1ª, Sydenham-796)


Denário cunhado em Roma em 76 a.C.
Rev. Ceres conduzindo uma biga puxada por serpentes, M. VOLTE.I.M.F
(Ref. Crawford-385, Sydenham-776


Denário cunhado em Roma 44 a.C.
Rev. Juno Sospita conduzindo uma biga puxada por cavalos
(Ref. Crawford-480/2ª, Sydenham-1057, RSC-36)



Denário cunhado em Roma 211-217 d.C.
Rev. Lvna Lvcifera (Lua Lucifera) conduzindo uma biga puxada por cavalos
(Ref. RIC-Caracala-379, BMC Caracala-10.C105)


AE 29 cunhado na Tácia (Istrus) 193-211
Rev. Nique ou Niquê conduzindo uma biga puxada por cavalos
(Ref. Varbanov-620)

Fáceis de conduzir, nos tempos antigos, as bigas e quadrigas eram muito práticas, rápidas, foram utilizadas em guerras, mas também em jogos de circos, muito apreciados pelos romanos.

Ao elaborar este trabalho, é quase impossível não pensar nessas corridas, nas arenas e no público aplaudindo os seus campeões.
Mas, antes de entrarmos no assunto, temos que saber que as bigas são carros puxadas por dois animais: cavalos, elefantes, leões, touros, burros, dragões etc., as trigas por três, enquanto as quadrigas são puxadas por quatro.

Plínio o Antigo, diz-nos que na cerimónia fúnebre  de Félix (auriga célebre), um dos seus adeptos cheio de tristeza, atirou-se para a fogueira aonde o seu seu ídole estava a ser cremado. Um gesto demente, que diz muito sobre a paixão louca dos adeptos das corridas de carros e outros jogos de circo.

As corridas de carros, por vezes com acrobacias, eram muito aplaudidas e originavam grandes paixões.
É certo que o povo vibrava pelos carros puxados com dois ou três cavalos mas, a mais apreciada era a quadriga puxada por quatro.

Os concurrentes eram profissinais que faziam parte de uma equipa mas, estas eram limitadas e definidas por uma cor:

Sob o império os carros pertenciam a escudeiras que se distinguiam pelas suas cores.
As mais famosas eram: o Vermelho (em latim Russata) e o Branco(em latim albata), em seguida o azul (Veneta) e o verde (Prasina).

De modo geral, a Russata  corria contra a Veneta e a Albata contra a Prazina.
Cada equipa em particular a dos azuis e a dos vertdes tinham os seus adeptos muito provocadores e, as suas cores correspondiam a tendências políticas ou grupos sociais.

O Senado e a aristocacia tradicionalista, identificavam-se com os azuis enquanto a massa popular e os mais democráticos apoiavam os verdes.
O auriga vestia-se com a cor da sua escudeira. Cada fação era dirigida por um dominus factonis que dirigia uma garande equipa: cocheiros, palafreneiros, veterinários etc,.

Também é frequente encontrarmos moedas com bigas, trasportando o cadáver do imperador, ou imperatriz à sua última morada.


Agripina Senior-sestércio (póstumo)cunhado em Roma por Calígula “seu filho” em 37-41
Biga funerária puxada por duas mulas, trasportando o cadáver da imperatriz Agripina. MEMORIAE AGRIPPINAE   SPQR
(Ref. RIC-55, BMC-81, Sear-1827)

De notar, que só o imperador tinha  o direito de utilizar uma quadriga, enquanto as mulhers só tinha direito à biga, demonstrando mais uma vez que em Roma a mulher era considerada a metade de um homem.
(Será por isso que ainda hoje  existe esta frase muito popular:  “apresento-vos a minha metade”?)

A partir desta simples descrição, pensamos não ser necessário apresentar  em promenor todos os “bugatis”, tanto valorizados pelos Germanos e, que constituem uma grande parte do numerário da República Romana, mesmo na época em que os monetários se inspiravam nos feitos dos seus antepassados, para ornamentar os reversos dos denários.

Trigas

Outro meio de locomoção de origem etrusca e, pouco frequente na numismática romana é a "triga "(carro puxado por três cavalos).

Apesar de procurar muito, as informações sobre este tipo de carro também não abundam. Sabemos que participava com alguma frequência nos jogos de circo mas, não encontrei nenhuma referência sobre o porquê da sua cunhagem.


Denário cunhado em Roma no ano 79 a.C.
Rev. Uma Vitória conduzindo uma triga puxada por cavalos
(Ref. Sydenham-769b)
   
Denário cunhado em Roma em 111-110 a.C.
Rev. Uma Vitória conduzindo uma triga puxada por cavalos
(Ref. Crawford-299/1 a, Sydenham-570, BMC- CRR-769/1, RRC-382/1, RCV-309, MMR-1277)

Quadrigas

Um tipo de reverso quase tão comum como os dióscuros, a biga da Lua, da Liberdade, da Vitória e outros nos denários mais antigos da Républica Romana, é o da “quadriga de Júpiter”, daí o nome de “quadrigati” atribuído as estas moedas.


Denário cunhado em Roma em 136 a.C.
Rev. Júpiter conduzindo uma quadriga puxada por cavalos
(Ref. Crawford-238/1, Sydenham-451)

Este tipo começou a aparecer nos denários cunhados em Roma e outras cunhagens provinciais romanas, nomeadamente nas quadrigas e bigas de Júpiter que circulavam  em moedas de Campânia (ou Campanha), emitidas pelas oficinas de Cápua e Atella.

Campânia-3/8 de Shekel em electro, cunhado em Cápua  217-211 a.C.
(Sob ocupação de Aníbal)
Rev. Júpiter conduzindo uma quadriga puxadaa por cavalos
(Exemplar da Biblioteca Nacional de França)
(Ref. J. Babelon-catálogo da coleção de Luynes, Paris, 1936, n.58)

Campânia- AE 31 cunhado em Attela na segunda metado do século III
Rev. Júpiter conduzindo uma quadriga puxada por cavalos
(Exemplar da Biblioteca Nacional de França)
(Ref. (Ref. J. Babelon, Catálogo da coleção de Luynes, Paris, 1936, n.58)


Denário cunhado em Roma em 141 a.C.
Rev. Venus conduzindo uma quadriga puxada por cavalos
(Ref. Crawford- 226/1


Denário cunhado em Roma no ano 130 a.c.
Anv. Hércules conduzindo uma quadriga puxada por cavalos
(Ref.Crawford-255/1, Sydenham-511)


Denário cunhado em Roma em 132 a.C.
Rev. O Sol conduzindo uma quadriga puxada por cavalos
(Ref. Crawford-250/1, Sydenhan-487)


Denário cunhado em Roma em 104 a.C.
Rev. Saturno conduzindo uma quadriga puxada por cavalos
(Ref. Crawford-317/3ª)


Denário cunhado em Roma em 138 a.C.
Rev. Marte conduzindo uma quadriga puxada por cavalos
(Ref. Crawford-232/1, Sydernham-434)


Denário cunhado em Roma no ano 131 a.C.
Rev. Marte conduzindo uma quadriga puxada por cavalos
(Ref. Crawford-252/1, Sydenham-472)


Denário cunhado em Roma no ano 125 a.C.
Rev. Libertas Liberdade conduzindo uma quadriga puxada por cavalos
(Ref. Crawford-270/1- Sydenham-513)


Denário cunhado em Roma em 104 a.C.
Rev. Saturno conduzindo uma quadriga puxada por cavalos
(Ref. Crawford-317/3ª-Sydenham)

Denário Cunhado em Roma no ano 90
Rev. Minerva conduzindo uma quadriga puxada por cavalos
(Ref. Crawford-341/5b, Sydenham-684)


Denário cunhado em Roma em 83-82 a.C.
Rev. Uma Vitória conduzindo uma quadriga puxada por cavalos
(Ref. Crawford-364/1b, Sydenham-742)


Denário cunhado em Roma no ano 47 a.C.
Rev. Aurora conduzindo  a quadriga do Sol puxada por cavalos
(Ref. Crawford-453/1c, Sydenham-959, BMC-4009)


Augusto-denário cunhado em Roma no ano 18 a.C,
Rev. Quadriga conduzida por uma Vitória puxada por cavalos
(Ref. RIC I-128ª, RSC-274, BMCRE-392, BMCRR Rome-4429)


Áureo cunhado em Roma no ano 55 d.C.
Rev. Estátuas de Augusto e Cláudio numa quadriga puxada por elefantes
(Rev. RIC-6, BMC-7, Sear5-2042)


Marco Aurélio-Sestércio cunhado em Roma em 180
Rev. Quadriga com a estátua de Marco Aurélio puxada por elefantes “com cornacas”
(Ref. RIC- 661, Cohen-95, BMC-396, RCV-5985)


Constantino I, 306-337
AE 4-póstumo, cunhado em Alexandria, 337-340.
Rev. Constantino numa quadriga puxada por cavalos a subir ao céu,
com os braços estendidos, para alcançar  a mão de Deus,  
(Ref. RIC-8-12ª, Choen-760, LRBC-1374)

Que pretendia dizer Plínio quando nos fala de Bigati (Hist. Nat. XXXIII, 3, 44) ?
Se nos referimos simplesmente à numismática, é claro que este termo qualifica os denários da República Romana (com um peso de 1/84 da libra romana=3 escrúpulos) com Diana no reverso conduzindo uma biga e, que mais tarde foi substituída por uma Vitória.

É neste sentido puramente tipológico, que pessoalmente utilizo aqui este termo ainda hoje muito utilizado,  para qualificar este tipo de moedas.
Note-se que este tipo de denário com a "biga", apareceu antes de cessar a cunhagem dos quinários e sestércios de prata por cerca do ano 217 a.C., e, desapareceu completamente em 64 a.C. .

Se tivermos como objetivo a cronologia das emissões, esta não foi a prmeira tipologia a ser utilizada aquando da criação do denário (211 a.C.).

Estes denários com a biga, são portanto emissões posteriores ao tipo primitivo que representa  os Dióscuros a cavalo galopando para a direita, com uma lança na mão, os mantos flutuando e, bonés cônicos encimados por duas estrelas emblemáticas: a estrela da manhã e a estrela da noite.

Etimilogicamente, o termo Bigati utilizado por Plínio, não nos parece bem apropriado para qualificar os primeiros denários tipo Dióscuros, simplesmente porque a tipologia do reverso e o peso são diferentes.

No entanto podemos pensar que, visto o longo período que esse tipo foi cunhado em Roma, (mais de 100 anos sempre com o mesmo reverso), originou que a popularização do termo “bugati”, começasse a fazer parte da linguagem quotidiana como uma nominação usual, empregada pelo cidadão romano, artesão, ou comerciante.

Quando Plínio (História Nattural, XXXIII, 3, 44), ou Tive Live (XXII, 52, 54 e 58) também empregaram a palavra “quadrigati” para classificar os outros denários, a explicação surpreende-nos! Mas, vamos continuar com a opinião destes autores para compreendermos melhor.

É óbvio  que, quando estes autores falam de “quadrigate” nos seus textos, eles fazem referência aos denários romanos que têm por tipo no reverso, uma divindade conduzindo uma quadriga que sustituiu as “bigatis “emitidas anteriormente.

Lembramos que, de acordo com  as observações feitas na época por ambos os autores latinos, eles consideraram erradamente que o tipo “quadrigati”,  é o mais antigo dos denários emitidos pela oficina monetária de Roma!

A confusão de Plínio, também vem do fato que foi Júpiter o primeiro a aparecer neste tipo de denários com carro, (como no didracma romano-campaniano).
Mais tarde, todos os deuses do Olimpo vão ser  esculpidos nestes denários: Saturno, Marte, Apolo, Palas, Hércules e outros.
Este tipo de denário também vai desaparecer no ano 64 a. C..

Este assunto ainda se torma mais complicado, por Plínio também empregar a palavra “quadrigati”, para designar o didracma  de prata romano-campaniano, com uma representação janiforme dos dióscuros Castor e Polux no anverso e, no reverso uma quadriga ao galope conduzida por Júpiter.

Portanto estes dois tipos de moeda são muito diferentes?
Isto só pode ser explicado pelo fato que o valor do didracma foi alinhado com o valor do denário “quadrigati ou bigati” de Plínio.
Com efeito, estes didracmas de seis  scripulum ou scripolum, ainda circulavam quando o denário romano com um peso de 4 scrupulum ainda servia de moeda de referência.
( 1 scrupulum = 1/24 parte da onça ou seja 1,137 gr.).

O valor fiduciário do didracma foi então oficialmente reduzido para ser equivalente ao do denário, ser ter em conta a diferença do peso.

MGeada

Bibliografia

Andrew Burnett, tradution de George Depeyrot, La Numismatique Romaine de la République au Haut-Empire, Paris, Errance, 1991.
Babelon, Ernest; Description historique des monnaies de la République Romaine- maio, 2010.
Harlan,Michael ; Romain Republican Moneyers 63 a.C-49a.C. -1995.
Jea-Michel David; Nouvele histoire de l’antiquité, tome 7, République romaine, 26 maio 2000.
Michael Crawford ; Romaim imperial coinage, t, II, Cambridge ,1974.
Michel Christol, Daniel Nony ; Rome et son empire, des origines aux invasions barbares.
George Depeyrot, La Monnaie Romaine : 211 a.C.-476 d.C., Éditions Errance, 2006.
Sydenham, Edward A. The Coinage of the Republic, 1952

http://www.tesorillo.com/roma/1tipos.htm#scripulum

domingo, 29 de janeiro de 2017



Porque colecionamos as moedas ??? !!!

Para a maior parte das pessoas a moeda é apenas o fruto de um trabalho e, a promessa de poder comprar alguma coisa com ela.
Para o colecionador, além de ser um poder de compra, ela é o vestígio de uma época, de uma civilização, uma página de história que começou há cerca de 27 séculos.

Algumas moedas  foram feitas com imagens célebres, por exemplo com Júlio César, Alexandre III “o Grande” um dos maiores conquistadores que o mundo conheceu, Cleópatra VII a última rainha do Egito Antigo “célebre pela sua formosura” e, com outros reis, rainhas, imperadores etc.

Outras nos vêm de Roma, Bisâncio (Constantinopla hoje Istambul), Cartago hoje parcialmente coberto pela areia na África do Norte e, dos melhores vestígios que temos são as suas moedas.

As moedas que nos vêm desses tempos passados contam-nos coisas que a maior parte de nós não conhece.
Estudando bem uma moeda, não importa qual, seja de que país for, ela tem a sua história e ocupa um lugar importante no cortejo que desfila à cerca de 2 700 anos.     

As moedas que hoje nos passam pela mão, são o resultado de centenas de anos de experiência. Os primeiros moedeiros deram-lhe uma dimensão prática, deram-lhe um nome, escolheram os metais e, o seu zelo pode ver-se pelos magníficos tipos que se vêm nas moedas.

A coleção de moedas é uma paixão que remonta ao tempo dos antigos romanos.
Sabe-se que o Papa Bonifácio VIII (1294-1303), foi um grande numismata e, dedicava-se só às moedas greco-romanas.
Não esquecer o nosso rei D. Luis, grande colecionador, também conhecido por "o rei numismata". 
Pouco a pouco, o interesse dos colecionadores voltou-se para as moedas do seu próprio país mas, as moedas antigas foram e continuam a ser as preferidas. 

Colecionar as moedas, era há mais ou menos duzentos e cinquenta anos, um privilégio de príncipes e de gente com fortuna.
Esta forma de coleção era tão bem considerada que, os livros de estudo dos jovens nobres, as tinham como uma das ciências mais distintas e, mais dignas de um cavaleiro.

O que era antes um passatempo nobre, é hoje um “hobbi” passatempo favorito que apaixona milhões de adeptos novos e velhos .

Na América a coleção de moedas teve um princípio diferente. O primeiro colecionador foi Joseph Mickley de Filadélfia.
Em 1817, ele começou à procura de um grande cêntimo (em bom estado de conservação) do ano 1799, que era o ano do seu nascimento e, era também a data rara dos grandes cêntimos.

Joseph Mickley juntou centenas até encontrar o que procurava: como a primeira moeda americana tinha sido cunhada em 1793,  em 1817 não havia muitas moedas antigas a colecionar.
Por isso, Mickley e os seus amigos começaram a colecionar todas as séries americanas por datas e, não uma moeda de cada tipo como acontecia nessa ocasião na Europa.

Lídia-Proto-moeda conhecida por glóbulo em electro
Giges-Primeiro rei da dinastia Mermnada da Lídia
Reinou aproximadamente de 680 a 644 a.C.

 
Lídia-Aliates II quarto rei da Lídia,
Estáter em electro, reinou de 617 a 560 a.C.
(prótoma de leão à direita)

 
Reino da Macedónia-Alexandre III o “Grande”, 336-323 a.C.
Tetradracma póstumo cunhado em Anfípolis cerca de 320-317 a.C.
Anv. Heracles com a pele de leão na cabeça
Rev. Zeus sentado num trono, com um bastão na mão esquerda e uma águia na direita.
(Ref. Price-129, Muller, Alexandre-280, SNP Cop-689)

 
Sicília-Decadracma cunhado em Siracusa cerca 400 a.C.
Anv. Auriga conduzindo uma quadriga ao galope;Niké ou Nique coroando o auriga.
Rev Ninfa Aretusa (Persefone)com o cabelo ornamentado com espigas de trigo, dois golfinhos. 
(Ref. exemplar proveniente da coleção Spina, venda Nomos 1).

 
Cartago- Shequel ou didracma cunhado por cerca do ano 270 a.C.
Anv. Tanit com coroa de espigas de trigo à esquerda
Rev Cavalo e palmeira
(Ref. MAA-36var., Muller África-108, “mesmo cunho do n.383 da coleção Gulbenkian”)

Corinto-Estáter cerca de 375-300 a.C.
Anv. Pegaso voando para a esquerda
Rev. Atena à esquerda.
(Ref. SNG-Delpierre 1901)

 
Ilhas de Cárias- Tetradracma cunhado em Rodes, cerca de 380 a.C.
Anv. Hélios (Sol) de frente
Rev. Rosa  POΔ ION
(Ref. SNG Finlândia-452, SNG Delpierre-2753-2756, bmc-27-30)

 
Egito-AE 24=40 dracmas, cunhado em Alexandria, 51-30 a.C.
Anv. Cleópatra VII com carrapito à direita
Rev. Águia à esquerda-ΚΛΕΟΠΑTPΑΣ BAΣIΛIΣΣHΣ
(Ref. Sovoronos-1871)

 
República Romana-Denário cunhado em Roma em 44 a.C.
Anv. Júlio César com coroa de espigas à direita, CAESAR IMP
Rev. Venus com uma Vitória na mão direita e lança na esquerda, M.METTIVS
(Ref. Crawford-480/3, CRI-100, Alfoldi (Caesar in 44 v Chr))

 
Tito-Sestércio cunhado em Roma 80-81
Anv. Tito à esquerda sentado numa cadeira curul,
IMP T CAES VESP AVG P M TR P P P COS VIII    S C
Rev. Coliseu, a Domus Áurea e a fonte Meta Sudans
(Era nesta fonte "Meta Sudans" que se lavavam os gladiadores)
(Ref. RIC-10 var., Cohen-400 var.)


Portugal

Em Portugal a primeira unidade monetária foi o “dinheiro” no reinado de D. Afonso I (Henriques),
1112-1139.
 
D. Afonso Henriques-Dinheiro
Anv. Dois triângulos sobrepostos que formam uma estrela de cinco pontas, ALFONSVS
Rev. Cruz latina, REX POR

D. João III-Português de ouro n/d cunhada em 1450 em Lisboa
Anv.Escudo - IOANNES:3:PORTUGALIE:AL:D – N:ETI ARRIA PESIE:IN R
Rev. Cruz – IN:HOC:SIGNO:VINCEES

 
Um escudo 1916

 
Um escudo 1927

 
Um escudo 2001

 
Euro 2001
Anv. Valor e mapa da Europa
Rev . Doze estrelas, sete castelos, cinco escudetes, as letras da palavra Portugal, data.
Ao centro, selo real de 1144.

MGeada

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016


Capricórnio, imagem de um animal fantástico na numismática romana.

Na mitologia romana, um animal híbrida meio bode, meio peixe que segundo Caio Juno Higino, na realidade o Capricórnio é Pan.
Para este autor, os deuses por causa do terror que lhes inspirou o gigante Typhon, transformaram-se em diversos tipos de animais.
(C.J.Higino: escritor da Roma Antiga, seria natural da Península Ibérica, talvez Valência dos Edetamos “Valência Edetanorum”, Hispânia, por cerca do ano 64 a.C., e faleceu em Roma no ano 17a. C..)

Pan foi o último a adotar esta solução e, ao mergulhar no rio, tomou a forma de um animal estranho híbrido, com cabeça e tronco de cabra e cauda de peixe.

Augusto-Áureo cunhado em Pérgamo no ano 19 a.C.
Anv. Augusto à direita, AVGVSTVS
Rev. Capricórnio à direita,
SIGNIS RECEPTIS
(Ref. RIC-521, BMC-680, Calicó-272, Giard-1011 (Paris)

Devido a esta metamorfose talentuosa, Júpiter colocou-o entre as estrelas.  
Foi por esta razão que Aratus lhe chamou Aegipan (Egipan).

(Aratus: Arato de Solos, poeta grego da corte do rei Antígono Dóson rei da Macedónia, século III a. C..)

(Aegipan: Egipan, divindade mitológica campestre, meio homem, meio animal, aparece quase sempre dotado de pés e orelhas de cabra: era associado ao deus Pan.)

Augusto-Denário cunhado em Lião no ano 12 a. C.
Anv. Augusto à direita, DIVI AVGVSTVS
Rev. Capricórnio e globo, IMP XI
(Ref. RIC-174,I, BMC-465)

Este tipo de Capricórnio aparece com muita frequência em moedas do imperador Augusto, com legenda  latina ou grega.

Segundo Suetónio, a razão da presença do Capricórnio nas moedas do imperador é a seguinte:
Aquando do seu retiro em Apolónia, Augusto acompanhado por Agripa terão subido até ao observatório do adivinho Teógenes.

Este prediu a Agripa uma prosperidade maravilhosa. Augusto temendo alguma mau predição, recusou divulgar o dia do seu nascimento.

Depois de muito hesitar e a pedido de Agripa, Augusto deu a data de nascimento ao bruxo e, qual não foi o seu espanto quando este se levantou e prosternou-se aos seus pés!

Augusto-Cistóforo de prata cunhado em Efeso cerca de 25-20 a.C.
Anv. Augusto à direita, IMP CAESAR
Rev. Capricórnio e cornucópia no interior de uma coroa de louro, AVGVSTVS
(Ref. RIC-480(c), Cohen-16)
(Este cistóforo com a valia de 3 denários, foi cunhado para circular na Ásia Menor.)

A partir daí, Augusto teve tanta confiança no seu destino que publicou o seu horóscopo e, mandou cunhar moedas com o seu símbolo: o Capricórnio.
(Suetónio: vidas dos doze Césares, Augusto 94.)

Outros testemunhos de autores antigos, também atestam que Augusto nasceu realmente sob o signo do Capricórnio e, que o imperador era particularmente supersticioso.
Na sua numária, além do Capricórnio, vemos muitas vezes representações de cornucópias, uma estrela, um leme ou um navio.

Augusto-Denário-cunhado provavelmente na Gália) no ano 27 a.C. a.C.
Anv. Augusto à direita
Rev. Capricórnio e uma estrela,   AVGVSTVS
(Ref. RIC-542)

Este símbolo também é visível em moedas dos imperadores Vespasiano, Tito, Domiciano e, em raras moedas  de Adriano e Antonino Pio.
Alguns bronzes de Domiciano com a legenda AVGVSTVS IMP XX, apresentam este símbolo acompanhado de uma cornucópia.

O globo como símbolo do mundo, apareceu nas moedas romanas no ano 742 (=11 anos d.C.), visível em moedas de Augusto entre as pernas do Capricónio.

Augusto-Denário cunhado em Colônia Patrícia (Espanha) 18-16 a.C.
Anv. Augusto à direita
Rev. Capricórnio, cornucópia e globo, AVGVSTVS
(Ref. RIC-126, Cohen-21)

Cunho monetário de Augusto

Vespasiano-Denário cunhado em Roma cerca de 79 d.C.
Anv. Vespasiano laureado à direita,
IMP CAES VESPASIANVS S AVG
Rev. Capricórnio e globo,
TR POT X COS VIIII
(Ref. RIC-118c, Cohen-554)

Vespasiano-Denário cunhado em Roma 80-81
Anv. Vespasiano laureado à direita,
DIVVS AVGVSTVS VESPASIANVS
Rev. Dois Capricórnios sustentando um escudo com a inscrição S C, um globo por baixo do escudo, .
(Ref. (RIC 2-19, RSC-280)

Este tipo de reverso que também aparece em raras moedas de Tito, é uma marca da felicidade do Império Romano, que sob estes dois príncipes, pai e filho, era forte como na época de Augusto.

Tito-Denário cunhado em Roma 79-81
Anv. Tito laureado à esquerda,
IMP TITVS CAES VESPASIAN AVG PM
Rev. Capricórnio e globo,
TRP VIIII IMP XV COS VII PP
( Ref. RIC-37, RSC-294, BMC-235)

Capricórnios, também são visíveis em moedas dos imperadores Galiano e Caráusio, como símbolo de algumas legiões.

Galiano-(Antoniniano cunhado em Milão no ano 258
Anv. Galiano com coroa radiada à direita,
GALIENVS AVG
Rev. Capricórnio, LEGI ITAL VI P VI F
(Ref. RIC V-1 Milão 315, Gobl-0982, Sear-102549)

Caurásio-Antoniniano cunhado em Londres 287-293
Anv. Caráusio com coroa radiada à direita,
IMP CARAVSIVS PF AVG
Rev. Capricórnio, LEG II AVG ML
(Ref. RIC-58,9)

Este animal estranho, meio bode, meio peixe, décimo signo do Zodíaco e, um dos quatro pontos cardinais (sul) existe, mas apenas na imaginação dos homens.

MGeada

Bibliografia
 
Philipe Bodet: le Capricorne, Symbole Parlant sur les Monnaies Romaines.
Daremberg et Saglio : Le Dictionnaire des Antiquites Grecques et Romaines.
Frédéric Weber : Catalogue des Monnaies de L’Empire Romain.
Michel Prieur : Les Monnaies Romaines-Setembro 2004.
George Depeyrot : Monnaies Romaines : Histoire et Vie D’un Empire-dezembro 2014.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016



Nossa Senhora da Conceição
Moeda mandada cunhar por D. João IV por decreto-lei de 25 de março de 1646

Padroeira de “Alcains” e de Portugal, Conceição foi o nome que D. João IV deu à moeda que mandou cunhar para comemorar a adoção que fizera de Nossa Senhora da Conceição para padroeira do Reino de Portugal nas cortes celebradas em Lisboa no ano 1646.

No dia 25 de março de 1646, dia de Ramos, perante a Corte e representantes do Reino e cinco bispos reunidos na Capela Real dos Paços da Ribeira, realizou-se esta solene cerimónia de juramento.
Pedro Vieira da Silva leu em voz alta o texto e, por fim a fórmula de juramento que o rei ajoelhado diante do altar foi repetindo.
O mesmo fizeram o príncipe. os grandes representantes do povo e os bispos presentes.
O ato terminou com o solene Te Deum. 

O Rei prometeu à Senhora da Conceição em seu nome e dos seus sucessores, um tributo anual de 50 cruzados de ouro e,  ordenou que os estudantes da Universidade de Coimbra, antes de tomarem algum grau de instrução , jurassem defender a Imaculada Conceição. 

D. João IV não foi o primeiro rei português a colocar o reino sob a sua proteção, apenas decretou que fosse permanente, uma devoção a que os nossos reis recorreram muitas vezes em momentos críticos  para Portugal.

D. João I escreveu nas portas da capital elogios à Virgem e, em 1386, mandou construir o Convento da Batalha (Mosteiro de Santa Maria da Vitória, conhecido por Mosteiro da Batalha). enquanto o seu intrépido companheiro de armas D. Nuno Álvares Pereira no ano 1389 em Lisboa, erigiu à virgem, o Convento do Carmo.

Foi por decreto-lei de  25 de Maio de 1646, que Nossa Senhora da Conceição foi escolhida para padroeira do Reino de Portugal.

Para comemorar este evento, cunharam-se medalhas de ouro de 22 quilates, com o peso de 12 oitavas (1 oitava=3,600 gr) e outras de prata com o peso de uma onça (=28,800gr.) que por lei foram admitidas como moedas correntes.


D. João IV-Conceição, ouro 12 000 réis, cunhada em 1648


D. João IV-Conceição, prata 600 réis, cunhada em 1648

Descrição das moedas

Anv. as armas do Reino coroadas assentes sobre a Cruz de Cristo,
JOANNES IIII, D.G PORTUGALIAE ET ALGARBIAE REX
(João IV pela Graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves)
Rev. Ao centro a Imagem de Nossa senhora da Conceição, aureolada com um conjunto de 7 estrelas, em pé sobre um globo, em volta do qual se enrola uma serpente, tendo por baixo, a data.
Dos lados veêm-se, à esquerda, o Sol, Templo, e Horto (ou Cerrado). À direita, o Espelho, a Arca do Santuário e a Fonte Selada
REGNI TVTELARIS
(Padroeira do Reino)

No ano 1946, para comemorar o terceiro centenário  da proclamação de Nossa Senhora da Conceição como padroeira de Portugal, foi feita uma recunhagem tendo sido introduzido no reverso um elemento novo: as datas de 1646 e 1946 entre os braços da cruz.
Fizeram-se três emissões: em ouro, prata, e cobre.
Estas medalhas têm um módulo de 42mm, e um peso de 80 gr. as de ouro, em prata 41,8 gr., as de cobre 37,2 gr, .


República-Recunhagem de 1946

Simbologia da Conceição




Coroa a imagem da Virgem, um conjunto de 7 estrelas.

O número 7 é o número da vida, da união de Deus com a matéria. (3+4) = as três pessoas da Santíssima Trindade e os quatros elementos da natureza: água, terra, fogo, ar.
Significados que fazem referência  à missão da Virgem Maria.
Com efeito, por Ela vem a vida, e Ela própria é a manifestação da união de Deus com a matéria, (a natureza).

Por outro lado o número 7 indica os graus da iniciação Mariana, traduzida pelas 7 dores da Virgem.
A Virgem  significa a possibilidade criadora e regeneradora. É a Natura (Natureza), aquela que haveria de nascer (pois sem Ela, Cristo não poderia encarnar) e dar nascimento.

De mãos postas indica a alquimia divina de Ora et Labora (reza e trabalha), tão bem aproveitada pela Ordem Dominicana.
Olha para a direita, para o lado favorável, do Bem, da Divindade. Está em pé, que significa manter-se.


Os seus pés pisam a Lua, o símbolo por excelência da mulher, desde os tempos Neolíticos. 
A Lua assenta sobre o mundo rodeado pela serpente, cujo corpo dá um nó.
A serpente foi identificada ao dragão, simbolizando biblicamente o mal. Mas aqui a Virgem não pisa a sua cabeça. Tal facto referencia outros sentidos.

A serpente designa o Ouroboros, símbolo da lei do eterno retorno, de tudo aquilo que está em constante recriação.
É a lei da natureza física; por isso aparece enrolada no globo, que representa a esfera terreste.

(Ouroboros: Figura mitológica, geralmente faz referência à criação do universo e, pode simbolizar a contunuidade, o eterno retorno, o renascimento da terra etc, ).

A serpente é também o símbolo das iniciações maiores e do caminho para as conseguir.
Ao pisar a cabeça da serpente, a Virgem quebrou a Lei do Eterno Retorno para transformar o círculo em espiral.

No entanto, nesta moeda, a Virgem não pisa a serpente, a Lua separa a Virgem do mundo; a iniciação superior, da inferior, o espírito da matéria.
Nesta moeda a serpente é o símbolo da Imaculada Conceição, alusivo à redenção do pecado original operado em Maria por especial previlégio na sua concepção.

Rodeiam a figura da Virgem seis figurações, que correspondem a invocações de ladainhas da Virgem. Não existe uma relação simples; com efeito, alguns dos símbolos utilizados podem referir-se a várias invocações.


O Sol, designa a Divindade e a Criação (Santa Mãe de Deus; Mãe do Criador).

O Espelho, designa o espelho da justiça. Na concepção tradicional a mulher simbolizada pela Lua, é o espelho do Sol.


O Templo, é a sede da sabedoria. A Virgem Maria representa a visibilidade do Feminino Divino. 


A Arca de Noé, significa a Arca da Aliança. A Virgem exprime o momento da aliança real de Deus com o Homem, a matéria, a natureza. (Segundo a Bíblia, a Arca de Noé conservou a natureza).


O Horto (ou Cerrado), é o refugio dos Pecadores. Neste jardim fechado símbolo do Éden, os pecadores encontram o seu estado primeiro, quando o homem vivia em  armonia total com Deus.


A Fonte, é a saúde dos doentes. Repete-se com as devidas variações o sentido anterior. 

O número seis (referência a estas seis simbologias) indica sucessivamente a união do Criador com a Criatura. A harmonia dos opostos através de um eixo central (a própria Virgem), o Coração, a Beleza, a Vida, o Sol. 
Relaciona-se com a diversificação, a multiplicação, a reintegração, “tudo funções afirmadas pela ladainha da Virgem”.

A moeda coloca deste modo, o conhecimento das duas iniciações. O Reino (de Portugal) só poderá ser tutelado pela iniciação superior e não pela iniciação inferior.
Por esta, estará sujeita a todas as eventualidades históricas, normalmente adversas; por aquela, surge a garantia de vencer as incertezas terrestes.


350 ̊ Aniversário da Proclamação de N.S. da Conceição Padroeira de Portugal
1 000$00 prata cunhada em 1996.

Anv. Campo preenchido por um manto estilizado, sobreponde-se ao centro o escudo das armas nacionais, orlado na parte superior pela legenda República Portuguesa, e na orla inferior pelo valor facial 1000$00.

Rev. Ao centro a imagem da Senhora da Conceição de corpo inteiro com o menino ao colo, coberta com um manto, devidamente coroados, assentes numa meia lua, com diversas coroas a comporem parte do campo, orlados com a legenda  N. S. DA CONCEIÇÃO PADROEIRA  DE PORTUGAL

MGeada

Bibliografia

José Valério; Moedas Comemorativas Portuguesas, edição do autor, 2010.
Alberto Gomes ; Moedas Portuguesas e do Território Português Antes da Fundação da Nacionalidade.
António Miguel Trigueiros: A Conceição, Moeda, Medalha e Venera da Padroeira do Reino-Lisboa, 8 de dezembro de 2008-8 de maio de 2014.
Salgado; Javier Sáez- História da Moeda em Portugal, 2002.
http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/13591.pdf      

terça-feira, 25 de outubro de 2016










Estádio de Domiciano
(Atual Piazza Navona)

Situado no Campo de Marte, aparece num áureo de Septímio Severo (193-211).
A moeda mostra-nos, em simultâneo, a fachada com as portas de entrada e as arcadas.
Supõe-se que a fila superior devia conter as estátuas alusivas às competições atléticas que ali se realizavam.
É o único estádio com tão grande dimensão construído fora da Grécia e do mundo oriental. Ao invés dos gregos, os romanos não eram apreciadores de competições atléticas, e além disso, as competições podiam ser feitas em circos ou estádios desmontáveis.
Porém, os imperadores romanos não deixaram de organizar estas competições, até era usual para ganharem as boas graças do povo, inventar novos jogos tais como o CERTAMEM CAPITO- LINI   IOVI  (O  Jogo  de  Júpiter  Capitolin )  de   Domiciano,
(Competição musical equestre e atlética) organizada todos os quatro anos.
Foi para estes jogos que o imperador Domiciano mandou construir um grande estádio, idêntico aos estádios gregos; tinha 225 m de comprimento, mas as técnicas arquitecturais são romanas.
Construído na parte ocidental do Campo de Marte, ao lado das termas de Nero e dos banhos de Agripa, a sua dimensão é pequena, se a comparar-mos com a do circo grande, que tinha   620 m.

Ficou célebre pela qualidade das suas instalações. A fachada exterior era ornamentada com uma dupla série de arcadas, tinha um cenário móvel, várias entradas e um sumptuoso estrado destinado ao imperador e às entidades religiosas.

Para além das competições clássicas:
QVADRIGARVM (Corrida de carro),
LVCTA (Luta),
DISCVS (Lançamento do disco),
SALIENDI (Concurso de salto),
JACVLI (lançamento do dardo),
também havia uma competição entre jovens raparigas.

A maior parte dos atletas eram gregos. O prémio dos vencedores era uma coroa de folhas de loureiro, e de folhas de oliveira, àrvores consagradas a Marte e a Júpiter.
O estádio de Domiciano é conhecido pela sua longevidade.
       
No ano 217, no reinado de Macrino, por causa de um incêndio que o devastou, o estádio teve algumas reparações para receber os jogos dos gladiadores, mas foi Alexandre Severo que terminou a sua restauração.
A moeda aqui reproduzida comemora esse evento.

Septímio Severo-Áureo cunhado em Roma em 206
Anv. S. Severo laureado à direita,  SEVERVS PIVS  AVG
Rev. Vista aérea do Estádio de Domiciano com 9 pessoas: 1 praticando atletismo, 2 pugilistas que se afrontam, 3 vestidos com a toga, o da direita coroando o do meio, 2 praticando a luta e o imperador sentado. P P COS III
(Ref. RIC-260, BMCRE-319,pl. 35. 4, Cohen-571, Calico-2518)
(Este  raríssimo áureo de Septímio Severo, são as únicas moedas que representam este estádio).
       
Em meados do século IV, depois do advento do Cristianismo e a abolição dos jogos sangrentos, o estádio ainda era usado para competições atléticas.


MGeada

Bibliografia
Brigitte Hintzen-Bolen, Art et Arquitecture: Rome.
Coarelli Fillipo ; Guia Arqueológico de Roma-Roma 1980.
Marcel le Gay, Jean-Louis Voisin, Yvan le Nohec ; Histoire de Rome dans L’Antiquite.