segunda-feira, 26 de junho de 2017

Barcos na numismática romana

Se o anverso das moedas romanas nos dão uma verdadeira galeria de retratos realistas de imperadores e imperatrizes, os “reversos” dessas moedas são uma riqueza de informações sobre múltiplos eventos, crenças, monumentos, guerras, vitórias etc,.

Verdadeiro instrumento de propaganda; mais eficaz que qualquer discurso, ou reclame, como naquela época não havia jornais nem audiovisual, porque não se servir da moeda que utilizavam todos os dias....

Talvez seja esta, uma das razões que originaram a minha paixão por este tipo de moedas. Todos estes testemunhos da vida dos romanos.

Segue-se uma pequena demonstração com um tema que procurei nessas moedas da Répública e império Romano, representando barcos ou parte destes.

Vamos começar com esta onça da República Romana representando a proa de um navio.


República Romana
Onça em bronze cunhada em 217-215 a. C.
Anv. Cabeça de Minerva à esquerda , com capacete ático, 1 glóbulo por trás da cabeça,
Rev. Proa de barco e  glóbulo,  ROMA
(Ref. BMC/RR-88, pl.11/5, CRR- 86 (2) pl. 14, RCV-615, MRR-108)

República romana


M. Vargunteius (Vargunteia)-2 Semisses cunhados em Roma em 68 a.C.
Anv. Saturno laureado à direita , S=Semisse
Rev. proa de Galera, M VARG
(Ref. Crawford-272/2, Sydenham-508)

Magnífica galera neste denário de Claudius Macer.

4
Claudius Macer-Denário cunhado em Cartago em 68 a.C.
Anv. Clodius à direita, L CLODIVS MACER  SC
Rev. Galera com cinco remadores e treze remos, PRO PRAE AFRICAE
(Ref. RIC-37 var. BMC 01, C13, Hewitt-62-71, Kent-Hirmer pl.59,206)


Sexto Pompeio e Q. Nasidius-Denário cunhado na Sicília em 43-48 a.C.
Anv. Pompeio à esquerda, tridente, e golfinho, NEPTVNI
Rev. Batalha naval entre dois barcos de cada lado, Q. NASIDIVS
(Ref. Crawford-483/1, Sydenham-1351)


Otávio e Júlio César -Duponduo cunhado em Viena, cerca de 36 a. C.
Anv. Cabeças opostas de Otávio à esq. e Júlio César à dir.,
IMP CAESAR DIVI IVLI
Rev. Proa de galera,  CIV
(Ref. DLT-2943, RPC I-517)

Marco António-Denário cunhado em Patrae (Patras), 32-31 a.C.
Anv. Galera com 12 remos e 8 remadores, ANT AVG III VIR R P C
Rev. Águia legionária entre duas insígnias, LEG II (segunda legião)
(Ref. Sydenham-1216, Sear-88)

Império romano

Vespasiano-Denário cunhado em Roma, 77-78
Anv. Vespasiano laureado à esquerda,
IMP CAESAR VESPASIANVS AVG
Rev. Proa de navio,  COS, estrela com 8 raios = COS VIII, (oitavo ano do seu consulado)
(Ref. RIC-942, Sear-2290, RSC-137)

Do mesmo imperador, 1 asse com uma Vitória sobre a proa de um navio, simbolizando uma vitória marítima de Vespasiano

Vespasiano-Asse cunhado em Roma no ano 71
Anv. Vespasiano laureado à direita,
IMP CAES VESPASIAN AVG COS III
Rev. Vitória sobre a proa de um navio, VICTORIA NAVALIS S C
(Ref. RIC-503, Cohen-632, BMCRE-616)

Também existe um asse do imperador Tito com o mesmo reverso.

Tito-Asse cunhado em Roma no ano 73
Anv. Tito laureado à direita, T. CAES IMP PON TR P COS III CENS
Rev. Vitória sobre a proa de um navio simbolizando uma vitória marítima do imperador, VICTORIA NAVALIS S C
(Rev. RIC-644, BMCRE-677, Sear-2485) 


Marco Aurélio-Dupôndio cunhado em Roma em 117
Anv. Marco Aurélio com coroa radiada à direita,
M ANTONINVS AVG GERM SARM TR P XXXI
Rev. Galera com 4 remos, 4 remadores e Netuno na proa,
IMP VIII COS III  S C-FELICITATI AVG P P
(Ref. RIC-1193, Cohen-189)

Adriano-Sestércio cunhado em Roma, 132-134
Anv. Adriano laureado e drapeado à direita, ADRIANVS AVGVSTVS
Rev. Galera militar com 12 remos, 6 remadores, timoneiro, leme e 2 insígnias militares,
FELICITATI AVG COS III P P  S C
(Ref. RIC-704)

Cómodo-AE 26 cunhado em Cízico (Mísia), 166/177
Anv. Cómodo laureado e drapeado à direita,
A AVP KOMOΔOC KAICAP ΓEP NEOK
Rev. Galera com 6 remos, 5 remadores e timoneiro,
KYSI KHNΩ-N NEOK (em três linhas)
(Ref. BMC-245, Rignetti-699, Weber-5060)

Cómodo-Tetradracma cunhado em Alexandria 188-189
Anv. Busto de Cómodo laureado à direita,
M A KOMANT CEB EVCEB.
Rev. Navio mercante romano (denominado  de “Corbita”)  LKΘ
(Ref. Sear-5927, Datari-3903, Milne-2683)

«Este navio faz referência à frota africana organizada em urgência pelo imperador Cómodo em 186, quando devido à penúria egípcia faltou o trigo em Roma .
Esta frota tinha por missão procurar trigo na África. O sucesso da operação deu lugar à glorificação do imperador e da sua frota. (Visível nesta moeda)».

Excelente denário de Marco Aurélio, comemorativo do segundo centenário da batalha de Áccio, durante a guerra civil romana entre Marco António, apoiado pelos barcos  da Rainha Cleópatra VII do Egito, contra Octávio (futuro Augusto) vencedor desta batalha.

Marco Aurélio-Denário cunhado em Roma em 168
Anv. Águia legionária entre duas insígnias militares,
ANTONINVS ET VERVS AVG REST LEG VI
Rev. Galera com 8 remos, 6 remadores e timoneiro,
ANTONINVS AVG VR   III VIR R P C
(Ref. RIC III-443, BMCRE-500, RSC-83)

Moedas de Septímio Severo imperador e Caracala co-imperador com seu pai Septímio S. 25-05-198/04-02-211.

Septímio Severo-AE 24 cunhado em Corfu (ou Córcira), 193-211
Anv. Septímio laureado à direita, A K L  CEΠ C  EVHPOC PE,
Rev. Galera com vela, 5 remos, 5 remadores piloto e golfinho, KOPKV  NΩPI
(Ref. BMC-662, Evelpidis-2030 Cop 263)

Septímio Severo-8 assários cunhado em Abidos, Abido ou Abdju (Egito)
Anv. Septímio laureado e drapeado à direita, AVKAI L CEΠTIMIOC
Rev. Na galera da frente:  Atena  (minerva dos romanos) sentada com um escudo na mão direita.
Na segunda galera: Alexandre o Grande em pé na proa duma galera com uma lança na mão esquerda, dois soldados, busto de Atena na proa da galera: na torre, um soldado com uma trombeta. ΦA ΠPOKΛ ABVHNΩ N
(Ref. Trell pg. 221, fig.486-(extremamente rara, 2 exemplares conhecidos))  


Caracala-Denário cunhado em Roma 201-206
Anv. Caracala laureado e drapeado  à direita,
ANTONINVS PIVS  A V G
Rev. Galera com 8 remos, 5 remadores e leme, ADVENTvs AVGGvstorvm (O regresso dos Augustos)
(Ref. RIC -4/120, BMC-5/267, RSC-1914)

As legendas tipo adventus (= chegada) comemoram a chegada do imperador a Roma aquando do início do reinado, o regresso de uma viagem ou, de uma campanha militar.

Caracala-Denário cunhado em Roma em 202
Anv. Caracala laureado e drapeado  à direita, ANTONINVS PIVS  A V G
Rev. Galera com 8 remos, 5 remadores e leme, ADV ENT AVGVSTOR (O regresso dos Augustos)
(Ref. RIC-121, Sear-6791)

Após cinco anos de ausência, no ano 202, Septímio Severo e Caracala chegaram a Roma depois das suas vitoriosas campanhas militares, que deram origem à criação da província da Mesopotânia. 

Estes dois reversos comemoram o regresso de Septímio Severo e Caracala a Roma após a sua estadia na África.

A legenda clássica  "ADVENTVS AUGVSTVS" é frequentemente associada a uma tipologia que mostra o imperador a cavalo na atitude do “adlocutio” (discurso, que era costume o imperador fazer perante as tropas e cônsules, aquando do regresso das suas campanhas) que faz a sua entrada na “URBS”.
Neste caso, os dois co-imperadores regressam do Egito de barco, daí a adoção deste tipo específico a"galera".

(UBRS: Até cerca do ano 350, era uma parte da cidade de Roma delimitada pelo recinto sagrado, o “Pomoerium”. Este neste espaço se tomavam as decisões políticas, era a sede do governo e, o centro de espiritualidade do Império.
Para Além da Urbs, por conseguinte do Pomoerium, encontram-se os bairros populares também conhecidos por subúrbios, assim como as necrópoles).

Constantino I-AE 14 cunhado em Tréveris cerca de 317-326
Anv. Constantino laureado e drapeado à direita, CONSTANTINVS  A V G
Rev. Isis segurando a vela de uma galera com 10 remos, VOTA PVBLICA
(Ref. Vagi-3424, RICp-208, Cohen-720).

Nas cunhagens do imperador Póstumo as galeras aparecem  em  antoninianos, denários, sestércios e duplos sestércio.

Postúmio-Antoniniano cunhado em Roma 260-268
Anv. Póstumo com coroa radiada à direita, IMP C POSTVMVS P F  AVG
Rev. Galera com 6 remos, 4 remadores e timoneiro, LAETITIA AVG
(Ref. RIC-73, RSC-167, Sear-10958).

Póstumo-sestércio cunhado em Cologne em 261
Anv.Bustos de  Póstumo e Hércules laureados e drapeados à direita,
 POSTVMVS PIVS AVG
Rev. Galera com 8  remos e 4 remadores,
FELICITAS EMP
(Ref. RIC-144, Cohen-186 var.)


Póstumo-Sestércio cunhado em Cologne  em 261
Anv. Póstumo laureado e drapeado à direita,
IMP C POSTVMVS PIVS AVG
Rev. Galera com 4 remadores e timoneiro,
LAETITIA AVG  SC
(Ref. ric-144, Cohen-186 var.)

Póstumo-Duplo sestércio cunhado em Cologne, 260-269
Anv. Póstumo com coroa radiada e drapeado à direita,
IMP C M CASS LAT POSTVMVS P F AVG
Rev. Galera com 4 remadores e timoneiro, LAETITIA 
(Ref. RIC V- 142, Cohen-165, Sear-11049var.)

Caráusio-Denário cunhado em Londres, cerca de 287
Anv. Carásio laureado e drapeado à direita,
IMP CARAVSIVS PF A V G
Rev. Galera com mastro, 6 remos e 4 remadores, FELICITA   RSR
(Ref.RIC-560, Cohem-65, Shiel-47,50 e 52, Gâchete-13511)

Quinários de Aleto ou Alecto: ursupador romano contra o imperador Dioclesiano na Britânia e Norte da Gália entre 293 e 296. Assumiu o trono da Britânia depois de assssinar Caráusio, este próprio também ursupador.

Aleto-Quinário cunhado em Camuloduno, 293-296
Anv. Aleto com coroa radiada e drapeado à direita,
IMP C ALLECTVS P AVG
Rev. Galera com mastro, 6 remos e 4 remadores, LAETITIA  QC
(Ref. RIC V-2-125, Sear-13866) 

Aleto-Quinário cunhado em Camuloduno, 293-296
Anv. Aleto com coroa radiada e drapeado à direita,
IMP C ALLECTVS P F AVG
Rev. Galera com mastro, 5 remos e 5 remadores, VITVS AVG QC
(Ref. RIC V-126, Burnett-213)

Houve grande número de reversos fazendo referência aos barcos:  não os podemos aqui citar todos e vamos passar diretamente para o século IV com duas “Majorinas” do imperador Constâncio, que mostram o imperador em pé, numa galera conduzida por uma Vitória, sentada com o leme na mão navegando para a esquerda.

Constante I-AE 30 cunhado em Aquileia, 348~350
Anv. Constante com diadema e drapeado à direita,
DN CONSTANS AVG A
Rev. Constante com uma Vitória na mão direita, estandarte com o
Cristograma na esquerda,em pé numa galera conduzida por uma Vitória,
FEL TEMP REPARATIO AQT A
(Ref. VIII-Aquileia 118)

Foi no reinado do imperador Constantino I que o “Cristograma” (símbolo cristão) apareceu pela primeira vez numa moeda.

Constante I-AE 30 cunhado em Antioquia, 348-350
Anv. Constante com diadema e drapeado à direita,
DN CONSTANTS P F AVG
Rev. Constante em pé numa galera conduzida por uma Vitória,
com uma Fénix na mão direita e um estandarte na esquerda,
FEL TEMP REPARATIO
(Ref. RIC VIII-Antioquia 124)

Teodósio I-AE 23 cunhado em Constantinopla, 378-383
Anv. Teodósio com capacete, e couraça e lança à direita,
DN THEODOSIVS PF AVG
Rev. Teodósio em pé, numa galera conduzida por uma Vitória,
GLORIA ROMANORVM CONA  
(Ref. RIC IX-52c,a, Gâchette-20478)

Teodósio I-Áureo cunhado em Constantinopla,382-383
Anv. Teodósio com diadema e drapeado à direita,
THEODOSIVS  PF AVG
Rev. Teodósio com um globo na mão esquerda, um cetro na direita, sentado numa galera
CONCORDIA AVG GG CONOB
(Ref. RIC IX-45,d5)  

Não podia terminar este pequeno trabalho, sem aqui mostrar o célebre e magnífico sestércio do imperador Nero, representando o Porto de Óstia, considerado uma das mais belas representações numismáticas.

Nero-Sestércio cunhado em Roma no ano 64
Anv. Nero laureado à direita,
NERO CLAVDIVS CAESAR AVG GER P M TR P IMP P P
Rev. Porto de Óstia – AVGVSTI SPQR OST
Em cima e ao centro, um farol sobrelevado com a estátua de Neptuno:
em baixo o (rio) Tibre semi-deitado com um remo e um golfinho:
à esquerda o cais sobrelevado : à direita uma fiada de estacas ligadas umas às outras:
a parte central é toda ocupada por uma esquadra de barcos. (o número de barcos pode variar de uma emissão para outra).
(Ref. RIC I-178 var., Cohen-41,WCN-120)

(Este sestércio comemora o fim da construção do primeiro porto marítimo de Roma, situado a cerca de quatro kilómetros a norte de Óstia.
A sua construção teve início no ano 42, no reinado do Imperador Claudio, e terminada por Nero em 64 ou 66 ?.
Para proteger o porto das grandes tempestades e regular a circulação, na entrada foi construído um farol que mais tarde foi encimado com uma estátua de Netuno.
Com este melhoramento, o porto ficou dotado com uma entrada e uma saída.
A sua construção foi muito lenta e difícil,  porque a bacia do porto era muito arenosa.
Para este trabalho, utilizaram um barco de grande carga, onde préviamente  o imperador Calígula transportou do Egito para Roma, o obelisco que colocou no seu, “Circo de Calígula”; mais tarde, o imperador Nero colocou-o no jardim de Agripina Maior).

Reprodução recente de um sestércio de Nero (vendida a 8 euros)

Para terminar vamos falar de barcos encontrados na net.

Se do século XVI au século XVIII, o termo galera designou um tipo preciso de navio de guerra a remos, hoje tomou um sentido mais generalizado porque todos os barcos de combate da antiguidade, idade média, período clássico e até ao início do século XIX, que viu o seu desaparecimento, são designados por esse nome “galera”.

Galera: sinónimo de “barco longo”, expressão antiga que designava uma embarcação longa e estreita, de forma a dispor em cada bordo, o maior número possível de remos, por oposição ao barco a velas obrigatoriamente largo e profundo, para que a força do vento nas velas não o virasse.
Em seguida, com o aparecimento dos barcos a velas cada vez mais finos, a velha “galera” que tantos serviços prestou da antiguidade até ao início do século XIX, começou a rarear, e desapareceu completamente com o aparecimento dos barcos a vapor.




Galera Birreme

Galera da antiguidade com duas fileiras de remos de cada lado.
Eram navios de guerra gregos inventados no século VII a.C., mais tarde utilizadas pela marinha romana, em especial no contexto das guerras Púnicas.
Para aumentar a velocidade dos navios sem reduzir a sua capacidade de manobra, foi adicionada mais uma fiada de remos intermediária à primeira fileira.
Com este método os navios tornaram-se mais rápidos sem todavia aumemtar o seu tamanho

No início do combate, as birremes utilizavam a força dos seus remadores para perfurar o casco do inimigo, depois a abordagem munidos de espadas e escudos .
                 

Galera Trirreme

A galera trirreme : apareceu no século V a.C., foi utilizada pelos gregos e posteriormente pelos romanos.
Esta galera caracteriza-se  por três fileiras de remos. Cada remo era movido por um remador e, dispostos  de forma que todos pudessem remar sem incomodar os outros.
Ao contrário dos romanos que pretendiam não destruir o inimigo mas sim capturá-lo, a trirreme grega  era especialmente utilizada para abalroar navios inimigos.

               
Galera Ibérica

A galera Ibérica do Atlântico, não é muito diferente do mesmo tipo de navio utilizado pelos árabes no ocidente do mar Mediterrâneo.
Dos países da Península Iberica, nem Portugal nem Castela e Leão se destacaram pelas suas galeras.
Portugal tinha um mar oceano onde este navio não era muito adequado: Castela tinha uma costa atlântica no norte (Galiza, Astúrias e Cantábria) que lhe colocava o mesmo tipo de problemas.
A sul os navios dos dois países também operavam no Mediterrâneo juntamente com os navios do reino de Granada e, posteriormente  pelos corsários berberes que foram expulsos do sul de Espanha.

Galera Veneziana


Veneza utilizou galeras desde o início da sua  República do século IX até 1797.
Este tipo de navio, foi o principal apoio do poderio naval veneziano que foi evoluindo ao longo dos séculos, até que com a chegada do canhão, começaram a ser equipadas com um ou dois na proa.
Bem armadas, no século XVI estas galeras tiveram um rolo fundamental na batalha de Lepanto, derrotando algumas  frotas dos reinos Habsburgo. 

MGeada

Bibliografia

Wikipédia
Fillipo Coarelli; Guide Archeologique de Rome, 1999.
Jean-Antoine Barras de la Peine ; La Science des Galères,  1667.
Jeannine Siat; Promenades Romaines, Le port d'Ostie, Lethiellux 2004.
Magazine Neptunia ; La revue des Amis du Musée de la Marine.



quinta-feira, 1 de junho de 2017




Galiano 253-268, e as cunhagens das legiões.

Galiano-Áureo cunhado em Roma
Anv. Galiano com capacete, couraça, espada ao ombro e escudo,
IMP GALLIENVS AVG
Rev. Fides em pé, entre duas insígnias militares.
FIDES MILITVM
(Ref. RIC-10, Cohen-230)

1-Histórico

Em setembro do ano 253, Valeriano foi proclamado IMPERATOR  AVGVSTVS pelos seus soldados e associou ao trono imperial seu filho Galiano.

Os dois imperadores vão reinar juntos de 253 a 260, mas, em 260 Valeriano então com 67 anos de idade, foi vencido por Sapor I rei dos Persas e, foi a primeira vez na história de Roma que um imperador romano ficou cativo.

Como prisioneiro, Valeriano  assim como todos os seus  soldados capturados, foram forçados  a participar na construção de uma barragem, que os persas construiam perto da cidade de Gundesapor.
O imperador irá perecer em cativeiro após ter subido as humilhações do rei persa que, entre outras, também se servia dele como estribo para subir para o cavalo.
Escritores cristãos afirmam que após a sua morte, o corpo de Valeriano foi empalhado, pintado de vermelho e pendurado no teto de um tempo.

Galiano agora único governador do Império, continua a lutar com as invasões bárbaras cada vez mais numerosas: Francos, Alamanos, Marcomanos, Quados e Godos das regiões do Danúbio e outros.
Os Francos tornaram a invadir a Gália atravessando o Reno (perto de Colônia) e os Alamanos fizeram o mesmo forçando a fronteira da Récia.

Enquanto combatia na Récia, Galiano ordenou a Póstumo de resistir aos francos com a ajuda de algumas das legiões, que guardavam a fronteira do Danúbio.

Ingênuo (em latim, Ingenuus) então governador da Panônia Inferior, ao ver as suas províncias danubianas sem  defesa contra os ataques dos bárbaros;  manisfestou o seu desacordo ao imperador, ao mesmo tempo que lhe contestou o poder em Panônia.

Para reprimir esta usurpação, Galiano enviou o seu general e comandante da cavalaria Aureolo (Aureolus) combater Ingênuo que derrotou em Mursa no ano 258.
O general acabou por abandonar Galiano no ano 267.

Regaliano (Regalianus) dois anos depois, tomou o poder na mesma região em Panónia, (hoje Áustria e Hungria) que Ingênuo, após do fracasso da revolta deste último.
Todavia nunca foi possível saber se as duas rebeliões tiveram alguma ligação entre elas.

Na verdade, Regaliano foi nomeado imperador para se ocupar dos imperativos de ordem militar.
A população indígena da periféria de Carnunto (cidade de guarnição do Alto Danúbio, a cerca de 20 km a leste de  Viena), ameaçada por uma iminente invasão dos Sármatas e, completamente desemparada, não sabia a qual autoridade deviam pedir auxílio para os defender.
A História de Augusto, pretende que Regaliano morreu “por instigação dos Roxolanos (outra tribo bárbara), com a complicidade dos soldados e gentes da província, que temiam as represálias de Galiano. (Hist. Aug., Trente  Tyr., X,2).

Perante todas estas instigações e ursupações, Galiano mandou que se cunhassem emissões de moedas para os soldados. Todo este numerário, foi destinado aos legionários que pela sexta vez consecutiva, continuaram zelosos e fiéis ao imperador.

Estas emissões comemoram ao mesmo as vitórias de Galiano sobre Ingênuo e Regaliano. Congratulam a sexta aclamação de Galiano como imperador e, glorifica a atividade das legiões.
Cada legião, recebeu ainda como recompensa pela  vitória alcançada no ano precedente contra os Alamanos, o título de “Pia Fidelis”,.
(Pia Fidelis: forma feminina latina de “piedoso e fiel”, cognome atribuído pelo imperador a  muitas legiões romanas, quando lhe tinham demonstrado a sua devoção e lealdade.
Algumas legiões receberam esta honra muitas vezes, e portanto numerosas recompensas).

2- As legiões

Cada legião era autónoma e tinha cerca de 5 600 a 6 000 soldados; por vezes mais.
Geralmente a infantaria tinha 5 500 homens divididos em 10 (cohortes) grupos.
O primeiro composto por 1 000 homens era chamado de milliaria, e os restantes 9 compostos por 500 homens, quinquenaria).
A estes números adicionava-se a cavalaria, um grupo de 120 homens, destribuídos em 4 esquadrões (turmae) destinada principalmente a expedições punitivas.

(Durante as suas campamhas na Gália, as legiões de Júlio César nunca tiveram mais de 3 000 soldados.)

Cada legião tinha um número de ordem e um apelido. Ao lado do número de ordem, encontramos os apelidos que proveem do nome das províncias onde as legiões combateram ou, o lugar onde elas foram formadas: (Italica, Gallica, Hispanica... etc.)

Outras tinham nomes de algumas divindades, (Minerva, Apollinaris etc.), outros sobrenomes proveem de particularidades devido à sua formação, (Adiutrix=suplementária, Primigenia=legiões formadas por via de devisão).

Finalmente ao lado dos sobrenomes, encontramos os epítetos que correspondem às recompensas que receberam, devido à sua devoção ao culto do imperador, (Pias, victrix, fidelis...)

Legião I Adiutrix (Capricórnio)
Aquarteladaem Brigécio-Panônia Inferior

Galiano
Rev.  Capricónio, LEG I ITAL VI P VI F
Comemoração da participação da Legião I, na batalha contra Ingênuo
(Ref. RIC- 315)

Galiano
Rev. Capricórnio, LEG I ITAL VI P VI F
Comemoração da participação da Legião I, na batalha contra Ingênuo
(Ref. RIC-315)

Segundo Dião Cássio, a Legião I Adiutrix foi fundada no reinado de Galba.
Durante a guerra de sucessão ela tomou o partido de Otão, foi vencida por Vitélio que a enviou para Espanha, e mais tarde para a Germânia.
No ano 83, esta  legião também participou na guerra de Domiciano contra os Catos ou Cáticos, (antiga tribo germânica).

Alguns anos depois, a Legião I também defendeu a Moesia contra os dácios.
Foi aquando da nominação de Nerva como imperador, que ela obteve o seu primeiro título de Pia Fidelis.
O imperador Trajano também a utilizou  a Legião I Adiutrix, para conquistar a Dácia e, também fez parte das três legiões que ocuparam o território Dácio.
Esta mesma legião, também serviu o imperador Trajano nas suas operações contra o império Parta.
Finalmente o imperador Adriano aquartelou-a em Panónia.

Por cerca dos anos 171-175, a Legião I Adiutrix foi comandada por Pertinax que se tornou imperador em 193.
Depois do assassinato deste imperador efémero, a Legião I juntou-se a Septímio Severo e participou na marcha sobre Roma contra Dídio Juliano.
Imediatamente após esta vitória, foi enviada combater Pescênio Níger e em seguida, combateu contra  o Império Parta.

Durante o reinado de Galiano, a Legião I Adiutrix esteve sempre aquartelada em Panônia.
Os títulos dados nesta moeda são “sextum pia, sextum fidelis”. Ela participou na vitória contra os ursupadores Regaliano e Ingênuo.
Os seus emblemas eram o Capricórnio e o Pégaso.

Legião I Adiutrix (Capricórnio)
Aquarteladaem Brigécio-Panônia Inferior

Galiano
Rev. Javali, LEG I ITAL VI P VI F
(Ref. RIC-320)

Legião I de Minerva (Minerva)
Aquartelada em Bona (Germânia Inferior) Alemanha

Galiano
Rev. Minerva, LEG I MIN VI P VI F
(Ref. RIC-322)

Galiano
Rev. Minerva, LEG I MIN VI P VI F
(Ref. RIC-322)


Legião II Adiutrix  (Pégaso)
Aquartelada em Aquinco (Panônia Inferior) Budapeste

Galiano
Rev. Pégaso, LEG II ADI VI P VI F
(Ref. RIC-324)

Galiano
Rev. Pégaso, LEG II ADI VI P VI F
(Ref. RIC-324)


Legião II Pártica (Centauro)
Aquartelada em Alba (Itália)

Galiano
Rev. Centauro, LEG II PART VI P VI F
(Ref. RIC-332)

Legião II Italica (Loba, amamentando Rómulo e Remo)
Aquartelada em Lauriacum (Nórica) perto de Linz, Áustria


Galiano
Anv. Loba amamentando Rómulo e Remo,  LEG II IT AL VI P VI F
RIC-329

Legião III Italica (Cegonha)
Aquartelada em Castra Regina, (atual Ratisbona)  Alemanha 

Galiano
Rev. Cegonha,  LEG III ITAL VI P VI F
(Ref. RIC-339)

Galiano
Rev. Cegonha, LEG III ITAL VI P VI F
(Ref. RIC-339)

Galiano
Rev. Cegonha, LEG III ITAL VI P VI F
(Ref. RIC-339)

Legião IV Flavia (Leão)
Aquartelada em Sigidunum -Mésia ou Moésia Superior, (atual Sérvia)

Galiano
Rev. Leão, LEG IIII FLVI P VI F
(Ref. RIC-343)

Legião V Macedónica (Águia a ser coroada por uma Vitória)
Aquartelada em Potaissa-Dácia (atual Roménia)

Galiano
Rev. Águia a ser coroada por uma Vitória,  LEG V MAC VI P VI F
(Ref. RIC-345)


Legião VII Claudia (Touro, Bisonte ou Leão com chifres)
Aquartelada em Viminacium (Mésia ou Moésia Superior) atual Sérvia

Galiano
Rev. Bisonte ?, LEG VII CL VI P VI F
(Ref. RIC-348)

Legião VIII Augusta (Touro, Bisonte ou Leão com chifres)
Aquartelada em Argentorato durante muitos anos?(atual Estrasburgo-Alsácia. França)

Galiano
Anv. Touro, LEG VIII AVG VI P VI F
(Ref. RIC-353)

Fundada por Júlio César (13 de julho100 a.C.-15 de março 44 a.C.), continuou ao serviço de Roma durante 400 anos.
Diz-se ter sido fundada no ano 59 a.C., (mas possivelmente mais cedo).
Entre 58 e 49 a.C., combateu nas guerras gaulesas e, no ano 49 a. C., a Legião VIII, acompanhou Júlio César na travessia do rio Rubicão para entrar na Itália e, foi ela que em primeiro entrou em Roma.

No início da guerra civil entre César e Pompeio, a Legião VIII teve muitos sucessos especialmente na Batalha de Farsalos.
A VIII também estava no Egito quando Júlio César instalou Cleópatra VII, no trono do país.
No ano 46 a. C., a Legião VIII, ainda participou na Batalha de Tapso (Tunísia moderna), antes de ser desmobilizada.
A VIII, era a legião preferida de Júlio César que também tinha muito em consideração, as legiões  IX e X.
No ano 44 a.C., Octaviano voltou a reconstituir a legião VIII, que o ajudou a assumir o controle da República e transformá-la num império.
Esta reconstituição e fidelidade justificam o apelido dado à legião “Augusta”.

Legião X Gemina, (Touro, Bisonte ou Leão com chifres)
Aquartelada em Vindobana (Viena) Panônia Superior , a partir do II século da nossa era. 

Galiano
Rev. Leão com chifres, LEG X GEM VI P VI F
(Ref. RIC-357)

Legião XI Claudia (Netuno)
Aquartelada em Dorosturum na Mésia ou Moésia Inferior, (atual Silistra-Bulgária)

Galiano
Rev. Netuno, LEG XI CL VI P VI F
(Ref. RIC-359)

Também existe para esta legião, um único tipo conhecido,  referenciado por C G B
(Compagnie Général de Bourse)

Galiano
Anv. Javali, LEG XI CL VI P VI F
(Legio undecima Claudia, sextum pia, septimum fidelis)
(Ref. RIC- ?)

A única legião com o javali como símbolo, é a Legião I Italica.
Estas duas legiões estavam aquarteladas desde meados do século II na Mésia (ou Moésia) Inferior.

É possível que seja um erro do escultor que tenha confundido os dois símbolos: Netuno para a Legio XI Claudia Pia Fidelis e, o Javali  da Legio I italica.
A décima primeira legião Claudia, no início esteve aquartelada em Vindonissa na Germânia Superior, e mais tarde em Durostrum, Panônia Superior.

Eric Huysecom (antropólogo), no seu estudo sobre as moedas das legiões, fez uma observação interessante quanto o que a Legião I Italica e Claudia, as duas aquarteladas na Mésie Inferior têm dois emblemas dois quais um é um javali.
O antropólogo interroga-se sobre a relação  entre a representação do javali e a Mésia Inferior? 

Legião XIII Gemina (leão a ser coroado por uma Vitória)
Aquartelada em Apulum, na Dácia (Roménia), e Ratiaria, Dácia Ripense (Bulgária)


Galiano
Rev. Leão a ser coroado por uma Vitória, LEG XIII GEM VI P VI F
(Ref. RIC-360)

Legião XIIII Gemina (Capricórnio)
Aquartelada em Carnunto, Panônia Superior (Áustria)

Galiano
Rev. Capricórnio, LEG XIIII GEM VI P VI F
(Ref. RIC-361)

Legião XX (Capricórnio)
Local do aquartelamento desconhecido

Galiano
Rev. Capricórnio, LEG XX VI P VI F
(Ref. RIC-364)

Legião XXII (Capricórnio)
Aquartelada em Mongontiacum,  Germânia Superior

Galiano
Rev. Capricórnio, LEG XXII VI P VI F
(Ref. RIC-366)

A Legião XXII Primigenia assim como a Legião XV Primigenia, foram fundadas pelo imperador  Calígula no ano 39 d. C., na ocasião da sua campanha contra os Catos (tribo germânica antiga).
Ela obteve o número XXII, em honra da Legião XXI (Rapax) que ela devia acompanhar a Xanten, (conhecida como Colônia Úlpia Trajana durante o período romano e foi a base de muitas legiões romanas na chamada Casta Vetera).
A Legião XV Primigenia foi criada para ajudar e servir a Legião XIV Gemina instalada em Mongotiacum (atual Mainz ou Mogúncia-Alemanha).
(Ver no fim, a conclusão do artigo).

Legião XXX Ulpia (Netuno)
Aquartelada na Germânia Inferior, na confluência dos rios  Reno e Lipp

Galiano
Rev. Netuno, LEG XXX VLP VII P VII F
(Ref. RIC-369)

Galiano
Rev. Netuno, LEG XXX VLP VII PVII F
RIC-369

A Legião XXX com o símbolo de Netuno, foi fundada pelo imperador Trajano que a aquartelou em Brigetio (Panônia Superior).
Trajano  combateu nas guerras dácias, também conhecidas por campanha dácia de Trajano, onde ele se  destacou e obteve o título de Victrix. Um dos seus destacamentos também participou nas guerras do Oriente.

No ano 119 a Legião XXX foi trasferida para Casta Vetera (Colónia Úlpia Trajana) que passou a ser a sua base militar.
Os seus destacamentos combateram na Mauritânia, sob o comando de Antonino Pio, no Oriente e contra os Marcomanos (tribo germânica) sob Marco Aurélio.

A Legião XXX também foi favorável a Septímio Severo, com o qual combateu na Birmânia.
Com Alexandre Severo, participou nas guerras romano-persas.
Também participou nas lutas dinásticas do século III.

Esta Legião desapareceu no século IV, mas, no século V, uma pseudo-legião derivada de uma das suas subdivisões, é considerada como uma Legião gaulesa.
No ano 260, sob as ordens de Póstumo, esta legião rebeliou-se contra Galiano.


Coortes Pretorianas(Leão com coroa radiada)
Aquarteladas em Roma
(Ver segundo capítulo: as legiões)

Galiano
Rev. Leão com coroa radiada, COHH PRAET VI P VI F
(Ref. RIC-370)

4-Conclusão

Apesar de todos os esforços de Galiano para as legiões lhe permanecerem fiéis, Aureolo, seu general que se distinguiu durante as campanhas militares, fez-se proclamar IMPERATOR AUGUSTUS em Milão pelos seus soldados, enquanto Galiano segundo Jordanes, (historiador de origem gótica, século VI), combatia os Godos, um povo germânico das regiões meridionais da Escandinávia.

É geralmente aceite que Galiano mandou cunhar moedas conhecidas como “emissões do bestiário”, para que os deuses o ajudassem na sua luta contra Aureolo que se tinha revoltado.
No ano 267, ele associou animais reais ou míticos, com legendas no anverso e reverso consagradas aos deuses do Panteão Romano evocando a sua proteção.

Seguem alguns exemplares a não confundir com as emissões das legiões:

Galiano
Rev. Cervo,  DIANE CONS AVG
(Ref. RIC-179)

Galiano
Rev. Antilope, DIANE CONS AVG
(Ref. RIC-181)

Galiano
Rev. Grifo, APOLLINI CONS AVG
(Ref. RIC-166)

Galiano voltou para a Itália e cercou Aureolo entrincheirado em Milão.
A vitória de Galiano estava práticamente adquirida quando uma conspiração foi formada entre os seus oficiais.
Com Aureliano (futuro imperador) à frente dos conspiradores, Galiano que contava 50 anos de idade, foi atacado de surpresa e ferido mortalmente.
Portanto, Galiano com a sua emissão do bestiário tinha pedido a proteção dos deuses e a fidelidade das legiões.
Quem foi o culpado? Certamente a época muito agitada: mas, um reinado de quinze anos nestas condições, já é muito excepcional.

Vamos regressar à cunhagem das legiões e falar no desastre de Varo:
Públio Quintílio Varo general romano, (c.46 a.C.-9 d.C9.

No ano 7, Augusto incubiu-lhe a organização da Germânia já conquistada na margem direita do Reno. A sua tentativa de substituir a lei germânica pela  lei romana  exasperou as populações.
Armínio, líder dos queruscos ganhou progressivamente  a confiança  de  Varo. Os germanos pareciam querer aceitar a dominação romana, pedindo com muita frequência a Varo para julgar os seus diferendos. 

No outono do ano 9, Armínio informou Vário que uma revolta ocorreu no interior da Germânia.
Imediatamente o general romano marchou para o local à frente de três legiões e algumas tropas germânicas.

Armínio conhecia bem o exército romano por ali ter servido, e as suas tacticas de funcionamento.
Uma vez chegados a uma região de muitos pântanos e florestas, os germanos abandonaram os romanos para se juntarem a outras tribos: a Batalha da Floresta de Teutoburgo (ou o massacre) durou vários dias.   

As tropas romanas foram massacradas, e Vário suicidou-se atirando-se sobre a sua espada.
O seu corpo foi todo mutilado e a cabeça enviada ao imperador  Augusto, que pronunciou esta frase.
«Vare, legiones redde» “Vare devolve-me as minhas legiões”.

Os números das legiões de Vário que foram exterminadas foram: XVII, XVIII, XIX, e estes números considerados nefastos, nunca mais foram atribuídos a outras legiões no império. Era assim o hábito na legião romana.

Há ainda uma outra moeda que não quizermos mencionar em cima e guardámos para o fim: é a RIC 362

Relativa à Legião XXII Primigenia, aquartelada em Mogontiacum, (atual cidade de Mainz-Alemanha), onde o gravador de cunhos fez o erro de notar II XX VI P VI F em vez de LEG XXII VI P VI F.

Galiano
Rev. Capricórnio, LEG IIXX VI P VI F
(Ref. RIC-362)

Com este erro na moeda, a Legião XXII transformou-se na Legião XVIII, número proibido após o desastre de Vário e, para maior infelicidade de Galiano...

(Nota sobre o touro, bisonte ou “leão com chifres”).
Numismatas profissionais, consideram que o peito largo, a cabeça erguida, a crina do leão nas moedas, não pode ser um touro.
Interpretam este tipo como um leão com chifres e, estes seriam o emblema de Diana.
Eric Huysecom interpreta o animal como um bisonte.



MGeada


Bibliografia
Burnett Andrw. La numismátique romaine , 1988.
Claude Nicolet ; Rome et la conquête du monde méditerranéen, éditions Puf, 2001.
Laurent Fleuret Les armées au combat dans les Annales de Tacite, Mémoire de maîtrise, Université de Nantes , 1997.
Mitchel Galleazzi ; Dictionaire Latin-Français aplique aux inscriptions monétaires romaines, 1994.
Pierre Cosme ; Les legions romaines sur le forum, Mélange de de l’ecole française de Rome, 1994.
Pierre cosme ; L’armée romaine , VIII siècle a.C., V siècle d.C., Armand Colin , 2007, pag 20.
Tive Live: Histoire Romaine: livre VIII, paragrafe 8,3.
Yann le Bohec ; L’armée romaine sous le haut empire, Paris, éditions Picard 2002,  3e. édition.

quinta-feira, 27 de abril de 2017



Na procura do dinheiro de Judas (2)

Tentar reconstruir uma história acerca do dinheiro que tenha sido objecto de troca na célebre traição de Judas, deveria, como trabalho de investigação, obedecer e respeitar certas características sobre o seu conceito e objectividade.
Em primeiro lugar exigirá o respeito pelo seu argumento histórico, e obviamente, uma comparação sobre as suas fontes, como forma da salvaguardar o melhor possível, tanto a sua fiabilidade, como a credibilidade, de que precisamos para corroborar os factos.
Infelizmente, neste caso, essa análise comparativa não será de todo possível, visto a sua génese, ter como único elemento de documentação, alguns legados evangélicos dos Apóstolos S. Marcos, S. Lucas, S. João e S. Mateus. Tudo o que realmente possuímos e sabemos sobre a traição de Judas, é-nos relatado por esses escritos bíblicos, e por isso também a análise terá de ser cautelosa e consciente, sobre a forma como o sentido místico em interpretações ulteriores, poderá ter tido influência e criado limitações quanto à veracidade dos factos.
Por tudo isto, nesta minha análise interpretativa deste “caso” histórico, pela sua forma intuitiva, torna-se mais empírica que científica.
Terá sido no ano19 d. C. no reinado do imperador Tibério que Jesus Cristo foi crucificado.
Nesse tempo, a Judeia era então uma província romana, e como tal nela se aplicariam as principais decisões que vinham de Roma. Seria portanto natural que a moeda principal que circulava fosse romana, ou provincial romana, embora se tenha conhecimento de que a algumas outras moedas fosse permitida a sua circulação, como o exemplo das moedas da dinastia de Heródes.
Na generalidade da literatura, argumenta-se que Judas terá recebido pelo préstimo da sua traição, trinta moedas de prata. Neste ponto creio que todos os historiadores convergem.
No meu ponto de vista, e para passar aos factos, pela característica que conhecemos hoje das moedas que então terão circulado, excluo as moedas de ouro como o”áureo”, o ”quinário” em prata, assim como os “sestércios”, “dupôndios” e “asses”, geralmente cunhados em bronze.
Interessante salientar contudo, que no reinado de Tibério, só foram cunhados dois tipos de “denário”(denário do latim denarius) em prata. Não havendo conhecimento de que tenha sido cunhado nenhum outro tipo de moeda em prata, durante o período deste imperador.

Tibério-Denário emitido no ano 14 d.C. em Lião (França) 3,78grs.)


O primeiro denário, cunhado no ano 14 d.C. em Lião, apresenta no anverso o busto do imperador Tibério com a legenda “TI CAESAR DIVI AVG F AVGVSTVS”. No reverso apresenta Lívia, (sua mãe) ou a Pax, sentada, com um ramo de oliveira na mão esquerda, e um bastão na mão direita, com a legenda “PONTIF MAXIM”. ( Há divergências acerca da  figura do reverso).
O segundo, terá sido cunhado no ano 16 d.C., e igualmente em Lião. Também este apresenta no anverso, o busto de Tibério, com a mesma legenda do primeiro. No reverso, apresenta o imperador conduzindo uma quadriga, com a legenda “TR POT XVII IMP VII”. O seu peso era variável, e valeria o equivalente a dez “asses”.
Temos então, que estas moedas circulariam em todo o império, aquando da morte de Jesus Cristo. E, poderíamos concluir, que qualquer destas moedas “denários”teria grandes probabilidades de ter servido de aliciamento no negócio que propuseram a Judas. Mas, porque não inclui-los também misturados com outras moedas, ou simplesmente um outro tipo de moeda em prata?
Alguns elementos substanciais transmitidos no legado dos quatro apóstolos servem para esclarecer algumas dúvidas sobre estas hipóteses.
Hoje, no nosso quotidiano, e na nossa cultura, utilizamos o termo “dinheiro”. Mas, na ligação que se lhe faz, quando se menciona este caso de Judas, a palavra “dinheiro”, terá evoluído, e colado na sua identificação popular, aparecendo o termo tanto na literatura, como no cinema, e em que usado desta forma, se estará a deformar uma realidade histórica.

Tibério-Denário emitido no ano 16 d.C. em Lião - 3,94grs.)


Nas sagradas escrituras, no que pesquisei, não vi mencionada a palavra “dinheiro”. Uma bíblia editada em 1859, que folheei numa biblioteca, foi-me bastante útil.
Dos quatro evangelistas que se referem a este caso, dois deles, S .Marcos e S. Lucas, afirmam que Judas vendeu Jesus, mas sem dar pormenores sobre o montante do negócio.
No evangelho de S. João, faz referência a trinta moedas de prata.
É contudo, S. Mateus que na sua narração, nos poderá esclarecer mais sobre este assunto.
Acusando o seu condiscípulo Judas, por este ter vendido o Mestre pela soma de trinta “siclos”de prata. Teria ele sido colector de impostos para falar desta maneira tão formal, no que se refere a “siclos”de prata?
Não encontrei nada, que me tenha dado indicação de que alguma vez se tenha usado a palavra “siclo” em referência  ao assunto que tratamos.
O termo “siclo” é conhecido como uma medida antiga, que equivalia a 6 gramas de prata.
Mas na narrativa de S.Mateus, também poderia ser a moeda de prata utilizada por fenícios e hebreus, que em hebraico era designado por “shekel”.
É pois muito provável que Judas tenha traído, e sido pago com 30 (trinta) “shekels” de prata.
Julgo que naquela época, o único tipo de moeda de 1 (um) shekel em prata que circulou na região tenha sido o “shekel” dito de Jerusalém (como nas moedas de Tiro).

Era uma moeda que pesava mais ou menos 14 a 15 gramas, e circulou em grande quantidade, tendo sido feitas várias cunhagens deste tipo de moeda. Uma delas foi precisamente no ano 33 d.C. O ano da suposta morte de Jesus Cristo? Aqui também existem muitas divergências, embora as datas que aparecem com mais frequência sejam entre os anos 30 e 33 d.C.
O “shekel de Jerusalém” em baixo retratado, apresenta no anverso o rosto do antigo deus Melkart, também conhecido por Baal, virado à direita, e no reverso apresenta uma águia virada à esquerda.

Judeia-Shequel de prata 14,27grs. cunhado em Jerusalém 12/11 a.C., ((  provavelmente terá servido de tributo a Judas)) A efígie de Melkart é totalmente diferente do shekel de Tiro).

Atendendo a que o preço de um escravo, naquela época, seria de 180 g de prata, poderemos calcular que Judas no negócio efectuado, teria vendido o Mestre por cerca de 4,250 Kg de prata.
Creio pois, ser o “shekel de Jerusalém” a mais provável moeda que procuramos identificar nesta história, pese embora o risco de decepcionar alguns coleccionadores que já possuam uma, ou as duas variantes do “denário” de Tibério, denominados por “dinheiro de Judas”.
Contudo, estes dois “denários” continuam a ser extremamente interessantes, quem sabe se não terão sido utilizados pelos soldados romanos que guardavam o sepulcro, enquanto jogavam aos dados sobre a túnica de Jesus Cristo, o que lhes confere sempre uma grande história.
O que lamentamos, é que ao longo dos tempos o conceito que nos parece mais plausível para esta história, por motivos menores, se tenha adulterado, e sobreposto ao texto original.
Dizer que Judas entregou Jesus Cristo por 30 dinheiros, sempre é mais cómodo que dizer, Judas entregou Jesus Cristo por 30 shekels.
Afirmar quais as moedas que pagaram a traição de Judas, é tarefa difícil, senão impossível.
Denários da época de Augusto? Dracmas, siclos, ou shekels?
Pouco provável é que tenha recebido denários de Tibério. Isto porque mesmo as cunhagens em grande quantidade, demoravam muito tempo a entrar em circulação, sobretudo nas províncias longínquas do império, como a Judeia onde circulavam muitos tipos de moeda.
Esta questão, levantou-se na Idade Média, e foi proposto ou entendido pelos dirigentes eclesiásticos da época, que a moeda representativa desse facto histórico deveria ser uma moeda que representava Cristo com uma coroa de espinhos. De facto existe um “dracma”de Rodes que representa o deus Hélios ( na mitologia associado ao Sol), com a cabeça adornada com raios, parecendo Jesus Cristo com a coroa de espinhos. Essas moedas, foram na época alvo de uma grande devoção.

6 Cária-Rodes, Dracma 175-170 a.C.

 Porque razão Judas traíu Cristo?

Durante séculos, este personagem tem fascinado teólogos, artistas, intelectuais, que se interrogam motivo que o levou a cometer este crime, e avançam com algumas hipóteses.


Judas Iscariote (ou Iscariot ou Iscarioth) foi segundo a tradição cristã, um dos doze apóstolos de Jesus de Nazaré.
Segundo os evangelhos canônicos, Judas facilitou a prisão de Jesus por internédio dos  sumos sacerdotes de Jerusalém, que em seguida o entregaram a Ponce Pilatos.

A figura “evanescente” deste personagem é motivo de muita controvérsia na historiografia cristã, a sua autenticidade permanece muito frágil e levanta dúvidas sobre uma parcela significativa das críticas.
 
Bandido ou revolucionário?
O cristianismo baseado no evangelho de João, fez de Judas um vulgar criminoso atraído pelo dinheiro fácil, que entregou o mestre por algumas moedas.
Mas, esta hipótese é muito contestada:  a quantia oferecida a Judas  pelos romanos  (trinta denários ?) é insignificante,  porque Judas enquanto tesoureiro dos apóstolos tinha oportunidade de se apropriar importâncias  mais elevadas. 



“O seu nome Iscariotes, também faz pensar que era, ou foi membro dos sicários, judeus “zelotes” que defendiam a rebelião armada contra os romanos.
Finalmente decepcionado por Jesus um Messias muito pacifista, terá motivado Judas a cometer a sua traição.

Todavia, a influência dos sicários parece ser posterior à morte de Jesus.
No entanto, a pista de um conflito, uma  incompatibilidade ideológica entre um dirigente idealista e Judas, continua a ser possível.

(Sicário :(em latin sicarius) - “homem da adaga”, é um termo aplicado nas décadas imediatamente precedentes à destruição de Jerusalém no ano 70, para definir um grupo extremista separatista de zelotas judeus que tentavam expulsar os romanos e seus simpatizantes da Judeia.
Os sicários utilizavam a “sica”, termo latino para um tipo de adaga pequena que escondiam nos seus mantos).

Aquando de reuniões públicas, eles sacavam estas adagas para atacar os romanos ou judeus simpatizantes, se misturando depois à multidão para se escaparem.
Os sicários foram um dos primeiros grupos organizados cujo objetivo era a realização de assassinatos, muito antes dos assassinos  do Oriente Médo e dos ninjas japoneses.



Judas, um traidor necessário?
Antes do reaparecimento do Evangelho de Judas, a teologia já tinha avançado com a possibilidade de um “traidor messiânico”, sacrificado para que se realizasse o destino de Jesus.
Efetivamente, sem Judas não teria havido cruxificação nem ressurreição.
A questão da punição divina reservada a Judas e, uma possível indulgência tem sido um assunto de muitas divergências nos debates teológicos.
O olhar, (ou por outras palavras  direi o julgamento do cristão),  sobre este personagem amaldiçoado, passou a ser mais indulgente a partir século XIX.

O Novo Testamento, dá-nos duas versões diferentes sobre a morte de Judas.
No Evangelho segundo São Mateus, Judas morre logo após a condenação de Jesus.
Este cheio de remorso foi ao encontro dos sacerdotes e anciãos e disse-lhes.
Pequei traindo um inocente.  Em seguida retirou-se , atirou com as moedas para o templo e enforcou-se. (Mateus 27,5 TOB).


Os atos dos Apóstolos (1,18) dão-os outra versão.
“Depois de adquirir um campo com o salário do seu crime, Judas caíu , quebrou pelo meio e, todas as suas entranhas se espalharam à sua volta.



Há dois mil anos, Judas Iscariotes entrou para a história por ter entregado Cristo a troco de algum dinheiro.
Todavia, o enigna referente à quantia e  identificação das moedas  que recebeu em troco da sua traição, ainda não foi desvendado.

Manuel Félix Geada Sousa


Bibliografia

André Paul ; La Bible avant la Bible : La grande révélation des manuscrists de la Mer Morte, éd. Cerf, Paris, 2 005.
James M. Robinson; Les secrets de Judas, Histoire de l’apôtre incompris et de son evangile- éd. Michel Lafon, 2 000.
Le Douzième Apôtre; Fac- Reflexion n°22, Fevereiro 1993, PP 14-26 (Le cas de Judas et la doctrine de la reprobation)
Centre Numismatique du Palais-V. S. O.  Paris 28-06-2002. 

Notas e referências

Mireille Hadas Lebel, Jerusalém contre Rome, éd. Cerf, Paris 1 990, p, 416-417.
Simon Claude Mimouni, La figure de Judas et les origines du christianisme : entre tradition et histoire, publié par Maddalena  Scopello, éd. Brill, Danvers, 2 008.
Simon Claude Mimouni, Le judaisme ancien du VI a.C., au III siècle d.C., éd. PUF,  2 012, p, 469.