quinta-feira, 26 de outubro de 2017


FIDES, como Deusa ou Alegoria na numismática romana.
As imagens de Fides = (Fidelidade, Lealdade, Sinceridade), segundo Cícero, Lactâncio e outros, foi adorada como uma deusa pelos romanos. (Atributos: duas espigas e prato com frutos)
Attilius Calatinus, dedicou-le um templo, perto do templo de Júpiter onde esta personificação tinha sacerdotes específicos que exerciam sacrifícios em sua honra.

Nos denários de Licínia e outras famílias romanas, por vezes a sua cabeça aparece coroada com uma coroa de ramos de oliveira, que simboliza a preservação da paz.

A. Licinius Nerva-Denário cunhado em Roma,  47 a.C.
Anv./ - Fides com coroa de oliveira à direita;
NERVA  FIDES
Rev./- Licinius cavalgando para a direira, arrastando um cativo pelos cabelos
(Ref.crawford-454/1)

Noutras moedas aparece com coroa de louros, que garantia a vitória. O tipo da personificação da Fidelidade, apresenta-se de várias formas nas moedas imperiais romanas.
Fides como deusa aparece numa moeda de Cláudio II, com um estandarte na mão direita e uma lança na esquerda. 

Cláudio II (o Gótico)-Antoniniano cunhado em Roma,  268-270
Anv./-Cláudio com coroa radiada à direita;
IMP CLAVDIVS AVG
Rev./ -  Fides com um estandarte na mão direita e uma lança na esquerda;
FIDES MILITVM (reverso de Galiano)
(Ref. RIC-38v, Sear5- 11336, Cunetio Hoard-2206)

Fides Augusta num grande bronze de Plotina.

Plotina-Sestércio cunhado em Roma, em  112
Anv/-Plotina com a stephane na cabeça (touca grega antiga) à direita;
PLOTINA AVG IMP TRAIANI
Rev/ - Fides de face com duas espigas de cereais na mão direita
e um prato de frutos na esquerda;
FIDES AVGVST AVG  S C
(Ref. RIC II-740, BMCRE-1080, Sear5-33769)

Por vezes o tipo da fidelidade consiste, em duas mãos juntas cruzadas, um caduceu, duas papoulas e duas espigas de trigo ou, por uma insígnia militar segura por duas mãos juntas.
Fides Pública num asse  de Tito.

Tito (como César)-Asse cunhado em Roma, em  73 
Anv./-Tito laureado à direita;
T CAESAR VESPASIAN IMP IIII PON TR POT III COS II
Rev./ - Duas espigas, caduceu e duas mãos cruzadas;
FIDES PVBLICA S C

A Fides Exertitum aparece em muitas moedas, nomeadamente  em antoninianos de Cláudio II, assim como nos denários de Vitélio ou de Nerva.

Cláudio II (o Gótico)-Antoniniano cunhado em Roma, 268-270
Anv/-Cláudio com coroa radiada à direita;
IMP C CLAUDIVS AVG
Rev./ - Fides com uma insígnia na mão direita e uma lança na esquerda;
FIDES EXERCI
(Ref. RIC-V-I 36)

Vitélio-Denário cunhado em Lião em 69
Anv./-Vitélio laureado à direita;
A VITELLIVS  IMP GERMAN
Rev./ - Duas mãos cruzadas;
FIDES EXERCITVVM
(Ref. RIC I-53, BMCRE-114, RSC-33ª)

Neste caso, as duas mãos juntas simbolizam a fidelidade e lealdade  dos soldados e do povo, ao príncipe reinante, e não à Fides como deusa.
Alguns exemplos dos tipos referidos também são visíveis em moedas de  Balbino e Pupiano.

Balbino-Antoniniano cunhado no ano 238
Anv/- Balbino com coroa radiada e drapeado à direita;
IMP CAES D CAEL BALBINVS AVG
Rev./ - Duas mãos cruzadas;
FIDES MVTVA AVGG
(Ref. RIC IV-11, BMCRE-71)

Pupiano-Antoniniano cunhado no ano 238 (atelier incerto)
Anv/-Pupiniano drapeado com coroa radiada à direita;
M CLODIVS PUPIENVS MAXIMVS
Rev/ - Duas mãos cruzadas;
CARITAS MUTVA AVGG
(Ref. RIC 10ª, Sear-8523)

Um tipo com uma mulher drapeada com um estrandarte em cada mão e a legenda CONCORD EXERCI, aparece em moedas de ouro de Claudio II.

Cláudio II- Medalha de  8 áureos cunhada em Milão cerca de 269
Anv./- Cláudio com couraça e laureado à direita;
IMP C M AVRL CLAVDIVS P F AVG
Rev./ - Concórdia com dois estandartes militares;
CONCORDIA EXERCITVS
(Ref. Sear-2300)

A representação da Lealdade e Fidelidade entre os políticos e militares, foi muito importante durante o período da República e Império romano.
Muitos imperadores, especialmente  no século II, estavam conscientes que o seu poder dependia apenas da boa vontade do exército, e as imagens da Fides Exercitum eram muitas vezes reproduzidas no reverso das moedas. O que nem sempre foi o suficiente para os manter no poder, “e vivos”.

Alguns exemplos de moedas romanas que representam a  Fidelidade.

Cómodo-Sestércio cunhado em Roma em 192
Anv/ - Cómodo laureado e drapeado à direita;
L AEL AVREL COM AVG P FEL
Rev./ - Roma e Fides ambas  uma lança e dando-se a mão;
P M TR P XVII IMP  VIII COS VII P P   S C
(Ref. RIC III-608, MIR-18,845-6/30, Banti-321,748)

Filipe I-Sestércio cunhado em Roma, 244-249
Anv./ - Filipe laureado e drapeado à direita;
IMP M IVL PHILIPPVS AVG
Rev./ - Fides sentada num trono com um globo na mão direita, 
e uma insígnia  militar na mão esquerda;
FIDES MILITVM  S C
(Ref. RIC-172ª, Cohen-59, Sear-8994)

Maximiano I-Denário cunhado em Roma 235-236
Anv./ - Maximiano I laureado e drapeadp à direita;
IMP MAXIMINVS PIVS AVG
Rev./ - Fides com uma insígnia militar em cada mão;
FIDES MILITVM
(Ref. RIC-7ª, RSC-7ª, Sear, 2337)

 
Maximiano-Follis cunhado em Ticino cerca de 305
Maximiano laureado à direita;
IMP C MAXIMIANVS  PF AVG
Rev./ - Fides sentada sentada nun trono  com um globo na mão direita, 
e uma insígnia  militar na mão esquerda; 
IMP C MAXIMIANVS PF AVG
(Ref. RIC VI-55)

Maximiano-Antoniniano cunhado em Siscia  286-286
Anv./-Maximiano com coroa radiada à direita;
IMP C M A MAXIMIANVS PF AVG
Rev./ - Maximiano a receber um globo das mãos de Adriano;
FIDES MILITVM
(Ref. RIC V-58, Sear5-3375)

Maximiano 2º reinado-follis cunhado em Aquileia, 307-308
Anv/-Maximiano com couraça e capaceto à esquerda;
IMP C MAXIMIANVS PF AVG
Rev./ - Fides em pé com duas insígnias;
FIDES MILITVM  AVGG ET CAES NN
(Ref. RIC-77ª)

MGeada

Bibliografia
Grimal, La civilisation romaine, Edition Flamarion Paris 1981, réédite em 1998.
Pierre Boyancé,  La main de Fides (article) Publications de L’ecole Française de Rome, année 1972, volume 1, pag.121.
Gérard Freyburger, Fides. Étude sémantique et religieux depuis les origines jusqu’à l’epoque augustéenne. Paris Edition les Belles Lettres,1986, pag. 361
https://fr.wikipedia.org/wiki/Henry_Cohen_(numismate)

terça-feira, 26 de setembro de 2017



Constantino I - O Grande


Desde sempre,  existiram  personagens  que nasceram e deixaram marcas indeléveis, que uma vez desaparecidos, continuam vivendo graças aos seus feitos.
Muitas vezes estas personalidades foram inventores, exploradores ou grandes pensadores. Analisando estes prodígios à escala universal são poucos homens ou mulheres que deixaram uma herança durável à humanidade.

Podemos afirmar de forma inequívoca que o imperador Constantino I, 306-337, faz parte  dessa rigorosa selecção. Na nossa opinião, um dos maiores.
Constantino, (Flavius Valerius Aurelius Claudius Constantinus) nasceu a 27 de Fevereiro de 274, em Naissus, Mésia (actual Nis na Sérvia).
Era o filho mais velho de Constâncio Cloro, oficial do exército romano que mais tarde será imperador, e Helena (Santa Helena).

Constantino cresceu nos campos  militares e serviu sob Diocleciano.
Foi  proclamado   César no ano 295, e Augusto pelas legiões no ano 306, após a morte do seu pai.
Homem aguerrido e inteligente, mostrou as suas capacidades militares nas campanhas contra os sármatas e germanos, e qualidades políticas nas relações com os diversos Augustos que lhe disputavam o governo do Império


Constantino I-Folis cunhado em Arles (França) em 360-365
Anv.Constantino com diadema e drapeado à direita
CONSTANTINVS MAX AVG P .CONS
Rev. Ao centro duas insígnias militares e uma folha de palmeira, ladeadas por dois soldados armados com lanças
GLORIA EXERCITVS P. CONS
(RIC. VII 364 P)

Fervente admirador da justiça e da verdade, a sua conversão ao cristianismo a partir de 312, não foi unicamente um cálculo político, mas também uma autêntica escolha religiosa.
Mas esta sua admirável faceta, não pode esconder outra menos brilhante do personagem.

Afectado por um grande orgulho e ávido de elogios desmesurados muito nocíveis para a sua reputação, ao ponto de se deixar influenciar pelos seus próximos.
Incapaz de se dominar, utilizou a violência e o crime para alcançar os seus objectivos.
Esse combate perpétuo com ele próprio com aspirações místicas e violências impulsivas, fazem a sua vida singularmente dramática.

Constantino cresceu em Nicomédia na corte de Diocleciano. Será que este o tomou sob a sua protecção para o preparar à sucessão do pai, ou para se assegurar a fidelidade deste último?
Sob a tutela de Diocleciano, Constantino recebeu uma educação principesca, ao mesmo tempo que iniciou uma carreira militar

Quando em 305, Diocleciano abdica e passa o testemunho a Galério, Constantino ficou ou foi obrigado a ficar com o novo imperador, ainda que muito decepcionado por não ter sido designado César do seu pai  Constâncio, que  também não ficou satisfeito de não ter o filho como próximo colaborador, e ter que colaborar com Severo, (um protegido de Galério), como César.

No ano 306, com alguma hesitação, Galério consentiu que Constantino colaborasse com o pai que há muito tempo o reclamava.
Pai e filho encontraram-se em Boulogne, (a história conta que Constantino mandava mutilar todos os cavalos das estalagens por onde passava, e assim impedir que os soldados de Galério o apanhassem e levassem para a corte imperial, porque entretanto o imperador tinha decidido não o deixar  colaborar com o pai) e juntos foram para a Bretânia combater os Pictos(antigos habitantes da Escócia) que se tinham revoltado.

Quando Constâncio Cloro faleceu (25 de Julho de 306, em Eburacum York), e os soldados proclamaram o seu filho Constantino à dignidade de  Augusto, Severo não aceitou esta promoção e só lhe concedeu a de César. Constantino pressentiu que a sua hora ainda não tinha chegado, abdicou da escolha dos soldados e aceitou a proposta de Galério.

Para os  historiadores, ainda que Constantino só tenha o título e a função de César, eles calculam o período do seu reinado a partir da morte de Constâncio.
Constantino que controlava a Bretânia e a Gália, no dia 21 de Março 307, após a captura de Severo II, fez-se proclamar Augusto pelos soldados.

Receando que Constantino fizesse aliança com Galério e se virasse contra o filho, Maximiano deslocou-se à Gália e fez um pacto com ele no dia 25 de Dezembro 307.
Em Novembro de 308, aquando de uma entrevista em Carnuntum(Panónia), Diocleciano, Maximiano e Galério, substituiram Constantino por Licínio, um novo protegido de Galério.

Constantino não aceitou esta nominação: em 309-310, terminou com a Domus Divina do pai, “Domus Herculiana”, manisfestando assim o seu desejo de terminar com o sistema instituído por Diocleciano.

Para revelar a sua vontade de criar um novo sistema de governo onde só exite lugar para um só homem no cimo da pirâmide, ele pôs-se sobre a protecção  de outro deus; o Sol Invictos.
A sua vitória sobre  Maxêncio na batalha do Ponte Mílvio dia 28 de Outubro 312, decidiu definitivamente o reconhecimento do cristianismo como religião oficial do Império.


MARCVS AVRELIVS VALERIVS MAXENTIVS, 306-312
Follis cunhado em Óstia (desconhecemos o período de actividade deste atelier)
Anv. Busto laureado de Maxêncio à direita,  
IMP C MAXENTIVS PF AVG
Rev. Os Dioscuros Castor e Pólux com uma lança na mão, e outra nas rédeas dos cavalos AETERNITAS AVG N
(RIC VII-256 var, Sear15012)

No ano 324 depois de vencer Licínio junto às muralhas de Roma, passou a ser o único governador do Império.
Ainda no mesmo ano Constantino decidiu fundar uma nova capital para o Império, e transformou a cidade grega de Bizâncio numa nova Roma à qual deu o seu nome: Constantinopla, que foi inaugurada com toda  a pompa e circunstância em 330.
 
A cidade foi construída num sítio natural defensivo que a tornava práticamente invencível, numa época em que Roma estava constantemente sob a ameaça dos germanos.
Situada  perto de algumas  terras da velha cilvilização helénica; Constantino construiu-a segundo o modelo de Roma. Sete colinas, catorze regiões urbanas, um Capitólio e um Senado.

Se no início, ele permitiu a implantação de alguns templos pagãos, num curto espaço de tempo Contantinopla  passou a ter unicamente edifícios religiosos cristãs, e uma população de 100 000 habitantes.
Além do palácio imperial Constantino também mandou construir o hippŏdrŏmŏs (hippŏdrŏmus), hipódromo (novo nome atribuído aos circos romanos) e a famosa igreja de Santa Sofia.

Até agora podemos argumentar que Constantino foi um imperador como os outros: nasceu para reinar. Muito astuto, impôs algumas obrigações a Maximiano (que o levaram a cometer suicídio) e mais tarde a execução de Licínio são exemplos que ilustram os seus futuros projectos.

Para ascender ao poder, teve que seguir o mesmo caminho tortuoso que os  seus antecessores. No entanto, algo de incomum irá motivá-lo a seguir um rumo que não estava previsto. 
Esta nova orientação, vai fazer dele uma das figuras mais respeitadas da história de Roma e da humanidade.

FLAVIVS VALERIVS LICINIANVS LICINIVS, co-imperador 308-324.
Follis cunhado em Alexandria, em 317-320.
Anv. Busto laureado e drapeado de Licínio à esquerda - 
IMP LICI NIVS AVG
Rev. Jupiter à esquerda com um ceptro e um globo
IOVI CONSER VATORI AVGG
(Ref. RIC VII 23)

No início do seu reinado o cristianismo passou  a ser mais tolerado e a sua propagação começou a estender-se a todas as classes sociais.
Constantino acabou no entanto por entrar na história como primeiro imperador romano a professar o cristianismo, na seqüência da sua vitória sobre Maxêncio na Batalha da Ponte Mílvio em 28 de outubro de 312, (perto de Roma), que ele mais tarde atribuíu ao Deus cristão.


Segundo a tradição, na noite anterior à batalha sonhou com uma cruz, e nela estava escrito em latim: In hoc signo vinces - "Sob este símbolo vencerás".
De manhã, antes da batalha, mandou que pintassem o simbolo cristão nos escudos dos soldados e conseguiu uma vitória esmagadora sobre o inimigo.
(Esta narrativa não é considerada um facto histórico, tratando-se antes da fusão de duas narrativas de factos diversos encontrados na biografia de Constantino pelo bispo Eusébio de Cesareia, também conhecido por Eusebius Pamphili.)


Constantino I, 306-337                                                                 Cristograma
Ae 3 cunhado em Constatinopla, em 313-315 ?
Anv. Busto de Constantino laureado à direita
CONSTANTINVS MAX AVG
Rev. Estandarte com cristograma e serpente
SPES PUBLICA
(Ref. RIC VII 19)

Esta foi a  decisão mais importante da sua vida.
no ano 313, o cristianismo recebeu o reconhecimento oficial de todo o Império Romano. Foi o édito de Milão, que garantiu a liberdade do culto, e a seita foi livre de exercer a sua actividade fora  das catacumbas.
Ele lançou as bases do Vaticano e da Igreja de Santa Sofia em Constantinopla, a nova capital do Império.

No Concílio de Niceia, ele rejeitou o arianismo, foi um dos maiores apoiantes do dogma da Trindade, e mandou erigir  as primeiras estátuas cristãs.
Constantino I considerava-se superior ao papa da época; São Silvestre 314-335. 
Também no seu reinado um édito imperial fez do domingo um dia de repouso.
Tendo sido um defensor da fé cristã, ele mereceu sem dúvidas o título de “O Grande”.
É a Constantino que se deve a expansão judaico-cristã na Europa.


Constantino I, 306-337                                       
Follis cunhado em Siscia, 313-315.
Anv. Busto laureado de Contantino à direita 
IMP CONSTANTINVS PF AVG
Rev. Jupiter à esquerda com uma Vitória na mão direita e um ceptro na esquerda
IOVI CONSERVATORI AVG DNN
(Ref. RIC VI 234c B)

No ano 326, durante uma viagem que efectuou a Jerusalém,  Helena "sua mãe" , também se converteu ao cristianismo . É a Helena que se deve a invenção da Santa Cruz.
Doravante,  estava tudo preparado para a expansão da fé cristã. A religião Católica Romana tinha nascido.

Sob o governo de Constantino I, a representação dos diferentes deuses nas moedas romanas começou a diminuir.
Foi ainda durante o  seu reinado que o follis vai deixar de ser unidade de conta.
O solidus apareceu pela primeira em 310, e foi cuhado em Tréveros.


Flávia Júlia Helena, nasceu em Bitínia cerca de 248. (faleceu + ou-,com 80 anos)
AE 4 Cunhado em Constantinopla, em 330.
Anv. Busto de Helena com diadema à direita 
FLIVL HE LENA AVG
Rev. A Pax com um ceptro e de frente, olhando para a esquerda, 
PAX PUBLICA
(RIC VIII 33)
 
Podemos dizer que o reinado de Constantino, marcou uma ruptura com a antiga Roma.
Com ele tudo mudou. As várias religiões que existiam vão desaparecendo aos poucos em favor do cristianismo.
A Roma do passado deixou de existir. A  sobrevivência da religião cristã deve-se a Constantino.

O nosso método de ver ou pensar, está ligado ao sonho deste grande imperador que foi um dos personagens que mais influenciaram o nosso modo de vida.
A seita cristã não poderia sobreviver  enquanto religião semi-legal e os cristãos  teriam provavelmente outra religião.

Constatino I (postumo) cunhado em Antioquia, sob Contantino II, em 342-347
Anv. Constantino já com idade avançada, com um véu na cabeça
DV CONSTANTINVS PT AVGG
Rev. Aequitas em pé com uma balança na mão esquerda
IVST VEN MEN
(Ref. RIC VIII, 64)

Constantino, permaneceu até ao fim do seu reinado marcado pela fé que o inspirou, mas só foi baptizado nos últimos dias da sua vida e, pouco antes de sua morte proclamou-se o décimo terceiro apóstolo.
Segundo a lenda, foi enterrado com 12 túmulos vazios, e mandou que parte da sua fortuna fosse dedicada à construção de basílicas cristãs.

Constantino I, 306-337
AE 4  póstumo, cunhado em Alexandria, em 337-340.
Anv. Constantino com um véu na cabeça virado à direita, 
CONSTANTINVS  PTA AVG.  
Rev. Constantino numa quadriga a subir ao céu com os braços estendidos, "para alcançar  a mão de Deus"       S R  SMAL
(RIC VIII-12,Δ)

 Graças ao imperador Constantino I e à sua geração, “o mal cristão” tão criticado e punido pelos seus antecessores iria espalhar-se aos quatro cantos do império e do mundo
Constantino faleceu dia 22 de Maio de 337. Seguiu-se um interregno até Setembro de 337, durante o qual o ramo colateral da família de Constantino foi sistemáticamento eliminado por instigação de Constâncio II, excepto Constâncio Galo que na ocasião se encontrava muito doente, e Julião que contava apenas seis anos de idade.

Após a morte de Constantino, os seus filhos mandaram cunhar uma importante série de moedas onde a iconografia pagã, (rosto coberto com um véu e carro triunfal) acompanha os símbolos cristãos. “A mão de Deus estendida ao imperador”.

MGeada

Bibliografia

Barnes, Constantine and Eusebius. 272 “Itrodution” (CC),272
Bourgey; Sabi ne, Hollard; Dominique-L’Empire Romain, Tome III, 235-337, ap. J.C. Editions Errance, Paris 1991.  
Zosso; François, Zingg; Christian., Les Empereurs Romains(27 av.J.C. - 476 ap.J.C.
Editions Errance, Paris 1994.
Depeyrot;George-La monnaie Romaine, Paris, 2006.
Jean-Michel Carrié et Aline Rousselle, L'Empire romain en mutation, des Sévères à Constantin, 192-337, éd. Point-Seuil, coll. Nouvelle histoire de l'Antiquité, 1999
Pierre Maraval, Constantin le Grand, empereur romain, empereur chrétien (306-337), Tallandier, coll. "Biographies", 2011







sábado, 26 de agosto de 2017



Um novo aspecto do simbolismo da emissão monetária do milénio de Roma, no reinado do imperador Filipe I, “o Árabe”.

Os jogos seculares foram comemorados inúmeras vezes, e deram origem a muitas  emissões monetárias.
Augusto, Domiciano e Septímio Severo comemoraram este evento baseando-se no “calendário etrusco” que tinha a particularidade de ter 110 anos .
Cláudio, Antonino Pio e Filipe, comemoraram  respectivamente os 800, 900 e o milénio de Roma, que é o assunto destas páginas.
Neste artigo vamos tentar fazer um balanço sobre as hipóteses da simbologia nos  reversos utilizados.

Filipe I-Antoniniano cunhado em Roma  no ano 248
Anv. Filipe com coroa radiada à direita
IMP PHILIPPVS AVG
Rev. Leão caminhando para a direita
SAECVLARES AVGG  I = primeira oficina
 (Ref. RIC-12, RSC-173, Sear-8956)


Filipe I-Antoniniano cunhado em Roma em 248
Anv. Filipe com coroa radiada à direita
IMP PHILIPVS
Rev. Loba amamentando Rómulo e Remo
SAECVLARES AVGG   II, segunda oficina
(Ref. RIC IV/15, Cohen-178)

Filipe I-Antoniniano cunhado em Roma em 248
Anv. Filipe I com coroa radiada à direita
IMP P PHILIPPVS AVG
Rev. Bode  caminhando para a esquerda
SAECVLARES AVGG  III, terceira oficina
(Ref. RIC IV/22, RSC- 189)

Otacília Severa (esposa de Filipe I)-Antoniniano cunhado em Roma em 248
Anv. Otacília com diadema e drapeada à direita
OTACIL SEVERA AVG
Rev. Hipopótamo com cabeça de leão caminhando para a direita
SAECVLARES AVG   IIII, quarta oficina
(RIC- 116 b. RSC-63)

Filipe I- Antoniniano cunhado em Roma em 248
Anv. Filipe com coroa radiada à direita
IMP PHILIPPVS AVG
Rev. Cervo caminhando para a direita
SAECVLARES AVGG  V, quinta oficina
(Ref. RIC IV/22, RSC- 189)

Filipe I- Antoniniano cunhado em Roma em 248
Anv. Filipe com coroa radiada à direita
IMP PHILIPPVS AVG
Rev. Antilope caminhando para a esquerda
SAECVLARES AVGG  VI, sexta oficina
(Ref. RIC IV/22, RSC- 189)


Filipe I-Antoniniano cunhado em Roma em 248
Anv. Filipe com coroa radiada à direita
IMP PHILIPPVS AVG
Rev. Veado caminhando para a esquerda, e marca da oficina
SAECVLARES AVGG
(Ref. RIC- IV/20, RSC-185)

Philipe II-Sestércio cunhado em Roma em 248
Anv. Philipe II drapeado e laureado à direita
IMP M IVL PHILIPVS AVG
Rev. Alce caminhando para a esquerda (espécie de veado das regiões do norte)
SAECVLARES AVGG  (sem marca da oficina)
(Ref. RIC-264a, Cohen-73)

Philipe I-Antoniniano cunhado em Roma em 248
Anv. Filipe com coroa radiada à direita
IMP PHILIPPVS AVG
Rev. Cipo com a inscrição  COS III
SAECVLARES AVVG

Filipe I-Antoniniano cunhado em Roma em 249
Anv. Filipe com coroa radiada à direita
Rev. Templo de Roma, hexastilo (com 6 colunas) com a deusa Roma ao centro
SECVLVM NOVVM -(Século novo)
(Ref. RIV-25 B, RSC-198) 

Esta  9 ͦ  emissão da oficina monetária de Roma, provavelmente teve início, em  abril do ano 248, por ocasião do milénio de Roma.
De notar que RIC considera que esta é a 5 ͦ emissão da oficina  monetária de Roma, que teve início no dia 21 de abril  de 247.

Para esta emissão, as seis oficinas em actividade cunharam moedas que tinham todas a mesma legenda no reverso, SAECVLARES AVGG (Saeculares Augustorum).
Os jogos seculares dos Augustos, têm a representação de um animal diferente em cada oficina e, no exergo o seu número em algarismos romanos ou, uma marca.

Estas moedas foram cunhadas em nome de Filipe I e Filipe II seu filho que ele elevou ao título de Augusto em maio de 247, e de Octacília esposa de Philipe I.
A interpretação do reverso destas emissões, tem ligação com os textos antigos.

A história de Augusto dá-nos uma lista dos animais exibidos: encontramos o leão, o veado e hipopótamo, que figuram no reverso destas emissões.
A explicação mais comumente aceite, é que estamos na presença de uma emissão monetária , destinada a veicular no Império a imagem de um dos grandiosos aspectos destas  festividades.

Esta interpretação conforme aos textos, é perfeitamente credível e, oferece uma visão impressionante do realismo das distrações oferecidas ao povo, nesta  grande ocasião. 
Este tipo de emissão monetária, também se encontra frequentemente para comemorar o triunfo do imperador, no regresso das suas campanhas militares.

Vejam  por exemplo este denário do imperador Caracala.

Caracala-Denário cunhado em Roma em 212
Anv. Caracala laureado à direita
ANTONINVS PIVS AVG BRIT
Rev. Elefante com o corpo e pernas cobertas com uma rede, caminhando para a direita
P M TR P XV COS III P P
(Ref. RIC- 199, RSC-208, BMC-47)   

No entanto, devemos notar que entre essas moedas, a da segunda oficina difere das outras.
Com efeito, o tema escolhido “a loba romana” é uma  referência direta ao mito da fundação de cidade, enquanto outras emissões mostram outros animais.
Temos portanto uma emissão puramente descriptiva dos jogos, mas também com outra simbologia.
No entanto, podemos ter uma ideia que durante os desfiles, um carro tenha  transportado esta representação (estátua), ou mesmo que a cena tenha sido recontituída ao natural com uma loba domesticada e crianças.

O aspecto simbólico dessa representação, "o símbolo" do mito da fundação de Roma, obriga a interrogarmo-nos, sobre o impacto dos outros reversos presentes aquando desta emissão, porque o aspecto simbólico destes, era uma constante na numária de Roma desde a República e, seria surpreendente que os animais ilustrados  nestas moedas, fossem escolhidos ao acaso.

Nas moedas romanas, os animais são muitas vezes representados  seja como um símbolo de força “o leão”, eternidade ou longevidade “elefante ou cervo”, ou como símbolo de uma divindade: o leão, a cabra, ou a águia por Júpiter, (presente especialmente nas moedas de consagração), a serpente da Salus, a corça de Diana etc,.

Esta interpretação simbólica da 9 ͦ emissão faz todo o sentido no contexto, porque a moeda sendo o principal vetor da propaganda imperial, não há nada de surpreendente em que para exaltar o poder, as virtudes de Roma e do imperador, tenham esolhido animais representativos dessas qualidades.

Esta hipótese nos daria as seguintes simbólicas :
O leão=Júpiter=imperador
A loba romana=Roma eterna
O cervo=a longevidade do reinado

Para os outros três reversos, a simbologia é mais obscura; todavia podemos sugerir algumas suposições:

O hipopótamo=fecundidade: este animal na Antiguidade Tardia egípcia, ainda estava assimilado à mulher grávida e à Fecundidade (deusa Taouret).
Este simbolismo terá sobrevivido até ao século III, através do culto da deusa Isis, importado do Oriente e se espalhou em Roma?
Esta hipótese é interessante porque é o retrato da imperatriz que lhe está assossiado no anverso da moeda.

Não faremos um grande  comentário sobre a relação entre o bode e Filipe II: a sua coragem nos combates? Ou outro ânimo longe dos campos de batalha, simbolizando a aspiração dinástica?

Em contrapartida, a associação cabra=Júpiter é mais explícito, porque foi uma cabra “Almateia”que alimentou Júpiter na sua infância.
A cabra associada a Pilipe II, poderia  muito bem fazer  referência à infância de Júpiter e, ao mesmo tempo a Filipe tornando-o um jovem imperador.
Portanto é possível que não seja um bode, mas sim uma cabra como o consideram alguns autores.
A identificação do animal representado nesse reverso, foi recentemente motivo de muitos debates. Além disso, alguns anos mais tarde a representação de Júpiter montado na cabra Almateia, será um dos reversos principais do jovem Valeriano II, filho do imperador  Galiano.

Valeriano II-Antoniniano cunhado em Roma em 257-258
Anv. Valeriano com coroa radiada à direita
P LIC VALERIANVS CAES
Rev. Júpiter montado na cabra Almateia, levantando a mão direita e segurando um chifre com a esquerda,    IOVI CRESCENTI  (Júpiter Crescente/a crescer)
(Ref. RIC-13. C. 29, Sear-10732)

No que diz respeito ao antilope ainda não se encontrou  nenhuma simbologia  particular.

Os animais símbólicos (reais ou fictícios) associados à proteção de uma divindade, será retomada alguns anos depois pelo imperador Galiano, na sua emissão do “bestiário".

Essas interpretações simbólicas dos reversos, não vão contra aquelas utilizadas pelos imperadores anteriores: só é pena não ser aplicável a toda a série monetária.

Podemos enão presumir  uma outra interpretação simbólica, que não é contra o contexto histórico nem das  imterpretações  precedentes.

As festas do milénio, são a oportunidade de melhorar a imagem do Império que é atacado por todos os lados.
Os bárbaros já se encontranm às portas do Império Romano. Filipe conseguiu a paz com os persas, em troca de algumas terras e um vergonhoso tributo anual. Os Carpos e os Quados, devastaram a Dácia antes de serem derrotados e expulsos no ano 245.
Agitações rebentam continuamente na fronteira norte e a leste.
É necessário manter a ilusão que o mundo romano ainda é muito poderoso e, continua a ser o centro do mundo.
A escolha dos animais representados, estará em relação com essa ideia de universalidade?

Desde sempre os animais foram escolhidos para representar as províncias nas moedas: o leão, o escorpião e o elefante para representar a África. O crocodilo para o Egito, são alguns exemplos disso.

Para representar a extensão do mundo romano da época pelas suas províncias, seria necessário 
quase um jardim zoológico! Para isso, as seis oficinas monetárias de Roma seriam insuficientes.

Geográficamente, o mundo romano apresenta-se como um rectângulo com o Mediterrâneo no seu centro, e pode ser dividido em vários subgrupos coerentes. 

A Itália é rodeada por:

1-«Velho Mundo romano». as províncias do oeste e do noroeste, romanizado desde há muito tempo.

2-«As províncias Bálcâs» do nordeste (Dácia, Panónia etc,).

3-«Oriente Próximo» (ou Próximo Oriente) (Síria, Arábia, Mesopotâmia)

4-«África do Leste (Egito, Líbia)

5-«África do Oeste» (Zona Sáariana e costeira)

Partindo daqui vamos estudar os animais representados

A gravura dos cunhos, é aproximadamente a mesma em todos os exemplares consultados.
Os artistas procuraram reproduzir um determinado animal, e não um animal qualquer, porque para um mesmo tipo pode haver grandes variações, dependendo da espécie e da sua origem geográfica.

Originalmente regrupados para o triunfo do imperador Gordiano III, lógicamente estes animais deviam ser originários ou representar aquela região. 

Na antiguidade, o leão era muito abundante na Àfrica e no Oriente Médio.

A cabra, animal comum, domesticada há muito tempo, estava presente em todos os lados. No seu estado selvagem (cabra de angorá), encontrava-se em grande abundância nas regiões montanhosas no nordeste da (Turquia  Asiática).

O hipopótamo, agora confinado nas regiões húmidas da África Central, naquela época o seu domínio chegava até à embocadura (ou foz) do rio Nilo.

O cervo: este animal foi predominante em todos os lados, mas com variações significativas no tamanho e nos chifres. O animal representado nas moedas, aparatado com numerosos esgalhos em conformidade  com a  espécie europeia, vive  em áreas florestais.

O antilope: este animal como o precedente, foi generalizado sob diversas formas na África, Ásia e mesmo na Europa do Norte. Os longos chifres em espirale e ligeiramente arqueados para trás, são uma reminiscência (ou recordação), de uma espécie africana (cudo, oryix ?).

Como podemos constatar, estes animais não são tipicamente “persas” e neste caso, considerar a seguinte simbólica, dependendo da origem geográfica dos animais.

O leão: Oriente Médio, a Arábia terra natal do imperador.

A cabra: as regiões das bálcâs

Hipopótamo: Egito

O cervo: as províncias do noroeste 

O antilope: a  Àfrica subsariana

Estes cinco animais estão associados com a Loba, símbolo  de Roma e da Itália.

A história de Augusto e outras fontes antigas não dão pormenores  sobre estas festividades.
Podemos imaginar que um desfile juntou delegações «dos cinco cantos do Império», que vieram a Roma para celebrar o evento, cada uma acompanhada por animais representativos dessas regiões.
Uma forma do triunfo de Roma sobre o resto do mundo; ou, considerar que estes reversos mostram que os animais reunidos para a ocasião, provinham de todo o “mundo romano”.
Em seguida, este cortejo triunfal dirigia-se para o templo de Roma para efectuar devoções e sacrifícios.
O templo de Roma será então representado nas moedas da emissão seguinte.

Filipe I-Antoniniano cunhado em Antioquia em 249
Anv. Pilipe I com coroa radiada e drapeado à esquerda
IMP M IVL PHILIPPVS AVG
Rev. Templo de Roma com seis colunas.
A Deusa figura ao centro com um cetro na mão esquerda e um globo na direita
SAECVLVM NOVVM
(Ref. RIC-86a, RSC-200)
(Antioquia:  foi uma cidade da antiga província romana da Pisídia. Foi uma das diversas cidades que receberam o nome de Antioquia, fundadas por Seleuco I).

Como a utilização de animais para representar o espaço geográfico já tinha sido utilizado no passado, mas em pequena escala, exemplo o denário do imperador Adriano aonde no reverso a África regrupa dois animais: o elefante e o escorpião.

 Adriano-Denário cunhado em Roma em 149
Anv. Adriano laureado á direita
HADRIANVS AVG COS III P P
Rev. A África semi deitada virada à esquerda, com uma pele de elefante na cabeça, um escorpião na mão direita, e uma cornucópia na esquerda.    AFRICA.
(Ref. RIC-299, RSC-138)

E, dado o estado do Império romano nesse momento, a necessidade de reforçar a ideia do seu poder e supremacia sobre o mundo através das moedas junto dos habitantes do Império, não pode ser negligenciada.
Estes pressupostos, no entanto permaneceram simples construções intelectuais; as fontes que temos não permitem afirmar a certeza.

A leitura do reverso  proposto, no entanto oferece a vantagem de fazer a 9 ͦ emissão homogénia sobre o plano simbólico, sem por em causa as outras leituras.
Esta foi uma das razões que nos levaram a interrogarmo-nos sobre o impacte simbólico do reverso desta emissão, a escolha destes animais e diversidade  psicóloga destas imagens.

Estes animais podem ser apenas os atores de grandes caçadas recontiuídas nas arenas: explicação puramente descritiva, da qual o significado era evidente para os romanos  da Itália  mas, devia escapar a grande parte das  pessoas em outras  regiões do Império.

Porque utilizar animais pouco representativos (em questão de força,) para mostrar a grandeza de Roma?
A história de Augusto cita animais mais espetaculares: tigres, panteras, hienas ou mais exóticos, por exemplo, rinocerontes e girafas que seriam mais adequados para sugerir a  magnanimidade dos jogos, e marcar os  espíritos ou memórias.

Essas moedas muito divulgadas em todo o Império, porque privar-se de uma mensagem de propaganda em larga escala?
Explicação: «Roma organiza jogos magníficos, Roma é  poderosa» mas,  podemos considerá-la um pouco simplista.

Um vetor importante para difusão dessas moedas nas regiões distantes de Roma, era o soldo  das legiões. Naquela época a maioria eram constituídas por soldados estrangeiros, muitas vezes oriundos de regiões perturbadas  do Império.
O facto dos soldados verem no reverso das moedas de Roma um animal familiar, podia significar que a sua terra de origem fazia parte do Império.

Esta mensagem federativa não parece ilógica, neste período turbulento onde a lealdade vai para aquele que paga melhor, e aonde as ameaças exteriores são cada vez mais frequentes.
Esta 10·ͦ emissão, também apresenta uma moeda interessante ligada às comemorações do milénio, mas apresenta outro animal: o elefante com a legenda AETERNITAS AVGG, (eternidade dos Augustos)

Filipe I-Antoniniano cunhado em Roma no ano 270
Anv. Filipe drapeado  e laureado à direita 
IMP PHILIPVS AVG
Rev. Elefante com o cornaca à esquerda
AETERNITAS AVGG
(Ref. RIC-58, RSC-17, Sear-8921)

Devemos primeiramente notar, que é a única moeda nesta emissão com este reverso.
Se for apenas para mostrar um animal que participou nas festividades, a sua presença nesta emissão pode surpreender e, ficaria  melhor na 9 ͦ  emissão no lugar da loba.
Simbólicamente esta também ficava bem na 10 ͦ emissão com o templo de Roma, ou a moeda onde figura o cipo, erigido para celebrar os consulados do imperador e do seu filho, durante as cerimónias do milénio.

Filipe I-Antoniniano cunhado em Roma em 244-249 (10 ͦ emissão, 5 ͦ oficina)
Anv. Filipe laureado e drapeado à direita
IMP PHILIPPVS AVG
Rev-cipo com a inscrição   COS III,  SAECVLARES AVGG
(Ref.RIC-24C, RSC-193, Sear-8961)

Porque razão isolaram o elefante?
A legenda  refere-se  diretamente à noção da eternidade da qual o elefante é um símbolo forte.
Esta é uma mensagem clara: o Império é eterno representado na legenda do reverso ROMA AETERNAE, das precedentes emissões. 
Podemos aplicar a leitura «geográfica» a este reverso?

O elefante é tradicionalmente usado para representar a  Àfrica, tal leitura aqui parece impossível.
O elefante é também na história romana, o símbolo das guerras contra os cartagineses.
Uma referência a Anibal, aqui seria anormal.
Por isso não temos leitura «geográfica» perfeitamente adequada. 
Todavia os elefantes continuaram a ser utilizados muito além das Guerras Púnicas (como força de ataque ) por alguns exércitos, incluindo os persas.

A História de Augusto indica que na época dos jogos havia 32 elefantes em Roma, dos quais 12, enviados por Gordiano III, 10 por Alexandre Severo,  os outros 10 terá sido Filipe I que os trouxe da Pérsia? 
Teremos aqui uma alusão à “vitoria” do exército romano sobre os persas?

Embora a paz com a Pérsia fosse concluída com um tratado infame para Roma, a escolha do reverso desta moeda pode ser visto como um aviso, enviado aos ursupadores que aparecerem no Império, exemplo: Pacaciano na Mésia.
Este imperador efémero vai usar o mesmo tipo de propaganda cunhando no reverso a deusa Roma com a legenda, Roma eterna ano 2001, usando assim o simbolismo do seu adversário a seu favor.

Pacaciano-Antoniniano cunhado em Viminacium  em 248-249
Anv. Pacaciano com coroa radiada e drapeado à direita
IMP TI CL MAR PACATIANS PF IN
Rev. Roma sentada num escudo, com uma Vitória na mão direita e uma lança na esquerda
ROMAE AETER AN MIL ET PRIMO
(Ref. RIC-IV 6 var., Cohen-7 var., RSC-7 var.)

MGeada

Bibliografia


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Jean-Gagé ; Les jeux séculaires de 204 ap. JC, e la dynastie des Sévères-Mélanges d’archeologie et h’istoire. t.51.1934, pag.33-78.
Jean Gagé ; Recherches sur les jeux séculaires. Ed. Les belles Lettres.1934.
Laurent Schmitt ; Les Monnaies romaines, Editions les Chevaux Légers.
Paul Petit, Histoire Générale de L’Empire Romain-Edi. Seuil,1974.
Pierre Brind’Amour ; «L’Origine des Jeux Seculaires», volume 2, 1978,  page 1334-1417.
https://fr.wikisource.org/wiki/Les_Jeux_s%C3%A9culaires_d%E2%80%99Auguste