quarta-feira, 30 de maio de 2018


Júlia Domna, uma síria que governou Roma

Quando à cerca de quarenta anos num lote de moedas encontrei uma que não consegui identificar, estava longe de imaginar a paixão que viria a ter pela numismática romana.
A moeda em mau estado de conservação despertou a minha curiosidade pela sua irregularidade, deixava entrever os traços do rosto de uma mulher, na minha época de ajuntador, habituado a ver moedas bem redondas.

Passado algum tempo  soube que era  um sestércio da imperatriz Júlia Domna, esposa de Séptimo Severo, mas que pouco valor tinha  devido ao seu mau estado de conservação.
Começou então a minha pesquisa sobre a vida desta síria que segundo uma profecia astrológica estava destinada a desposar um rei, mas  não presagiava que um dia governasse Roma.
Pesquisa que originou um enorme desejo de ir mais além que se alargou a outras moedas, e me levou a escrever o livro História dos Monumentos Romanos Contada Através das Moedas.  
Segundos alguns históriadores Júlia Domna nasceu em Émeso (Síria) no ano 158. Era filha de Julius Bassianus grande sacerdote do templo de Émeso dedicado ao deus Baal, e casou com Séptimo Severo um senador de origem líbia, na ocasião governador da Gália Lionesa, no ano 180.
A história regista que Séptimo Severo escolheu Júlia Domna para sua esposa porque o seu horoscópio predia estar destinada a ser rainha.

Séptimo Severo já era viúvo e tinha mais de quarenta anos quando casou com Júlia Domna, o que indica que havia uma diferença de pelo menos vinte anos entre os esposos.
Após o casamento, Júlia Domna deixou a terra natal e seguiu, sempre, o esposo no exercício das suas funções; Lião(Gália)cidade em que no dia 04-04-188, ela deu à luz Marcus Aurelius Antoninus Bassianus ,futuro Caracala: Panónia, (actual Hungria) de 191 a193, Sicília, Milão  Roma, cidade onde no dia 27-05189, nasceu Lucius Publius Septimus Geta.
(Caracala, cognome dado ao imperador por este vestir com muita frequência um casaco comprido com capucho de estilo gaulês, chamado “caracala”).

               
Áureo    
Anv. IVLIA AVGVSTA   
Rev. AETERNIT IMPERI   
(Caracala e Geta)      
Muito inteligente, culta, curiosa, ávida de aprender, fez da corte de Séptimo Severo um centro de vida mundano e de actividades intelectuais. Gostava de conviver com filósofos e escritores; Filóstrato, Ulpiano, Paginiano e outros, eram alguns dos seus amigos.

         
 Áureo                                                                         
 Anv. IVLIA AVGSTA                                    
 Rev. LAETITIA   
                                         
Áureo
Anv. IVLIA AVGUSTA
Rev. DIANA LUCIFERA

A guerra cívil de Abril de 193 perturbou muito a vida do casal. Depois da morte de Pertinax (sucessor de Marco Aurélio), Pescinnius Niger, Clodius Albinus, e Séptimius Severus , foram aclamados imperadores e generais chefes  das suas respectivas legiões, repartidas em Antioquia (Turquia), na Bretanha (Inglaterra) e Carnuntum (Panónia).

Iniciou-se então uma luta pelo poder, Séptimo Severo, o primeiro a chegar a Roma em 09/06/193, eliminou os seus rivais. Pescinnius Niger em 194, e influenciado por Júlia Domna que compreendeu o perigo da divisão de poderes, declarou a guerra a Clodius Albinus que na ocasião (em 197) se encontrava na Europa Ocidental .

Vencido, este suicidou-se, e Séptimo Severo, montado no seu cavalo, espezinhou o cadáver.
Aclamado imperador Séptimo Severo e Júlia Domna instalaram-se em Roma.
Em compensação dos preciosos conselhos militares que Júlia dá ao esposo e pela sua constante presença junto das legiões, a imperatriz é nomeada MATER CASTRORVM (Mãe dos Campos), só Faustina, a Jovem, esposa de Marco Aurélio, tinha sido honorificada com este título.
Faustina foi a primeira mulher a entrar na Cúria Romana, tal foi a sua influência na política do império.

     
Asse
Anv. IVLIA AVGVSTA
Rev. MATER CASTRORVM 
(Mãe dos Campos)
                           

Denário
Anv. IVLIA AVGVSTA
Rev. MATRI CASTRORVM
(Mãe dos Campos)

O regresso de Júlia Domna a Roma não foi bem aceite por C. Fluvius Plautianus, o melhor amigo de Séptimo Severo. 
Nomeado Prefeito do Pretório, Consul e enobrecido, a sua influência era tanta que no ano 202 obrigou Caracala a casar com a sua filha Publia Fluvia “Plautilla” que Caracala detestava, e que segundo a história nunca teve relações íntimas com ela, por desconfiar da ambição do sogro.
Para descreditar Júlia Domna, Plautianus acusou-a de adultério mas Séptimo Severo não lhe prestou atenção.

Usando sua influência sobre seu filho Caracala, Júlia pediu-lhe para  assassinar Plautianus e repudiar Plautilla, o que este fez.
A imperatriz é mãe de dois potenciais sucessores. No ano 195, Caracala é nomeado César e Augusto em 198. 
Para evitar desigualdades e ciúmes entre os filhos, Júlia conseguiu que Geta fosse nomeado César em Janeiro de 198, mas só onze anos mais tarde será nomeado Augusto.

Segundo a história, Caracala era o filho preferido de Júlia, e os difamadores afirmavam que esta mantinha relações incestuosas com o filho. Os alexandrinos alcunharam-na de Jocasta. (Mãe de Édipo com quem casou sem saber que era seu filho, desta união incestuosa nasceram Etéocles, Polinices, Antigona, e Ismene: Jocasta enforcou-se de quando teve conhecimento que praticou incesto).

Algumas moedas da imperatriz cunhadas em diferentes épocas, têm gravados, os seus títulos honoríficos: MATER CAESARI em 195, MATER AVGVSTVS ET CAESARIS em 198, e MATER AUGVSTURVM em 209.

       
Áureo
Anv. IVLIA AVGVSTA
Rev. MATER AVGG   
(Mãe dos Augustos) 
       
Asse 
Anv. IVLIA AVGVSTA  
Rev. MATER AVGG / SC
(Mãe dos Augustos)
       
A Denário
Anv. IVLIA AVGVSTA
Rev. MATER AVGG
(Mãe dos Augustos)

Como o  imperador gostava de publicitar a família imperial e a fecundidade da esposa, mandou cunhar em moedas a imperatriz ladeada pelos filhos.

                      

Áureo
Anv. SEVER P AVG PM TRP X COS I I I
Rev. FELICITAS SAECVLI
(Caracala, Júlia Domna e Geta

O principado de Séptimo Severo foi movimentado devido à guerra com os partos: (povo estabelecido entre o Mar Cáspio e o Lago ou Mar de Aral), no ano 204 .
No mesmo ano, os jogos séculares organizados em Roma foram presididos por Júlia Domna.  (Séptimo Severo organizou os jogos seculares baseando-se no calendário etrusco, que tinha a particularidade de contar 110 anos).  

Áureo 
Anv. SEVERVS PIVS AVG 
Rev. COS III  LVDOS SAECVL FEC 
(Jogos seculares) 
       
Áureo
Anv. SEVERVS PIVS AVG
Rev. LAETICIA TEMPORVM
(Jogos seculares)  

Em 208 a família imperial deslocou-se à Bretânia, (Inglaterra) para expulsar os calédonios, território que Roma há muito tempo tentava conquistar, mas sem êxito.
Durante três anos a imperatriz permaneceu nas primeiras linhas ao lado do seu conjugue, e assistiu à assinatura do tratado da paz em 211. Encontrou e dialogou com as esposas dos chefes bretões e só regressou a Roma, após a morte natural devida ao cansaço das campanhas militares do marido em Eburacum (York) no dia 4 Fevereiro do mesmo ano.

Depois da  morte de Septimo Severo, Júlia Domna encontrou-se no poder com os filhos, então com as idades de 22 e 23, anos mas que se destestavam mutuamente.
Durante o reinado do marido ela conseguiu manter uma certa igualdade nos títulos concedidos aos filhos, mas os partidários de Caracala e de Geta guerreiam-se entre si para porem o seu lider a governar.
A partilha do império chegou mesmo a ser prevista. A rainha mãe opôs-se porque temia que originasse uma guerra civil.

Segundo o historiador Herodiano 170-250, (História dos Imperadores Romanos de Marco Aurélio a Gordiano, 4, 3, 8-9), para acalmar os filhos, ela pronunciou as seguintes palavras.
Meus  filhos, vós encontrareis uma maneira pacífica de usufruires da terra e do mar, pensem bem que as águas do Ponte (Mar Negro) separam os dois continentes.
Mas nossa mãe como faríeis vós a partilha? E como é que eu me vou ver na minha infelicidade com o coração repartido entre vós os dois?

Matar-me; que cada um de vós pegue em metade do meu corpo, e sepulte parte da minha pessoa. Podeis fazer com o corpo da vossa mãe a mesma repartição que pensais  fazer com a terra e o mar.
A partilha do império foi anulada, mas Caracala projectava assassinar o irmão, e mesmo a mãe, se esta lhe fizesse oposição. 

Foi assim que no dia 27 de Fevereiro 212, Caracala assassinou Geta com um golpe de espada quando este procurava refúgio nos braços da mãe.
Na impossibilidade de condenar o fratricídio, a imperatriz colabora e governa com Caracala, participando nas cerimónias políticas, religiosas e públicas como tinha feito com Séptimo Severo.
Ao mesmo tempo recebeu novos títulos MATER POPVLI ROMANI  e mesmo o de MATER VNIVERSI GENERIS HVMANI.
Entre 213 e 216, quando Caracala se encontrava  à frente das legiões a combater contra a Germânia e contra os partos, Júlia Domna deixou Roma e foi viver para Antioche onde se ocupava da correspondência do imperador.

Áureo
Anv. IVLIA PIA FELIX AVG
Rev. MAT AVGG MAT SEN M PATR
(Mãe dos Augustos, mãe do Senado, mãe da pátria)
       
Sestércio
Anv. IVLIA PIA FELIX AVG 
Rev. MAT AVGG MAT SEN M PATR /SC 
(Mãe dos Augustos, Mãe do Senado, Mãe da Pátria)
     
Denário
Anv. IVLIA PIA FELIX AVG
Rev. MAT AVGG MAT SEN M PATR
(Mãe dos Augustos, Mãe do Senado, Mãe da Pátria)

Assinava pessoalmente as cartas enviadas para o Senado, e discutia com o filho sobre questões económicas relativas ao soldo dos legionários.
Os romanos sentiram-se ofendidos com a participação da Mater Populi Romani na gestão dos assuntos do império. 
A imperatriz introduz igualmente em Roma novas modas e costumes oriundos do Oriente, nomeadamente novos penteados e perucas.

No ano 217, Júlia Domna, encontrava-se em Antioche quando recebeu uma mensagem a preveni-la de uma conjuração contra o imperador. Júlia não pode advertir o filho a tempo, e teve conhecimento da sua morte, assim como da tomada do poder por um dos conjurados: Macrino, um antigo amigo de Plautianus.

Júlia Domna já com cinquenta anos, ainda tentou reconquistar o poder com a ajuda  da guarda pretoriana em Antioche, mas sem sucesso. Vencida, Macrino consentiu que ela conservasse a sua fortuna pessoal e regressasse a Émeso, local onde faleceu em 211, vítima de greve de fome e de um cancro da mama, que há muito a fazia sofrer.
O seu corpo foi transladado para Roma e sepultado no mausoléo de Augusto.

MGeada

Bibliografia:

Michel; M. Galléazzi-Dictionnaire Latin-Français, appliqué aux inscriptions monnétaires romaines; Revigny 1994.
Sear; David R- Romain Coins and their values II- London, 2002, Spink, p.491. fig. 6562.
Weber; Frederic-Monnais Romaines, volume ICohen; Henri-Description Historique des Monnaies Frappées sous L’empire     Romain volume IV, Paris 1884.
Zosso; François / Zingg; Christien-Les Empereurs  Romains, 27 a.C.- 476 d.CParis, 1984.
Weber; Frederic-Monnais Romaines, volume ICohen; Henri-Description Historique des Monnaies Frappées sous L’empire     Romain volume IV, Paris 1884.
http://www.empereurs-romains.net
http://www.wildwinds.com

terça-feira, 24 de abril de 2018


 
  POR PREGOS

No dia 19 de julho de 1767 que em nome de sua majestade Jorge III da Inglaterra, Samuel Wallis tomou posse da ilha de Taiti (em francês Thaiti).

Foi durante uma viagem (volta ao mundo) empreendida em busca do Continente Austral (Terra Australis, conhecido também em latin como Terra Australis Incognita), um continente fictício que frequentemente aparecia em mapas europeus entre o século XV e XVII, antes do descobrimento da Austrália, que a ilha de Taiti foi descoberta.

Vindo do Estreito de Magalhães, o navio Dolphin (Delfim) comandado pelo inglês Samuel Wallis acostou na ilha de Otaheiti (Taiti) pelo sudoeste.
O golfinho foi recebido por grande número de pirogas e, como sinal de amizade a primeira exibia uma pequena bananeira.

Quando os taitianos subiram a bordo do Dolphin, recebiam facas e pregos de ferro em troca de bananas, cocos, frutos da ávore a pão e suínos, enquanto algumas embarcações foram a terra em busca de água, lenha para queimar e ao mesmo tempo conhecer um pouco da ilha.

A equipagem do Delfim, depressa descobriu a beleza encantadora das mulheres indígenas, cuja liberdade  e costumes os satisfazia plenamente.
Mas as coisas complicaram-se no dia em que elas decidiram negociar os seus serviços. Como os indígenas  adotaram o prego de ferro como unidade monetária, Samuel Wallis teve que abandonar rápidamente a ilha para impedir que os marinheiros lhe destruissem o navio para recuperarem pregos.

MGeada

quinta-feira, 29 de março de 2018



Na procura do dinheiro de Judas (A)

Tentar reconstruir uma história acerca do dinheiro que tenha sido objecto de troca na célebre traição de Judas, deveria, como trabalho de investigação, obedecer e respeitar certas características sobre o seu conceito e objectividade.
Em primeiro lugar exigirá o respeito pelo seu argumento histórico, e obviamente, uma comparação sobre as suas fontes, como forma da salvaguardar o melhor possível, tanto a sua fiabilidade, como a credibilidade, de que precisamos para corroborar os factos.
Infelizmente, neste caso, essa análise comparativa não será de todo possível, visto a sua génese, ter como único elemento de documentação, alguns legados evangélicos dos Apóstolos S. Marcos, S. Lucas, S. João e S. Mateus. Tudo o que realmente possuímos e sabemos sobre a traição de Judas, é-nos relatado por esses escritos bíblicos, e por isso também a análise terá de ser cautelosa e consciente, sobre a forma como o sentido místico em interpretações ulteriores, poderá ter tido influência e criado limitações quanto à veracidade dos factos.
Por tudo isto, nesta minha análise interpretativa deste “caso” histórico, pela sua forma intuitiva, torna-se mais empírica que científica.
Terá sido no ano19 d. C. no reinado do imperador Tibério que Jesus Cristo foi crucificado.
Nesse tempo, a Judeia era então uma província romana, e como tal nela se aplicariam as principais decisões que vinham de Roma. Seria portanto natural que a moeda principal que circulava fosse romana, ou provincial romana, embora se tenha conhecimento de que a algumas outras moedas fosse permitida a sua circulação, como o exemplo das moedas da dinastia de Heródes.
Na generalidade da literatura, argumenta-se que Judas terá recebido pelo préstimo da sua traição, trinta moedas de prata. Neste ponto creio que todos os historiadores convergem.
No meu ponto de vista, e para passar aos factos, pela característica que conhecemos hoje das moedas que então terão circulado, excluo as moedas de ouro como o”áureo”, o ”quinário” em prata, assim como os “sestércios”, “dupôndios” e “asses”, geralmente cunhados em bronze.
Interessante salientar contudo, que no reinado de Tibério, só foram cunhados dois tipos de “denário”(denário do latim denarius) em prata. Não havendo conhecimento de que tenha sido cunhado nenhum outro tipo de moeda em prata, durante o período deste imperador.

Tibério-Denário emitido no ano 14 d.C. em Lião (França) 3,78grs.)

O primeiro denário, cunhado no ano 14 d.C. em Lião, apresenta no anverso o busto do imperador Tibério com a legenda “TI CAESAR DIVI AVG F AVGVSTVS”. No reverso apresenta Lívia, (sua mãe) ou a Pax, sentada, com um ramo de oliveira na mão esquerda, e um bastão na mão direita, com a legenda “PONTIF MAXIM”. ( Há divergências acerca da  figura do reverso).
O segundo, terá sido cunhado no ano 16 d.C., e igualmente em Lião. Também este apresenta no anverso, o busto de Tibério, com a mesma legenda do primeiro. No reverso, apresenta o imperador conduzindo uma quadriga, com a legenda “TR POT XVII IMP VII”. O seu peso era variável, e valeria o equivalente a dez “asses”.
Temos então, que estas moedas circulariam em todo o império, aquando da morte de Jesus Cristo. E, poderíamos concluir, que qualquer destas moedas “denários”teria grandes probabilidades de ter servido de aliciamento no negócio que propuseram a Judas. Mas, porque não inclui-los também misturados com outras moedas, ou simplesmente um outro tipo de moeda em prata?
Alguns elementos substanciais transmitidos no legado dos quatro apóstolos servem para esclarecer algumas dúvidas sobre estas hipóteses.
Hoje, no nosso quotidiano, e na nossa cultura, utilizamos o termo “dinheiro”. Mas, na ligação que se lhe faz, quando se menciona este caso de Judas, a palavra “dinheiro”, terá evoluído, e colado na sua identificação popular, aparecendo o termo tanto na literatura, como no cinema, e em que usado desta forma, se estará a deformar uma realidade histórica.

Tibério-Denário emitido no ano 16 d.C. em Lião - 3,94grs.)



Nas sagradas escrituras, no que pesquisei, não vi mencionada a palavra “dinheiro”. Uma bíblia editada em 1859, que folheei numa biblioteca, foi-me bastante útil.
Dos quatro evangelistas que se referem a este caso, dois deles, S .Marcos e S. Lucas, afirmam que Judas vendeu Jesus, mas sem dar pormenores sobre o montante do negócio.
No evangelho de S. João, faz referência a trinta moedas de prata.
É contudo, S. Mateus que na sua narração, nos poderá esclarecer mais sobre este assunto.
Acusando o seu condiscípulo Judas, por este ter vendido o Mestre pela soma de trinta “siclos”de prata. Teria ele sido colector de impostos para falar desta maneira tão formal, no que se refere a “siclos”de prata?
Não encontrei nada, que me tenha dado indicação de que alguma vez se tenha usado a palavra “siclo” em referência  ao assunto que tratamos.
O termo “siclo” é conhecido como uma medida antiga, que equivalia a 6 gramas de prata.
Mas na narrativa de S.Mateus, também poderia ser a moeda de prata utilizada por fenícios e hebreus, que em hebraico era designado por “shekel”.
É pois muito provável que Judas tenha traído, e sido pago com 30 (trinta) “shekels” de prata.
Julgo que naquela época, o único tipo de moeda de 1 (um) shekel em prata que circulou na região tenha sido o “shekel” dito de Jerusalém (como nas moedas de Tiro).

Era uma moeda que pesava mais ou menos 14 a 15 gramas, e circulou em grande quantidade, tendo sido feitas várias cunhagens deste tipo de moeda. Uma delas foi precisamente no ano 33 d.C. O ano da suposta morte de Jesus Cristo? Aqui também existem muitas divergências, embora as datas que aparecem com mais frequência sejam entre os anos 30 e 33 d.C.
O “shekel de Jerusalém” em baixo retratado, apresenta no anverso o rosto do antigo deus Melkart, também conhecido por Baal, virado à direita, e no reverso apresenta uma águia virada à esquerda.

Judeia-Shequel de prata 14,27grs. cunhado em Jerusalém 12/11 a.C., ((  provavelmente terá servido de tributo a Judas)) A efígie de Melkart é totalmente diferente do shekel de Tiro).

Atendendo a que o preço de um escravo, naquela época, seria de 180 g de prata, poderemos calcular que Judas no negócio efectuado, teria vendido o Mestre por cerca de 4,250 Kg de prata.
Creio pois, ser o “shekel de Jerusalém” a mais provável moeda que procuramos identificar nesta história, pese embora o risco de decepcionar alguns coleccionadores que já possuam uma, ou as duas variantes do “denário” de Tibério, denominados por “dinheiro de Judas”.
Contudo, estes dois “denários” continuam a ser extremamente interessantes, quem sabe se não terão sido utilizados pelos soldados romanos que guardavam o sepulcro, enquanto jogavam aos dados sobre a túnica de Jesus Cristo, o que lhes confere sempre uma grande história.
O que lamentamos, é que ao longo dos tempos o conceito que nos parece mais plausível para esta história, por motivos menores, se tenha adulterado, e sobreposto ao texto original.
Dizer que Judas entregou Jesus Cristo por 30 dinheiros, sempre é mais cómodo que dizer, Judas entregou Jesus Cristo por 30 shekels.
Afirmar quais as moedas que pagaram a traição de Judas, é tarefa difícil, senão impossível.
Denários da época de Augusto? Dracmas, siclos, ou shekels?
Pouco provável é que tenha recebido denários de Tibério. Isto porque mesmo as cunhagens em grande quantidade, demoravam muito tempo a entrar em circulação, sobretudo nas províncias longínquas do império, como a Judeia onde circulavam muitos tipos de moeda.
Esta questão, levantou-se na Idade Média, e foi proposto ou entendido pelos dirigentes eclesiásticos da época, que a moeda representativa desse facto histórico deveria ser uma moeda que representava Cristo com uma coroa de espinhos. De facto existe um “dracma”de Rodes que representa o deus Hélios ( na mitologia associado ao Sol), com a cabeça adornada com raios, parecendo Jesus Cristo com a coroa de espinhos. Essas moedas, foram na época alvo de uma grande devoção.

Cária-Rodes, Dracma 175-170 a.C.

 Porque razão Judas traíu Cristo?

Durante séculos, este personagem tem fascinado teólogos, artistas, intelectuais, que se interrogam motivo que o levou a cometer este crime, e avançam com algumas hipóteses.


Judas Iscariote (ou Iscariot ou Iscarioth) foi segundo a tradição cristã, um dos doze apóstolos de Jesus de Nazaré.
Segundo os evangelhos canônicos, Judas facilitou a prisão de Jesus por internédio dos  sumos sacerdotes de Jerusalém, que em seguida o entregaram a Ponce Pilatos.

A figura “evanescente” deste personagem é motivo de muita controvérsia na historiografia cristã, a sua autenticidade permanece muito frágil e levanta dúvidas sobre uma parcela significativa das críticas.
Bandido ou revolucionário?
O cristianismo baseado no evangelho de João, fez de Judas um vulgar criminoso atraído pelo dinheiro fácil, que entregou o mestre por algumas moedas.
Mas, esta hipótese é muito contestada:  a quantia oferecida a Judas  pelos romanos  (trinta denários ?) é insignificante,  porque Judas enquanto tesoureiro dos apóstolos tinha oportunidade de se apropriar importâncias  mais elevadas. 


“O seu nome Iscariotes, também faz pensar que era, ou foi membro dos sicários, judeus “zelotes” que defendiam a rebelião armada contra os romanos.
Finalmente decepcionado por Jesus um Messias muito pacifista, terá motivado Judas a cometer a sua traição.

Todavia, a influência dos sicários parece ser posterior à morte de Jesus.
No entanto, a pista de um conflito, uma  incompatibilidade ideológica entre um dirigente idealista e Judas, continua a ser possível.

(Sicário :(em latin sicarius) - “homem da adaga”, é um termo aplicado nas décadas imediatamente precedentes à destruição de Jerusalém no ano 70, para definir um grupo extremista separatista de zelotas judeus que tentavam expulsar os romanos e seus simpatizantes da Judeia.
Os sicários utilizavam a “sica”, termo latino para um tipo de adaga pequena que escondiam nos seus mantos).

Aquando de reuniões públicas, eles sacavam estas adagas para atacar os romanos ou judeus simpatizantes, se misturando depois à multidão para se escaparem.
Os sicários foram um dos primeiros grupos organizados cujo objetivo era a realização de assassinatos, muito antes dos assassinos  do Oriente Médo e dos ninjas japoneses.


Judas, um traidor necessário?
Antes do reaparecimento do Evangelho de Judas, a teologia já tinha avançado com a possibilidade de um “traidor messiânico”, sacrificado para que se realizasse o destino de Jesus.
Efetivamente, sem Judas não teria havido cruxificação nem ressurreição.
A questão da punição divina reservada a Judas e, uma possível indulgência tem sido um assunto de muitas divergências nos debates teológicos.
O olhar, (ou por outras palavras  direi o julgamento do cristão),  sobre este personagem amaldiçoado, passou a ser mais indulgente a partir século XIX.

O Novo Testamento, dá-nos duas versões diferentes sobre a morte de Judas.
No Evangelho segundo São Mateus, Judas morre logo após a condenação de Jesus.
Este cheio de remorso foi ao encontro dos sacerdotes e anciãos e disse-lhes.
Pequei traindo um inocente.  Em seguida retirou-se , atirou com as moedas para o templo e enforcou-se. (Mateus 27,5 TOB).


Os atos dos Apóstolos (1,18) dão-os outra versão.
“Depois de adquirir um campo com o salário do seu crime, Judas caíu , quebrou pelo meio e, todas as suas entranhas se espalharam à sua volta.


Há dois mil anos, Judas Iscariotes entrou para a história por ter entregado Cristo a troco de algum dinheiro.
Todavia, o enigna referente à quantia e  identificação das moedas  que recebeu em troco da sua traição, ainda não foi desvendado.

Manuel Félix Geada Sousa


Bibliografia

André Paul ; La Bible avant la Bible : La grande révélation des manuscrists de la Mer Morte, éd. Cerf, Paris, 2 005.
James M. Robinson; Les secrets de Judas, Histoire de l’apôtre incompris et de son evangile- éd. Michel Lafon, 2 000.
Le Douzième Apôtre; Fac- Reflexion n°22, Fevereiro 1993, PP 14-26 (Le cas de Judas et la doctrine de la reprobation)
Centre Numismatique du Palais-V. S. O.  Paris 28-06-2002. 

Notas e referências

Mireille Hadas Lebel, Jerusalém contre Rome, éd. Cerf, Paris 1 990, p, 416-417.
Simon Claude Mimouni, La figure de Judas et les origines du christianisme : entre tradition et histoire, publié par Maddalena  Scopello, éd. Brill, Danvers, 2 008.
Simon Claude Mimouni, Le judaisme ancien du VI a.C., au III siècle d.C., éd. PUF,  2 012, p, 469.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Sete? reis que governaram Roma.

Reverso de um denário do imperador Adriano cunhado em Roma, 134-138
Rómulo vestido de militar com lança e troféu caminhando para a diteita;
ROMVLO CONDITORI ( Rómulo o fundador)

A Realeza (ou Monarquia) Romana “Regnum Romagnum” é a primeira e menos conhecida dos períodos da história da Roma Antiga.
Segundo a tradição este período monárquico começou com a fundação da cidade por Romulus e Remus (Rómulo e Remo) no ano 753 a.C, e terminou com a revolução do ano 509 a.C. (com a expulção do último rei Etrusco, “Tarquínio o Soberbo”), para dar lugar à República Romana.

Como escreveu Dominique Briquel (arqueólogo especialista em etruscologia e pré-romano) o nome de Romulus (= de Roma, dos romanos), deriva de Roma por isso alguns historiadores dizem que a lenda deste personagem é uma pura invenção. 

A história da fundação da cidade, é uma das lendas mais conhecida e mais contestada sobre a Cidade eterna.
A lenda básica da forma como Rómulo foi o primeiro rei de Roma, começou com o deus Marte fecundando uma Virgem Vestale chamada Reia Sílvia, filha de Numitor rei de Alba Longa, mas deposto por seu irmão Amúlio.

Grande parte dos históriadores antigos reconhecem sete reis.
Quatro Latinos e Sabinos, seguidos por três Etruscos que conforme a aliança entre os dois povos, durante dois séculos e meio vão governar Roma. Todos eles contribuiram para a expansão da nova cidade: Roma.

Segue-se a lista dos reis e principais eventos dos seus reinados.

“Todos os retratos são fictivos”


Rómulo ou Rômulo (Romulus) rei latino, reinou de 753 a 715 a.C.
Neto do rei de Alba Longa, fundou a cidade de Roma  (Roma quadrata do Palatino), Rapto das Sabinas e anexação a Roma do Monte Quirinal.

Segundo Marco Terêncio “Varrão”, um líder etrusco chamado Caelius Vibenna teria ajudado Rómulo nas guerras contra Titius Tatius (Tito Cássio).
Este se teria estabelecido com os seus homens numa  colina de Roma, hoje conhecida por Caelius, cujo nome deriva dele.
(Segundo uma das muitas mitologias de Roma que consultei, Tito Lácio era rei dos Sabinos no tempo em que Rómulo governava Roma).


Nuna Pompílio (Numa Pompilius)
Rei Sabino, reinou de 715 a 672/ a.C.
Rei pacífico e religioso, inspirado pele Ninfa Egeria.
Fundou o Colégio dos Pontifícios e construiu o Templo de Jano.



Túlio Hostílio (Tullus Hostilius)
Rei Romano e grande guerreiro, reinou de 672 a 640 a.C.
Destruiu a cidade de Alba Longa. (Luta lendária dos Hortis e Curis) e
Conquistou o Lácio (Latium).


Anco Márcio (Ancus Marcius)
Rei Sabino (neto de Numa Pompílio), reinou de 640 a 616 a.C.
Foi o quarto rei da cidade e o último de origem Sabina.
Pacífico e religioso, fundou a cidade de Hóstia.

(Para muitos historiadores, estes primeiros quatro reis são considerados lendários. Sendo assim que data atribuir à fundação de Roma ? )


Tarquínio o antigo (Lucius Tarquinius Priscus)
Rei Etrusco, reinou de 616 a 578 a.C.
Guardião dos filhos de Ancus Marcius e grande construtor, embelezou Roma, iniciou a construção do Capitólio, do grande esgoto, construiu uma arena para jogos e divertimento dos reis Etrusos.
Mais tarde neste local  foi contruído o Grande Circo, (ou Circo Máximo, em latin Cloaca Maxima).


Sérvio Túlio, (Servius Tullius)
De origem Tarquínia, reinou de 578 a 539 a. C.
Grande administrador, dividiu o povo em quatro tribos territoriais; Suburana, Palatina, Esquilina, Colina, e em “cinco ou  sete” ? classes sociais segundo as suas fortunas.
Organizou o exército dividindo-o em centúrias, contruiu a primeira muralha de Roma, também conhecida por muro de Servius.
Iniciou a construção do Templo de Júpiter Ótimo Maximo (Jupiter Optimus Maximus) também conhecido por Templo de Júpiter Capitolino.
(Uma centútria = 100 legionários).


Lúcio Tarquínio o Soberbo (Lucius Tarquinius Superbus)
De origem Etrusca, reinou de 539 a. C. a 509 a. C..
Rei Etrusco, reinou de 534 a 509
Terminou a obra do seu pai (Templo de Júpiter Capitolino).
Devido à sua violência, foi destronado pelo povo.

O rei Etrusco Porsena que terá dominado Roma por cerca de 508-507 a.C., não faz parte da lista estabelecida por Fabius Pictor (o mais antigo escritor romano, III século a.C.).
As datas são mais indicativas do que precisas inclusivo para os reis do período Etrusco.
As durações dos reinados diferem de um autor para outro, assim o resumo histórico do livro II da República de Cicero, começa a partir do ano 750, em vez de 753, e dá 37 e 39 anos para os reinados de Rómulo e Numa Pompílio.


Porcena (Porcinna ou Porsena)
“Duvidoso” rei de Roma  no ano 507 a.C.
Rei da cidade Etrusca de Clúsio, quando o rei Tarquínio o Soberbo foi expulso, aproveitou-se da ocasião para declarar guerra a Roma. 
Segundo a lenda romana, no ano 507 a.C. o rei cercou a cidade, e provavelmente nela se teria instalado se Horácio Cocles não o tivesse impedido defendendo a ponte pela qual o inimigo iria atravessar o rio Tibre.

Na luta teria participado o valoroso romano Caio Múcio Cévola. Deste episódio faz parte a história de Clélia, uma virgem romana prisioneira no acampamento real, que conseguiu fugir atravessando o rio Tibre a nado.

Ao contrário dos quatro primeiros reis de Roma considerados como lendários, a existência dos reis Etruscos que governaram Roma  nos séculos  VII e VI séculos a.C., são considerados um facto histórico.
No entanto se a  lista tradicional limitada aos Tarquínios não está em dúvida, a tradicional lista limitada aos dois Tarquínios e a Servius Tulius, é posta em dúvida pelos historiadores.

O historiador romano Quintus Fabius Pictor por volta do ano 260 a.C., estabeleceu uma lista  de sete soberanos par 243 anos de monárquia, com uma média de 35 anos por reinado.
Esta lista foi retomada por todos os historiadores dos séculos seguintes e constitui a lista tradicional dos reis de Roma.

Na opinião dos historiadores modernos, os nomes, origens e datas dos reinados dos quatro primeiros reis (Latinos e Sabinos) são mais lendários que históricos, enquanto os últimos três reis de origem Etrusca, são considerados verdadeiros

Jacques Heurgon e Alain Hus, consideram que a diferenciação feita pelos analistas entre Tarquínio o Antigo e Tarquínio o Soberbo não é correta, e que os reis Tarquínios foram mais numerosos.
Além disso, Servius Tulius cujo reinado é inserido durante o curso desta dinastia, terá sido precedido por um curto espaço de tempo por Aulus Vibenna.

Sendo assim, J. Heurgon  propõe o seguinte cenário: Porsena rei de Closium, tal como Tarquínia e Vulci já o tinham feito, também organizou uma invasão do Lácio, expulsou os Tarquínios e ocupou Roma.
Em seguida atacou Aricie, oponde-se à coligação dos Latinos com  Cumas (Cumae) que o derrotaram.
(Cumas foi uma antiga colónia grega fundada por volta do ano 750 a. C., na Campânia a cerca de vinte quilómetros de Nápoles).

Huergon disse  que os Fastes Consulares (listas cronológicas dos consules utilizadas na Roma Antiga como calendário de referência), dos primeiros anos da República designa vários magistrados com nomes de origem Etrusca: Larcius em 506, 498, 490 a.C., Herminius em 506 a.C., Aquillius Tuscus em 487 a.C., indícios de uma influência Etrusca durante muito tempo em Roma antes do ano 509.
A partida dos Tarquínios não significa o fim da influência Etrusca. Por outro lado, Mireille Cébellac Gervanosi considera que o predomínio de Porsena sobre Roma foi de curta duração, e não se pode considerar como um reinado.

MGeada

Bibliografia 

Alexandre Grandazzi; A Fundação de Roma - edição Les Belles Lettres, reedição 1997.
Denys d'Halicarnasse; Les Antiquités Romaines - éditions les Belles Lettres 1990.
Dionísio de Halicarnasse ; As Antiguidades Romanas - IV, 64.
Dionísio de  Halicarnasse; As Antiguidades Romanas - IV, 66
Laura Lorvieto; Contes e Legendes de la Naissance de Rome - outubro 1998.
Pierre Grimal; La Civilisation Romaine - éditions Harthaud  - 1960, éditions Flammarion 1981.
Tite Live; La Fundation de Rome - editions Flammarion, abril 1999.  
https://pt.wiquipedia.org/wiki/Cumas






quarta-feira, 31 de janeiro de 2018


Reis estrangeiros coroados em Roma

A omnipotência do Império Romano fez que muitas vezes reis estrangeiros fossem coroados em Roma. 
Estes eventos por vezes foram representados nas cunhagens do Império. A primeira referência à nomeação de um rei é indireta.

As moedas do imperador Nero que mostram o templo de Jano (Janvs) com as portas fechadas, ilustram o resultado de uma dessas nomeações.
Com efeito por cerca do ano 64, o rei arménio Tridate foi a Roma e implorou Nero que lhe retirasse a sua tiara (espécie de coroa) e lhe cobrisse a cabeça com um diadema.

Este evento mostra que a paz está assegurada no mundo inteiro, e Nero fechou a porta do templo de Jano.
Estas portas chamadas “Portas de Jano”, eram fechadas em tempo de paz e abertas em tempo de guerra, para que o Deus pudesse sair em socorro dos romanos.

Nero-Sestércio cunhado em Lião (França) no ano 65
Anv./-Nero laureado à direita;
NERO CLAVD CAESAR AVG GERM P M TR P IMP P P
Rev./-Templo de Jano com uma guirlanda por cima das portas fechadas, e uma janela com grades;
PACE P R TERRA MARIQ PARTA IANVM CLVSIT S C
(Ref. RIC-438, Sear-1958, Cohen-146)


Repúbica Romana (emissão anónima)-Didracma cunhado em Roma cerca de 225-216 a.C.Anv./-Cabeca de Jano (o deus com duas faces);
Rev/- Júpiter com um raio e um cetro, conduzindo uma quadriga; ROMA
(Ref. RCV-31)

Na ocasião as coortes armadas (unidade básica das legiões romanas, cerca de 600 homens,= décima parte de uma legião) estavam estacionadas perto dos templos do Fórum Romano.
Moedas deste imperador mostram Nero na Tribuna da Arenga, sentado numa cadeira curul, trajado com roupa de triunfador, algumas insígnias e estandartes.

Suetónio, na  vida dos doze Césares - Nero XIII, dá-os a seguite informação.
Primeiro o rei Tridate subiu uma rampa, ajoelhou-se diante de Nero que lhe  estendeu a mão para ajudá-lo a levantar-se e abraçaram-se em sinal de amizade.

Enquanto o imperador ouvia as suas súplicas, retirou-lhe a tiara (espécie de coroa), coroou-o com um diadema, enquanto um magistrado repetia ao povo (em latin) as palavras do rei.
Depois de Triade ter saudado o imperador pelo seu gesto, Nero depositou uma coroa de louro no Capitólio, e fechou as portas do templo de Jano, estimando que já não havia nenhuma guerra.  

Mais tarde, o imperador Trajano iniciou uma campanha contra os Arménios e Partas sob o protexto que um novo rei da Arménia, em vez de receber o diadema das suas  mãos, recebeu-o das mãos do rei dos Partas.

O resultado desta guerra e vitória de Trajano, deu origem a que seja ele a desgignar o novo rei dos reis. Este acontecimento será representado em algunmas das suas emissões monetárias.

De notar no reverso deste sestércio de Trajano, a importância dada ao imperador que sentado é mais alto que o soldado romano detrás dele e também maior que o rei dos partas.
Este parece cobrir o rosto com um gesto semelhante ao da Pudicitia (personificação da Modestia e Castidade).

Segundo Dião Cássio, História Romana, livro 69, Trajano XVII,  Trajano empreendeu a campanha  contra os Arménios e Partas, sob um falso  pretexto, na realidade foi para satisfazer o seu desejo de Glória.


Trajano-Sestércio cunhado em Roma 115-117
Anv./-Trajano laureado e drapeado à direita;
IMP CAES NERV AVG GER DAC PARTHICO PM TRP COS VI  PP
Rev./-Trajano numa tribuna sentado numa cadeira curul, coroando o rei Parthamaspátes, um parto com um joelho no chão, soldado romano por trás do imperador;   
REX PARTHIS DATVS   
(RIC- 667, Cohen, 329, BMC, 1046, Sear, 3191)

No reinado de Antonino Pio, a celebração da nomenação do rei do Partas é ilustrada nos seus sestércios.
Uma vez mais o imperador é representado com mais estatura que o rei dos arménios ao colocar-lhe o diadema na cabeça.


Antonino Pio-Sestércio cunhado em Roma em 142
Anv./-Antonino laureado à direita;
ANTONINVS AVG PIVS P P TR P COS III;
Rev,/-Antonino em pé vestido com a toga, segurando com a mão esquerda o manto e  com a mão pousando a Tiara na cabeça do rei Arménio;
REX ARMRNIS DATYS    SC
(Ref. -RIC-619, Banti-322)

Durante a campanha oriental de Lúcio Vero, um rei foi dado aos Arménios.
Tal como nos sestércios de Trajano, o imperador é representado maior do que todos os outros personagens presentes.
De notar que desta vez o imperador está no centro da moeda.
Como Trajano. o rei oriental parece esconder o rosto. 


Lúcio Vero-´Sureo cunhado em roma no ano 164
Anv./-Lúcio cabeça nua à direita ;
VERVS AVG ARMENIACVS
Rev./-Vero numa plataforma, sentado numa cadeira curul, ladeado por dois magistrados, estendendo a mão direita para coroar o rei Arménio, enquanto o rei levanta a mão para “ajustar o diadema”.
(Ref. RIC-512, ((R-2)); BMCRE-300)

MGeada

Bibliografia

Mireille Cébeillac, Gervasoni, Alain Chauvot; Histoire Romaine, Paris 2013
Michel Christol et Daniel Nony ; Rome et son empire, des origines aux invasions barbares-editions Hachete 1974.
http://www.arsclassicacoins.com/