quinta-feira, 27 de setembro de 2018


Júlio César
O homem que pretendia ser um deus

Caio Júlio César (CAIVS IVLIVS  CAESAR) nasceu em Roma a 13 de julho do ano 100 a C. e faleceu a 15 de março de 44.

César nasceu no seio de uma antiga família patrícia (IVLIVS)  romana  e enquanto jovem viveu em Suburra, naquela época bairro da classe média de Roma, mais tarde, o bairro dos pobres.
Segundo a lenda, a sua ascendência chegava a IVLVS, filho do príncipe troiano Eneias e neto da deusa Vénus.

No auge do seu poder, César iniciou a construção dum templo em Roma dedicado à Vénus Genetrix, em honra da sua divina antepassada, a deusa Vénus.
Seu pai Caio Júlio César, era um simples cidadão, enquanto sua mãe Aurélia pertência à ilustre família COTTAE.


Templo de Vénus Vitrix mandado construir por Júlio César no ano 46 a.C., no Fórum Romano, VIII região.

Júlio César – Denário cunhado em Roma em fevereiro ou março do ano 44 a.C.
Anv./- César velado à esquerda
CAESAR DICT PERFETVO
Rev./-Vénus Vitrix virada à esquerda com uma Vitória na mão direita, cetro na esquerda e escudo cima de um escudo
P. SEPVLLIVS (monetário)
(Ref. Crawford-480/13, CRI- 107d, RSC-39)

Patrício, líder militar e político romano, desempenhou um papel essencial na transformação da República Romana no Império Romano.
O seu destino excepcional marcou o mundo romano e a história universal.
Ambicioso e brilhante, apoiou-se na corrente reformista e demagogista para a sua ascensão política.
Chefe de guerra e hábil estrategista, alargou as fronteiras do Império até ao Reno e ao Atlântico, antes de utilizar as legiões para se emparar do poder e impor-se como  ditador à vida.

Júlio César – Denário legionário cunhado no ano 40 a.C.
Anv./- Busto de César laureado à direita  S C
Rev./-Estandarte legionário cetro e charrua
TI SEMPRONIVOS GRACCVS  Q DESIG
(Ref. Crawford-525/4ª, Sydenham-1129)

Endeusado, foi o seu filho adotivo Octávio (Augusto) que reformou a República Romana para dar lugar ao principado e ao Império Romano.
Suetónio que no início do século II da nossa era  escreveu uma das mais famosas biografias de Júlio César, relata que César faleceu com 56 anos de idade, e foi deificado (DIVINO JÚLIO) não só por decisão dos senadores, mas também segundo a firme convicção de Júlio César.

10-Augusto (Otaviano) e divino César – Duponduo cunhado na Itália no ano 38 a.C
Anv./- Busto de Augusto à direita
DIVI F CAESAR
Rev./-Busto de Júlio César laureado à direita 

Mais tarde a plebe mandou erigir no Foro uma coluna com cerca de 20 pés, em mármore da Numídia com a inscrição: Ao Pai da Nação.
Durante muito anos junto desta estátua, era hábito dos romanos oferecer sacrifícios, pronunciar votos e resolver alguns conflitos, jurando pelo nome de César. 

Não é fácil evocar os sentimentos religiosos de Júlio César, porque durante a sua vida já era considerado um verdadeiro mito literário e político.
A sua fama alcançou-a em grande parte graças aos seus comentários sobre a guerra das Gálias.

Denário em nome de Júlio César, cunhado por Octávio numa oficina móbil na Gália Subalpina no ano 43.aC.
Anv/-Busto de Vénus com diadema à direita
Rev./-Troféu de armas gaulesas composto por uma couraça, escudo e uma zorra na base à esqueda; à direita um escudo e duas lanças
(Ref. Carwford-480/1. Sydenham-1016)  

Foi Hirtius um dos seus tenentes. que  após a morte de César completou a sua obra inacabada, terminando o oitavo e último livro.
Do teste de César, ele disse que «era uma uma verdade admitida por toda a gente que não existe obra tão cuidadosamente escrita e, que ao bom estilo e à elegância natural da expressão, César juntou o talento para explicar os seus planos com uma exatidão absoluta».

Numerosos autores como Salústio, Virgílio, Horácio ou Suetónio, ficaram fascinados por César.
Os maiores biófragos gregos e romanos escreveram a sua vida.
César fascinou e irritou uns e outros. Lucan  aprecia pouco César por o considerar culpado pela guerra civil.

Quanto ao historiador grego Dião Cássio (Bitínia cerca de 155-aprox.229), no início do século III escreveu na sua História Romana o que ele pensa de César: «ninguém se decide  mais espontâneamente que César a cortejar e adular os homens menos considerados, e não recuava perante algum discurso nem qualquer ação para obter o que ambicionava.
Pouco lhe importava rebaixar-se um momento,  se esse gesto  mais tarde servisse a torná-lo mais forte.
Segundo este  historiador, César tem muitos defeitos: além de calculador, ambicioso, arrivista e cínico, também o tratou de populista. 

Como descendente de família patrícia, isto impunha a César uma série de consequência religiosas.
Aquando do funeral da sua tia ele terá pronunciado o seguinte discurso sobre a sua ascendência:
Do lado da minha mãe, a minha tia é descendente dos reis: Do lado do meu pai ela está relacionada com os deuses imortais.

Com efeito, é  de Ancus Marcius que são descendentes os Marcius Rex, e tal era o nome da sua mae; é de Vénus que os Jules são descendentes e nós somos descendentes desse ramo.
Ela junta ao carácter sagrado dos reis que são os mestres dos homens, a santidade dos deuses dos quais relevam mesmo os reis. 

Ignoramos se este discurso foi efetivamente pronunciado por Júlio César, ou se é apenas alguma invenção entre outras, de Suetónio que podemos recordar escreveu um século e meio após a morte de Júlio César.

De qualquer modo as moedas emitidas por César mostram efetivamente que ele assumia plenamente e plublicamente esta ascendência divina e real.
Numa moeda emitida em 47-46 a.C., vemos numa face a cabeça de Vénus, na outra Eneias trasnsportando (o pai) Anquises no ombro.

Júlio César – Denário militar cunhado na África do Norte em 47-46 a.C.
Anv./- Busto de Vénus com uma tira à direita
Rev./-Eneias com o pai Anquises ás costas e paládio na mão direita
(Ref. Crawford-458/1, Sydenham-1013)

No entanto ao considerarmos as suas origens mitológicas, notamos que todas as famílias patrícias da época tinham o seu próprio mito das origens.
A família de César não era nenhuma excepção.
Também se pode dizer que não existe nenhuma separação absoluta entre os fatos políticos religiosos. 

Quanto ao resto, primeiro parece que César terá seguido pelo menos durante algum tempo um caminho religiosamente correto ou seja conforme os deveres de um jovem aristocrata.

Aos 17 anos ele é Flâmine (sacerdote) de Júpiter.
Em 63 a.C., ocasião em que a sua carreira política já se encontra  bem avançada, tentou e obteve o cargo de Grande Pontífice que o propulsou a chefe da religião romana.

Sobre este sujeito, Plutarco e Suetónio, nas suas respetivas biografias concordam que César nao era um candidato iligítimo, mas que também não era o o candidato ideal para suportar este cargo.
Sobretudo as dois  biografistas afirmam que César superou os outros concurrentes, graças ás enormes quantidades de dinheiro que espalhou ao ponto que no dia da sua eleição disse à sua mãe: “Minha mãe, hoje vai ver o seu filho Grande Pontífice, ou então banido” .

Júlio César – denário cunhado em Útica no ano 46 a.C.
Anv./-Ceres com coroa de espigas e brincos à direita
COS TERT DICT ITER
Rev./- Insígnias Pontificaes, Simpulum, aspersor, vaso de sacrifício e lituus
AVGVR PONT MAX
(Ref. Crawford-4671/a, Sydenham-1023)

A crítica feita a César é a sua ambição sem escrúpulos, e o seu despreso pela religião que ele comprou ao preço do ouro.
Ao examinarmos as moedas de César, nada deixa parecer  um comportamento religioso anormal; César apresenta-se voluntariamente como chefe da religião tradicional romana: no reverso duma moeda emitida em 48/49, os elementos do culto, são simpulum, aspersor, vaso de sacrifício et litius são representados.
Este tradicional tema religioso aparece com muita frequência  nas moedas de César, nomeadamente nesta moeda emitida no ano 46 a.C., e muitas outras. 

Será que podemos culpar o Grande Pontífice, por qualquer que sejam  as condições da sua ascenção a esta função, e por ter assumido plenamente o seu papel?
Existe todavia nas moedas  Césarianas um aspecto menos conformista convencional.
Foi César o primeiro dirigente romano (enquanto vivo) a representar a sua efígie em moedas. 

Esta prática foi revolucionária; porque até a esta data só os deuses ou heróis, as figuras  mitológicas e excepcionalmente alguns mortais falecidos depois de um determinado  tempo, podiam ser representados.

César deu então um passo inovador,  mas não gozou muito do privilégio divino de ver o seu retrato nas suas moedas.
A reação republicana que o acusa principalmente de aspirar à realeza, lembrou-lhe a sua condição humana, apunhalando-o mortalmente nos ides de março do ano 44 a.C..
Após a sua morte César foi colocado entre os deuses e tornou-se  DIVIS JVLIVS, o «Divino Júlio».

Denário com a efígie de Julio César, cunhado por Augusto em 19-18 a.C.
Anv./- César laureado à direita
CAESAR AVGVSTVS
Rev./- Estrela com oito raios, um deles é um cometa
DIVVS IVLIV
A cometa de César é conhecida pelos autores antigos como sidus Lulium, (estrela Juliana) ou Caesaris astrum(estrela de César 
(Ref. Choen-98, RIC-253, Giard-1297)

Apesar de alguns sinais aparentemente fortes tais como: a representação do seu retrato em moedas, não temos a certeza se César queria realmente ser considerado como um deus enquanto vivo.
O historiador Velleius Paterculus (Marco Veleio Patérculo ca. 19 a.C.-ca. 31), relata que, quem mais o odiava foi Marco António seu colega durante o consulado, um homem pronto e disposto a qualquer ousadia.

Quando César estava sentado na rostra (rostrum, um pódio), aquando das celebrações das Festas Lupercais e Marco António lhe  colocou na cabeça a insignia da realeza na cabeça, ele empurrou-o mas não ficou ofendido. 

Júlio César – Denário emitido na Gália Subalpina por Marco António, no ano 43 a.C.
Anv./- Busto de Marco António à direita e lituus
M. ANTON
Rev./-Busto de Júlio César laureado à direita
CAESAR DIC
(Crawford-488/1, Sydenham-1165

Suetónio também evoca o mesmo episódio, e mostra que a opinião pública romana perante a ascenção de César, se interroga sobre os seus objetivos, e suspeitava que ele aspira ser rei de Roma.
Ele mesmo não consegue dissipar a suspeita da sua ambição; cependente um dia quando a multidão o saudou com esse nome, ele respondeu «que era César, não rei» e aquando das Lupercais na Tribuna da Arenga, ele rejeitou o diadema que o consul Marco António tentou várias vezes por-lhe na cabeça e pediu que o levassem à colina do Capitólio, ao  templo de Júpiter: o Bom, o Grande. 

A significação do diadema é política e religiosa: César ofereceu o diadema que recusou para ele mesmo  a Júpiter, um verdadeiro deus.
Além disso,  Suetónio escreveu sobre César que ele passa por ter abusado do poder e merecia ser assassinado.
Com efeito, na verdade não é suficiente aceitar as honras excessivas como aconteceu durante muitos consulados, que se seguiram a ditadura e a prefeitura dos costumos à vida, sem contar o prenome do imperador, o sobrenome de Pai da Pátria, uma estátua entre os reis, mas ele ainda permite atribuir-se prerrogativas que o elevam ao topo da humanidade.   

Júlio César – Denário cunhado em Roma em abril do ano 44 a.C
Anv./-Busto de César velado e laureado à direita
PARENS PATRIAE CAESAR
Rev./-C COS S SVTIVS AAR DIANVS, no campo, A A A F F
(Ref. Crawford-480/19, Sydenham-1069)

César tinha  no Senado e no seu tribunal um assento em ouro, uma biga e uma maca na procissao dos jogos do circo. Templos, altares, estátuas ao lado dos deuses, uma padiola de desfile , era Flâmine (em latim: Flamen)  na religiao romana, um sacerdote a quem era designado um dos deuses ou deusas patrocionados pelo Estado.), e deu o seu nome a um mês do ano, JULIU.

Além disso, não existiu nenhuma magistratura que ele não se atribuísse segundo a sua fantasia. (Suet., Caes 76).
Após tudo isto vemos que Suetónio pensava bem o que dizia, que César mereceu ser assassinado: que ele tivesse tido ou não a intenção de se fazer passar por um deus vivo, ele abusou de todas as formas do poder.

Finalmente os autores antigos também fazem a César censuras de ordem religosa.
César era agressivo e sacrilégio: como vimos, teria comprado o cargo de Grande Pontífice.
Em suma, ele terá instrumentalizado a religião para conseguir os seus objetivos políticos.
A prova de que César se serve da religião, Plutarco encontra-a na maneira como César se comportou perante os Germanos de Ariovisto (foi o chefe do povo germânico dos suevos), 101-cerca de 54 a.C.) durante a guerra das Gálias.

·                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Júlio César – Denário cunhado em Roma  no ano 44 a.C.
Anv./-César laureado à direita, simpulum e litius
CAESAR IMP
Rev./-Vénus em pé à esquerda com uma Vitória na mão direita, lança e escudo na esquerda. no campo G
M. METTIVS
(Ref. Crawford-480/3, CRI-100)

Segundo Plutarco o ardor ao combate dos germanos é confuso devido às predicações das suas sacerdotisas que pretendem conhecer o futuro pelo barulho da àgua, pelos turbilhão que elas fazem nos rios, e dizem para que nao iniciem o combate antes da lua nova.

César ciente desta predição e vendo os bárbaros indecisos, pensou que a melhor maneira de ganhar a batalha era de os irritar com algumas pequenas incursõs  e não aguardar o momento que lhes seria favorável.
Esta provocação irritou-os  tanto que eles esqueceram os conselhos das sacerdotisas e desceram dos seus refúgios na montanha para afrontar os romanos.
César não respeitou nada, nem sequer a supertição dos bárbaros o que lhe valeu a vitória militar. 

Geralmente os autores antigos concordam que César  nao respeitava nem os preságios nem os muitos sinais enviados pelos deuses.
Os exemplos são muitos. Suetónio  conta que «nenhum escrúpulo religioso lhe fazia abandonar ou diferer alguma das suas empresas ideias».
Apesar de uma vítima ter fugido- Quando uma vítima fugiu- Ainda que a vítima figisse no momento em que ele se preparava para a imolar, ele nao adiou a sua expedição contra Cipião e Juba. Mais no momento do desembarque César caiu, e virando o presságio a seu favor disse: «África conquistei-te» (Suet., Caes., 59).

Mais César teve a insolência de dizer ao ouvir um dia  um Arúspice (nome dado aos antigos sacerdotes romanos que adivinhavam o futuro mediante o exame das entranhas das vítimas) anunciar que os presságios eram fatais e que a vítima não tinha coração: «eles serão mais favoráveis quando eu quizer  e que não se deve  ter como prodígio um animal que não tem coração. 
Esta citação refere-se a uma piada duvidosa e sacrilégio, no mais puro estilo Suetoniano.

Embora se possa duvidar da sua autenticidade, que, no entanto expressa uma ideia importante: César não respeitava as mensagens divinas.
Segundo Valleius Paterculus esta incredulidade, esta cegueira, causou mesmo a sua perca.

Os deuses imortais tinham-lhe portanto enviado bons presságios e sinais do perigo que o ameaçava, e os Arúspices avisaram-no para que desconfiasse dos ides de Março.
Calpúrnia sua esposa assustada com uma visão noturna, implorou-o para que ficasse em casa esse dia.
Enfim entregaram-lhe alguns bilhetes que ele não chegou a ler, para o avisar da conspiração.

Aconteceu o inevitável, a força que distorce o julgamento daquele que quer mudar o destino. 

Esta moeda tem no anverso a efígie de Bruto à direita e a legenda
BRVT IMP L PLAET CEST
O reverso mostra-nos um boné frígio “sinal da liberdade” que era dado aos escravos livres, ladeado por dois punhais.
Isto assinala a intenção de Bruto de libertar Roma das ambições imperiais de Júlio César, e as armas destinadas para concluir este acto. Em baixo a data da morte de César: EID MAR – Idos de Março.
(Ref. RSC-15, Sear-1439, Sydenham-1301)

(O calendário romano regia-se por três datas fixas: calendas nonas e idos, com base nas fases da lua.
Os idos são a meio do mês, precisamente  15 de março, maio, julho e outubro, e dia 13 nos restantes meses).

Plutarco e Suetónio não têm um discurso diferente: apesar de ter sido avisado pelos deuses, César morreu. 
Finalmente podemos ter a impressão que César grande estratégista  e grande político, tenha cometido grandes erros de apreciação quanto às crenças religiosas dos seus contemporâneos, o que acabou por ocasionar a sua morte.
Mas ao afirmar isto todavia não respondo à questão inicial.
“César queria realmente ser considerado como um deus vivo”?

Os autores antigos refletem essa desordem e eventualmente as suas próprias crenças; mas que sabemos nós exactamente  sobre as idéias religiosas de César?
Salústio e Cícero divulgam o pensamento de César que, aquando do julgamento da conjuração de Catilina (político romano) no ano 63 a.C. perante o Senado disse.

Há quem pense que os conjurados devem ser executados . César por sua vez  rejeita a pene de morte por estar convencido que os deuses não quiseram fazer da morte um castigo, mas, que porque ela é a lei da natureza, o termo dos trabalhos e da misérias.
Assim o homem digno sage nunca a rejeita e o corajoso vai muitas vezes ao seu encontro.
(Lúcio Sérgio Catilina, 108-62 a.C., homem político romano conhecido por duas conjurações para derrubar o Senado da República Romana).

Não há dúvida que os ferros foram inventados para castigar alguém que cometa qualquer injustiça.
Melhor ainda, Salústio cita diretamente o discurso de César no Senado contra a pena de morte e terá declarado o seguinte: quanto ao castigo eu tenho,  penso  o direito de dizer o que é.
O luto, a miséria e a morte põe fim  a todas as infortunas e depois não há espaço para a preocupação nem alegria, (Salústio, Conjuração de Catilina LI).
Salústio e Cícero tiveram o mesmo pensamento que podemos resumir assim.
Depois da vida nada, e assim compreendemos melhor as atitudes de César e as incertezas dúvidas dos seus contemporâneos.

Para aprofundar o pensamento de César dispomos  também dos seus próprios escritos, a Guerra das Gálias e a Guerra Civil.
É certo que nestas obras César não fala das suas opiniões religiosas, mas dá indiretamente alguns elementos do seu pensamento.

Júlio César – Denário cunhado em Espanha em 46-45 a.C.
Anv./-busto de Vénus com diadema e colar: Cupido no seu ombro direito
Rev./-Cativos gauleses sentados por baixo de um troféu de armas gaulês
CAESAR
(Ref. Crawford-468/1, Sydenham-1014)

Podemos observar um certo afastamento de César em tudo que diz respeito à religião.
Ele descreve a religião dos gauleses ou alemães tal como um etnógrafo sem nenhuma preferência. (BG, VI, 13-14-16-18-21).
Para ele as crenças religiosas nunca são um obstáculo ás suas ações: não é questão ter em conta os presságios e augúrios como já nos demos conta.

Aos temores supersticiosos dos homens, ele responde com discursos racionais e desmistifica tanto quanto ele pode.   
Eventualmente César que conhece a facilidade dos homens a crerem no que eles querem (BG, III, 18,) utiliza estas crenças a seu favor. Em assuntos religiosos César é partidário do ceticismo. 
Assim quando Dunorix se recusa a embarcar com César para a Bretânia alegando razões religiosas, César que não acredita riu-se.
César cético, distante, e por vezes cínico, acreditará em deus, ou nos deuses do panteão romano?
Ele evoca raramente os deuses imortais e, quando o faz é para animar  o moral dos soldados após alguma desfeita, porque eles creem na existência dos deuses imortais .

Aqui mais uma vez César se serve da religião para seu interesse.
Os deuses imortais também aparecem na descrição da  religião gaulesa ou ainda como estátuas nos templos. 
César ao que parece não é politeísta. Será que ele acredita em deus?
Ele não acredita num deus único tipo judaico-cristã. O seu deus é uma mulher: a Fortuna cujo a nome aparece com muita frequência nos seus escritos.

A religião de César é um sentimento do destino que podemos resumir assim.
«Ajuda-te a ti mesmo e a Fortuna te ajudará... ou não».
Quanto à vida após a morte, César não acreditava o que explica a sua perseverança para obter de bons resultados políticos ou outros enquanto vivo.

À questão se César quis mesmo ser un deus, não podemos dizer nada, porque na sua «religião» pessoal nada se opunha.

Tempo de Júlio César
Otaviano – Denário, (oficina ambulante) cunhado em 39 a.C.
Anv/- Otaviano cabeça nua à direita
IMP CAESAR DIVI F III VIR ITER RPC
Rev./-Templo tetrastile encimado por uma estrela, na arquitrave com a legenda, DIVO IVL, ao centro figura a estátua de Júlio César. À esqueda altar aceso
Ref. Crawford-540/2, Sydenham-1338, Babelon-139, Sear-1545)

MGeada

Bibliografia
Bello Gallico; a Guerra das Gálias; edição digital-50.
Henri Plon, imprimeur éditeur: Histoire de Jules César, vol. 1 et 2, 1865.
Jean Malye ; La Véritable Histoire de Jules César, edition les Belles Lettres Paris 16-02-2017.
Jérôme Carcopino; Caio Júlio César, edição: Publicações Europa América.
Jesus Maeso de la Torre; Las Lágrimas de Júlio César (em espanhol)– outubro 2017
Joel Schmidt, (tradutor Neves Paulo); Júlio César, editora L & PM- Brasil 2006.
Luciano Canfora; Júlio César, um dictador democrático, impressão digital- 07-11-2000.
Victor Raquel; A guerra das Gálias, “Júlio César” - edições Silabo – 04-2004

Dião Cássio – L37.
Plutarco – Caes – 7, Caes – 21.
Suetónio Caes – 6, Caes - 77, Caes – 79, Caes – 85,  Caes – 87: (Caes = César).
Victor Raquel; A guerra das Gálias, “Júlio César” - edições Silabo – 04-2004

https://fr.wikipedia.org/wiki/Jules_C%C3%A9sar
https://www.iletaitunehistoire.com/genres/documentaires/lire/jules-cesar-bibliddoc_001

terça-feira, 28 de agosto de 2018


Moedas antigas gregas, assinadas pelos gravadores de cunhos.

Depois do século VII a.C., foram cunhados milhões de tipos de moedas.
A maioria dessas peças não foram assinadas pelos seus autores; no entanto, este acto que consiste a assinar uma moeda com o seu nome, do mesmo modo que um grande mestre de pintura assina o seu quadro, começou a ser praticada muito cedo pelos gravadores de cunhos de moedas gregas.

Naturalmente, foi a qualidade excepcional do trabalho desses gravadores, que lhes deu a possibilidade de assinar as suas obras. Vamos mostrar aqui uma breve visão geral desta prática, e alguns exemplos de moedas gregas assinadas pelos seus autores.

                                            
Sicília – Tetradrachma assinado por Euthidamos e Euménes cunhado em Siracusa, 415-410 a.C.
Anv./- Quadriga galopando para a direita, Niké voando para a esquerda coroando o auriga: no exergo, Cila nadando para a direita e golfinho;
(Na mitologia grega segundo Homero e Ovídeo , Cila era uma bela ninfa que se transformou em monstro marinho).
Rev./- Aretusa à esquerda rodeada por quatro golfinhos, com o cabelo ornamentado com espigas de trigo, colar, brincos, e assinaturas.
(Ref. Tuder 46 (A/15 – R/28), MIAMG-4951)
(Filha de Néreu, e mãe de Abas  filho de Netuno, Aretusa faz parte do cortejo de Artemis. Deusa da primavera, também ligada à vida selvagem e à caça)

Sicília – Decadrachme assinado por Kimon, cunhado em Siracusa 405-400 a.C.
Anv./- Quadriga galopando para a esquerda, uma Vitória coroando o auriga e troféu militar;
Rev/-Ninfa Aretusa à esquerda, rodeada por quatro golfinhos, com uma fita nos cabelos com a assinatura do gravador KI(mon), brincos e colar de pérolas.
(Ref. exemplar do museu de Berlim)

Com um peso de + ou – de 43,13grs., e um diâmetro de 35mm, o decadrachma de Siracusa é a maior moeda de prata da antiga Sicília.
O decadrachma não era destinado ao uso diàrio mas, a grandes negócios como a compra de madeira para construção naval e outros.

As assinaturas nas moedas gregas recolhidas na sua apogeu, permite-nos levantar o véu sobre a vida tão obscura dos gravadores, mostrando-nos os mais famosos de entre eles concorrendo ao mesmo tema, como se um esboço oficial lhes fosse imposto préviamente para uma exposição pública.
Estes artistas por vezes eram chamados para longe da sua terra natal, pelas diversas cidades que competem pelo seu talento e solicitam o seu cinzel.

Por exemplo: de Siracusa Evenéte passou por Evanete (cidade), Catânia, Camarina e Régio (na Calábria). Kimon Siracusa, Procles, trabalhou para Catãnia e Naxos; Aristoxéne para Metaponte e Heracleia.
Aconteceu que por vezes dois artistas colaborassem na gravação da mesma peça exemplo: Frígilo e Euarchidas em Siracusa e outros .

Resumo: quando vemos num medalheiro essas jóias inestimáveis com os nomes de Kimon, Evenéte, Eucleidas, Eumenes, Frígilo, Exaskestida e muitos outros, é-nos permitido comparar e discutir o seu estilo, o seu mérito, exactamente como nós julgamos as obras que os artistas contemporâneos nos mostram nas suas exposições.

Decadrachma assinado por Evenéte cunhado em Siracusa cerca do ano 400 a. C.
Anv/-quadriga galopando para a esquerda, Niké voando para a direita coroando o  auriga; no exergo troféu de armas constituído por uma couraça entre duas grevas, um escudo e um capaceto;
Rev./- Ninfa Aretusa à esquerda, coroada com espigas, bricos, colar, rodeada por quatro golfinhos, e assinatura sob o golfinho por baixo do pescoço.

Na Grécia Antiga, o par de grevas que equipava o hoplita (soldado de infantaria da Grécia), para proteger as canelas, denominava-se cnémide, era fabricado em bronze ou latão para os soldados. Para reis e generais, podiam ser em prata ou ouro, e possuiam forro de couro ou feltro.

Contexto histórico

A emissão destas moedas de prestígio, terá sido motivada pela comemoração da vitória de Siracusa sobre Atenas no ano 403 a. C.. O troféu de armas depositado sob a quadriga ilustra essa vitória.
Elas foram presumivelmente concedidas aos vencedores dos chamados jogos Atléticos dos Assinaros, organizados para celebrar essa vitória mas, elas também teriam respondido aos objectivos hegemônicos (do tirano da colónia grega de Siracusa)  Dionísio I (o Velho), nascido em 431, e falecido em 367 a.C., que queria tornar Siracusa em capital do mundo grego, após a queda de Atenas no ano 404 a.C..

Desde sempre, o decadrachma de Siracusa tem sido considerado como a obra-prima da numismática desde os tempos antigos e, ainda hoje permanece uma peça mítica, cujo preço em vendas públicas alcança recordes, para os exemplares em bom estado de conservação.

Uma das mais belas e importante moeda do mundo grego, uma celebração da beleza feminina, o decadrachma gravado por Evenéte, foi rápidamente imitado por outros artistas que trabalhavam para outras cidades, mas poucos alcançaram esta perfeição.
O retrato da ninfa Aretusa representa, o apogeu grego da beleza e um magnífico símbolo da liberdade.

Filha de Néreu e Doris, Aretusa segundo a lenda foi perseguida por Alfeu loucamente apaixonado por ela. Socorrida por golfinhos, ela conseguiu escapar-lhe: chegada em frente da ilha Ortiga, nas proximidades de Siracusa, Aretusa pediu ajuda à deusa Artemis que a transformou numa nascente que desde então se tornou o símbolo da cidade.

Sicília - segunda democracia (466-405), Tetradrachma cunhado em Siracusa por cerca do ano 415 a.C., assinado no anverso por  Frígilo e no reverso por Euarchidas.
Anv./- Quadriga galopando para a esquerda, conduzida por um auriga, este a ser coroado por uma Vitória, espiga e assinatura;
Rev./- Ninfa Aretusa com diadema e brincos, rodeada por quatro golfinhos e assinatura.
(Ref. Tuder 49 (V I -6/R30, SNG ANS- -276, BMC-159, Boston MFA-409)  

Sicília –Tetradrachma assinado por Euménes, cunhado em Siracusa, 415-405 a.C.
Anv./- Quadriga galopando para a esquerda conduzida por um auriga, este a ser coroado por uma Vitória voando para a direita, golfinho perseguindo um peixe;
Rev./- Aretusa à esquerda com brincos e colar, rodeada por quatro golfinhos, e assinatura.
(Ref. SNG ANS-264, SNG Lokett-963, weber-1597)

Sicília – Tetradrachma assinado por Euthidamos e Euménes, cunhado em Siracusa, 415-410 a.C.
Anv,/- Quadriga galopando para a direita, Niké voando para a esquerda coroando o auriga; no exergo, Cila nadando para a direita e golfinho;
Rev./- Aretusa à esquerda rodeada por quatro golfinhos, o cabelo ornamentado com espigas de trigo, colar e brincos.
(Ref. Tudeer 46 (A/15, - R/28, ANS- 273, MIANG-4951)

(Uma das muitas versões diz-nos que Cila era filha de Fórcis e Hécate ou ainda de Lâmia. Tal como acontece com a maioria dos deuses marinhos, por vezes também dizem ser  filha de Tifão e Equidna; Higino diz que ela foi morta por Hércules).

Sicília – sob o reinado de Dionísio I, 405-367 a.C.
Tetradrachma “assinado duas vezes por Kimon”, cunhado em Siracusa no ano 405 a.C.
Anv./- Aretusa virada ligeiramente à esquerda, com colar de pérolas e diadema no qual está inscrito o nome do gravador, K(IMΩ)N, e três golfinhos:
Rev. Quadriga galopando para a esquerda, Niké voando para a direita coroando o auriga. No exergo, a assinatura completa do artista Kimon e espiga de trigo.
(Ref. Jameson coll.-1835, SNG-Oxford- 2004, Nanteuil coll.-358)
(Raríssimo, sómente 5 exemplares conhecidos).

Sicília – Decadrachma cunhado em Siracusa assinado por Evenéte, 400-380 a.C.
Anv/- Quadriga galopando para a esquerda conduzida por um auriga a ser coroado por uma Vitória vo ando para a direita. No exergo, troféu de armas constituído por duas grevas, uma couraça e capacete;
Rev/- Aretusa à esquerda com uma coroa de espigas de trigo, brincos colar, quatro golfinhos, e assinatura sob o golfinho da situado por baixo da cabeça da ninfa.
(Ref. MIANG-4845 var., Dewing-876 A/3-R2)

MGeada

Bibliografia 

Artur John Evans; Siracusa- Medalhas de Siracusa e seus gravadores, crónica numismática,1891, pag. 275-376.
Dominique Gerin, Catherine Grandjean; La Monnaie Grecque – Paris 2011.
François Rebuffat : La Monnaie dans l’Antiquité, Paris 1996
Hèlene Nicolet Pierre ; Numismatique Grecque – Paris 2002
Jean Bruno Vigne ; La Vie des Monnaies Grecques-collection et placement – Paris, 01-01-1998.
Internet



sexta-feira, 27 de julho de 2018


Um novo aspecto do simbolismo da emissão monetária do milénio de Roma, no reinado do imperador Filipe I, o Árabe.
Os jogos seculares foram comemorados inúmeras vezes, e deram origem a muitas  emissões monetárias.
Os imperadores, Augusto, Domiciano e Septímio Severo, comemoraram este evento baseando-se no “calendário etrusco”, que tinha a particularidade de ter 110 anos .
Cláudio, Antonino Pio e Filipe, comemoraram  respectivamente os 800, 900 e o milénio de Roma, que é o assunto destas páginas.
Neste artigo vamos tentar fazer um balanço sobre as hipóteses da simbologia nos  reversos utilizados. 

Filipe I-Antoniniano cunhado em Roma  no ano 248
Anv./- Filipe com coroa radiada à direita
IMP PHILIPPVS AVG
Rev./- Leão caminhando para a direita
SAECVLARES AVGG  I = primeira oficina
 (Ref. RIC-12, RSC-173, Sear-8956)

Filipe I-Antoniniano cunhado em Roma em 248
Anv./- Filipe com coroa radiada à direita
IMP PHILIPVS
Rev./- Loba amamentando Rómulo e Remo
SAECVLARES AVGG   II, segunda oficina
(Ref. RIC IV/15, Cohen-178)

Filipe I-Antoniniano cunhado em Roma em 248
Anv./- Filipe I com coroa radiada à direita
IMP P PHILIPPVS AVG
Rev./- Bode  caminhando para a esquerda
SAECVLARES AVGG  III, terceira oficina
(Ref. RIC IV/22, RSC- 189)

Otacília Severa (esposa de Filipe I)-Antoniniano cunhado em Roma em 248
Anv./- Otacília com diadema e drapeada à direita
OTACIL SEVERA AVG
Rev./- Hipopótamo com cabeça de leão caminhando para a direita
SAECVLARES AVG   IIII  (quarta oficina)
(RIC- 116 b. RSC-63)

Filipe I- Antoniniano cunhado em Roma em 248
Anv./- Filipe com coroa radiada à direita
IMP PHILIPPVS AVG
Rev./- Cervo caminhando para a direita
SAECVLARES AVGG  V, quinta oficina
(Ref. RIC IV/22, RSC- 189)

Filipe I- Antoniniano cunhado em Roma em 248
Anv./- Filipe com coroa radiada à direita
IMP PHILIPPVS AVG
Rev./- Antilope caminhando para a esquerda
SAECVLARES AVGG  VI, sexta oficina
(Ref. RIC IV/22, RSC- 189)

Filipe I-Antoniniano cunhado em Roma em 248
Anv./-Filipe com coroa radiada à direita
IMP PHILIPPVS AVG
Rev./- Veado caminhando para a esquerda, e marca da oficina
SAECVLARES 20, RSC-185)
(Ref. RIC- IV/ 

Philipe II-Sestércio cunhado em Roma em 248
Anv./- Philipe II drapeado e laureado à direita
IMP M IVL PHILIPVS AVG
Rev./- Alce caminhando para a esquerda (espécie de veado das regiões do norte)
SAECVLARES AVGG  (sem marca da oficina)
(Ref. RIC-264a, Cohen-73)

                                         
                                           Philipe I-Antoniniano cunhado em Roma em 248
Anv./- Filipe com coroa radiada à direita
PHILIPPVS AVG
Rev./- Cipo com a inscrição  COS III e legeda circular,
SAECVLARES AVVG

Filipe I-Antoniniano cunhado em Roma em 249
Anv./- Filipe com coroa radiada à direita
Rev./- Templo de Roma, hexastilo (com 6 colunas) com a deusa Roma ao centro
SECVLVM NOVVM -(Século novo)
(Ref. RIV-25 B, RSC-198) 

Esta  9 ͦ  emissão da oficina monetária de Roma, provavelmente teve início, em  abril do ano 248, por ocasião do milénio de Roma.
De notar, que RIC considera que esta é a 5 ͦ emissão da oficina  monetária de Roma, que teve início no dia 21 de abril  de 247.

Para esta emissão, as seis oficinas em actividade cunharam moedas que tinham todas a mesma legenda no reverso, SAECVLARES AVGG (Saeculares Augustorum).
Os jogos seculares dos Augustos, têm a representação de um animal diferente em cada oficina e no exergo, o seu número em algarismos romanos ou, uma marca.

Estas moedas foram cunhadas em nome de Filipe I e Filipe II seu filho que ele elevou ao título de Augusto em maio de 247, e de Octacília esposa de Philipe I.
A interpretação do reverso destas emissões, tem ligação com os textos antigos.

A história de Augusto dá-nos uma lista dos animais exibidos: encontramos o leão, o veado e hipopótamo, que figuram no reverso destas emissões.
A explicação mais comumente aceite, é que estamos na presença de uma emissão monetária, destinada a veicular no Império a imagem de um dos grandiosos aspectos destas  festividades.

Esta interpretação conforme aos textos é perfeitamente credível, e oferece uma visão impressionante do realismo das distrações oferecidas ao povo, nesta  grande ocasião. 
Este tipo de emissão monetária, também se encontra frequentemente para comemorar o triunfo do imperador, no regresso das suas campanhas militares.

Vejam  por exemplo este denário do imperador Caracala.

                                             Caracala-Denário cunhado em Roma em 212
Anv./- Caracala laureado à direita
ANTONINVS PIVS AVG BRIT
Rev./- Elefante com o corpo e pernas cobertas com uma rede, caminhando para a direita
P M/- TR P XV COS III P P
(Ref. RIC- 199, RSC-208, BMC-47)   

No entanto, devemos notar que entre essas moedas, a da segunda oficina difere das outras.
Com efeito, o tema escolhido “a Loba Romana” é uma  referência direta ao mito da fundação de cidade, enquanto outras emissões mostram outros animais.
Temos portanto uma emissão puramente descriptiva dos jogos, mas também com outra simbologia.
No entanto, podemos ter uma ideia que durante os desfiles, um carro tenha  transportado esta representação (estátua), ou mesmo que a cena tenha sido recontituída ao natural com uma loba domesticada e crianças.

O aspecto simbólico dessa representação, "o símbolo" do mito da fundação de Roma, obriga a interrogarmo-nos sobre o impacto dos outros reversos, presentes aquando desta emissão; porque o aspecto simbólico destes, era uma constante na numária de Roma desde a República e, seria surpreendente que os animais ilustrados  nestas moedas, fossem escolhidos ao acaso.

Nas moedas romanas, os animais são muitas vezes representados  seja como um símbolo de força “o leão”, eternidade ou longevidade “elefante ou cervo”, ou como símbolo de uma divindade: o leão, a cabra, ou a águia por Júpiter, (presente especialmente nas moedas de consagração), a serpente da Salus, a corça de Diana etc,.

Esta interpretação simbólica da 9 ͦ emissão faz todo o sentido no contexto, porque a moeda sendo o principal vetor da propaganda imperial, não há nada de surpreendente em que para exaltar o poder, as virtudes de Roma e do imperador, tenham esolhido animais representativos dessas qualidades.

Esta hipótese nos daria as seguintes simbólicas :
O leão=Júpiter=imperador
A loba romana=Roma eterna
O cervo=A longevidade do reinado

Para os outros três reversos, a simbologia é mais obscura; todavia podemos sugerir algumas suposições:

O hipopótamo=fecundidade: este animal na Antiguidade Tardia egípcia, ainda estava assimilado à mulher grávida e à Fecundidade (deusa Taouret).
Este simbolismo terá sobrevivido até ao século III, através do culto da deusa Isis, importado do Oriente e se espalhou em Roma?
Esta hipótese é interessante, porque é o retrato da imperatriz que lhe está associado no anverso da moeda.

Não faremos um grande  comentário sobre a relação entre o bode e Filipe II: a sua coragem nos combates? Ou outro ânimo longe dos campos de batalha, simbolizando a aspiração dinástica?

Em contrapartida, a associação cabra=Júpiter é mais explícito, porque foi uma cabra “Amaltea”que alimentou Júpiter na sua infância.
A cabra associada a Pilipe II, poderia  muito bem fazer  referência à infância de Júpiter e, ao mesmo tempo a Filipe tornando-o um jovem imperador.
Portanto é possível que não seja um bode, mas sim uma cabra como o consideram alguns autores.
A identificação do animal representado nesse reverso, foi recentemente motivo de muitos debates. Além disso, alguns anos mais tarde a representação de Júpiter montado na cabra Amaltea, será um dos reversos principais do jovem Valeriano II, filho do imperador  Galiano.

Valeriano II-Antoniniano cunhado em Roma em 257-258
Anv./- Valeriano com coroa radiada à direita
P LIC VALERIANVS CAES
Rev./- Júpiter montado na cabra Amaltea, levantando a mão direita e segurando um chifre com a esquerda,    IOVI CRESCENTI  (Júpiter Crescente/a crescer)
(Ref. RIC-13. C. 29, Sear-10732)

No que diz respeito ao antilope ainda não se encontrou  nenhuma simbologia  particular.

Os animais símbólicos (reais ou fictícios) associados à proteção de uma divindade, será retomada alguns anos depois pelo imperador Galiano, na sua emissão do “bestiário".

Essas interpretações simbólicas dos reversos, não vão contra aquelas utilizadas pelos imperadores anteriores: só é pena não ser aplicável a toda a série monetária.

Podemos enão presumir  uma outra interpretação simbólica, que não é contra o contexto histórico nem das  imterpretações  precedentes.

As festas do milénio, são a oportunidade de melhorar a imagem do Império que é atacado por todos os lados.
Os bárbaros já se encontranm às portas do Império Romano. Filipe conseguiu a paz com os persas, em troca de algumas terras e um vergonhoso tributo anual. Os Carpos e os Quados, devastaram a Dácia antes de serem derrotados e expulsos no ano 245.
Agitações rebentam continuamente nas fronteira norte e leste.
É necessário manter a ilusão que o mundo romano ainda é muito poderoso, e continua a ser o centro do mundo.
A escolha dos animais representados, estará em relação com essa ideia de universalidade?

Desde sempre os animais foram escolhidos para representar as províncias nas moedas: o leão, o escorpião e o elefante para representar a África. O crocodilo para o Egito, são alguns exemplos disso. 

Para representar a extensão do mundo romano da época pelas suas províncias, seria necessário quase um jardim zoológico! Para isso, as seis oficinas monetárias de Roma seriam insuficientes.

Geográficamente, o mundo romano apresenta-se como um rectângulo com o Mediterrâneo no seu centro, e pode ser dividido em vários subgrupos coerentes. 

A Itália é rodeada por:

1-«Velho Mundo romano». as províncias do oeste e noroeste, romanizado desde há muito tempo.

2-«As províncias Bálcâs» do nordeste (Dácia, Panónia etc,).

3-«Oriente Próximo» (ou Próximo Oriente) (Síria, Arábia, Mesopotâmia.)

4-«África do Leste» (Egito, Líbia,)

5-«África do Oeste» (Zona Sáariana e costeira.)

Partindo daqui vamos estudar os animais representados.

A gravura dos cunhos, é aproximadamente a mesma em todos os exemplares consultados.
Os artistas procuraram reproduzir um determinado animal, e não um animal qualquer, porque para um mesmo tipo, pode haver grandes variações dependendo da espécie e da sua origem geográfica.

Originalmente regrupados para o triunfo do imperador Gordiano III, lógicamente estes animais deviam ser originários ou representar aquela região. 

Na antiguidade, o leão era muito abundante na África e no Oriente Médio.

A cabra, animal comum domesticada há muito tempo, estava presente em todos os lados. No seu estado selvagem (cabra de angorá), encontrava-se em grande abundância nas regiões montanhosas no Nordeste da Turquia  (Asiática).

O hipopótamo, agora confinado nas regiões húmidas da África Central, naquela época o seu domínio chegava até à embocadura (ou foz) do rio Nilo.

O cervo: este animal foi predominante em todos os lados, mas com variações significativas no tamanho e nos chifres. O animal representado nas moedas, aparatado com numerosos esgalhos em conformidade  com a  espécie europeia, vive  em áreas florestais.

O antilope: este animal como o precedente, foi generalizado sob diversas formas na África, Ásia e mesmo na Europa do Norte. Os longos chifres em espirale e ligeiramente arqueados para trás, são uma reminiscência (ou recordação), de uma espécie africana (cudo, oryix ?).

Como podemos constatar, estes animais não são tipicamente “persas” e neste caso considerar a seguinte simbólica, dependendo da origem geográfica dos animais.

O leão: Oriente Médio, a Arábia terra natal do imperador.

A cabra: as regiões das Bálcâs.

Hipopótamo: Egito.

O cervo: as províncias do noroeste. 

O antilope: a  África subsariana.

Estes cinco animais estão associados com a Loba, símbolo  de Roma e da Itália.

A história de Augusto e outras fontes antigas não dão pormenores  sobre estas festividades.
Podemos imaginar que um desfile juntou delegações «dos cinco cantos do Império», que vieram a Roma para celebrar o evento, cada uma acompanhada por animais representativos dessas regiões.
Uma forma do triunfo de Roma sobre o resto do mundo; ou, considerar que estes reversos mostram que os animais reunidos para a ocasião, provinham de todo o “mundo romano”.
Em seguida, este cortejo triunfal dirigia-se para o templo de Roma para efectuar devoções e sacrifícios.
O templo de Roma será então representado nas moedas da emissão seguinte.

Filipe I-Antoniniano cunhado em Antioquia em 249
Anv./- Pilipe I com coroa radiada e drapeado à esquerda
IMP M IVL PHILIPPVS AVG
Rev./-Templo de Roma com seis colunas.
A Deusa figura ao centro com um cetro na mão esquerda e um globo na direita
SAECVLVM NOVVM
(Ref. RIC-86a, RSC-200)
(Antioquia:  foi uma cidade da antiga província romana da Pisídia. Foi uma das diversas cidades que receberam o nome de Antioquia, fundadas por Seleuco I).

Como a utilização de animais para representar o espaço geográfico,  já tinha sido utilizado no passado mas em pequena escala; exemplo, o denário do imperador Adriano aonde no reverso a África regrupa dois animais: o elefante e o escorpião.


Adriano-Denário cunhado em Roma em 149
Anv. Adriano laureado á direita
HADRIANVS AVG COS III P P
Rev./- A África semi deitada virada à esquerda, com uma pele de elefante na cabeça, um escorpião na mão direita, e uma cornucópia na esquerda.    AFRICA.
(Ref. RIC-299, RSC-138)

E, dado o estado do Império romano nesse momento, a necessidade de reforçar a ideia do seu poder e supremacia sobre o mundo através das moedas junto dos habitantes do Império, não pode ser negligenciada.
Estes pressupostos, no entanto permaneceram simples construções intelectuais; as fontes que temos não permitem afirmar a certeza.

A leitura do reverso  proposto, no entanto oferece a vantagem de fazer a 9 ͦ emissão homogénia sobre o plano simbólico, sem por em causa as outras leituras.
Esta foi uma das razões que nos levaram a interrogarmo-nos sobre o impacte simbólico do reverso desta emissão, a escolha destes animais, e diversidade  psicóloga destas imagens.

Estes animais podem ser apenas os atores de grandes caçadas recontituídas nas arenas. Explicação puramente descritiva, da qual o significado era evidente para os romanos  da Itália,  mas devia escapar a grande parte das  pessoas em outras  regiões do Império.

Porque utilizar animais pouco representativos (em questão de força,) para mostrar a grandeza de Roma?
A história de Augusto cita animais mais espetaculares: tigres, panteras, hienas ou mais exóticos, por exemplo, rinocerontes e girafas que seriam mais adequados para sugerir a  magnanimidade dos jogos, e marcar os  espíritos ou memórias.

Essas moedas muito divulgadas em todo o Império, porque privar-se de uma mensagem de propaganda em larga escala?
Explicação: «Roma organiza jogos magníficos, Roma é  poderosa» mas,  podemos considerá-la um pouco simplista.

Um vetor importante para difusão dessas moedas nas regiões distantes de Roma, era o soldo  dos legionários. Naquela época a maioria das legiões eram constituídas por soldados estrangeiros, muitas vezes oriundos de regiões perturbadas  do Império.
O facto dos soldados verem no reverso das moedas de Roma um animal familiar, podia significar que a sua terra de origem fazia parte do Império.

Esta mensagem federativa não parece ilógica, neste período turbulento onde a lealdade vai para aquele que paga melhor, e aonde as ameaças exteriores são cada vez mais frequentes.
Esta 10·ͦ emissão, também apresenta uma moeda interessante ligada às comemorações do milénio, mas apresenta outro animal: o elefante com a legenda AETERNITAS AVGG, (eternidade dos Augustos)

Filipe I-Antoniniano cunhado em Roma no ano 270
Anv./- Filipe drapeado e coroa radiada à direita 
IMP PHILIPVS AVG
Rev./- Elefante com o cornaca à esquerda
AETERNITAS AVGG
(Ref. RIC-58, RSC-17, Sear-8921)

Devemos primeiramente notar, que é a única moeda nesta emissão com este reverso.
Se for apenas para mostrar um animal que participou nas festividades, a sua presença nesta emissão pode surpreender, e ficaria  melhor na 9 ͦ  emissão no lugar da loba.
Simbólicamente esta também ficava bem na 10 ͦ emissão com o templo de Roma, ou na moeda onde figura o cipo, erigido para celebrar os consulados do imperador e do seu filho, durante as cerimónias do milénio.

Filipe I-Antoniniano cunhado em Roma em 244-249 (10 ͦ emissão, 5 ͦ oficina)
Anv./- Filipe drapeado e coroa radiada à direita
IMP PHILIPPVS AVG
Rev./-cipo com a inscrição   COS III,  SAECVLARES AVGG
(Ref.RIC-24C, RSC-193, Sear-8961)

Porque razão isolaram o elefante?
A legenda  refere-se  diretamente à noção da eternidade, da qual o elefante é um símbolo forte e poderoso.
Esta é uma mensagem clara: o Império é eterno representado na legenda do reverso ROMA AETERNAE, das precedentes emissões. 
Podemos aplicar a leitura «geográfica» a este reverso?

O elefante é tradicionalmente usado para representar a  Àfrica, tal leitura aqui parece impossível.
O elefante é também na história romana, o símbolo das guerras contra os cartagineses.
Uma referência a Anibal, aqui seria anormal.
Por isso não temos leitura «geográfica» perfeitamente adequada. 
Todavia os elefantes continuaram a ser utilizados muito além das Guerras Púnicas (como força de ataque ) por alguns exércitos, incluindo os persas.

A História de Augusto indica que na época dos jogos havia 32 elefantes em Roma, dos quais 12, enviados por Gordiano III, 10 por Alexandre Severo,  os outros 10 terá sido Filipe I que os trouxe da Pérsia? 
Teremos aqui uma alusão à “vitoria” do exército romano sobre os persas?

Embora a paz com a Pérsia fosse concluída com um tratado infame para Roma, a escolha do reverso desta moeda, pode ser visto como um aviso enviado aos ursupadores que apareceram no Império, exemplo: Pacaciano na Mésia.
Este imperador efémero, vai usar o mesmo tipo de propaganda cunhando no reverso, a deusa Roma com a legenda, Roma Eterna ano 2001, usando assim o simbolismo do seu adversário a seu favor.

Pacaciano-Antoniniano cunhado em Viminacium  em 248-249
Anv./- Pacaciano com coroa radiada e drapeado à direita
IMP TI CL MAR PACATIANS PF IN
Rev./- Roma sentada num escudo, com uma Vitória na mão direita e uma lança na esquerda
ROMAE AETER AN MIL ET PRIMO
(Ref. RIC-IV 6 var., Cohen-7 var., RSC-7 var.)

MGeada

Bibliografia

André Piganiol ; Jeux Séculaires, Revue des Études Anciennes.
Eric Lesueur ; Le Milenaire de Rome.
Jean-Gagé ; Les jeux séculaires de 204 ap. JC, e la dynastie des Sévères-Mélanges d’archeologie et h’istoire. t.51.1934, pag.33-78.
Jean Gagé ; Recherches sur les jeux séculaires. Ed. Les belles Lettres.1934.
Laurent Schmitt ; Les Monnaies romaines, Editions les Chevaux Légers.
Paul Petit, Histoire Générale de L’Empire Romain-Edi. Seuil,1974.
Pierre Brind’Amour ; «L’Origine des Jeux Seculaires», volume 2, 1978,  page 1334-1417.