sábado, 27 de abril de 2019


 PUTEAL ESCROBONIANO (OU POÇO DE ESCRIBÔNIO)

A origem desta construção é explicada por Babelon (1).
Segundo uma lenda, na Roma antiga os locais atingidos por relânpagos eram sagrados.
Lucius Scribonius Libo (Lúcio Escribônio Libão) terá sido mandatado pelo Senado para localizar e registar todos os locais atingidos por este fenómeno atmosférico.

O átrio do templo de Minerva também foi atingido por um raio.
Como então se pensava que os deuses proibiam a cobertura desses locais, Escribôrnio teve a ideia de aí mandar abrir um poço, para que mais ninguém lá pudesse edificar qualquer construção.

O poço de Escribônio foi redescoberto em 1950, aquando de escavações perto do Arco de Actiun.
Este poço foi cunhado em emissões monetárias de L. SCRIBONIVS LIBO e LVCIVS AEMILIVS LEPIDVS PAVLLVS
no ano 62 a.C..

Na sua representação, o poço está ornamentado com uma grinalda de folhas de loureiro ladeadas por duas liras, tenaz, ou martelo.
(1)Numismata e arqueólogo francês do século XIX).

República Romana - Denário cunhado em Roma no ano 62 a.C.
Anv. Bonus Eventus (Bons Eventos) com diadema à direita
BON EVENT LIBO
Rev. Poço de Escribônio ornamentado com uma grinalda de folhas de loureiro, duas liras e tenaz
PVTEAL SCRIBON
(Ref. Sydenham-928; Crawford 416/1b)

República Romana – Denário cunhado em Roma em 62 a.C.
Anv. Concórdia com diadema e véu à direita
PAVLLVS LEPIDVS CONCORD
Rev. Poço de Escribônio ornamentado com uma grinalda de folhas de loureiro, duas liras e martelo
PVTEAL SCRIBON LIBO
(Ref. Sydenham-927; Crawford-417/1ª)

M.Geada

Bibliografia

quarta-feira, 27 de março de 2019


Danúbio, segundo maior rio da Europa

Chamado Danuvius ou Danuvio pelos romanos, uma parte do rio no entanto foi chamada de Ister. Grande parte dos autores antigos discordam sobre o curso, o nome do Danúbio e do Ister. João Xifilino afirma que a ponte do imperador Trajano foi construída no Ister.

Venerado como uma divindade por Getas, Dácios,Trácios e outros, o Danúbio tem a sua nascente em Donauschingen, nas montanhas da Floresta Negra, território de Baden na Suábia, e a sua foz no Mar Negro, (conhecido na Antiguidade por Ponto Euxino).

Na Mésia ou Moésia (atual Sérvia), a Leste de Viminácio nas margens do rio encontra-se a cidade de Taliatis, ou Taliata. Perto deste lugar encontra-se o espectacular desfiladeiro rochoso chamado de “Portas de Ferro”.
É neste lugar que o antigo nome do Danúbio mudava; a Leste Ister e a Oueste, Danúbio. 

Um pouco a Leste das Portas de Ferro ficava a ponte de Trajano (ou Ponte das Portas de Ferro). Esta ponte construida no ano 101 d.C. tinha como objectivo facilitar a conquista da Dácia.
Para os romanos, o Danúbio foi sempre a  fronteira entre o Império e os povos bárbaros do Norte, (excepto o território da Dácia, entre a conquista de Trajano e o fim do século III). 

Um pouco a leste das Portas de Ferro ficava a ponte de Tajano. Esta ponte foi construida para pelo imperador Trajano para facilitar a conquista da Dácia (actual Romênia). Do ponto de vista romano, o Danúbio sempre formou a fronteira entre o Império e os povos bárbaros do Norte (excepto pelo território da Dácia  entre a conquista de Trajano eo final do século III. 

Apesar de algumas dificuldades especialmente durante o reinado de Marco Aurélio, que lutou contra os Marcomanos no Danúbio, ou durante o período conturbado dos anos 256 a 259), os romanos mantiveram o controlo do Danúbio graças a uma frota ali estacionada até ao reinado de Valentiniano I, 364-375.  

Do século III au século V, durante as grandes invasões vindas do Leste, (Vandalos, Visigodos, Hunos, Ávaros e Eslavos) utilizaram o vale do Danúbio para penetrarem de Leste a Oueste, até ao centro da da Europa.

Como muitas outras ideias ou coisas, os romanos representavam o Danúbio (assim como outros rios, como o Nilo), na forma de uma pessoa.
Esta personificação aparece especialmente nas moedas do imperador Trajano, conquistador da Dácia e para quem o Danúbio desempenhou um papel essencial.

Além disso, é também nas moedas de Trajano que se podem ver representações de uma ponte (ver moeda abaixo). A ponte que figura nesta moeda foi muitas vezes confundida com a ponte sobre o rio Danúbio.
Nas moedas a ponte aparece com um único arco e está coberta com uma dupla colunata e duas portas nas sua entradas, encimadas por estátuas. Na verdade, é uma representação da Ponte Sublicius em Roma.

Sob o tema da personificação do Danúbio, também o vemos representado em moedas de Marco Aurélio que também teve que intervir na região do Danúbio contra os Marcomans, e ainda em moedas  dos imperadores Marco Aurélio e Macrino, em moedas colonias romanas.

A representação do Danúbio é representada na forma de uma figura semi-deitada em rochas e apoiado num cotovelo, uma estofa voando por cima da cabeça.
Geralmente segura a proa de um navio com a mão esquerda, que talvez simbolize a frota romana. Numa moeda do imperador Trajano, vemos o Danúbio estrangular um Dácio bárbaro com um joelho.
De notar que os romanos consideram o Danúbio um rio fronteiriço com os bárbaros, e que este pertencia a Roma.

 Moedas representando o Danúbio


Trajano – Denário cunhado em Roma em 103-111
Anv. Trajano laureado à direita,
IMP TRAIANO AVG GER DAC P M
Rev. Danúbio deitado sobre uma rochas virado à esquerda, manto flutuando por cima da cabeça, braço esquerdo apoiado numa urna, e mão direita na proa de um navio,
COS  V P P SPQR OPTIMO PRINC
Por baixo da representação, DANVVIVS
(Ref. RIC – 100; BMCRE – 395; RSC -136)


Trajano – Sestércio oficina ?, cunhado em 103-111
Anv. Trajano laureado à direita,
IMP CAES NERVAE TRAIANO AVG GER PM TRP COS V PP  S-C
Rev. Danúbio de pé à esquerda, colocando um joelho sobre um Dácia, mantendo-o sentado no chão,
SPQR OPTIMO PRINCIPI  S C
(Ref. RIC II, var. – 556; Choen – 525;  BMCRE – 793)


Trajano – Sestércio cunhado em Roma por cerca de 106-111
Anv. Trajano laureado à direita,
IMP CAES NERVAE TRAIANO AVG GER DAC P M  TR P COS V P P
Rev. Ponte Sublicius em Roma, com um arco, dupla colonada encimadas por estátuas, e barco no rio.
SPQR OPTIMO PRINCIPI  S C
(Ref. RIC – 569; BMC – 847; Choen – 542

(Embora a representação desta ponte não corresponda à descrição dada por Dião Cácio, considera-se frequentemente que esta moeda representa a ponte construida sobre o Ister (Danúbio) durante a segunda expedição à Dácia).


Marco Aurélio – Asse cunhado em 175
Anv. Marco Aurélio laureado à direita,
M ANTONINVS AVG T R P XXIX S C
Rev. Personificação do Danúbio semi-deitado numas rochas, com a mão direita apoiada na proa de um navio
Rev. IMP VII COS III
(Ref. Foto Dr. Busso Peus Nachfolger)


Macrino – Asse de bronze colonial cunhado em Nicópolis em 217-218
Anv. Macrino encouraçado e laureado à direita,
K OППEΛ CEV MAKPEINOC
Rev. Ister = Danúbio semi-deitado olhando para a esquerda, com a mão direita pousada na proa duma galera, e a esquerda segurando um jarro de onde flui a água do rio,
LONGINOU NIKOPOLITWN
(Ref. Moushmov – 1273; Verbanof – 3464)

MGeada

Bibliografia
Etienne Robert; Le Siècle d’Auguste, Paris, Édittions Colin,1970.
François Zosso: Les Empereurs Romains – 27 a. C.-476 dC. Éditions Errance, Paris, 1994.
Grimal Pierre : Marc Aurèle – Paris, Éditions Fayard, 1991.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_Dan%C3%BAbio
https://es.wiktionary.org/wiki/Danubio


terça-feira, 26 de fevereiro de 2019



Corno de Abundância (ou Cornucópia) em Moedas Antigas

Do latim "cornu copiae" ou “corno de abundância”, hoje mais conhecidos por cornucópia, segundo uma das muitas lendas é um dos chifres da cabra Amalteia que alimentou Zeus durante a sua infância.

Na versão da náiade Amalteia do Monte Ida, (na mitolgia grega ninfas aquáticas com o dom da cura),  esta teria escondido a criança no bosque.
Proprietária da dita cabra, quando Zeus brincava com ela,  quebrou acidentalmente um chifre contra uma árvore. Amalteia guardou-o, enrolou-o com ervas e levou-o cheio de frutos aos lábios de Zeus. 
Quando Zeus se tornou o mestre do céu,  transformou a cabra e o chifre na constelação do Capricórnio.

A cornucópia símbolo bem conhecido da abundância, fecundidade, fertilidade e da alegria, foi muitas vezes representada em moedas antigas. Neste trabalho vou apresentar uma série destas moedas nas quais estão representadas cornucópias.

Reino Lágida - Egipto
Ptolomeo III Evérgeta – grade bronze cunhado em Alexandria, 246-221 a.C.
Anv. Cabeça de Zeus Ámon com chifres e diadema à direita
Rev. Águia de pé sobre um raio, e cornucópia
PTOLEMAIOU BASILEWS
(Ref. Svoronos-965, Cop-173, BMC-59, GC-7816, MP-120)

Reino Ptolemaico do Egipto – Tetradracma 244/3-221 a.C.
Anv. Benerice II (esposa de Ptolomeo III) velada à direita
Rev. Cornucópia com frutos e pendentes entre dois pileus, =
(gorros dos Dióscuros) – BAΣIΛΣΣHΣ  BEPENIKHΣ
(Ref. Friedlaender e Von Sallet-522, Jamesson-1820, Pozzi-3237)

Ásia Menor – Jônia – Lébedos (ou Lébedo)
Magistrado Anaxipolis – Tetradracma 160-140 a.C.
Anv. Cabeça de Atena com capacete à direita
Rev. Coruja em pé entre duas conucópias com frutos,
dentro de uma coroa de oliveira,
ΛEBEΔIΩN    ANAΞI ПOΛI
(Crawford-2027)

Síria Seleucida
Alexandre II Zebina – Dracma cunhado em Antioquia 128-122 a.C.
Anv. Cabeça de Alexandre II com diadema à direita
Rev. Dupla cornucópia com frutos
(Ref. SNG Cop-363)

Podemos notar que estas cornucópias foram representadas em moedas de todas as origens geográficas: sêleucidas, ptolomaicas, partas, norte-africanas e judias, mas também em moedas gregas e romanas.

Reino Indo-Grego
Philoxene –Hemiobolo em bronze 100-95 a.C.
Anv. Deméter (na mitologia grega é a deusa das colheita
e da agricultura) com uma cornucópia à esquerda
Rev. Touro à direita
(Ref. Mitch-1960)

Quase sempre representada sózinha, a cornucópia também aparece dupla. Nas moedas da Répública e Império romano, elas são o atributo de diversas personificações e alegorias, nomeadamente a Abundância, a Fortuna e por vezes personificações mais surpreendentes como a Concórdia, que num sestércio de Aquília Severa detém uma dupla cornucópia.

L. Sulla – denário cunhado em Roma em 81 a.C
Anv. Venus com diadema e colar à direita
Rev. Dupla cornucópia com frutos
(Ref.Sear5- 303, Cornelia-33, Crawford-375)

Aquília Severa – Sestércio cunhado em Roma em 220-221
Anv. Aquília com diadema e drapeada à direita,
IVLIA AQVILIA SEVERA AVG
Rev. Concórdia de pé à esquerda com uma patera na mão esquerda sobre um altar aceso, dupla cornucópia e uma estrela no campo,
CONCORDIA  S C
(Ref. RIC-389, BMC-433)

Em termos de corno de abundância, a palma de originalidade é indiscutivelmente um sertércio de Druso filho do imperador Tibério, que mostra no anverso duas cornucópias cruzadas das quais saem duas cabeças de criança, e em pano de fundo um caduceu alado. Aqui os cornos de abundância representam os herdeiros da dinastia imperial. 

Druso – Sestércio cunhado em Roma em 22-23
Anv. Cabeças confrontadas de crianças dentro de cornucópias e caduceu.
Rev. DRVSVS CAESAR TI AVG F DIVI AVG N PONT II   SC
(Ref. RIC I (Tiberius) 42, BMC (Tiberius)-95, CBN (Tiberius)73).

Mais pragmática, uma moeda de Septímio Severo apresenta as três alegorias da casa da moeda, todas com uma cornucópia nos braços. Neste caso é uma abundância monetária.


Septímio Severo – Sestércio cunhado em Roma no ano 194
Anv. Septímio laureado com couraça à direita,
SETE SEV PERT AVG IMP III
Rev. As três Monetae (moedas) de pé, cada uma segurando uma cornuçópia e uma balança, MONET AVG COS II P P  SC
(Ref. RIC-670, Cohen-336, Sear-6416.)

O imperador Augusto, muito supersticioso, fez representar numa das suas moedas o seu signo astrológico, o Capricórnio, atrás do qual aparece um corno de abundância, uma referência à Fortuna que detém o destino dos homens nas suas mãos. Enquanto Tibério optou por cornucópias cheias de espigas.

Augusto – Denário cunhado em Emérita (actual Mérida) no ano 16 a.C..
Anv. Busto de Augusto à direita
Rev. Capricórnio à direita com uma cornucópia nas costas, um globo e um leme entres as pernas,  AVGVSTVS
(Ref. RIC-547ª, RSC-21, BMCRE-346)

Tibério – AE cunhado em Comagene ? em 19-20
Anv. Tibério laureado à direita,
TI CAESAR DIVI AVGVSTI F avgvsTVS
Rev. Dupla cornucópia cheia de espigas,
PONT MAXIM COS III IMP VII TR POT XXI
(Ref. RIC-89, BMC-174, RPC-3868)

O "corno de abundância" como elemento da tradicional mitologia greco-romana pagã, desapareceu das moedas quando o Império romano se converteu ao cristianismo.
No entanto o próprio Constantino era pagão antes de se tornar cristão, e as moedas do início do seu reinado representam todos os temas que então podiam ser vistos em moedas, incluindo o corno de abundância.

Constantino I – Follis cunhado em Alexandria em 308-310
Anv. Constantino laureado à direita,
FL VAL CONSTANTINVS FIL AV
Rev. Génio de pé à esquerda, com um módio na cabeça, patera na mão direita, clâmide e cornucópia na esquerda,
GENIO CAESARIS - No campo R à esquerda, AP à direita, em baixo na orla, ALE = Alexandria
(Ref. RIC VI Alexandria-99b)

MGeada

Bibliografia
Pierre Commelin; Mytologie grecque et Romaine, éditions Garnier Frères- 1960
Riordan RICK; Os Heróis do Olimpo – A Marca de Atena-Editora Intrísica 2ªedição. 2013.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019



Centauros na Numismática

Na mitologia antiga, os Centauros eram seres fabulosos com corpo de cavalo e busto de homem. Habitavam a Tessália, e eram famosos pela sua coragem e habilidade em domar e treinar cavalos.
Os antigos poetas e mitógrafos atribuem-lhes uma origem monstruosa.

Em certas moedas, o Centauro é representado só armado com um    arco  e  uma flecha; outras, a conduzir uma carruagem com algumas divindades do paganismo.
Num triente anónimo podemos admirar Hércules lutando contra um Centauro: um denário da Gens Aurélia, mostra-nos Hércules a conduzir uma biga ao galope puxada por dois Centauros com um ramo na mão direita.

República Romana

República Romana – Anónimo, Triente em bronze cunhado em Roma, cerca de 217-215 a.C..
Anv. Cabeça feminina (Belona?) à direita com capacete, cabelo amarrado em três tranças, 4 pontos.
Rev. Hércules lutando contra o Centauro, 4 pontos, ROMA
(Ref. Crawford-39/1, Sydenham-93)

República Romana – M. Aurelius Cotta – Denário cunhado em Roma no ano 193 a.C..
Anv. Cabeca de Roma com diadema e capacete alado à direita: por trás da cabeça X (= valor) COTA
Rev. Hércules conduzindo uma biga puxada por Centauros ambos com um ramo na mão direita. M/AVRELI  ROMA
(Em latim a palavra denário significa «dizaine» o seu valor inicial valia 10 asses).
(Ref. Crawford-229/1ª, Sydenham-429)

Império Romano

Galiano – Antoniniano cunhado em R
oma em 266/267
Anv. Galiano com coroa radiada à direita
GALIENVS AVG
Rev. Centauro caminhando para a  esquerda com um globo na mão direita e um ramo na esquerda.
APOLLINI CNS AVG  H
(Ref. RIC V-164H, Cohen-74, RSC-73, Sear-10177)

Num sestércio de Antonino Pio (do qual não consegui a foto) conservado no Gabinete das Medalhas em Paris, o sujeito é um dos combates de Hércules,
em que o herói se vinga do rapto de Halcyone, irmã de Eurystheus,  que o Centauro Homadus violentou e foi morto por Hércules por essa agressão.

Nesta representação clássica, também vemos o grande Alcides que já matou um Centauro que vemos no chão, e preciona o joelho noutro ao mesmo tempo que lhe bate com a moca, enquanto outro vem em seu socorro armado como seu companheiro com o ramo de uma àrvore.
Em pano de fundo vemos Homadus portando Halcyone nos seus braços, que Hércules depois socorreu. Autores relatam que foi após as bacanales (festas em honra do deus Baco) em que os Centauros haviam consumindo substâncias alogénias que terá acontecido o rapto des algumas mulheres, entre as quais Halcyone.
Diodoro Sículo (historiador, 90-30 a.C.), escreveu que os Centauros terão usado troncos de árvores para se defenderem durante o combate.
O templo que vemos no fundo da moeda é o de Hércules Vitorioso. 

Eratóstenes relata que o Centauro Quíron, figurava entre as estrelas na constelação do Sagitário. Segundo Higino e Plínio o Velho, ele foi o primeiro a usar as  plantas para curar.

As razões que levaram a que o Centauro personificasse  Apolo, é que este era o deus da morte súbita, da beleza, das pragas, das doenças, mas também o deus da cura e proteção contra as forças malignas. Era também o deus, da perfeição, da armonia, do equilíbrio e da razão.

Bitínia

Bitínia - Rei Prúsias II, AE 20 cunhado em Nicomédia, 180-150 a.C.
Anv. Busto juvenil de Dionísio (Baco) à direita, drapeado e coroado com folhas de vinha.
Rev. Centauro Quiron com a cabeça de frente, tocando lira, túnica flutuando para trás.
BASILEWS PROUSIOU  MTE (Do rei Prúsias)
(Ref. Laffaille-430, Aulock-RG.26, BMC-10)

Bitínia - Rei Prúsias II, AE 20 cunhado em Nicomédia, 180-150 a.C.
Anv. Busto juvenil de Dionísio (Baco) à direita, drapeado e coroado com folhas de vinha.
Rev. Centauro Quiron à direita com a cabeça de frente, tocando lira, túnica flutuando para trás.
BASILEWS PROUSIOU  MTE (Do rei Prúsias)
(Ref.Lafaille-430 var., Aulock-6886 var., RG-26, BMC-HGCS-7629)

Na mitologia grega, Quíron era um Centauro considerado superior por seus
pares. Ao contrário do resto dos Centauros que como os sátiros eram notórios por serem bebedores, indisciplinados, delinquentes, sem cultura e propensos à violência quando embriagados. Quíron era inteligente, civilizado, bondoso, e célebre por seu conhecimento e habilidade com a medicina.
A Quíron foi-lhe confiada a educação de muitos heróis que se tornaram seus discípulos, entre os quais Aquiles, Asclépio, e os Dióscuros.
malencontrosamente durante uma batalha contra outros Centauros: tendo recebido uma flecha envenenada com o sangue da Hidra de Lerne, Quíron pede aos deuses a retirada da sua imortalidade para deixar de sofrer.

Podemos afirmar que as representações de Centauros em moedas são raras. As representações mais comuns deste animal fantástico encontram-se nas moedas do imperador Galiano, e são quase sempre ligadas à mitologia de Hércules.

MGeada

Bibliografia

MGeada

Bibliografia
François Zosso et Chritien Zing: Les Empereurs Romains, 27 a.C. - 476 d.C. -Éditions Errance,1994.
Joel Schmidt: Dicionário da Mitologia Grega e Romana (Português) 1 janeiro 2012.
Wolkon Cédric: Catalogue des monnaies Romaines – Éditions B. Numis-Besançon 2017.


quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Messalina, a Imperatriz Lasciva

Sexo - Crime - Sedução - Poder, na Roma Imperial.
O primeiro facto controverso da vida de Valéria "Messalina" é a sua data de nascimento.
Alguns historiadores apontam o ano 17, porém é quase certo que tenha nascido entre os anos 20 e 25.

Filha de Barbatus Messal e Domícia Lépida, Messalina era também neta de Antónia a Velha, de Lúcio Domício e bisneta de Marco António.
Descendente de família nobre romana, Messalina casou com o imperador Cláudio no ano 38 ou 39, teria 13 ou 14 anos, idade legal de casamento para uma romana nessa época.

Uma rapariga com esta idade não podia ter ambições políticas.
Para a família Messala, o casamento de Messalina com Cláudio foi de grande conveniência visto que Cláudio era o único parente vivo do então imperador Calígula.

Para Cláudio esta união também foi importante, dado que Messalina era descendente de uma familia nobre,  não esquecendo a sua idade avançada (cerca de 50 anos), e os seus defeitos físicos: coxo, gaguejava, e mau hábito de cuspir enquanto falavava.

Messalina foi a terceira esposa de Cláudio do qual teve dois filhos.
Cláudia Otávia no ano 40 (futura esposa do imperador Nero), e Britanicus (Britânico) no ano 41, três semanas após a nomeação de Cláudio ao principado.

Messalina- AE 18 cunhado em Eólia (ou Eólida) 41-48
Anv. Busto de Messalina drapeado à direita,
CEBACTH MECAɅEINA
Rev. Zeus nu, com um bastão na mão esquerda e uma águia na direira,
AIΓAEION
(RPC I-2430)

3 Messalina- AE 23cunhado em Niceia, Bitínia, 41-48.
Anv. Busto drapeado de Messalina à esquerda
MEΣΣAɅEINA ΣEBAΣTH NEA HPA
(Messalina Augusta Nova Hera)
Rev. Templo de Hera Niceia
ΓAΔIOΣ POϒФOΣ ANΘϒΠATOΣ
(Caius Claudius Rufus Procônsul)
(RPC I-2034)

Apesar da reputação (libertina)  da sua esposa, a paternidade de Cláudio nunca foi posta em causa.
Segundo os historiadores  nos primeiros tempos de vida comum, tudo indicava ser um casal feliz, mas as coisas complicaram-se aquando da elevação de Cláudio ao poder supremo.

Tirânica, logo que ascendeu ao poder e como primeira dama do império, Messalina impôs-se como uma imperatriz de uma malvadez sem limites com  três principais objetivos.
A continuidade dinástica, os seus amores clandestinos, e o gosto pela riqueza.

Célebre pelo seu invulgar apetite sexual, (a história também lhe atribui algumas ações complacentes), a imperatriz tornou-se a imagem do escândalo e da luxúria,  que segundo o escritor Juvénal não hesitava prostituir-se publicamente nos bordéis de Subura e, transformou parte do palácio imperial num autêntico lupanar.

Aqui Messalina (segundo Dion Cassius LX, 18) não só exercia a sua própria devassidão, como também convidava, incentivava e obrigava outras mulheres a prostituir-se com os seus próprios amantes, entre os quais alguns nobres, legionários e mesmo escravos, na presença dos maridos.

Por estes homens que consentiam, sentia amizade e mesmo admiração que  ela recompensava com honras e  postos de comando.
Para quem rejeitava estas obscenidades: odiava-os, conspirava para os rebaixar e por vezes mandava assassinar.

 Messalina e Antónia- AE 17 cunhado em Capadócia (Cesareia) 41-48.
Anv. Busto de Messalina laureado e drapeado à direita.
Rev. Busto de Antónia (sua avó)drapeado à direita.
(RPC I-3657) 

Tudo isto se praticava com muita frequência e Cláudio levou muito tempo a perceber o que se passava no seu palácio.

É certo que Messalina fazia tudo para o distrair o imperador, metendo escravas na sua cama e ao mesmo tempo recompensar quem a encobria, e castigar severamente alguém em que não tivesse confiança e pudesse avisar o marido da atividade da esposa.

Exemplo: no ano 43, por suspeitar da fidelidade de Catonius Justus comandante da Guarda Pretoriana, mandou-o assassinar.
O mesmo aconteceu a Júlia, filha de Druso e neta de Tibério, entretanto esposa de Nero (sobrinho de Cláudio) da qual ela tinha ciúmes.  

Alguns historiadores contemporâneos tendem todavia embelezar a vida de Messalina, mas todos reconhecem a realidade da devassidão, da libertinagem da imperatriz, enquanto outros dizem que não era um caso único.
É certo que outras damas do império foram libertinas, mas Messalina direi que foi um caso excepcional.

Cláudio e Messalina - AE 20, cunhado em Creta,  cerca do ano 43.
Anv. Cabeça de Cláudio laureada à esquerda.
TI KLAUDIUO KAESAR GERMA SEBASTOS GERMA 
(Tibério Cláudio César Augusto Vencedor dos Germanos .
Rev. Messalina com diadema e drapeada à direita.
OUALERIA MESSALEINA
(RPC I-1032)

Cláudio e Messalina-AE 17 cunhado em Paflagónia (ou Paflagônia) 40-41.
Cabeça de Cláudio laureada à direita.
CLAVDIVS CAES AVG CIF ANNO LXXXVI
Rev. Busto de Messalina drapeado à direita.
MESSALINA AVGVSTA
(Ref. RPC-2130)

Se a história tem enegrecido a personalidade de Messalina, o seu comportamento  não é sem precedentes na sociedade imperial.
Depois da morosidade durante o reinado de Augusto, os comportamentos libertaram-se subitamente durante os primeiros anos do reinado de Tibério.
Algumas matronas não hesitaram inscrever-se na lista das prostitutas recenseadas pelas autoridades, para  poderem  amar livremente sem temer qualquer penalidade.

Em Roma os lupanares situavam-se no populoso Bairo de Suburra e, era numa destas casas na cela com o nome de Lyscica inscrito na porta,  que a esposa do mal-aventurado Cláudio se oferecia à lubricidade pública, por encontrar que os amantes ( nem sempre eram escolhidos com grande delicadeza) que tinha não lhe davam o prazer que ela desejava.

Quão grande sanguinária como prostituta, era sobre este desprezível caráter de cortesã de baixa escala que Juvénal (poeta satírico latino do fim do século I) a considerava.
Quantos homens perderam a vida apunhalados por um escravo sob as suas  ordens, por terem rejeitado as suas propostas de amor, ou por terem divulgado a sua relação amorosa com a imperatriz.

Messalina tinha por hábito escapar-se do palácio aproveitando a escuridão da noite, escondendo o seu cabelo negro  com uma peruca loira, os seios cobertos com um manto de ouro, e acompanhada por um escravo (seu cúmplice) que  a guardava, e espiava os passantes nas ruas que conduziam aos bairros baixos de Roma.

Ao passar a porta do prostíbulo frequentado pela classe mais baixa de Roma, entrava  na cela da pretensa Lyscica e ali permanecia até satisfazer o seu apetite sexual.

Pela madrugada era necessário expulsar deste lugar maléfico, esta loba insaciável ainda que morta de fadiga. 
Nao havia diferença entre esta imperatriz  prostituta imunda e feroz, com as meretrizes gregas ou romanas, ou com a menos ilustre das cortisãs gregas, ainda que muito perversa e cobiçosa.

Em Messalina não havia mais que lubricidade bestial.
A sua vida foi marcada por um excesso de prazeres lascivos, extravagantes, e crueldade sanguinária.
Uma loucura monstruosa que aproveitou um poder que não estava previsto, para exercer as suas paixões lúbricas.

(Segundo o escritor C. E. Beulé (escritor e arqueólogo 1826-1874), nos personagens do século de Augusto havia um excesso de atividade libertina que era necessário reprimir.
Um temperamento que os princípios e  uma vigilância severa teria grande dificuldade em conter.)

Na sua pessoa, o prazer amargo dos sentidos e a fúria  do temperamento, tinham absorvido, desnaturado, exterminado, devorado  as outras forças.
Não havia nela amor pelas artes, pelas letras, a delicadeza intelectual que muitas vezes substitui a moral, nem sequer a presunção feminina da qual a máscara por vezes ainda se aparenta com a virtude.

Cláudio e Messalina-Tetradracma cunhado em Alexandria, 42-43.
Cabeça de Cláudio laureada à direita.
TI KɅAYΔI KAIΣ ΣEBA  ΓEPMANI AYTOKP
Rev. Messalina com véu, diadema e drapeada à esquerda, com duas  espigas  no braço  
esquerdo, e o direito estendido com duas crianças na mão, (Britânico e Octávia).
MEΣΣAɅI NA KAIΣ ΣEBAΣ
(Ref. BMC-73; Milne-94 var.; Curtis-17; RCV-1869 var.)

Cláudio e Messalina, AE 18 cunhado em Knossos, cerca de 48.
Anv. Cabeça de Cláudio à esquerda.
CLAVDIVS CAESAR AVG GERMANICVS
Rev. Messalina drapeada à direita.
VALERIA MESSAL
(Ref. RPC I, Knossos-1002)

Minada pelo vício, escrava do seu corpo, a volúpia  era o quotidiano deste ser que, por não estar sujeito a qualquer repressão, desenvolveu-se como uma doença crónica.
Todos os vicíos que um poder ilimitado lhe permitia satisfazer, levavam fatalmente à mesma atividade : a voluptuosidade.

Uma das maiores obcenidades que lhe são atribuidas, foi quando Messalina  se interessou pelo seu padrasto Ápio Silano, (segundo esposo da sua mãe)  que não cedeu aos seus avanços.
Messalina que  não lhe perdoou esta ofensa, conspirou contra ele e Cláudio deu ordens para que Ápio fosse executado. 

Cláudio, Informado por Tibéruis Claudius Narcissus (um dos seus espiões) acabou por descobrir que além da sua deboche, todos os escândalos, inclusive a sua prostituição em bordéis imundos, Messalina também tinha esposado o seu amante Gaius Silius, com um contrato de casamento em boa e devida forma.

A gota de água que fez transbordar o copo.
Cláudio assinou o contrato de casamento, porque lhe disseram que o documento era uma maneira de o proteger e condenar outros, contra uma ameaça que alguns bruxos tinham anunciado.
O imperador que não lhe perdoou esta ofensa, deu ordens para que fosse assassinada, o que aconteceu no ano 48 nos jardins de Lucullus.

Informado da morte de Messalina quando se encontrava num banquete com alguns amigos, Cláudio nem perguntou quem a tinha matado, apenas pediu para lhe encherem o copo e continuou a comer. (Suetónio, Cláudio, 26,  (Pag. 13/19)2

 
Cláudio e Messalina AE 20  cunhado na Lídia, 43-49
Anv. Bustos laureados e drapeados de Messalina e Cláudio.
TI KɅAY KAI ΣEBAΣ
Rev. Britânico em pé vestido com a toga, e espigas de milho na mão direita.
(Toga: peça de vestuário característica da Roma Antiga.)
(Ref. RPC, Trales Lídia -2654)   

Assim pereceu a incarnação da luxúria. Quanto a Cláudio, após alguns dias de silêncio declarou que não voltava a casar.
Esta é uma história quase incrível e muito controversa, mas sem dúvida com alguma verossimilidade. 
Uma análise desta estranha personalidade da Roma Imperial, “Messalina”, uma mulher fatal, da qual
ainda fica muito por contar.

MGeada

Bibliografia

Alfred Jarry, Messalina, Romance da Antiga Roma-edição Sistema Solar, idioma português, janeiro 2016.
Dina Sahyouni, Le Pouvoir Critique des Modeles Féminins dans les Mémoires Secrets : Le Cas  de Messaline.
Gérard Minaud ; Les Vies des Douze Femmes D´Empereur Romain-Devoirs, Intrigues & Voluptés, Paris, L´Hammatan, 2012, chap. 2, La vie de Messaline, femme de Claude, p. 39-64.
Jacqueline Dauxois: Messaline - Edition Pigmalion, 16-04-2012.
Jean-Noel Castorio: Messaline, la putan impériale, Edition Publicola, mars 2015.
Paul Veyne : La Société Romaine, Points Histoire, Editions du Seuil, 1995.
Pierre Grimal ; L´Amour à Rome, Petite Bibliothèque Payot, 1995.
Siegfried Obermeier; Messalina, a imperatriz lasciva, editora: geração editorial: idiona português - 2007.