domingo, 25 de agosto de 2019



QVO VADIS  “PARA AONDE VAIS”

Várias famílias compartilharam ao longo dos séculos, o destino de Roma.
Tanto a Républica como o Império, viram o dia graças ao carismo de alguns  indivíduos, exemplo: Augusto para a família Julius-Claudius (Júlio-Claudiana), ou Vespasiano para a dinastia Flaviana (ou dinastia dos Flávios) etc,.
A perda do renome e do poder dessas familias estão muitas vezes ligadas à arbitraridade, ao despotismo e à cupidez dos últimos membros da família que causaram a sua perda. O imperador Nero foi um desses exemplos.
Filho de Cneu Domício e de Agrippina a Jovem, Nero foi adoptado por Cláudio a quem sucedeu. Foi o quinto e último imperador da dinastia Júlio Claudiana, 27 a. C.-68 d.C.:governou do ano 54 a 68, e o seu governo foi marcado por intrigas, assassinatos e tirania.

Ambicioso, para poder governar só, no ano 59 mandou matar sua mãe, e no ano 62, a sua esposa Octávia.
Doze dias depois casou com a bela Popeia Sabina, que ele próprio matou no ano 65 com um pontapé no ventre, quando esta se encontrava grávida do segundo filho.
Nero também tinha o hábito de causar o declínio dos ricos, para se apropriar os seus bens.  
   
As suas despesas extravagantes contribuiram para esvaziar os cofres do Estado.
Ordenou a persecução e cruxificação de milhares de cristãos.
Diz-se que durante o seu reinado chegaram a ser cruxificados quinhentos cristãos por dia, e as arenas tornaram-se lugares sinistros onde a decapitação era constante.

A ele também foi atribuído o incêndio de Roma no ano 64, não só para acusar os cristãos, mas também para construir Néropolis, um ponto relevante de arte e cultura.
Séneca (filósofo) que caíu em desgraça no ano 62, diz que o exército foi obrigado a amontoar milhares de romanos no Fórum para ouvir os pseudos concertos de Nero, e ninguém podia sair do local antes do imperador terminar o seu recital. Cacofonia que podia durar muito tempo.
Séneca também escreveu que homens e mulhures com idade avançada morriam no local, e mulhers grávidas davam à luz nas arquibancadas.

Sob a sua liderança as províncias da Armenia, Judeia  e Britânia, revoltaram-se contra a sua política.
No ano 68, o exército de Galba revoltou-se e dirigiu-se para Roma. Nero que pressentiu que o seu fim estava próximo, cometeu suicídio.
Alguns historiadores acreditam que tenha sido assassinado pela sua guarda pretoriana.
O assassinato dos imperadores pela sua própria guarda, acontecia com muita frequência. De protectores passaram a ser carrascos, o que deu origem a um período de guerra cívil em todo o Império.

No reverso, a propaganda continua a ser sensivelmente a mesma utilizada por  Cláudio, no entanto: Minerva, Diana e a Fortuna foram substituídas pela Vitória que passou a ser muito divulgada.

Nero – Sestércio cunhado em Lião no ano 65.
Anv. Nero laureado à direita,
NERO CLAVD CAESAR AVG GER TR P IMP P P
Rev. Vitória segurando um globo com a incrição  S P Q R  - S C
(S P Q R=SENATVS POPVLESQVE ROMANVS,
que pode ser traduzido como, "O Senado e o Povo Romano") 
(Ref. RIC-477; Cohen-292)

Vesta , a deusa do fogo, também aparece com muita frequência nas moedas, assim como Jano, que por ser representado com dois rostos, também era considerado o deus das portas.

Nero – Denário cunhado em Roma em 65-66
Anv. Nero laureado à direita
NERO CAESAR AVGVSTVS
Rev. Templo de Vesta
(Ref. RIC-62; RSC-   335; BMC-104)

Nero - Sestércio cunhado em Roma no ano 65
Anv. Nero laureado virado à direita.
NERO CLAVD CAESAR AVG GER TR P IMP PP
Rev. Tempo de Jano, portas fechadas.
PALE PR TERRA MARIQ PARTA IANVN CLY SIT,  S C
(Ref. RIC-300; Sear-1973 var.; BMC-225)

Nero – Sestércio cunhado em Lião no ano 65.
Anv. Nero laureado à esquerda,
NERO CLAVD CAESAR AVG GER P M TR P IMP P P
Rev. Arco de Triunfo de Nero, sobrelevado por uma quadriga conduzida por Nero
acompanhado pela Pax à esquerda e uma Vitória à direita, ladeados por dois soldados.
Entre as colunas, a estátua de Marte nu com capacete.
(Ref. RIC-393; Cohen-306

Nero a tocar lira personificando o deus Apolo ; deus que patrocina o intelecto, a adivinação e as artes, brilha com todo o explendor num asse. 
O templo de Jano, o Arco de Triunfo de Nero, e montado num cavalo galopando, continuam a ser as moedas mais interessantes deste imperador.

Nero – Asse cunhado em Roma em 73-76
Anv. Nero laureado à direita,
NERO CAVD CAESAR AVG GERM P M TR P IMP P P 
Rev. Nero à direita com a capa de Apolo Citaredo, tocanco lira (ou citarra)
(Citaredo: designa uma estátua ou outro tipo de imagem de Apolo portando um dos seus atributos: uma lira). 
(Ref. RIC I-74 var.)

Nero-Sestércio xunhado em Roma no ano 63
Anv. Nero laureado virado à esquerda.
NERO CAESAR AVG GERM PM TR P IMP PP
Rev. Nero a cavalo, acompanhado por um segundo cavaleiro
DECVRSIO  S C 
(Ref. RIC-171; Sear-1957; BMC-145)

Por ser um dos imperadores mais conhecidos da história de Roma, as moedas de Nero são geralmente muito procuradas.

MGeada 

Bibliografia
Alain Decaux; La revolution de la croix : Nero et les cretiens, Éditions Perrin 2017.
Claude Aziza; Nero : Le mal aimée de l’Histoire, Gallimar collections, nº 493, 2006.
Eugen Cizek : Nero L’empereur Maudit, Éditions Fayar, Paris 1997.



sábado, 27 de julho de 2019


Templo de Minerva

Conhecem-se três templos dedicados à deusa Minerva, mas é provável que tivesse havido mais.
Um destes templos foi construído no monte Célio.
Tinha o nome  de Minerva CAPTA (Minerva cativa), e pensa-se que foi construído para hospedar  uma Minerva tomada em Falérios, aquando da conquista da cidade pelos romanos.

O segundo, terá sido construído no Aventino, em 263 a.C..
O terceiro, igualmente situado no Aventino, foi construído por Pompeio (106-48) a.C..

O denário do  imperador Adriano aqui reproduzido,  mostra-
-nos um templo com quatro colunas, construído num pódio com duas escadas.

A arquitrave e o frontão são decorados com frisos e molduras.
O cimo e os acrotérios, são decorados com folhas de palmeira.
Ao centro, entre as colunas, vê-se a estátua de Minerva em pé, com uma pátera (5) na mão direita e um ceptro na mão esquerda.

Adriano –117-138, denário, oficina incerta
Anv. Adriano laureado e drapeado à direita
HADRIANVS AVGVSTVS
Rev. Templo com quatro colunas, a deusa figura
ao centro com uma patera na mão direita  COS III

Minerva era a deusa romana do trabalho manual, das profissões, das artes e, posteriormente da guerra.
Identificava-se com a deusa grega Atena, e alguns histo-riadores pensam que o seu culto adoptado  por Roma, seja oriundo da Etrúria.

A Deusa era venerada em diversos templos romanos.
Uma "SELLAE" (sala) era-lhe reservada no templo de Júpiter Capitolino, onde juntamente com Júpiter, e Juno, formava a TRÍADE.

O culto de Minerva como deusa da guerra, superou o de Marte. A festa conhecida por QVINQVATROS, celebrada no quinto dia após os "ides" de Março (dia 15), e que, inicialmente era dedicada ao deus Marte, passou a ser em honra de Minerva.
(Ides de Março: no calendário romano designava o 15 março, Maio, Julho e Outubro, e o 13 dos 8 meses restantes).

O templo que Pompeio mandou construir em sua honra, com os despojos de guerra conquistados no Oriente, mostra que Minerva  era identificada com Atena Nice, que concedeu as vitórias. 

No reinado de Domiciano, o culto de Minerva atingiu o seu apogeu.
O imperador Adriano fundou o ATHENAEVM destinado a promover actividades intelectuais. A moeda com o templo acima reproduzida comemora esse evento).

Júlio César – Dupondio cunhado por cerca do ano 44
Anv. Vitória busto drapeado à direita
CAESAR DIC TER
Rev. Minerva em pé à direita com troféu, e escudo decorado
com uma Medusa; uma serpente aos seus pés
PRAEF C CLOVI
(Ref. Sear-1417, Sydenham-1025)

Vespasiano – Sestércio cunhado em Roma no ano 76
Anv. Vespasiano laureado e drapeado à direita
IMP CAES VESPASIAN AVG P M T P COS VII
Rev. Templo de Júpiter Capilolino com as estátuas
de Minerva Júpiter e Juno, S C 


Domiciano – denário cunhado em Éfeso em 76 no reinado de VespasianoAnv. Domiciano laureado à esquerda
CAESAR AVG F  DOMITIANVS
Rev. Minerva em pé à direita com uma lança na mão esquerda
e escudo na direita, uma coruja  aos seus pés  COS IIII (legenda invertida)
(Ref. RIC-1493, RPC-1648, SRC-45b)

Hadriano – Denário cunhado em 125-128
Anv. Adriano laureado à direita
HADRIANVS AVGVSTVS
Rev. Minerva em pé com uma lança na mão direita   COS III
(Ref. RIC II-160, Colline-302, SRC- 353)

Septímio Severo – cunhado em 194-195
Anv. Septímio laureado à direita
L SEPT SEV PART AVG IMP IIII
Rev. Minerva em pé com capaceto, escudo e lança
P M TRP III COS IIIIII P P
(Ref. RIC-53)

MGeada

Bibliografia

Manuel Félix Geada Sousa; História dos Monumentos Romanos Conata Através das Moedas pag.39/40, Edição Alma Azul 29-07-2006

sábado, 29 de junho de 2019


«FILIPES»: Estáteres de ouro de Filipe II da Macedónia

As moedas de tipo “Filipe” são frequentemente mencionadas na literatura antiga, mas também em inscrições lapidárias.
Diodorus da Sicília, Pollux, Plautus ou Titus Live, falam sobre sobre isso em suas obras.
Há também algumas moedas tipo “Filipes” mencionadas no Corpus das inscrições gregas, por exemplo nas contas  dos Hieros de Delos (ver Bull Corr Hell., Vol VI, 1882, pag.131), ou ainda nas contas do Templo de Eleusis, tome VIII, 1888, pag. 198)
Na verdade são estáres de ouro de Filipe II da Macedônia, pai de Alexandre o Grande.

Reino da Macedónia Filipe II 359-336, a.C.
Estáter de ouro cunhado em Pela (capital da Macedônia) por cerca de 340-328 a C.
Anv. Apolo com coroa de louro à direita
Rev. Biga galopando para a direita, sob os cavalos um escudo 
ΦIΛIΛППOY

Os de tipo Apolo de Icnas (antiga cidade da Macedónia) têm no anverso a cabeça de Apolo laureada, e no reverso a Biga que faz lembrar a vitória de Filipe nos jogos olímpicos do ano  356 a. C. . O seu peso é de 8.60 gramas, depassando de 20 centigramas o dárico (moeda de ouro com cerca de 8 grs. comum no Império Aquemênida, desde a sua introdução pelo rei Dário I, (reinou de 521 a 486 a.C.) à qual lhe deu o seu nome.

Mas o costume dos gregos de dar o nome de “dárico” às moedas de ouro era tão inveterado que o termo de “Filipe” não prevaleceu imediatamente, e as novas moedas de ouro eram às vezes chamadas de «dáricos de Pilipe», para distingui-las dos  dáricos asiáticos ligeiramente mais leves.

Reino da Macedónia Filipe II 359-336, a.C.- Estáter de ouro
Anv. Apolo com coroa de louro à direita
Rev. Biga galopando para a direita e tripode
ΦIΛΠΠOY
(Ref. VAE15-246)

Os gauleses imitaram abundantemente o Filipe e o duplo Filipe de ouro na sua cunhagem national, até perderem a sua independência com Vercingetórix, que por sua vez tinha cunhado estáteres de ouro ainda marcados com o cunho desta inspiração macedônia.
Sob o Império Romano, os Filipes designavam muitas vezes a moeda de ouro actual. O nome de Filipe de dois imperadores do terceiro século, contribuiu para relembrar uma apelidação que tinha caído no domínio exclusivo da literatura.

Reino da Macedónia Filipe II 359-336, a.C.
Estáter de ouro cunhado em Infípolis cerca de 340-328 ou 336-328 a.C.
Anv. Apolo com coroa de louro à direita
Rev. Biga galopando à direita, e tridente
(Ref. Pozzi-836, Muller-59, Le Rider-123)

Talvez tenham sido os poetas cómicos que começaram a popularizar em Roma o nome vulgar dos estáteres de Filipe de Macedónia, que ao traduzir para o latim as comédias atenienses, onde muitas vezes é questão dos verdadeiros Filipes, por exemplo, as comédias de Menandro e Filémon, estes cómicos inventaram um novo termo para designar a moeda de ouro. Isto aplicado às moedas de ouro contemporâneas, com uma efígie imperial, tomou outro sentido que acabou por dar o nome de “Filipus”a todos os tipos de moedas cunhadas nos três metais: ouro, prata e cobre.  

MGeada

Bibliografia

Diodora da Sicília: A vida de Pilipe da Macedónia
Vigne; Jean Bruno, La vie des Monnais Grecques-Editions Jean Bruno Vigne-1988.
https://www.numisbids.com/n.php?p=lot&sid=2180&lot=147
https://pt.wikipedia.org/wiki/Filipe_II_da_Maced%C3%B3nia

quinta-feira, 30 de maio de 2019

"ADVEVTVS” Chegada dos Imperadores  a Roma

As inscrições do tipo “ADVENTUS = “chegada” comemoram a chegada do imperador a Roma, seja no início do seu reinado ou quando de regresso de uma longa viagem. Estas inscrições também se referem à chegada dos imperadores às cidades ou províncias do Império.

Quando subiam ao trono, os imperadores não eram transportados  em biga ou quadriga nem outro tipo de veículo, mas a cavalo e por vezes mesmo a pé. Era assim que eles faziam a sua primeira entrada pública na capital do Império Romano.

Esta procissão equestre do imperador em Roma, mesmo que não seja autentificada por outras fontes, aparece cunhada em numerosas moedas romanas com o imperador a cavalo, e a legenda ADVENTVS AVGVSTVS (= “chegada de Augusto”).

Um outro costume, que consistia que o imperador chegasse até às portas da cidade a cavalo e depois entrar nela a pé, não é claramente estabelecido nas legendas das moedas. Portanto este costumo é relatado por Dião Cássio na sua descrição da entrada de Septímio Severo em Roma. 
Este imperador é mostrado a entrar em Roma a pé numa moeda em bronze de Caracala, cujo reverso o representa a caminhar, seguido por um soldado.

A legenda ADVENTVS aparece em moedas dos imperadores Nero, Trajano, Adriano, Caracala, Filipe I, Claudio II o Gótico, Constâncio II, Probo Caracala e outros.  
Os tipos destas moedas excepto as de Adriano com a legenda «ADVENTVI AVGVSTO», geralmente consistem de uma  imagem do imperador a cavalo, com a mão direita levantada, por vezes precedido por uma Vitória ou,  Roma em pé com uma lança na mão esquerda, e dando a direita ao imperador
Noutros casos, o imperador é precedido por soldados com estandartes ou insígnias militares.

Algumas moedas romanas nas quais é representado o “ADVENTVS”
com a legenda ADVENTVS

Adriano – Denário cunhado em Roma em 134-138
Anv. Adriano cabeça nua à direita
HADRIANVS AVG OS III P P
Rev. Roma em pé com uma lança na mão esquerda, e dando a mão direita a Adriano com  direita  - ADVENTVS
(Ref. RIC-225ª: RSC-84


Filipe I - Sestércio cunhado em Roma em 244-249
Anv. Filipe laureado e drapeado à direita
IMP M IVL PHILIPPVS AVG
Rev. Filipe drapeado e cuiraçado cavalgando para a esquerda
ADVENTVS AVG   S C
(Ref. RIC-165; Cohen 6)

Cláudio II o Gótico – Antoniniano cunhado em Roma em 268
Cláudio II com coroa radiada e drapeado à direita
 IMP C CLAVDIVS AVG
Rev. Cládio cavalgando ao passo à esquerda levantando a mão direita e um ceptro na esquerda
ADVENTVS AVG
(Ref. RIC-13 ; RCV-11314)

Probo – Áureo cunhado em Roma, 276-282
Anv. Probo laureado e drapeado à direita
IMP C M AVR PROBVS AVG
Rev. Probo a cavalo precedido por uma Vitória com um ceptro na mão esquerda e levantando a mão direita 
ADVENTVS AVG
(Ref. RIC-582 var. ; Calicó4138a)

Constâncio II – Medalhão equivalente a um sólido e meio, 
cunhado em Roma em 355-361
Anv. Constâncio diademado e drapeado à direita
FL IVL CONSTANTIVS PERP AVG
Rev. Constâncio cavalgando para a  esquerda, com o manto flutuando levantando a mão direita
FELIX ADVENTVS AVG  -  N R
(Rev. RIC-288; Sammlung Trau 4143)

Caracala – Denário cunhado em Roma em 202
Anv. Caracala laureado e drapeado à direita
ANTONINVS PIVS AVG
Rev. Galera vogando para a erquerda, na qual apercebemos Septímio Severo, Caracala e Geta sentados. A proa está ornamentada com um acrostólio e duas insígnias
ADVENTVS  AVGVSTOR/vm – Chegada dos Augustos
(Ref. RIC-121; RSC-8; BMC-268)

(Caracala, 27-05-196, 08-04-217
Co-imperador com seu pai Septímio Severo, 04/198-209, Caracala foi nomeado Augusto em abril de 198, antes da grande vitória  dos Partas.
No ano 202, casou com Plaucila filha do perfeito do Pretório Plauciano, que relegou três anos depois. Em 204 começou a celebração dos Jogos Seculares. Septímio Severo tentou impor a imagem de uma nova dinastia. Caracala comemorou as suas decenárias em 217, e acompanhou seu pai à África. No final do ano 208, juntou-se a seu pai na Bretanha quando os exércitos romanas alcançaram os primeiros sucessos.
A galera no reverso deste denário com a legenda ADVENTVS AVGVSTOR/vm, dá as boas vindas à chegada aos Augustos  à África).

MGeada

Bibliografia

Georges Depeyrot; La Monnaie Romaine – 211 a C.-476 d C. 
http://www.comptoir-des-monnaies.com/index.php/monnaies-romaines-c-89509_90027
http://www.sacra-moneta.com/Numismatique-romaine/EMPEREURS-ROMAINS-L-ENTREE-DES-EMPEREURS-DANS-ROME-L-ADVENTVS.html

sábado, 27 de abril de 2019


 PUTEAL ESCROBONIANO (OU POÇO DE ESCRIBÔNIO)

A origem desta construção é explicada por Babelon (1).
Segundo uma lenda, na Roma antiga os locais atingidos por relânpagos eram sagrados.
Lucius Scribonius Libo (Lúcio Escribônio Libão) terá sido mandatado pelo Senado para localizar e registar todos os locais atingidos por este fenómeno atmosférico.

O átrio do templo de Minerva também foi atingido por um raio.
Como então se pensava que os deuses proibiam a cobertura desses locais, Escribôrnio teve a ideia de aí mandar abrir um poço, para que mais ninguém lá pudesse edificar qualquer construção.

O poço de Escribônio foi redescoberto em 1950, aquando de escavações perto do Arco de Actiun.
Este poço foi cunhado em emissões monetárias de L. SCRIBONIVS LIBO e LVCIVS AEMILIVS LEPIDVS PAVLLVS
no ano 62 a.C..

Na sua representação, o poço está ornamentado com uma grinalda de folhas de loureiro ladeadas por duas liras, tenaz, ou martelo.
(1)Numismata e arqueólogo francês do século XIX).

República Romana - Denário cunhado em Roma no ano 62 a.C.
Anv. Bonus Eventus (Bons Eventos) com diadema à direita
BON EVENT LIBO
Rev. Poço de Escribônio ornamentado com uma grinalda de folhas de loureiro, duas liras e tenaz
PVTEAL SCRIBON
(Ref. Sydenham-928; Crawford 416/1b)

República Romana – Denário cunhado em Roma em 62 a.C.
Anv. Concórdia com diadema e véu à direita
PAVLLVS LEPIDVS CONCORD
Rev. Poço de Escribônio ornamentado com uma grinalda de folhas de loureiro, duas liras e martelo
PVTEAL SCRIBON LIBO
(Ref. Sydenham-927; Crawford-417/1ª)

M.Geada

Bibliografia

quarta-feira, 27 de março de 2019


Danúbio, segundo maior rio da Europa

Chamado Danuvius ou Danuvio pelos romanos, uma parte do rio no entanto foi chamada de Ister. Grande parte dos autores antigos discordam sobre o curso, o nome do Danúbio e do Ister. João Xifilino afirma que a ponte do imperador Trajano foi construída no Ister.

Venerado como uma divindade por Getas, Dácios,Trácios e outros, o Danúbio tem a sua nascente em Donauschingen, nas montanhas da Floresta Negra, território de Baden na Suábia, e a sua foz no Mar Negro, (conhecido na Antiguidade por Ponto Euxino).

Na Mésia ou Moésia (atual Sérvia), a Leste de Viminácio nas margens do rio encontra-se a cidade de Taliatis, ou Taliata. Perto deste lugar encontra-se o espectacular desfiladeiro rochoso chamado de “Portas de Ferro”.
É neste lugar que o antigo nome do Danúbio mudava; a Leste Ister e a Oueste, Danúbio. 

Um pouco a Leste das Portas de Ferro ficava a ponte de Trajano (ou Ponte das Portas de Ferro). Esta ponte construida no ano 101 d.C. tinha como objectivo facilitar a conquista da Dácia.
Para os romanos, o Danúbio foi sempre a  fronteira entre o Império e os povos bárbaros do Norte, (excepto o território da Dácia, entre a conquista de Trajano e o fim do século III). 

Um pouco a leste das Portas de Ferro ficava a ponte de Tajano. Esta ponte foi construida para pelo imperador Trajano para facilitar a conquista da Dácia (actual Romênia). Do ponto de vista romano, o Danúbio sempre formou a fronteira entre o Império e os povos bárbaros do Norte (excepto pelo território da Dácia  entre a conquista de Trajano eo final do século III. 

Apesar de algumas dificuldades especialmente durante o reinado de Marco Aurélio, que lutou contra os Marcomanos no Danúbio, ou durante o período conturbado dos anos 256 a 259), os romanos mantiveram o controlo do Danúbio graças a uma frota ali estacionada até ao reinado de Valentiniano I, 364-375.  

Do século III au século V, durante as grandes invasões vindas do Leste, (Vandalos, Visigodos, Hunos, Ávaros e Eslavos) utilizaram o vale do Danúbio para penetrarem de Leste a Oueste, até ao centro da da Europa.

Como muitas outras ideias ou coisas, os romanos representavam o Danúbio (assim como outros rios, como o Nilo), na forma de uma pessoa.
Esta personificação aparece especialmente nas moedas do imperador Trajano, conquistador da Dácia e para quem o Danúbio desempenhou um papel essencial.

Além disso, é também nas moedas de Trajano que se podem ver representações de uma ponte (ver moeda abaixo). A ponte que figura nesta moeda foi muitas vezes confundida com a ponte sobre o rio Danúbio.
Nas moedas a ponte aparece com um único arco e está coberta com uma dupla colunata e duas portas nas sua entradas, encimadas por estátuas. Na verdade, é uma representação da Ponte Sublicius em Roma.

Sob o tema da personificação do Danúbio, também o vemos representado em moedas de Marco Aurélio que também teve que intervir na região do Danúbio contra os Marcomans, e ainda em moedas  dos imperadores Marco Aurélio e Macrino, em moedas colonias romanas.

A representação do Danúbio é representada na forma de uma figura semi-deitada em rochas e apoiado num cotovelo, uma estofa voando por cima da cabeça.
Geralmente segura a proa de um navio com a mão esquerda, que talvez simbolize a frota romana. Numa moeda do imperador Trajano, vemos o Danúbio estrangular um Dácio bárbaro com um joelho.
De notar que os romanos consideram o Danúbio um rio fronteiriço com os bárbaros, e que este pertencia a Roma.

 Moedas representando o Danúbio


Trajano – Denário cunhado em Roma em 103-111
Anv. Trajano laureado à direita,
IMP TRAIANO AVG GER DAC P M
Rev. Danúbio deitado sobre uma rochas virado à esquerda, manto flutuando por cima da cabeça, braço esquerdo apoiado numa urna, e mão direita na proa de um navio,
COS  V P P SPQR OPTIMO PRINC
Por baixo da representação, DANVVIVS
(Ref. RIC – 100; BMCRE – 395; RSC -136)


Trajano – Sestércio oficina ?, cunhado em 103-111
Anv. Trajano laureado à direita,
IMP CAES NERVAE TRAIANO AVG GER PM TRP COS V PP  S-C
Rev. Danúbio de pé à esquerda, colocando um joelho sobre um Dácia, mantendo-o sentado no chão,
SPQR OPTIMO PRINCIPI  S C
(Ref. RIC II, var. – 556; Choen – 525;  BMCRE – 793)


Trajano – Sestércio cunhado em Roma por cerca de 106-111
Anv. Trajano laureado à direita,
IMP CAES NERVAE TRAIANO AVG GER DAC P M  TR P COS V P P
Rev. Ponte Sublicius em Roma, com um arco, dupla colonada encimadas por estátuas, e barco no rio.
SPQR OPTIMO PRINCIPI  S C
(Ref. RIC – 569; BMC – 847; Choen – 542

(Embora a representação desta ponte não corresponda à descrição dada por Dião Cácio, considera-se frequentemente que esta moeda representa a ponte construida sobre o Ister (Danúbio) durante a segunda expedição à Dácia).


Marco Aurélio – Asse cunhado em 175
Anv. Marco Aurélio laureado à direita,
M ANTONINVS AVG T R P XXIX S C
Rev. Personificação do Danúbio semi-deitado numas rochas, com a mão direita apoiada na proa de um navio
Rev. IMP VII COS III
(Ref. Foto Dr. Busso Peus Nachfolger)


Macrino – Asse de bronze colonial cunhado em Nicópolis em 217-218
Anv. Macrino encouraçado e laureado à direita,
K OППEΛ CEV MAKPEINOC
Rev. Ister = Danúbio semi-deitado olhando para a esquerda, com a mão direita pousada na proa duma galera, e a esquerda segurando um jarro de onde flui a água do rio,
LONGINOU NIKOPOLITWN
(Ref. Moushmov – 1273; Verbanof – 3464)

MGeada

Bibliografia
Etienne Robert; Le Siècle d’Auguste, Paris, Édittions Colin,1970.
François Zosso: Les Empereurs Romains – 27 a. C.-476 dC. Éditions Errance, Paris, 1994.
Grimal Pierre : Marc Aurèle – Paris, Éditions Fayard, 1991.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_Dan%C3%BAbio
https://es.wiktionary.org/wiki/Danubio


terça-feira, 26 de fevereiro de 2019



Corno de Abundância (ou Cornucópia) em Moedas Antigas

Do latim "cornu copiae" ou “corno de abundância”, hoje mais conhecidos por cornucópia, segundo uma das muitas lendas é um dos chifres da cabra Amalteia que alimentou Zeus durante a sua infância.

Na versão da náiade Amalteia do Monte Ida, (na mitolgia grega ninfas aquáticas com o dom da cura),  esta teria escondido a criança no bosque.
Proprietária da dita cabra, quando Zeus brincava com ela,  quebrou acidentalmente um chifre contra uma árvore. Amalteia guardou-o, enrolou-o com ervas e levou-o cheio de frutos aos lábios de Zeus. 
Quando Zeus se tornou o mestre do céu,  transformou a cabra e o chifre na constelação do Capricórnio.

A cornucópia símbolo bem conhecido da abundância, fecundidade, fertilidade e da alegria, foi muitas vezes representada em moedas antigas. Neste trabalho vou apresentar uma série destas moedas nas quais estão representadas cornucópias.

Reino Lágida - Egipto
Ptolomeo III Evérgeta – grade bronze cunhado em Alexandria, 246-221 a.C.
Anv. Cabeça de Zeus Ámon com chifres e diadema à direita
Rev. Águia de pé sobre um raio, e cornucópia
PTOLEMAIOU BASILEWS
(Ref. Svoronos-965, Cop-173, BMC-59, GC-7816, MP-120)

Reino Ptolemaico do Egipto – Tetradracma 244/3-221 a.C.
Anv. Benerice II (esposa de Ptolomeo III) velada à direita
Rev. Cornucópia com frutos e pendentes entre dois pileus, =
(gorros dos Dióscuros) – BAΣIΛΣΣHΣ  BEPENIKHΣ
(Ref. Friedlaender e Von Sallet-522, Jamesson-1820, Pozzi-3237)

Ásia Menor – Jônia – Lébedos (ou Lébedo)
Magistrado Anaxipolis – Tetradracma 160-140 a.C.
Anv. Cabeça de Atena com capacete à direita
Rev. Coruja em pé entre duas conucópias com frutos,
dentro de uma coroa de oliveira,
ΛEBEΔIΩN    ANAΞI ПOΛI
(Crawford-2027)

Síria Seleucida
Alexandre II Zebina – Dracma cunhado em Antioquia 128-122 a.C.
Anv. Cabeça de Alexandre II com diadema à direita
Rev. Dupla cornucópia com frutos
(Ref. SNG Cop-363)

Podemos notar que estas cornucópias foram representadas em moedas de todas as origens geográficas: sêleucidas, ptolomaicas, partas, norte-africanas e judias, mas também em moedas gregas e romanas.

Reino Indo-Grego
Philoxene –Hemiobolo em bronze 100-95 a.C.
Anv. Deméter (na mitologia grega é a deusa das colheita
e da agricultura) com uma cornucópia à esquerda
Rev. Touro à direita
(Ref. Mitch-1960)

Quase sempre representada sózinha, a cornucópia também aparece dupla. Nas moedas da Répública e Império romano, elas são o atributo de diversas personificações e alegorias, nomeadamente a Abundância, a Fortuna e por vezes personificações mais surpreendentes como a Concórdia, que num sestércio de Aquília Severa detém uma dupla cornucópia.

L. Sulla – denário cunhado em Roma em 81 a.C
Anv. Venus com diadema e colar à direita
Rev. Dupla cornucópia com frutos
(Ref.Sear5- 303, Cornelia-33, Crawford-375)

Aquília Severa – Sestércio cunhado em Roma em 220-221
Anv. Aquília com diadema e drapeada à direita,
IVLIA AQVILIA SEVERA AVG
Rev. Concórdia de pé à esquerda com uma patera na mão esquerda sobre um altar aceso, dupla cornucópia e uma estrela no campo,
CONCORDIA  S C
(Ref. RIC-389, BMC-433)

Em termos de corno de abundância, a palma de originalidade é indiscutivelmente um sertércio de Druso filho do imperador Tibério, que mostra no anverso duas cornucópias cruzadas das quais saem duas cabeças de criança, e em pano de fundo um caduceu alado. Aqui os cornos de abundância representam os herdeiros da dinastia imperial. 

Druso – Sestércio cunhado em Roma em 22-23
Anv. Cabeças confrontadas de crianças dentro de cornucópias e caduceu.
Rev. DRVSVS CAESAR TI AVG F DIVI AVG N PONT II   SC
(Ref. RIC I (Tiberius) 42, BMC (Tiberius)-95, CBN (Tiberius)73).

Mais pragmática, uma moeda de Septímio Severo apresenta as três alegorias da casa da moeda, todas com uma cornucópia nos braços. Neste caso é uma abundância monetária.


Septímio Severo – Sestércio cunhado em Roma no ano 194
Anv. Septímio laureado com couraça à direita,
SETE SEV PERT AVG IMP III
Rev. As três Monetae (moedas) de pé, cada uma segurando uma cornuçópia e uma balança, MONET AVG COS II P P  SC
(Ref. RIC-670, Cohen-336, Sear-6416.)

O imperador Augusto, muito supersticioso, fez representar numa das suas moedas o seu signo astrológico, o Capricórnio, atrás do qual aparece um corno de abundância, uma referência à Fortuna que detém o destino dos homens nas suas mãos. Enquanto Tibério optou por cornucópias cheias de espigas.

Augusto – Denário cunhado em Emérita (actual Mérida) no ano 16 a.C..
Anv. Busto de Augusto à direita
Rev. Capricórnio à direita com uma cornucópia nas costas, um globo e um leme entres as pernas,  AVGVSTVS
(Ref. RIC-547ª, RSC-21, BMCRE-346)

Tibério – AE cunhado em Comagene ? em 19-20
Anv. Tibério laureado à direita,
TI CAESAR DIVI AVGVSTI F avgvsTVS
Rev. Dupla cornucópia cheia de espigas,
PONT MAXIM COS III IMP VII TR POT XXI
(Ref. RIC-89, BMC-174, RPC-3868)

O "corno de abundância" como elemento da tradicional mitologia greco-romana pagã, desapareceu das moedas quando o Império romano se converteu ao cristianismo.
No entanto o próprio Constantino era pagão antes de se tornar cristão, e as moedas do início do seu reinado representam todos os temas que então podiam ser vistos em moedas, incluindo o corno de abundância.

Constantino I – Follis cunhado em Alexandria em 308-310
Anv. Constantino laureado à direita,
FL VAL CONSTANTINVS FIL AV
Rev. Génio de pé à esquerda, com um módio na cabeça, patera na mão direita, clâmide e cornucópia na esquerda,
GENIO CAESARIS - No campo R à esquerda, AP à direita, em baixo na orla, ALE = Alexandria
(Ref. RIC VI Alexandria-99b)

MGeada

Bibliografia
Pierre Commelin; Mytologie grecque et Romaine, éditions Garnier Frères- 1960
Riordan RICK; Os Heróis do Olimpo – A Marca de Atena-Editora Intrísica 2ªedição. 2013.