terça-feira, 28 de julho de 2020


Introdução da  Imagem no Sistema
Monetário do Mundo Grego Antigo

 Giges da Lídia, 685-644 a.C.
A marca da autoridade real.

Quando por volta do ano 685 a.C., Giges primeiro rei da dinastia Mermada da Lídia  (Turquia moderna), para facilitar as transações comercias  fundiu pequenos pedaços  de electro (liga natural de ouro e prata) sem imagens, estava dado o primeiro passo para a invenção da moeda.
Todos mais ou menos com o mesmo peso, estas “pseudo-moedas” eram estampilhadas com uma marca que atestavam a  sua autenticidade: peso e pureza do metal. 
Pela sua facilidade a trasportar, guardar e sobretudo pelos novos orizontes que abriu ao comércio, esta invenção foi dimediato copiada e, em pouco espaço de tempo espalhou-se a todo o mundo conhecido da época.

 Electro


  Giges, electro, cerca de 685 a.C., 9,02 gr.
(Proto-moeda conhecida por glóbulo em electro)

Mas o verdadeiro inventor da moeda foi o seu trineto Aliates II, cerca de 600-560 a.C., que bateu a primeira moeda “um estáter”, também em electro com um prótoma (protomé) de  leão “emblema da Lídia” numa face. Na outra, a marca de autenticidade.
Mais tarde apareceram outros tipos: com  animais inteiros ou o seu prótoma.
O rosto humano em representação de divindades, também era uma possibilidade entre outras.3 
Moedeiro
Este método “bater moeda”,
permaneceu até ao início do século XVII,
e foi substituído pelo “balancim ou balancé” 

  Prensa de balancim ou balancé.
O lavramento ou cunhagem mecânica em Portugal, teve início
no ano 1677, no reinado de D. Pedro Príncipe Regente.
(Temos deste rei moedas batidas a martelo e de cunhagem mecânica.)

Aliates  II, quarto rei da Lídia 

  Estáter em electro, 11,92 gr.
(prótoma de leão)

   1/3 estáter em electro, 4,60 gr.

  1/6 estáter em electro, 1,77 gr.

  1/12 estáter em electro, 0,92 gr.

Creso, quinto e último rei da Lídia terá nascido por volta do ano 596 a.C., e reinou por cerca de 560 a 547 a.C., iniciou durante o seu reinado a separação dos metais preciosos.
As suas moedas estáteres, familiarmente chamadas “creseidas”, passaram a ser em ouro ou prata pura com prótomas de animais, um  touro e um leão que se afrontam numa das faces.
Durante muito tempo esses animais que se faziam frente, foram identificados  com o ouro  e a prata que o rei mandou separar.

Creso, estáteres (ou creseidas) em electro

  Estáter, electro-8,07 gr.
Prótoma de leão

 
Estáter, electro-8,11 gr.
Prótoma de cavalo

  Estáter, electro-8,09 gr.
Prótoma de carneiro

Creseidas

 Estáter ouro-10,11gr.  
Prótomas de leão e touro.

  Prata-8,17 gr.
Prótomas de leão e touro.

Ciro II o Grande, fundador do Império Persa (cerca de 558-528 a.C.), venceu Creso e tomou posse da Lídia.
Fiel à tradição que não se deve substituir uma moeda em que o povo tem confiança, Ciro adotou o sistema monetário, e continuou com a cunhagem das creseidas ditas “ligeiras”.

Creseidas ligeiras

  Estáter, ouro-8,05gr.
  
 1/3 estáter em electro, 4,60 gr.


  1/12, estáter, ouro-0,86

 Estáter, prata-5,35gr.

Mais tarde na Pérsia, Dário I criou o seu próprio tipo de moeda, o dárico. Uma representação do rei com os seus atributos, mas irreconhecível como pessoa.
Desde o início do reinado de Dário I (521-486 a.C.), até  Dário III (335-330 a.C.), ou seja durante quase dois séculos as moedas, dáricos em ouro e os siclos em prata, tiveram sempre o mesmo modelo mas com quatro variedades sucessivas.
Estilizados e sem legendas, são uma simples marca da autoridade real e por isso muito difícil  atribuí-los a um ou outro  rei.

  Dáricos 

  Dárico, ouro-8,31gr.
Rei a correr para a direita com arco e lança.

Siclos de prata

   Rei com arco e seta-5,41 gr.

  Rei com arco e lança- 5,43 gr.

  Rei com arco-5,52 gr.
  Rei com lança-5,57 gr.

Moedas Ocidentais
A marca da democracia

 No Ocidente (Grécia, Itália, Sicília), muitas cidades adotaram a  democracia.
O poder era exercido em nome do povo.
Nas moedas emitidas nessas cidades figura muitas vezes numa forma idealizada, a divindade tutelar ou fundadora da cidade.
Em Atenas, a cabeça da deusa Atena, ornamentou desde o fim do século VI, o anverso dos tetradracmas, muito fácies de identificar pelos seus atributos.
Atena com capacete no anverso e mocho no reverso.

  Tetradracmas áticos (Atenas)

  Tetradracma, 520-510 a.C., 15,12gr.

  Tetradracma, cerca de 470 a.C., 17,11gr. 

  Tetradracma, 200-150 a.C., 17,05gr. 

Outras representações constituem símbolos evidentes. Em Lentini (Sicília), além da biga no anverso, o reverso também apresenta muitas vezes  a cabeça de um leão e grãos de cevada.
Em Selinunte (Sicília) uma folha de salsa, ornamentou muitas vezes o anverso  e reverso até ao século IV a.C..

  Lentini – Tetradracma
Cerca de 475 a.C., 16,80gr.

  Selinunte – Didracma
Cerca de 475 a.C., 16,80gr.

Em todos os casos, estas representações impessoais simbolizam a continuidade da autoridade pública e não os sucessivos indivíduos que a constituem.
No fim do século VI, quando apareceram as legendas, é a abreviação do nome  do povo ou da cidade que figura nas moedas, como aconteceu em Atenas e Siracusa. 

  Sicília-Siracusa, tetradracmas

  Cerca de 500 a.C., 16,88gr. 
Anv. Biga à direita e legenda.
Rev. Suástica (cruz gamada) e cabeça da Ninfa Aretusa.
(Ninfa: divindade dos rios, dos bosques e dos montes).

A imagem da cruz suástica é um dos amuletos mais antigos e universais, 
utilizada desde o período neolítico. Aproximadamente o décimo milênio a.C. .

  Cerca de 430 a.C., 17,10gr. 
Anv. Ninfa Aretusa à direita e quatro golfinhos.
Rev. Biga a passo à esquerda, e uma Vitória a coroar o auriga.

   Cerca de 430 a.C., 17,24gr. 
Anv. Ninfa Aretusa à direita, quatro golfinhos e legenda.
Rev. Biga a trote, e uma Vitória a coroar os cavalos.

  Encontro do Oriente com o Ocidente

É no fim do século V, no encontro com estes dois estilos que se situa o aparecimento do rosto humano nas moedas do mundo grego.
No Ocidente durante o decurso do século V, impôs-se um estilo derivado do modelo ateniense.
Uma das faces apresenta a cabeça idealizada de uma divindade, enquanto na outra figura uma composição. Os atributos da divindade com ou sem legenda, ou ainda uma cena da vida religiosa.

  Lucânia (Metaponte), estáter, cerca de 400-340 a.C.
Anv. Deméter, (Ceres dos romanos) à esquerda
Rev. Espiga de trigo e legenda.

O ideal democrático na Grécia, impedia toda a hierarquia de se fazer representar nas moedas emitidas em nome de uma comunidade, ainda que esta fosse dirigida por um tirano, como foi o caso em Agrigento, Siracusa e mais tarde em Atenas.
No Oriente, o estilo proveniente do modelo persa, oferece uma representação em pé e não individualizada do personagem investido do poder: rei, dinastia ou sátrapa.
Mesmo quando o Império Persa adotou a arte grega da representação do rosto humano, ele rejeitou a convenção de nunca associar na mesma moeda duas cabeças ou duas composições.
Pelo contrário, é muito frequente encontrar no anverso e reverso da mesma moeda, duas cabeças ou personagens em pé.

  Lesbos-Mitilene, 1/6 estáter, 377-326 a.C.
Anv. Apolo laureado à direita
Rev. Artemis (Diana dos romanos) à direta.
  
Temístocles, 525-460 a.C.
Um ocidental refugiado no Oriente

Acusado de traição e expatriado por dez anos, é este ateniense acolhido pelo rei persa Artaxerches I, que vai esboçar a combinação do estilo ocidental e oriental.
Tornado soberano da cidade oriental de Magnésio do Méandro, mandou cunhar uma pequena série de estáteres de prata, conformes com a tradição oriental.
No anverso: o deus Apolo em pé apoiado num ramo de loureiro. No reverso: uma ave de rapina. (Águia dita de Apolo com as asas abertas, e segundo um costume ocidental recente, uma legenda).
O nome de Tesmístocles aparece gravado ao redor de Apolo, enquanto no reverso as letras M A (Magnésio) aparecem à esquerda e direita da águia.
De notar que antes dos anos 460 a.C., são raros os reis que assinaram em grego as suas emissões monetárias.

 Estas moedas constituem a primeira série real do mundo grego, e refletem a situação paradoxale de Temístocles, soberano oriental oriundo da democracia grega, onde a representação do (príncipe) é interdita.

  Satrapas e dinastias

Na Lícia, (antiga região da Ásia Menor entre a Cária e a Panfília) por volta do ano 410 a.C., a dinastia oriental Kharai cunhou no reverso das suas moedas uma cabeça masculina com barba, barreto (frígio?), e por vezes com uma coroa de louro.
Os traços do rosto são suficientemente diferenciados para que se possa identificar o rei. Por trás, ou na frente da cabeça, podemos ler KHARAI em caracteres lícias.   
No entanto, o anverso dessas moedas representa igualmente a cabeça de Atena com capacete segundo o modelo oriental.
Se examinarmos com atenção os retratos da moeda aqui representada, apercebemo-nos que a cabeça e o nariz estão muito individualizados. Isto significa que estamos na presença de um personagem (rei), e de uma representação como era hábito nessa época no Oriente.

  Dinastia Kharai, cerca de 425-410 a.C., Estáter 8,11gr
Anv. Cabeça de Atena com capacete ateniense à esquerda.
Rev. Cabeça de dinástico  com barreto (frígio?) à direita, e legenda.

Durante o decurso do século IV a.C., o número de moedas com a efígie de sátrapas vai aumentando.
(Sátrapa: governador de uma província entre os antigos persas. A sua autoridade era quase ilimitada.)
Umas vezes com um verdadeiro retrato, segundo o recém estilo ocidental.
Outras  com a representação oriental.
Testemunho disso é o estáter aqui reproduzido do sátrapa Farnabaso (Císica-Mísia), 410 a.C., que em conformidade com o modelo característico da arte monetária grega,  mandou gravar o seu retrato com a tiara persa na cabeça, acompanhado da legenda  Farnabaso (em grego) no anverso.
No reverso: proa de navio, dois golfinhos, um atum e uma quimera.

  Farnabaso (Císica-Mísia)
Estáter-410 a.C., 12,82gr.

Trinta anos mais tarde, encontramos em Tarso (Cilícia), no reverso de um estáter a cabeça do mesmo Farnabaso, com a legenda aramaica Farnabaso Cilícia, que o permite diferenciar do sátrapa Datame seu sucessor em Tarso.
No anverso, a ninfa Aretusa com diadema.
Se o compararmos com o tetradracma de Siracusa aqui reproduzido, notamos perfeitamente que foi  copiado deste atelier.

  Tarso, Estáter 379-374 a.C., 10,74gr.  .
Anv. Ninfa Aretusa de frente com diadema.
Rev. Farnabaso com barba e capacete à direita.
Legenda. Farnabaso-Cilícia (em arameu).

  Tarso, Estáter 378-372 a.C., 10,72gr.
Anv. Ninfa Aretusa de frente com diadema.
Rev. Datame com barba e capacete à esquerda.
Legenda. Datame-Cilícia (em arameu).

   Sicília (Siracusa), Tetradracma cerca de 413 a.C., 16,89gr.
Anv. Ninfa Aretusa com diadema  de frente e três golfinhos.
Anv. Quadriga a galope à esquerda,
uma Vitória a coroar o auriga, grão de trigo e legenda.


Alexandre III (O Grande)
Primeiras emissões.

Após as expedições balcânicas do ano 336, Alexandre emitiu uma primeira e breve emissão de moedas em seu nome.
Fiel à tradição grega e ao costume dinástico macedoniano, no anverso figura a cabeça de Zeus (Júpiter), que já ornamentava o anverso dos tetradracmas do seu pai Filipe II.
No reverso, os atributos do mesmo deus, a águia, o raio, e a legenda Alexandru.  



  Macedónia – Filipe II, 359-336 a.C..
Tetradracma – 14,46gr., cerca de 355-348.
Anv. Zeus laureado à direita.
Rev. Filipe II a cavalo, e legenda.

  Macedónia – Alexandre III, 336-323 a.C.
Tetradracma-14,37gr., cerca de 335 a.C..
Anv. Zeus laureado à direita.
Rev. Águia sobre um raio, proa de navio e legenda.

No ano 333, após a derrota dos persas em Isso (Ásia Menor),  Alexandre emitiu a  segunda e principal emissão de moedas em seu nome.
Desta vez, Zeus do qual segundo uma lenda Alexandre seria  filho, figura no reverso sentado num trono com uma águia na mão direita, e cetro na mão esquerda. No campo: uma Vitória com uma coroa e legenda.
No anverso Hércules com a pele do leão  de Nemeia na cabeça.

 Alexandre III 336-323 a.C., Tetradracma-17,10gr.
cunhado em Tarso (Cilícia) entre 337 e 327.
  
Se acreditarmos nas lendas que dizem uma,  Alexandre ser descendente de Hércules.  Outra, filho de Zeus, estão reunidas todas as condições par justificar a  figura do herói no anverso das suas moedas.
A mítica luta com o leão de Nemeia, contribui à glória de Alexandre e justifica a presença da pele de leão.
Mas, acima de tudo a incontestável vitória na batalha de Isso contra os persas, marcou uma nova época na história do conquistador.
Daí sobre o plano monetário, o aparecimento de novos tipos inconfundíveis com os  do seu pai Filipe II, e reconhecidos pelas populações locais.
(As pretensões de Alexandre em ser o novo Hércules, não deixam dúvidas).
Estas novas moedas destinadas a ter um enorme sucesso em todo o mundo grego, (os dólares da época) tomaram familiarmente o nome de Alexandres, e a sua cunhagem prolongou-se em alguns países e cidades  até ao fim do primeiro século a.C..


Cunhagem póstuma

Alexandre faleceu na Babilónia no dia 13 de junho do ano 323 a.C..
A partir dos anos 315-310, o seu retrato assim como o seu nome apareceram nos primeiros tetradracmas cunhados por Ptolemeu I (general de Alexandre) , que se tornou sátrapa do Egito no ano 323 a.C..


 Alexandre III, Tetradracma póstumo cunhado em Mitilene
(hoje Lesbos) cerca do ano 295 a.C., 16,77gr.
Anv.. Hércules com a pele de leão.
Rev.. Zeus sentado no trono com uma águia na mão direita, um cetro
na esquerda, uma lira e legenda.



 Alexandre III, Tetradracma póstumo cunhado em Alexandria,
cerca de 311-315 a.C., 15,66gr.
Anv.. Hércules com escalpe de elefante.
Rev.. Atena com capacete ateniense, com uma lança na mão direita,
escudo na mão esquerda.
No campo uma águia, e legenda.


No anverso, a pele de leão atributo de Hércules, foi substituída pelo escalpo de elefante.
No Reverso de estilo Ptolemaico, ainda que seja atribuído a Alexandre, encontramos uma Atena  combatente e arcaica.
A pele de elefante copiada do modelo  com a  pele de leão, deu origem a um novo mito sobre Alexandre o conquistador da Índia.
Ela faz referência à vitória de Alexandre sobre o rei indiano Poro (ou Paurava) que foi vencido e preso à beira do Hidaspes (rio da Índia, atual Jelam), no ano 326 a.C..
Testemunho  desse acontecimento, é um raro tetradracma com o rei Poro montado num elefante.
No anverso, podemos ver à frente o seu escudeiro ou cornaca, e o rei atrás com a lança virada contra um cavaleiro com capacete trácio, que só pode ser Alexandre.
No reverso, Alexandre divinisado filho de Zeus em pé, com capacete trácio, a ser coroado por uma Vitória, um feixe de raios na mão direita, e o cetro de Zeus na esquerda .
Podemos notar que mais uma vez a habitual representação grega só com a cabeça, foi substituída por um personagem em pé segundo o costumo da arte oriental.

  Alexandre III, Tetradracma póstumo cunhado na Babilónia,
cerca de 323 a.C., 39,88gr.
Anv. O rei Poro montado num elefante, perseguido por Alexandre a cavalo.
Rev. Alexandre em pé com um raio na mão esquerda,
a ser coroado por uma Vitória

Por volta dos anos 300-315, Seleuco rei da Síria, assinou uma série de tetradracmas cunhados em Persépolis (nome grego de Parsa, antiga capital da Pérsia), nos quais reconhecemos Alexandre com um capacete ornamentado com chifres e orelhas de touro, e uma pele de pantera enrolada au pescoço.
Estamos na presença de uma alusão aos mitos Dionísos, porque o touro é uma das metamorfoses preferidas deste deus, e a pantera um dos seus animais preferidos.

   Seleuco, 312-281 a.C.
Tetradracma cunhado em Persépolis cerca de 300 a.C. 17,00gr.
Anv. Cabeça de Alexandre com capacete ornamentado com chifres,
orelhas de touro, e uma pele de pantera enrolada ao pescoço.
Rev. Uma Vitória a coroar um troféu e legenda.

(Persépolis: antiga capital do império Persa. A partir de 502, foi capital do Império Aquemênida. Atual Irão .)

Finalmente a última transfiguração e uma das mais belas representações de Alexandre divinizado, aparece nas moedas de Lisímaco rei da Trácia no início do século III aC..
A sua cabeça é ornamentada com os grandes chifres do carneiro de Ámon: um deus egípcio assimilado a Zeus,
(Supõe-se que é uma  referência ao oráculo de Ámon, que Alexandre visitou no ano 332).

  Lisímaco, 361-281 a.C.
Tetradracma cunhado na Mísia, cerca de 297-281 a.C., 16,95gr.
 Anv. Cabeça divinizada de Alexandre,
ornamentada com os chifres do carneiro Ámon.
Rev. Atena com capacete coríntio, lança, escudo,
uma Vitória alada na mão direita e legenda.

De todos os atributos que encontramos no anverso das moedas de Alexandre, é este o que melhor representa o nosso personagem.
Todos os outros, chifres de touro, capacetes decorados com chifres e orelhas de touro, escalpo de elefante, eram frequentes e, faziam parte dos diversos símbolos de que dispunham os reis helénicos para ornamentarem os  seus retratos.
Por conseguinte, ligitimavam o seu poder referindo-se ao próprio Alexandre.

Os Diádocos
  
Após a morte de Alexandre os Diádocos, “seus generais”  disputaram-se o império.
Este desmembrado na sequência dos acordos de Triparadisos no ano 321 a.C., ainda foi reconstituído após a batalha de Ipso (Frígia: atuale Turquia) no ano 301 a.C., e deu origem a vários reinos Helénicos, dos quais os pricipais são os reinos da Macedónia, da Síria e do Egito.
Como podemos notar nenhum soberano grego excepto os orientais Farnabaso e Datame, tinham sido representados numa moeda enquanto vivos. 
Este receio ou timidez de se autoproclamarem, ainda vai permanecer durante mais uma ou duas gerações, segundo as monarquias.


Macedónia

Por volta do ano 290 a.C., Demétrio I (Poliocerta) mandou cunhar uma moeda à medida da sua ambição.
Ele é representado com diadema, chifres de touro, e  foi o primeiro macedónio enquanto vivo a cunhar moeda com a sua efígie.

  Demétrio, 306-283,
Tetradracma cunhado em Anfípolis, cerca de 289 a.C., 17,14gr 
Anv. Demétrio com diadema e chifres à direita.
Rev. Posídon nu com um tridente, e legenda.


Síria

Os primeiros retratos em moedas dos dinastas sírios são póstumos.
Antíoco I (Sóter), mandou cunhar algumas moedas na qual figuram belos retratos do seu pai Seleuco I (Nicator), com diadema e chifres.
Filetero rei de Pérgamo, também cunhou tetradracmas a representar Seleuco mas, só com um diadema como atributo.
Foi  durante o reinado de Antíoco II que o retrato do rei em exercício apareceu nas moedas.

    Antíoco I, 279-261 a.C.,
Tetradracma cunhado em Sardes (Lídia) , cerca de 279 a.C, 17,09 gr.
Anv. Seleuco com diadema e chifres à direita.
Rev. Apolo nu sentado no onfalos com um arco
na mão esquerda, uma seta na direita, cavalo, e legenda.

(Onfalos: é normalmente representado por uma pedra, que pode ou não ser trabalhada, junto da qual se praticavam diversas cerimónias  religiosas.)


 Filetero 283-263 a.C. Tetradracma cunhado na Mísia,
cerca de 274-264 a.C. 16,77gr.
Anv. Filetero ou Seleuco com diadema à direita.
Rev. Atena sentada com a mão apoiada num escudo, e legenda.



Egpito

Ptolemeu I que tinha emitido os seus próprios tipos de moeda com “Alexandre” após a batalha de Ipso, também se representou-se ele próprio até à sua morte em 285.
Deificado enquanto vivo, ele aparece como portador da égide, (Broquel de Palas, aquilo que protege a égide das leis).
O seu retrato tornou-se o emblema da dinastia em todas as moedas correntes de prata, enquanto os seus sucessores se fizeram representar muitas vezes em moedas cunhadas em ouro.

  Ptolemeu I, Sátrapa do Egito de 323 a 305, rei de 305-285 a.C..
Tetradracma  cunhado em Alexandria, cerca de 300-283 a.C., 14,40gr. 
Anv. Ptolemeu com diadema à direita e a égide à volta do pescoço
Rev. Águia sobre  um feixo de raios e legenda.

Assim se foi estabelecendo a tradição helenística da efígie real para tentar assegurar a continuidade muito contestada das dinastias.
Foi o caso da dinastia Selêucida na Síria, rica em despotas, ursupadores, crianças supostas com sangue real e  depois assssinadas.
O todo poderoso Antíoco IV, 175-164 a.C., ainda foi mais longe. Impôs os traços do seu rosto aos deuses Apolo e Zeus.

  Antíoco IV, Tetradracma cunhado em Antioquia,
cerca de 170 a.C., 16,29gr.
Anv. Antíoco com uma fita na cabeça à direita.
Rev. Zeus sentado com uma Vitória na mão direita,
o cetro na esquerda e legenda.

  Antíoco IV, Tetradracma cunhado em Antioquia,
cerca de 170 a.C., 17,73gr.
Anv. Zeus, (sob os traços de Antíoco) laureado à direita.
Rev. Zeus sentado a ser coroado por uma Vitória,
cetro na mão esquerda e legenda.

 
  Antíoco IV, Tetradracma cunhado em Antioquia
cerca de 170 a.C., 15,78gr.
Anv. Apolo (sob os traços de Antíoco), laureado à direita
Rev. Apolo em pé à direita com uma lira, uma coroa e legenda.

Do infeliz Antíoco VI, filho de ursupador e colocado no trono com sete anos de idade por outro ursupador, que três anos depois o mandou assasinar, subsiste a recordação  monetária de uma criança com uma coroa radiada, tal como  Hélios o Deus Sol.
                                                                            
 Antíoco VI, 145-142 a.C., Tetradracma cunhado em  Antioquia,
cerca de 144 a.C., 15,66 gr.
Anv. Antíoco VI, com coroa radiada à direita.
Rev. Os dioscuros Castor e Pólux a cavalo à esquerda e legenda.


Foi igualmente o caso na remota dinastia grega Báctria ou Bactriana (região do altual Afeganistão) fundada sobre uma ursupação.
Os seus  reis teriam continuado a ser desconhecidos sem o testemunho inalterado das moedas.
Exemplo: existe um magnífico tetradracma de Eucrátides, que terá vivido e governado por cerca de 150 a.C..
Tudo o que se sabe sobre ele, resume-se às suas escassas moedas.
                                                                        
  Bactriana, Tetradracma, cerca de 150 a.C., 16,84gr.  
Anv. Eucrátides I com capacete ornamentado
com uma trança, à direita.
Rev. Os dioscuros Castor e Pólux
galopando à direita e legenda.


Algumas dinastias não gregas, também adotaram estas marcas de civilização: língua e arte grega.
Citamos o exemplo dos reis da Capadócia da qual encontrámos uma moeda que poderá ser do rei Ariarate III, 230-220 a.C..
                                                                                  
  Capadócia, Tetradracma cerca de 230 a.C., 16,18gr. 
Anv. Ariarate III?- com diadema à direita.
Rev. Atena sentada com uma Vitória na mão direita,
lança, escudo, coruja e legenda.

  
Para além do estabelecimento desta tradição: retrato, próprio a um regime monárquico ou imperial, a tradição especificamente grega da ocupação do campo da moeda, com uma cabeça no anverso; uma cena, atributos, ou símbolos, e legenda no reverso, vai dominar as práticas monetárias até aos nossos dias.
Imperial, Monárquica ou Republicana, a cunhagem das moedas continua baseada nos modelos antigos lançados por Termístocles e generalizados por Alexandre e as Dinastias Helénicas.

Nota: É sempre muito difícil escrever alguma coisa sobre fatos que aconteceram nesta época.
Nas diversas obras que consultei e internet, datas e fatos divergem.
Optei pelo que me pareceu mais verosímil.
Quem efectua pesquisas sobre este ou outros assuntos antigos, sabe o quanto é difícil optar por um ou outro fato ou data. Desculpem algum eventual erro.

MGeada

Bibliografia
Courrier de L’unesco : Les Mistères de la Monnaie, Janeiro 1990.
G.K: Jenkins – Monnaies Grecques, 1992.
Ph.: Grierson – Monnaies et Monnayage, Aubier, Paris, 1976.
Rivoire: Jean – Histoire de la Monnaie, Presses Universitaires de France, Paris 1985.
Vigne: Jean Bruno – La Vie des Monnais Grecques, J. D. Editions, Paris 1998.
Dominique Gerin, Catherine Grandjean, Michel Amandry, François de Callatay – La Monnaie Grecque-Ellipses Édition Marketing S.A., Paris 2001.
Blanchet: A.- Les Monnaies Grecques, Paris 1894.
Jean Elsen & ses fils S.A., Catálogo do leilão n° 94, dezembro 2007


sexta-feira, 26 de junho de 2020


Quintilo e o seu curto reinado

Quntilo (em latim) Marcvs Aurelivs Clavdivs Qvintillus Avgvstvs. Nasceu em Sirmio no ano 201 e faleceu em Aquileia no ano 270, há muitas divergências sobre a sua vida.  O seu reinado "agosto 270 a outubro 270", é pouco conhecido porque todas as  fontes literárias que o evocam são antigas e muitas vezes controvérsias.

No entanto a história do reinado de Quintilo é esclarecida por algumas fontes adicionais nomeadamente inscrições epigráficas e pelas suas moedas.
Apresentamos aqui uma rápida visáo geral sobre o reinado do imperador Quintilo, assim como algumas das suas moedas.

Algumas fontes da história  do reinado de Quintilo.

Num excelente artigo publicado em 2002 nos Cadernos do Instituto Arqueológico de Liège, Jean-Claude Thiry realizou uma pesquisa sistemática de fontes sobre o curto reinado de Quintilo.
Entre essas fontes epigráficas, podemos citar um miliário militar (do latim milliarium) datado do ano 268 dC, encontrado na Sardenha (Itália), assim como duas inscrições que lhe foram dedicadas após o seu advento: uma descoberta perto de Tagrem (Mauritânia), outra provém de Ossi na Sardenha que apresenta votos de saúde e vitória para Quintilo.
A primeira dessas inscrições ensina-nos  que antes de ser imperador, Quintilo era  governador da Sardenha.

A lista das fontes literárias que evocam Quintilo é bastante longa, mas as informações que encontramos são muitas vezes rápidas, contraditórias e incertas.
Entre os trabalhos e autores que evocam Quintilo, podemos citar A História de Augusto, Eutrope, o cronógrafo de 354, o Epítome dos Césares ( em latim: Epitome de Caesarivs) é uma obra histórica latina escrita no final do século IV do pseudo Aurelius Victor, Jean Malalas, Zozime e Zonaras.
Grande parte dos estudos que terão evocado o reinado de Quintilo foi perdida. Estes incluem especialmente Aurelius Victor, Dexippe, História Imperial de Enmann, Festo, Eusébio de Cesareia e Eunape de Sardes.  

Segundo os trabalhos  dstes autores , ficámos sabendo que Quintilo era irmão de Cáudio II: Aquando do seu advento Quintilo provavelmente era o comandante de uma guarnição encarregada de proteger a Itália do Norte contra as incursões bárbaras; o imperador Cláudio lhe terá confiado as tropas estacionadas em Sirmium, (actual cidade de Mitrovica, na Sérvia) e foram as tropas que o proclamaram imperador logo após a morte de Cláudio. Em Roma, o Senado aprovou a  sua designação. 

Segundo Zonaras, Cláudio teria designado Aureliano como sucessor, mas as tropas tinham decidido o contrário, principalmente porque Aureliano encontrava-se na Moésia, onde lutava contra os bandos de godos que invadiram a região.
Segundo vários autores, Quintilo terá sido um personagem partucularmente virtuoso e apresentava todas as qualidades necessárias a um grande guerreiro, adepto da disciplina militar.

No entanto, essas qualidades não foram suficientes para lhe garantir um longo reinado; Quintilo parece ter permanecido confinado nas proximidades de Milão e de Aquiléia, no norte da Itália. 

Mas como Quintilo não gozava do mesmo prestígio que os generais do Estado Maior dos exércitos da Ilíria e do Danúbio eles preferiram Aureliano.
Os exércitos aderiram à causa de Aureliano quando ele se apresentou em Sirmio,  proclamaram-no imperador, causando a perda de Quintilo.
Alguns autores afirmam que ele cometeu suicídio. São Jerónimo e o Chronográphico pretendem que ele foi assassinado em Aquileia.

Quintilo teve um reinado particularmente curto que não excedeu 3 meses.
É provável que tenha durado cerca de 77 dias, se mantivermos as indicações fornecidas pelo cronógrafo de 354 (calendário ilustrado do ano 354).
A data do reinado de Quintilo foi muito discutida, mas parece que teve  início no princípio do ano 270 e fim por volta de Março do mesmo ano.


Este reinado mostra como outros na mesma época o rolo importante desempenhado pelo exército na tomada do poder imperial.
É o exército que faz e desfaz os imperadores; foi o exército que colocou Quintilo no poder imperial, e foi também o exército que o mandou assassinar pouco tempo depois em benefício de um candidato melhor.
É no Estado Maior que agora se joga o destino de Roma e não na Cúria  de Roma.  

Isto deve-se em grande parte à emergência militar e estratégica na qual se encontra o Império naquela época: os limites das fronteiras fortificadas do Império são derrubados; bandos de bárbaros, francos, alamanos, godos atravessam as fronteiras do Império e devastam províncias inteiras que até então tinham sido poupadas pela guerra e vivido sob um período excepcional de prosperidade e paz,  que os históriadores chamaram a «Paz Romana».
A estabilidade política do século II esvaneceu definitivamente; os assassinatos políticos geralmente encurta o reinado dos imperadores. 

Moedas de Quintilo

As moedas estão entre os testemunhos mais interessantes e instrutivos do reinado de Quintilo. Durante o seu reinado quatro oficinas monetárias cunharam moeda em seu nome: as oficinas de Roma,  Milão assim como as oficinas da Síscia e CÍzico.
Estas oficinas cunharam principalmente antoninianos, que eram moedas em bolhão muito desvalorizadas.
Aparentemente as moedas de ouro de Quintilo só terão sido  emitidas na oficina de Milão e é provável que essas moedas correspondam ao donativo distribuído às tropas aquando da sua tomada do poder imperial

No que diz respeito à produção monetária do reinado de Quintilo, ela inscreve-se na continuidade do reinado de Cláudio cujos efígies e tipos foram          
retomados: além disso os retratos são tão parecidos que é difícil distinguílos sobretudo se a legenda das moedas são iligíveis
Entre os diversos tipos de bustos encontramos encouraçados blindados, drapeados e por vezes em certas moedas Quintilo ostenta uma coroa radiada. 

Quanto aos reversos existem tipos com a legenda PAZ AVGVSTI (um voto religioso positivo), tipos com a Virtus, asim como tipos com a Vitória, a Fidelidade Mlitar, à Fortuna Redux, Providência, Marte, a Alegria, Segurança ou Eternidade de Augusto. O que domina sobre estas moedas as preocupações militares: Marte,  a Fidelidade do Exército, mas também a segurança do Império, a Pax e a Vitória.

Todos estes tipos de moeda são como um programa político, uma meta a alcançar, mas os factos históricos estão em contradição com as mensagem emitidas pelas moedas: a Providência e a Fortuna levaram Quintilo ao poder, mas também causaram a sua morte menos de três meses depois... O exército foi infiel e versátil. A vitória não teve lugar, o imperador não alcançou a Eternidade, A Securitas  não voltou tal como a Alegria ( Laetitia) de viver no Império.

Finalmente podemos observar  que um tipo de reverso dedicado a  Apolo, assim como bustos radiados parecem querer anexar Quintilo ao culto do Sol, na época a religião mais popular do exército romano.

Seguem alguns exemplos de moedas cunhadas no reinado do imperador Quintilo.

Quintilo – Áureo cunhado em milão no ano 270
Anv. Busto do imperador com couraça, laureado e drapeado e à direita.
IMP C M AVR QUI NTILLVS AVG
Rev. Fides com um estandar-te militar em cada mão
FIDES EXERCITI

Quintilo – Antoniniano cunhado em Roma no ano 270
Anv. Quintilo com coroa radiada à direita
IMP CM AVR CL QVINTILLVS AVG
Rev. Soldado em pé apoiado num escudo, com uma lança na mão esquerda
VIRTVS AVG  (no campo - B)
(Ref. RIC V-1 rOMA 35; Cohen -73; Sear - 11456 )

Quintilo – Antoniniano cunhado em Cízico no ano 270
Anv. Quitilo com coroa radiada à direita
IMP QVINTILLVS PF AVG
Rev. Júpiter em pé à esquerda com um raio e cetro, a seus pés uma pequena figura do imperador.
IOVI CONSERVATORI
(Ref. RIC V-1- Cízica 84) 

Quintilo – Antoniniano cunhado em Milão no ano 270
Anv. Quintilo com coroa radiada à direita
IMP QVUINTILLIVS  AVG
Rev A Concordia em pé virada à direita com estandarte e cornucópia
CONCORDIA EXER  (no campo - T)
(Ref. RIC V- 45 var.; Forum- 8989)

MGeada

Bibliografia
Engel Jean-Marie; L'Empire Romain, Paris, PUF, 1973.
François Zosso, Christian Zingg ; Les Empereurs Romains- 27 aC. – 476 dC. Editions Errance Paris 1994.







sexta-feira, 29 de maio de 2020




Amalteia, a cabra que amamentou Zeus

Amalteia é uma figura incerta da mitologia grega, associada à infância de Zeus.
Segundo a mitologia foi uma cabra que amamentou Zeus quando criança, ajudada por abelhas cuidando de alimentar o deus do mel.

Segundo Zénobe, Zeus então a honra colocando-a como uma constelação no céu. É a estrela mais brilhante da constelação do cocheiro e a sexta mais brilhante do céu. 
É por causa desse mito que a cabra é chamada filha do sol.
Segundo outras tradições, à morte da cabra Zeus terá tomado a sua pele e para se proteger vestiu-a como égide.  

Em seguida a cabra foi considerada uma ninfa. Segundo Ovídeo (Fastes V), é uma náiade a quem Zeus foi confiado ainda criança por sua mãe Réia para escapar aos ciumes de Zeus.

Ela cuidou do jovem deus, alimentando-o com o seu leite: mas esta um dia partiu um dos seus cornos. Amalteia pegou no chifre quebrado enrolou-o com ervas frescas, encheu-o de frutos, aproximou-o dos lábios de Zeus, e assim nasceu o corno de abundância (a cornucópia). 

Em outro mito grego, a constelação do Capricórnio era comumente associada à Amateia, a cabra que mítica que, a mando da titânida Reia, dava de mamar ao menino Zeus escondido na ilha de Creta, para que quando adulto destronasse o seu pai o titã Cronos.

Amalteia também era muito associada à figura do deus Pã, deidade grga protetora das matas, campos, pastores e à figura dos sátiros, estes lendários gregos que moravam nos bosques e, como Pã tinham corpo de homem e patas, chifres e feições caprinas.   

Marco Aurélio AE 24 – cunhado na Lídia, 138-161
Anv. Marco Aurélio drapeado à direita
AYPHΛIOC OYHPOC KAICAP
Rev. Almateia a amamentar Zeus (criança)
EΠI ΠOΠΛIOY ΓPAMMTEΩC TPAΛIANΩN
(Ref. Mionet Supp. VII, 723 – Imhoof AGM- 172)


Cómodo – AE 24 cunhado na Frígia em 182-184
Anv. Cómodo laureado à direita
AV KAI M AVP KOMOΔOC
Rev. Amalteia amamentando Zeus
AINEITΩN(Ref. RPC-1682: BMC-121


Valeriano – Antoniniano cunhado em Colônia (romana), em 253-258
Anv. Valeriano com coroa radiada à direita
VALERIANVS CAES
Rev. Zeus montado na cabra Amalteia segurando os chifres com a mão esquerda, e
levantando a direita
IOVI CRESCENTI
(Ref. Elmer-63, 1ª. 3ª edição; MIR-907: RIC 3 (Lião)


MGeada

Bibliografia


terça-feira, 7 de abril de 2020



Na procura do dinheiro de Judas (B)

Tentar reconstruir uma história acerca do dinheiro que tenha sido objecto de troca na célebre traição de Judas, deveria, como trabalho de investigação, obedecer e respeitar certas características sobre o seu conceito e objectividade.
Em primeiro lugar exigirá o respeito pelo seu argumento histórico, e obviamente, uma comparação sobre as suas fontes, como forma da salvaguardar o melhor possível, tanto a sua fiabilidade, como a credibilidade, de que precisamos para corroborar os factos.
Infelizmente, neste caso, essa análise comparativa não será de todo possível, visto a sua génese, ter como único elemento de documentação, alguns legados evangélicos dos Apóstolos S. Marcos, S. Lucas, S. João e S. Mateus. Tudo o que realmente possuímos e sabemos sobre a traição de Judas, é-nos relatado por esses escritos bíblicos, e por isso também a análise terá de ser cautelosa e consciente, sobre a forma como o sentido místico em interpretações ulteriores, poderá ter tido influência e criado limitações quanto à veracidade dos factos.
Por tudo isto, nesta minha análise interpretativa deste “caso” histórico, pela sua forma intuitiva, torna-se mais empírica que científica.
Terá sido no ano19 d. C. no reinado do imperador Tibério que Jesus Cristo foi crucificado.
Nesse tempo, a Judeia era então uma província romana, e como tal nela se aplicariam as principais decisões que vinham de Roma. Seria portanto natural que a moeda principal que circulava fosse romana, ou provincial romana, embora se tenha conhecimento de que a algumas outras moedas fosse permitida a sua circulação, como o exemplo das moedas da dinastia de Heródes.
Na generalidade da literatura, argumenta-se que Judas terá recebido pelo préstimo da sua traição, trinta moedas de prata. Neste ponto creio que todos os historiadores convergem.
No meu ponto de vista, e para passar aos factos, pela característica que conhecemos hoje das moedas que então terão circulado, excluo as moedas de ouro como o”áureo”, o ”quinário” em prata, assim como os “sestércios”, “dupôndios” e “asses”, geralmente cunhados em bronze.
Interessante salientar contudo, que no reinado de Tibério, só foram cunhados dois tipos de “denário”(denário do latim denarius) em prata. Não havendo conhecimento de que tenha sido cunhado nenhum outro tipo de moeda em prata, durante o período deste imperador.

Tibério-Denário emitido no ano 14 d.C. em Lião (França) 3,78grs.)

O primeiro denário, cunhado no ano 14 d.C. em Lião, apresenta no anverso o busto do imperador Tibério com a legenda “TI CAESAR DIVI AVG F AVGVSTVS”. No reverso apresenta Lívia, (sua mãe) ou a Pax, sentada, com um ramo de oliveira na mão esquerda, e um bastão na mão direita, com a legenda “PONTIF MAXIM”. ( Há divergências acerca da  figura do reverso).
O segundo, terá sido cunhado no ano 16 d.C., e igualmente em Lião. Também este apresenta no anverso, o busto de Tibério, com a mesma legenda do primeiro. No reverso, apresenta o imperador conduzindo uma quadriga, com a legenda “TR POT XVII IMP VII”. O seu peso era variável, e valeria o equivalente a dez “asses”.
Temos então, que estas moedas circulariam em todo o império, aquando da morte de Jesus Cristo. E, poderíamos concluir, que qualquer destas moedas “denários”teria grandes probabilidades de ter servido de aliciamento no negócio que propuseram a Judas. Mas, porque não inclui-los também misturados com outras moedas, ou simplesmente um outro tipo de moeda em prata?
Alguns elementos substanciais transmitidos no legado dos quatro apóstolos servem para esclarecer algumas dúvidas sobre estas hipóteses.
Hoje, no nosso quotidiano, e na nossa cultura, utilizamos o termo “dinheiro”. Mas, na ligação que se lhe faz, quando se menciona este caso de Judas, a palavra “dinheiro”, terá evoluído, e colado na sua identificação popular, aparecendo o termo tanto na literatura, como no cinema, e em que usado desta forma, se estará a deformar uma realidade histórica.

Tibério-Denário emitido no ano 16 d.C. em Lião - 3,94grs.)


Nas sagradas escrituras, no que pesquisei, não vi mencionada a palavra “dinheiro”. Uma bíblia editada em 1859, que folheei numa biblioteca, foi-me bastante útil.
Dos quatro evangelistas que se referem a este caso, dois deles, S .Marcos e S. Lucas, afirmam que Judas vendeu Jesus, mas sem dar pormenores sobre o montante do negócio.
No evangelho de S. João, faz referência a trinta moedas de prata.
É contudo, S. Mateus que na sua narração, nos poderá esclarecer mais sobre este assunto.
Acusando o seu condiscípulo Judas, por este ter vendido o Mestre pela soma de trinta “siclos”de prata. Teria ele sido colector de impostos para falar desta maneira tão formal, no que se refere a “siclos”de prata?
Não encontrei nada, que me tenha dado indicação de que alguma vez se tenha usado a palavra “siclo” em referência  ao assunto que tratamos.
O termo “siclo” é conhecido como uma medida antiga, que equivalia a 6 gramas de prata.
Mas na narrativa de S.Mateus, também poderia ser a moeda de prata utilizada por fenícios e hebreus, que em hebraico era designado por “shekel”.
É pois muito provável que Judas tenha traído, e sido pago com 30 (trinta) “shekels” de prata.
Julgo que naquela época, o único tipo de moeda de 1 (um) shekel em prata que circulou na região tenha sido o “shekel” dito de Jerusalém (como nas moedas de Tiro).

Era uma moeda que pesava mais ou menos 14 a 15 gramas, e circulou em grande quantidade, tendo sido feitas várias cunhagens deste tipo de moeda. Uma delas foi precisamente no ano 33 d.C. O ano da suposta morte de Jesus Cristo? Aqui também existem muitas divergências, embora as datas que aparecem com mais frequência sejam entre os anos 30 e 33 d.C.
O “shekel de Jerusalém” em baixo retratado, apresenta no anverso o rosto do antigo deus Melkart, também conhecido por Baal, virado à direita, e no reverso apresenta uma águia virada à esquerda.

Judeia-Shequel de prata 14,27grs. cunhado em Jerusalém 12/11 a.C., ((  provavelmente terá servido de tributo a Judas)) A efígie de Melkart é totalmente diferente do shekel de Tiro).

Atendendo a que o preço de um escravo, naquela época, seria de 180 g de prata, poderemos calcular que Judas no negócio efectuado, teria vendido o Mestre por cerca de 4,250 Kg de prata.
Creio pois, ser o “shekel de Jerusalém” a mais provável moeda que procuramos identificar nesta história, pese embora o risco de decepcionar alguns coleccionadores que já possuam uma, ou as duas variantes do “denário” de Tibério, denominados por “dinheiro de Judas”.
Contudo, estes dois “denários” continuam a ser extremamente interessantes, quem sabe se não terão sido utilizados pelos soldados romanos que guardavam o sepulcro, enquanto jogavam aos dados sobre a túnica de Jesus Cristo, o que lhes confere sempre uma grande história.
O que lamentamos, é que ao longo dos tempos o conceito que nos parece mais plausível para esta história, por motivos menores, se tenha adulterado, e sobreposto ao texto original.
Dizer que Judas entregou Jesus Cristo por 30 dinheiros, sempre é mais cómodo que dizer, Judas entregou Jesus Cristo por 30 shekels.
Afirmar quais as moedas que pagaram a traição de Judas, é tarefa difícil, senão impossível.
Denários da época de Augusto? Dracmas, siclos, ou shekels?
Pouco provável é que tenha recebido denários de Tibério. Isto porque mesmo as cunhagens em grande quantidade, demoravam muito tempo a entrar em circulação, sobretudo nas províncias longínquas do império, como a Judeia onde circulavam muitos tipos de moeda.
Esta questão, levantou-se na Idade Média, e foi proposto ou entendido pelos dirigentes eclesiásticos da época, que a moeda representativa desse facto histórico deveria ser uma moeda que representava Cristo com uma coroa de espinhos. De facto existe um “dracma”de Rodes que representa o deus Hélios ( na mitologia associado ao Sol), com a cabeça adornada com raios, parecendo Jesus Cristo com a coroa de espinhos. Essas moedas, foram na época alvo de uma grande devoção.

Cária-Rodes, Dracma 175-170 a.C.

 Porque razão Judas traíu Cristo?

Durante séculos, este personagem tem fascinado teólogos, artistas, intelectuais, que se interrogam motivo que o levou a cometer este crime, e avançam com algumas hipóteses.


Judas Iscariote (ou Iscariot ou Iscarioth) foi segundo a tradição cristã, um dos doze apóstolos de Jesus de Nazaré.
Segundo os evangelhos canônicos, Judas facilitou a prisão de Jesus por internédio dos  sumos sacerdotes de Jerusalém, que em seguida o entregaram a Ponce Pilatos.

A figura “evanescente” deste personagem é motivo de muita controvérsia na historiografia cristã, a sua autenticidade permanece muito frágil e levanta dúvidas sobre uma parcela significativa das críticas.
Bandido ou revolucionário?
O cristianismo baseado no evangelho de João, fez de Judas um vulgar criminoso atraído pelo dinheiro fácil, que entregou o mestre por algumas moedas.
Mas, esta hipótese é muito contestada:  a quantia oferecida a Judas  pelos romanos  (trinta denários ?) é insignificante,  porque Judas enquanto tesoureiro dos apóstolos tinha oportunidade de se apropriar importâncias  mais elevadas. 


“O seu nome Iscariotes, também faz pensar que era, ou foi membro dos sicários, judeus “zelotes” que defendiam a rebelião armada contra os romanos.
Finalmente decepcionado por Jesus um Messias muito pacifista, terá motivado Judas a cometer a sua traição.

Todavia, a influência dos sicários parece ser posterior à morte de Jesus.
No entanto, a pista de um conflito, uma  incompatibilidade ideológica entre um dirigente idealista e Judas, continua a ser possível.

(Sicário :(em latin sicarius) - “homem da adaga”, é um termo aplicado nas décadas imediatamente precedentes à destruição de Jerusalém no ano 70, para definir um grupo extremista separatista de zelotas judeus que tentavam expulsar os romanos e seus simpatizantes da Judeia.
Os sicários utilizavam a “sica”, termo latino para um tipo de adaga pequena que escondiam nos seus mantos).

Aquando de reuniões públicas, eles sacavam estas adagas para atacar os romanos ou judeus simpatizantes, se misturando depois à multidão para se escaparem.
Os sicários foram um dos primeiros grupos organizados cujo objetivo era a realização de assassinatos, muito antes dos assassinos  do Oriente Médo e dos ninjas japoneses.


Judas, um traidor necessário?
Antes do reaparecimento do Evangelho de Judas, a teologia já tinha avançado com a possibilidade de um “traidor messiânico”, sacrificado para que se realizasse o destino de Jesus.
Efetivamente, sem Judas não teria havido cruxificação nem ressurreição.
A questão da punição divina reservada a Judas e, uma possível indulgência tem sido um assunto de muitas divergências nos debates teológicos.
O olhar, (ou por outras palavras  direi o julgamento do cristão),  sobre este personagem amaldiçoado, passou a ser mais indulgente a partir século XIX.

O Novo Testamento, dá-nos duas versões diferentes sobre a morte de Judas.
No Evangelho segundo São Mateus, Judas morre logo após a condenação de Jesus.
Este cheio de remorso foi ao encontro dos sacerdotes e anciãos e disse-lhes.
Pequei traindo um inocente.  Em seguida retirou-se , atirou com as moedas para o templo e enforcou-se. (Mateus 27,5 TOB).


Os atos dos Apóstolos (1,18) dão-os outra versão.
“Depois de adquirir um campo com o salário do seu crime, Judas caíu , quebrou pelo meio e, todas as suas entranhas se espalharam à sua volta.


Há dois mil anos, Judas Iscariotes entrou para a história por ter entregado Cristo a troco de algum dinheiro.
Todavia, o enigna referente à quantia e  identificação das moedas  que recebeu em troco da sua traição, ainda não foi desvendado.

Manuel Félix Geada Sousa


Bibliografia

André Paul ; La Bible avant la Bible : La grande révélation des manuscrists de la Mer Morte, éd. Cerf, Paris, 2 005.
James M. Robinson; Les secrets de Judas, Histoire de l’apôtre incompris et de son evangile- éd. Michel Lafon, 2 000.
Le Douzième Apôtre; Fac- Reflexion n°22, Fevereiro 1993, PP 14-26 (Le cas de Judas et la doctrine de la reprobation)
Centre Numismatique du Palais-V. S. O.  Paris 28-06-2002. 

Notas e referências

Mireille Hadas Lebel, Jerusalém contre Rome, éd. Cerf, Paris 1 990, p, 416-417.
Simon Claude Mimouni, La figure de Judas et les origines du christianisme : entre tradition et histoire, publié par Maddalena  Scopello, éd. Brill, Danvers, 2 008.
Simon Claude Mimouni, Le judaisme ancien du VI a.C., au III siècle d.C., éd. PUF,  2 012, p, 469.