quinta-feira, 28 de junho de 2018


Imagens da Liberalidade, “em latin Liberalitas” na numismática romana.

Na cultura da Roma Antiga, Liberalitas era a virtude  de oferecer  livremente (de liber, “livre”).
A Liberalidade é uma das princiais virtudes e, ao mesmo tempo uma alegoria que muitas vezes figura nas moedas imperiais romanas, sob a forma de legendas e tipos.
Muitas vezes essas moedas  foram cunhadas para atestar a generosidade dos imperadores para com o povo, através de distribuições de todos os tipos: dinheiro, produtos alimentares e outros. 

Adriano-denário cunhado em Roma  no ano 121
Anv/-Adriano laureado à direita;
IMP CAESAR TRAIAN HADRIANVS AVG
Rev/-Adriano numa plataforma sentado numa cadeira curul. Á sua direita Liberalitas  distribuindo moedas a um cidadão; por trás do imperador um atendente contador de moedas
P M  TR P COS III LEBERAL AVG III =3º donativo
(Ref. RIC-123ª, BMCRE-301, Cohen-913)

Durante os primeiros períodos do Império, essas distribuições são chamadas “Congiarium”, por vezes também chamadas de “congis óleo pleno” que significa que as pessoas receberam recipientes cheios de óleo.
Durante o período da República os Ediles (magistrados da Roma Antiga) estavam particularmente preocupados com essas distribuições; uma ocasião para adquirirem uma óptima popularidade.

Naturalmente os imperadores continuaram essas práticas, por isso encontramos ocasionalmente na legenda das moedas a palavra CONGIARIVM, mas o termo mais comum é LIBERALITAS.
Ao nome de Liberalitas, é muitas vezes anexado um número que corresponde ao número de oferendas (liberalidades) concedidas pelos imperadores.

Nero-Sestércio cunhado em Roma 64-66
Anv./-Nero laureado à direita;
NERO CLAVDIVS CAESAR AVG GERM P M TR P IMP PP
Rev./-Nero cabeça nua e toga, numa plataforma sentado numa cadeira curul: atrás dele um Perfeito,  em baixo à esquerda um atendente distribuindo moedas a um cidadão com a toga nas mãos para as receber. Em pano de fundo a estátua de minerva;
CONG(iarivm) II DAT POP S C
(Ref. BMC-139)    

Era na ocasião dessas  generosidades imperiais, que uma quantia de dinheiro era dada a cada pessoa e, quando grãos ou pão são distribuìdos era  para impedir a ação dos demónios de provocarem excassez de grãos, e fome. Neste caso falamos sobre Annone (=produção do ano, colheita do ano, alimentos para o ano).

Antonino Pio-Denário cunhado em Roma, no ano 154
Anv/-Antonino laureado à direita;
ANTONINVS PIVS AVG
Rev./Annone de frente a olhar para a direita com duas espigas de milho na mão direita e um módio cheio de espigas na esquerda; (antiga medida de capacidade entre os romanos que equivalia apxoximadamente ao alqueiro);
COS III
(Ref. BMCRE-809, RSC-291)

Antonino Pio-Denário cunhado em Roma, 140-144
Anv/-Antonino laureado à direita;
ANTONINVS AVG PIVS P P TR P COS III
Rev/- Módio com 4 pés contendo 4 espigas de trigo e uma papoula;
ANNONA AVG
(Ref. RIC III 62ª, BMCRE-180, Sear-4050)

Quando além do soldo o imperador dava mais alguma coisa aos soldados, fala-se de “Donativum”, um termo que não aparece nas moedas, mas que se pode  comparar à Liberalitas ou Congiarium.
Após o reinado de Marco Aurélio, a legenda CONGIARIVM deixou de aparecer nas moedas, e a expressão LIBERALITAS será a única a ser utilizada.

Nerva – Sestécio cunhado no ano 96
Anv./-Nerva laureado à direita;
IMP NERVA CAES AVG PM TR P COS II DESIGN III P P
Rev./-Nerva numa plataforma sentado numa cadeira curul, na qual dois magistrados oferecem donativos a um cidadão na escada . Em pano de fundo a estátua de Minerva.
CONGIARium P R S C
(Ref.RIC-71, BMC-97, Cohen-38CF, Sear 5-3043)

Nerva-Asse cunhado no ano 97
Anv./-Nerva laureado à direita;
IMP NERVA CAES AVG P M TR P COS III P P
Rev./- Liberalitas em pé à esquerda com cetro e píleo: (barrete)
LIBERTAS PVBLICA S C
(Ref. RIC-86, CNG-69, Sear-88, Cohen-115)

Marco Aurélio-Sestércio cunhado entre dezembro de 165 e agosto de166
Anv./-Marco Aurélio laureado à direita;
M AUREL ANTONINVS AVG
ARMENIACVS P M
Rev./-Marco Aurélio e Lúcio Vero sentados numa plataforma, por trás deles o perfeito, na sua frente um destribuidor oficial, dando um donativo a um homem nas escadas;
CONGiarivm AVG III TR POT XX IMP III COS III SC
(Ref. RIC-914, Sear-4964)

A Liberalidade é personificada sob a imagem de uma mulher segurando numa mão uma tessela ou tablete quadrada, na qual se vêem um certo número de pontos que mostram o tipo de distribuição feita pelo príncipe; dinheiro, trigo ou outros objectos.
Na outra  uma cornucópia símbolo da abundância de alimentos contidos nos celeiros públicos.

A Liberalitas preside todos os  donativos: dinheiro, azeite, ou vinho oferecido ao povo de Roma pelos magistrados.
Durante o período imperial, era frequentemente un donativo em dinheiro por ocasião das grandes vitórias, um nascimento na família imperiale, ou por ocasião de grandes festejos públicos.

A Liberalidade também chefia todos os Congiários.
As Liberalitas Augusti (= Liberalidades de Augusto) representam dois tipos: Liberalitas ordinárias et extraordinárias.
A primeira menção de Liberalitas, apareceu em moedas do imperador Adriano: nos seus sucessores, também aparece com muita frequência. 
Estas manifestações de generosidade imperial, são mais conhecidas pelas moedas, que pelas fontes tradicionais da história.

Em moedas de Adriano cunhadas durante o seu segundo consulado, podemos ver duas figuras sentadas num «sugestum» (=plataforma).
O imperador a Liberalidade e outra figura com uma pequena tocha: um cidadão sobe as escadas da plataforma, onde os presentes são distribuídos pelo imperador.

Adriano- Sestércio cunhado em Roma no ano 118
Anv./- Adriano laureado à direita;
IMP CAESAR TRAIANVS HADRIANVS AVG
Rev./-O imperador sentado numa cadeira curul, subalterno distribuindo donativos a um cidadão e estátua da Liberalitas com um ábaco na mão direita;
PONT MAX TR POT COS III, LIBERALITAS AVG
(Ref. RIC II-552, Cohen-914, Banti-488 (raríssima esta moeda)

Uma das  Liberalitas  mais notáveis do imperador Adriano, foi aquela durante a qual ele perdoou ao povo o atraso dos impostos acumulados durante 16 anos reclamados pelo Tesouro Publico.
Os reconhecimentos dessas dívidas foram queimados no Fórum de Roma.

Numa moeda de Antonino Pio assim como em moedas de Filipe Senior, vemos o imperador numa plataforma sentado numa cadeira curul. Á sua frente, a imagem da Liberalitas que despeja o dinheiro que ela continha, nas mãos do imperador.
Algumas moedas de prata deste imperador mostram-nos uma figura feminina com uma cornucópia na mão esquerda, na direita uma tessela (ou tablete), que indica a quantidade de comida distribuída a cada pessoa e a preço reduzido, graças à Liberalidade (ou generosidade) do imperador.

Antonino Pio-Sestércio cunhado em Roma no ano148
Anv./- Antonino laureado à direita;
ANTONINVS AVG PIVS PP TR P COS III
Rev./-Antonino sentado numa cadeira curul estendendo a mão a uma figura para entregar o donativo. Á sua esquerda a estátua da Liberalitas com uma cornucópia na mão esquerda, e um ábaco (antigo instrumento de cálculo) na mão direita;
LIBERALITAS AVG V
(Ref. RIC III-775, BMCRE-1693, Cohen-511)

Uma moeda de ouro do imperador Eliogábalo “que não consegui”, mostra o imperador sentado numa plataforma, com a Liberalidade ao seu lado, assim como o Prefeito do Pretório em que  um lictor (oficial que acompanha os magistrados), distribui o côngio (medida equivalente a seis sesteiros ou 1/8 de ânfora) aos cidadãos romanos.

(“Sesteiro”: ((em latim, sextarius)), era uma unidade básica de medida de volume para líquidos durante o Império romano, que correspondia  mais ou menos a 54 cl.
“Congio”: ((em latim congius)) segundo o sistema moderno, corresponde aproximadamente a 3,48 litros).

Temos ainda  moedas do imperador Adriano com a legenda LOCVPLETATORI ORBIS TERRARVM,  podemos ver que esta legenda refere-se às liberalidades deste imperador, que sob os auspícios  da Deusa distribui os seus presentes.

Adriano-Sestércio cunhado em Roma no ano 123
Anv./-Adriano laureado à direita;
IMP CAES TRAIANVS HADRIANVS AVG P M TR PCOS III
Rev. Adriano numa plataforma sentado num banco, à sua esquerda a Liberalitas segurando uma cornucópia com as duas mãos, distribuindo dinheiro a dois cidadãos;
LOCVPLETATORI ORBIS TERRARVM S C
("Para aquele que enriquece a terra inteira")
(Ref. RIC-585 b, BMC-1194, Hill-245

Uma moeda de Antonino Pio emitida no ano 161 (pouco antes da sua morte) na ocasião do seu quarto consulado,  tem a legenda LIBERALITAS AVG VIIII = IX, que significa que esta moeda foi cunhada durante a nona liberalidade deste imperador.

Antonino Pio – Sestércio cunhado em Roma, 159-160
Anv./- Antonino laureado à direita;
ANTONINVS AVG PIVS PP TRP XXII  SC
Rev./- Imperador sentado numa cadeira curul com um oficial a seu lado. Em frente dele Liberalitas com um escudo e cornucópia;  em baixo cidadão  segurando a dobra da toga (manto) para receber o donativo;
LIBERALITAS AVG VIIII (=IX) COS III
(Ref. RIC III-1044, Cohen-532)

Moedas dos imperadores Cómodo e Caracala, têm VIII Liberalitas - Marco Aurélio e Antonino Pio VII -  Septímio Severo e Geta VI - Alexandre Severo e Geta V -  Caracala e Alexandre Severo IIIIGordiano e Alexandre Severo III – Filipe I e Heliogábalo II.

Cómodo-Denário cunhado em Roma, 177-192
Anv./- Cómodo laureado à direita;
L AEL COMM AVG P FEL
Rev./- Liberalitas com uma cornucópia na mão esquerda e um ábaco (antigo instrumento de cálculo)na direita; 
LIB AVG VIII P M TR P COS VII P P
(Ref. RIC-325, 239)

Caracala-Denário cunhado em Roma, 210-213
Anv,/- Caracala laureado à direita;
ANTONINVS PIVS AVG BRIT
Rev,/-Liberalitas com uma cornucópia na mão esquerda e um ábaco na direita;
LIBERALITAS AVG VIII
(Ref. RIC-220, RSC-1356, RCVM-6816)

Marco Aurélio-Sestércio cunhado em Roma em 177
Anv./-Marco Aurélio laureado à direita;
M ANTONINVS AVG GERM SARM TR P XXXI
Rev./-Liberalitas com uma cornucópia na mão esquerda e ábaco na direita;
LIBERALITAS AVG VII COS III  SC
(Ref. RIC 1205, Cohen 422)

Antonino Pio-Denário cuhado em Roma, em 153
Anv,/-Antonino laureado à direita;
ANTONINVS AVG PIVS PP TR P XVI
Rev./-LIBARALITAS VII COS IIII esvaziando moedas de uma cornucópia;
(Ref.RIC III-228, BMCRE- PG.116, RSC-519)

Septímio Severo-Áureo cunhado em Roma em 209
Anv. Septímio laureado à direita;
SEVERVS PIVS AVG
Rev./-Liberalitas com uma cornucópia na mão direita e ábaco na esquerda;
LIBERALITAS AVG VI
(Ref. RIC-278ª, Cohen-297)

Geta-Denário cunhado em 210-212 (ateliê incerto)
Anv./- Geta laureado à direita;
P SEPTIMIVS GETA CAES
Rev./-Liberalitas com uma cornucópia na mão direita e ábaco na esquerda;
LIBERALITAS AVG VI
(Ref. RIC-44, RSC,69)

Alexandre Severo-Denário cunhado em Roma 231-235
Anv. /-Alexandre laureao à direita;
IMP ALEXANDER PIVS AVG
Rev./- Liberalitas com uma cornucópia na mão direita e ábaco na esquerda;
LIBERALITAS AVG V
(Ref. RIC-243, RSC-142, Sear-7879)


Geta-Denário cunhado em Roma em 211
Anv./-Geta laureado à direita;
P  SEPT GETA PIVS AVG BRIT
Rev./-Liberalitas com uma cornucópia na mão direita e ábaco na esquerda:
LIBERALITAS AVG V
(Ref. RIC IV-88, BMCRE-65)

Caracala-Denário cunhdo em Roma no ano 209
Anv. Caracala laureado à direita;
ANTONINVS PIVS AVG
Rev./- Liberalitas com uma cornucópia na mão direita e ábaco na esquerda;
LIBERALITAS AVG IIII = IV
(Ref. RIC IV-158, Cohen-128)

Alexandre Severo-Asse cunhado em 229
Anv./-Alexandre laureado à direita;
IMP SEV ALEXANDER AVG
Rev./-Liberalitas com uma cornucópia na mão direita e ábaco na esquerda;
LIBERALITAS AVGVSTI IIII  S C
(Ref. RIC-577 var., BMCRE-563, Sear-8064, Cohen-157)

Gordiano III-Antoniniano  cunhado em Roma no ano 239
Anv./-Gordiano com coroa radiada à direita;
IMP CAES GORDIANVS PIVS AVG
Rev,/-A Liberalitas com uma cornucópia na mão direita e ábaco na direita;
LIBERALITAS AVG III
(Ref. RIC-223, RSC-141)

Geta-Denário cunhado em Roma em 210-212
Anv./-Geta laureado à direita;
P SEPT GETA PIVS AVG BRIT

Rev/- A Liberalitas com uma cornucópia na mão direita e un ábaco na esquerda;

LIBERALITAS AVG III
(Ref. RIC-89, RSC-68ª)

Filipe I-Denário cunhado no ano 245
Anv./-Filipe laureado à direita;
IMP PHILIPPVS AVG
Rev./-A Liberalitas com uma cornucópia na mão direita e um ábaco na esquerda;
LIBERALITAS AVGG II
(Ref. RIC-38b, RSC-87var.)

Heliogábalo (também conhecido por Elagábalo) -Denário cunhado em Roma em 218-222
Anv./-Eleogabalo lauureado à direita;
IMP ANTONINVS PIVS AVG
Rev./-A Liberalitas com uma cornucópia na mão direita e um ábaco na esquerda;
LIBERALITAS AVG II
(Ref. RIC-106)

MGeada

Bibliografia
Christien Goudineau; Les Empereurs de Rome, d’Auguste a la Tetrarchie-Éditions Errance, 2004
François Zosso, Christien Zingo ; Les Empereurs Romains- 27 avant. J.C- 476 aprés J.C. Éditions Errance, Paris 1994.
George Depeyrot ; La Monnaie Romaine : 211 avant J. C.– 476 aprés J. C..
Henry Cohen, Monnaies tome 1, préface, p XI.
Jean-Paul Tuillier; Les Empereurs de la Rome Antique- Éditions Errance, 1996.
https://fr.wikipedia.org/wiki/Symboles_des_monnaies_romaines

quarta-feira, 30 de maio de 2018


Júlia Domna, uma síria que governou Roma

Quando à cerca de quarenta anos num lote de moedas encontrei uma que não consegui identificar, estava longe de imaginar a paixão que viria a ter pela numismática romana.
A moeda em mau estado de conservação despertou a minha curiosidade pela sua irregularidade, deixava entrever os traços do rosto de uma mulher, na minha época de ajuntador, habituado a ver moedas bem redondas.

Passado algum tempo  soube que era  um sestércio da imperatriz Júlia Domna, esposa de Séptimo Severo, mas que pouco valor tinha  devido ao seu mau estado de conservação.
Começou então a minha pesquisa sobre a vida desta síria que segundo uma profecia astrológica estava destinada a desposar um rei, mas  não presagiava que um dia governasse Roma.
Pesquisa que originou um enorme desejo de ir mais além que se alargou a outras moedas, e me levou a escrever o livro História dos Monumentos Romanos Contada Através das Moedas.  
Segundos alguns históriadores Júlia Domna nasceu em Émeso (Síria) no ano 158. Era filha de Julius Bassianus grande sacerdote do templo de Émeso dedicado ao deus Baal, e casou com Séptimo Severo um senador de origem líbia, na ocasião governador da Gália Lionesa, no ano 180.
A história regista que Séptimo Severo escolheu Júlia Domna para sua esposa porque o seu horoscópio predia estar destinada a ser rainha.

Séptimo Severo já era viúvo e tinha mais de quarenta anos quando casou com Júlia Domna, o que indica que havia uma diferença de pelo menos vinte anos entre os esposos.
Após o casamento, Júlia Domna deixou a terra natal e seguiu, sempre, o esposo no exercício das suas funções; Lião(Gália)cidade em que no dia 04-04-188, ela deu à luz Marcus Aurelius Antoninus Bassianus ,futuro Caracala: Panónia, (actual Hungria) de 191 a193, Sicília, Milão  Roma, cidade onde no dia 27-05189, nasceu Lucius Publius Septimus Geta.
(Caracala, cognome dado ao imperador por este vestir com muita frequência um casaco comprido com capucho de estilo gaulês, chamado “caracala”).

               
Áureo    
Anv. IVLIA AVGVSTA   
Rev. AETERNIT IMPERI   
(Caracala e Geta)      
Muito inteligente, culta, curiosa, ávida de aprender, fez da corte de Séptimo Severo um centro de vida mundano e de actividades intelectuais. Gostava de conviver com filósofos e escritores; Filóstrato, Ulpiano, Paginiano e outros, eram alguns dos seus amigos.

         
 Áureo                                                                         
 Anv. IVLIA AVGSTA                                    
 Rev. LAETITIA   
                                         
Áureo
Anv. IVLIA AVGUSTA
Rev. DIANA LUCIFERA

A guerra cívil de Abril de 193 perturbou muito a vida do casal. Depois da morte de Pertinax (sucessor de Marco Aurélio), Pescinnius Niger, Clodius Albinus, e Séptimius Severus , foram aclamados imperadores e generais chefes  das suas respectivas legiões, repartidas em Antioquia (Turquia), na Bretanha (Inglaterra) e Carnuntum (Panónia).

Iniciou-se então uma luta pelo poder, Séptimo Severo, o primeiro a chegar a Roma em 09/06/193, eliminou os seus rivais. Pescinnius Niger em 194, e influenciado por Júlia Domna que compreendeu o perigo da divisão de poderes, declarou a guerra a Clodius Albinus que na ocasião (em 197) se encontrava na Europa Ocidental .

Vencido, este suicidou-se, e Séptimo Severo, montado no seu cavalo, espezinhou o cadáver.
Aclamado imperador Séptimo Severo e Júlia Domna instalaram-se em Roma.
Em compensação dos preciosos conselhos militares que Júlia dá ao esposo e pela sua constante presença junto das legiões, a imperatriz é nomeada MATER CASTRORVM (Mãe dos Campos), só Faustina, a Jovem, esposa de Marco Aurélio, tinha sido honorificada com este título.
Faustina foi a primeira mulher a entrar na Cúria Romana, tal foi a sua influência na política do império.

     
Asse
Anv. IVLIA AVGVSTA
Rev. MATER CASTRORVM 
(Mãe dos Campos)
                           

Denário
Anv. IVLIA AVGVSTA
Rev. MATRI CASTRORVM
(Mãe dos Campos)

O regresso de Júlia Domna a Roma não foi bem aceite por C. Fluvius Plautianus, o melhor amigo de Séptimo Severo. 
Nomeado Prefeito do Pretório, Consul e enobrecido, a sua influência era tanta que no ano 202 obrigou Caracala a casar com a sua filha Publia Fluvia “Plautilla” que Caracala detestava, e que segundo a história nunca teve relações íntimas com ela, por desconfiar da ambição do sogro.
Para descreditar Júlia Domna, Plautianus acusou-a de adultério mas Séptimo Severo não lhe prestou atenção.

Usando sua influência sobre seu filho Caracala, Júlia pediu-lhe para  assassinar Plautianus e repudiar Plautilla, o que este fez.
A imperatriz é mãe de dois potenciais sucessores. No ano 195, Caracala é nomeado César e Augusto em 198. 
Para evitar desigualdades e ciúmes entre os filhos, Júlia conseguiu que Geta fosse nomeado César em Janeiro de 198, mas só onze anos mais tarde será nomeado Augusto.

Segundo a história, Caracala era o filho preferido de Júlia, e os difamadores afirmavam que esta mantinha relações incestuosas com o filho. Os alexandrinos alcunharam-na de Jocasta. (Mãe de Édipo com quem casou sem saber que era seu filho, desta união incestuosa nasceram Etéocles, Polinices, Antigona, e Ismene: Jocasta enforcou-se de quando teve conhecimento que praticou incesto).

Algumas moedas da imperatriz cunhadas em diferentes épocas, têm gravados, os seus títulos honoríficos: MATER CAESARI em 195, MATER AVGVSTVS ET CAESARIS em 198, e MATER AUGVSTURVM em 209.

       
Áureo
Anv. IVLIA AVGVSTA
Rev. MATER AVGG   
(Mãe dos Augustos) 
       
Asse 
Anv. IVLIA AVGVSTA  
Rev. MATER AVGG / SC
(Mãe dos Augustos)
       
A Denário
Anv. IVLIA AVGVSTA
Rev. MATER AVGG
(Mãe dos Augustos)

Como o  imperador gostava de publicitar a família imperial e a fecundidade da esposa, mandou cunhar em moedas a imperatriz ladeada pelos filhos.

                      

Áureo
Anv. SEVER P AVG PM TRP X COS I I I
Rev. FELICITAS SAECVLI
(Caracala, Júlia Domna e Geta

O principado de Séptimo Severo foi movimentado devido à guerra com os partos: (povo estabelecido entre o Mar Cáspio e o Lago ou Mar de Aral), no ano 204 .
No mesmo ano, os jogos séculares organizados em Roma foram presididos por Júlia Domna.  (Séptimo Severo organizou os jogos seculares baseando-se no calendário etrusco, que tinha a particularidade de contar 110 anos).  

Áureo 
Anv. SEVERVS PIVS AVG 
Rev. COS III  LVDOS SAECVL FEC 
(Jogos seculares) 
       
Áureo
Anv. SEVERVS PIVS AVG
Rev. LAETICIA TEMPORVM
(Jogos seculares)  

Em 208 a família imperial deslocou-se à Bretânia, (Inglaterra) para expulsar os calédonios, território que Roma há muito tempo tentava conquistar, mas sem êxito.
Durante três anos a imperatriz permaneceu nas primeiras linhas ao lado do seu conjugue, e assistiu à assinatura do tratado da paz em 211. Encontrou e dialogou com as esposas dos chefes bretões e só regressou a Roma, após a morte natural devida ao cansaço das campanhas militares do marido em Eburacum (York) no dia 4 Fevereiro do mesmo ano.

Depois da  morte de Septimo Severo, Júlia Domna encontrou-se no poder com os filhos, então com as idades de 22 e 23, anos mas que se destestavam mutuamente.
Durante o reinado do marido ela conseguiu manter uma certa igualdade nos títulos concedidos aos filhos, mas os partidários de Caracala e de Geta guerreiam-se entre si para porem o seu lider a governar.
A partilha do império chegou mesmo a ser prevista. A rainha mãe opôs-se porque temia que originasse uma guerra civil.

Segundo o historiador Herodiano 170-250, (História dos Imperadores Romanos de Marco Aurélio a Gordiano, 4, 3, 8-9), para acalmar os filhos, ela pronunciou as seguintes palavras.
Meus  filhos, vós encontrareis uma maneira pacífica de usufruires da terra e do mar, pensem bem que as águas do Ponte (Mar Negro) separam os dois continentes.
Mas nossa mãe como faríeis vós a partilha? E como é que eu me vou ver na minha infelicidade com o coração repartido entre vós os dois?

Matar-me; que cada um de vós pegue em metade do meu corpo, e sepulte parte da minha pessoa. Podeis fazer com o corpo da vossa mãe a mesma repartição que pensais  fazer com a terra e o mar.
A partilha do império foi anulada, mas Caracala projectava assassinar o irmão, e mesmo a mãe, se esta lhe fizesse oposição. 

Foi assim que no dia 27 de Fevereiro 212, Caracala assassinou Geta com um golpe de espada quando este procurava refúgio nos braços da mãe.
Na impossibilidade de condenar o fratricídio, a imperatriz colabora e governa com Caracala, participando nas cerimónias políticas, religiosas e públicas como tinha feito com Séptimo Severo.
Ao mesmo tempo recebeu novos títulos MATER POPVLI ROMANI  e mesmo o de MATER VNIVERSI GENERIS HVMANI.
Entre 213 e 216, quando Caracala se encontrava  à frente das legiões a combater contra a Germânia e contra os partos, Júlia Domna deixou Roma e foi viver para Antioche onde se ocupava da correspondência do imperador.

Áureo
Anv. IVLIA PIA FELIX AVG
Rev. MAT AVGG MAT SEN M PATR
(Mãe dos Augustos, mãe do Senado, mãe da pátria)
       
Sestércio
Anv. IVLIA PIA FELIX AVG 
Rev. MAT AVGG MAT SEN M PATR /SC 
(Mãe dos Augustos, Mãe do Senado, Mãe da Pátria)
     
Denário
Anv. IVLIA PIA FELIX AVG
Rev. MAT AVGG MAT SEN M PATR
(Mãe dos Augustos, Mãe do Senado, Mãe da Pátria)

Assinava pessoalmente as cartas enviadas para o Senado, e discutia com o filho sobre questões económicas relativas ao soldo dos legionários.
Os romanos sentiram-se ofendidos com a participação da Mater Populi Romani na gestão dos assuntos do império. 
A imperatriz introduz igualmente em Roma novas modas e costumes oriundos do Oriente, nomeadamente novos penteados e perucas.

No ano 217, Júlia Domna, encontrava-se em Antioche quando recebeu uma mensagem a preveni-la de uma conjuração contra o imperador. Júlia não pode advertir o filho a tempo, e teve conhecimento da sua morte, assim como da tomada do poder por um dos conjurados: Macrino, um antigo amigo de Plautianus.

Júlia Domna já com cinquenta anos, ainda tentou reconquistar o poder com a ajuda  da guarda pretoriana em Antioche, mas sem sucesso. Vencida, Macrino consentiu que ela conservasse a sua fortuna pessoal e regressasse a Émeso, local onde faleceu em 211, vítima de greve de fome e de um cancro da mama, que há muito a fazia sofrer.
O seu corpo foi transladado para Roma e sepultado no mausoléo de Augusto.

MGeada

Bibliografia:

Michel; M. Galléazzi-Dictionnaire Latin-Français, appliqué aux inscriptions monnétaires romaines; Revigny 1994.
Sear; David R- Romain Coins and their values II- London, 2002, Spink, p.491. fig. 6562.
Weber; Frederic-Monnais Romaines, volume ICohen; Henri-Description Historique des Monnaies Frappées sous L’empire     Romain volume IV, Paris 1884.
Zosso; François / Zingg; Christien-Les Empereurs  Romains, 27 a.C.- 476 d.CParis, 1984.
Weber; Frederic-Monnais Romaines, volume ICohen; Henri-Description Historique des Monnaies Frappées sous L’empire     Romain volume IV, Paris 1884.
http://www.empereurs-romains.net
http://www.wildwinds.com